What If
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Então o maldito código binário não era a chave. O trunfo, o passo a frente, a carta na manga de Sherlock. O motivo pelo qual ele acreditava estar ali com Moriarty. O tão elogiado Johann Sebastian Bach tinha uma pequena parcela de culpa em tudo aquilo e Sherlock não poderia ter ficado mais surpreso. Acreditava que no final poderia matar o recente Richard Brook e trazer de volta Jim Moriarty com apenas aquelas linhas de código, tão fáceis e frescas em sua mente, mas, como o próprio inimigo disse, seria muito fácil. Não bastava apenas fazer um trocadilho com o nome do ator de canais infantis e a obra de J.M.W Turner. O Problema Final do inimigo agora parecia bem mais sério do que o esperado.
Sherlock já tinha somado praticamente todos os pontos. Assim como sabia que um mais um eram dois, sabia que John estava a caminho. John, Mrs. Hudson e Lestrade eram as regras do jogo que Moriarty queria jogar e Sherlock não podia fazer nada, apenas pisar fora do telhado do hospital. Apenas dar a Moriarty a queda tão prometida por ele. “Eu te devo uma queda”.
E se essa queda não fosse concluída, Moriarty gostava de frisar: três balas, três alvos, três vítimas.
Depois de tanta conversa naquele grande telhado do St. Barts, Sherlock viu que havia cometido um erro: se enganar. Moriarty o fez pensar do jeito mais difícil, estratégico, enquanto toda a verdade estava clara, fácil e logo abaixo de seu nariz. Após isso, quando as regras do jogo foram anunciadas e revelação da falha de todo o plano foi posta à mesa, o detetive finalmente se viu por cima novamente.
Moriarty teve um momento curto de desespero, realmente pensando na falha de seu plano: se continuasse vivo, era possível parar o trajeto das três balas reservadas, mas o momento foi demasiadamente curto. Sherlock o viu colocar uma bala dentro de sua boca, acabando com todas as chances pensadas por qualquer um.
A necessidade de planos alternativos se viu presente à Sherlock, que não encontrava nenhum. Poderia sim forjar uma queda e tentar combater toda a teia criminosa de Moriarty, mas aquilo devia ter sido pensado antes mesmo de subir até aquele telhado. A borda do imponente prédio se encontrava a poucos passos, e o detetive acabou com a distância entre eles. Viu um táxi parar do outro lado da rua e um loiro já muito conhecido sair dele com uma expressão confusa.
Tomou seu celular e ligou para John, que rapidamente o atendeu.
“Sherlock, você está bem?” era a primeira coisa que John almejava saber.
“Volte para onde você veio”
“Vou entrar...”
“Apenas faça o que eu estou pedindo. Por favor.”
O moreno viu seu parceiro de flat procurar sua localização.
“Olhe para cima, estou no telhado.”
Nesse momento, uma mistura de desespero e confusão passou pelos olhos de John Watson, que se limitou a soltar um “meu Deus” abafado.
“Eu não posso descer, então vamos fazer desse jeito.” Sherlock fez uma pausa. “Me desculpe. É tudo verdade. Tudo o que disseram sobre mim. Eu inventei Moriarty.”
“Por que está dizendo isso?...” a confusão era evidente, mas o loiro foi interrompido.
“Sou uma fraude, o jornal estava certo. Quero que diga ao Lestrade, à Mrs. Hudson e à Molly. Na verdade, diga a todos que queiram ouvir que eu criei Moriarty para o meu benefício.”
“Ok, cale a boca, Sherlock. Na primeira vez em que nos vimos, você sabia tudo sobre minha irmã.”
“Ninguém é tão inteligente assim” Sherlock rebateu.
“Você é.”
A tensão contida naquela ligação era tão palpável que poderia ser cortada com uma tesoura, ou com um botão vermelho que colocaria fim à chamada, mas nenhum dos dois desligou.
“Eu pesquisei. Antes de te conhecer, descobri tudo que podia para te impressionar. Foi um truque. Só um truque de mágica.”
John reclamou um pouco pelo celular e ameaçou se mover, mas Sherlock logo o impediu.
“Não se mexa, fique exatamente onde está.” Houve uma curta pausa. “Mantenha seus olhos fixos em mim, pode fazer isso? Essa ligação é meu bilhete. Não é o que as pessoas fazem? Deixam um bilhete.”
“Deixam um bilhete quando?” o loiro não via, mas uma lágrima escorria pelo rosto do amigo.
“Adeus, John.”
E foi nesse minuto que aconteceu. O barulho de um tiro cortou o ar e terminou em um homem caído no chão. Foi naquela droga de minuto que as coisas fugiram do controle de Sherlock e se lançaram daquele telhado do prédio, assim como ele iria fazer. Naquele minuto só houve o barulho da bala e de um grito nunca desejado.
O moreno se lançou à escadaria do hospital desesperado, tentando manter a calma nesse trajeto. Desceu todos os lances de escadas o mais rápido que conseguiu e saiu do prédio, correndo até John e não se importando com qualquer terceiro que aparecesse na sua frente.
Chegando ao local desejado viu a pior cena de sua vida: hemoglobina jorrando do peito de seu melhor amigo. Não pôde se dar ao luxo de conter as lágrimas, desmoronando ao lado do loiro.
“JOHN, fique comigo, eu estou aqui, fique calmo...” não conseguiu terminar a frase, chorando ao tentar estancar o sangue. “Por favor... fique comigo John, fique comigo...”
John murmurava palavras desconexas enquanto se esforçava a suportar a dor. Tentava se fixar na voz do amigo e tirar forças dela para permanecer acordado, mas era muito difícil.
“Sherlock...” o loiro se esforçou para colocar a mão no ombro do amigo “Eu vou ficar bem... apenas saiba q...ue você foi a pessoa mais importante da minha vida... e que eu nunca vou conseguir retribuir tudo o que você fez...”
“Não fale isso, John. Apenas fique quieto e poupe suas energias...”
Sherlock viu John fechar gradativamente os olhos e mover sua mão até a altura de seu coração, manchando sua mão de sangue ao fazê-lo.
“Você sempre vai estar aqui... sempre.”
O moreno sentiu o amigo amolecer o corpo e se entregar ao sono profundo, enquanto vários já formavam um pequeno círculo em volta dos dois para saber o que estava acontecendo. Tudo o que Sherlock fez foi abraçar aquele corpo que havia pertencido ao seu soldado e chorar tudo o que havia guardado por anos.
xxx
Sherlock não compareceu ao velório. Sua senhoria também não estava lá para insistir, nem o Inspetor que tanto confiava nele. Seu irmão não iria o obrigar, então preferiu ficar em casa para evitar toda a dor que as pessoas presentes emanariam.
Já bastava a sua dor.
Passou o tempo do velório no 221B da Baker Street pensando em todos aqueles anos tendo John como amigo. Pensou nos casos em que os dois resolveram, no blog agora abandonado, nos protestos que o parceiro fazia sobre seu gênio um pouco forte demais e sua pessoa fria. Logo seu pensamento voou até Lestrade e os casos que ele lhe entregava. Lembrou das reclamações do mesmo sobre as informações omitidas em vários casos, das brigas que arrumava com Anderson e Donovan a respeito dos xingamentos que os dois dirigiam a ele ... talvez eles estivessem certos, afinal.
E sentindo falta de um chá, pensou nas horas que Mrs. Hudson dedicava à ele, nas reclamações que ela tinha sobre sua falta de organização e de limpeza, das histórias do marido e do cartel de drogas em que se envolveu. Pensou no quão “mãe” dele e de John aquela senhora adorável havia sido. “Se tirasse Mrs. Hudson da Baker Street, a Inglaterra entraria em colapso”, lembrou da frase que falara a John quando sua senhoria escondeu o celular de Irene Adler dos bandidos e ponderou o nível de verdade que ela continha. Era alto.
E por fim, pensou exclusivamente em John. Viu o quanto aquela amizade significava a ele e logo sentiu uma pontada no peito. Amizade. Não sabia se aquela palavra poderia definir a relação que os dois tinham. Sherlock nunca foi de demonstrar sentimentos, até considerava-os um defeito químico, uma falha humana, mas sabia que o que sentia pelo doutor ultrapassava o quesito amizade. Pensou que, se não fosse tão alérgico aos sentimentos, poderia ter conhecido um John ainda não revelado, mas logo descartou aquela ideia. Doía muito, e qualquer pensamento daqueles aprofundava a dor.
Levantou de sua poltrona e caminhou até seu quarto com a intenção de tirar uma noite bem dormida de sono, o que não fazia desde que Moriarty começou a assolar seu intelecto. Selecionou todas aquelas informações e lembranças dolorosas em seu palácio mental e as guardou em uma pasta única, a qual pensou seriamente em deletar, mas a manteve em uma sessão quase vazia.
Talvez ele se esquecesse daquilo tudo. Talvez o buraco da perda diminuísse a cada dia.
Com essas expectativas, Sherlock se deitou e apenas se desligou.
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