What If...?
20 Um tipo de final..?
Notas iniciais
Desperto num repente, buscando por ar.
É como se eu não respirasse há duas semanas, meus pulmões ardem e tentam puxar o máximo de oxigênio possível.
Logo depois, sinto meu corpo doer.
Cada pedacinho dele, dos braços aos pés, da ponta do nariz até o joelho. Minha cabeça dói como se fosse explodir, e eu reclamo baixinho.
Tento abrir os olhos, mas a claridade age como se fosse me cegar. Tusso, tentando limpar minha garganta dolorida, para conseguir reclamar de uma maneira audível.
— Castiel?! — ouço a voz de Lysandre, e logo rosto dele entra em foco — Ele acordou! Lizzie, chame os médicos, rápido...!
— O que...? — tento me sentar, mas estou ligeiramente preso. Há vários fios ligados a mim, me conectando aos aparelhos ao lado da cama. — O que aconteceu?
— Fique calmo, meu amigo. — Lys aperta meu ombro com leveza, me forçando para trás de maneira suave — Deite-se, logo um médico qualificado chegará para atendê-lo.
— Lysandre, onde é que eu estou?
— No hospital, estamos esperando você acordar há dias! — ele responde feliz, com os olhos marejados. Isso é novidade para mim — Nathaniel vai ficar extasiado!
— Nathaniel...? — meu coração palpita de preocupação e se aquece por alguma razão — Onde é que ele está? Ele está bem?
— Uma pergunta de cada vez. — um médico anuncia, entrando pela porta e vindo checar meu prontuário, preso a cama — Não vamos estressá-lo. Castiel, como você está se sentindo?
Olho ao meu redor. Estou em um quarto branco e minimalista. Tudo é branco e azul, milimetricamente organizado e limpo. O médico que me atende é um homem alto e forte, de pele e cabelos escuros.
— Confuso. — digo, na lata — E dolorido. Muito dolorido.
— É de se esperar, você está desacordado faz dois dias. — ele sorri, transmitindo confiança — Eu sou o doutor Mathew e estou aqui para cuidar de você. Está sentindo alguma dor em particular? No rosto ou algo assim?
— No rosto...? — levo a mão à minha bochecha direita. Há curativos ali, e o local está extremamente sensível — Um pouco. E na perna também, além de todo o resto.
— Você se lembra de tudo o que aconteceu antes do acidente que sofreu? — o médico questiona
— Bem nebulosamente... — e, agora que paro para pensar sobre isso, tudo parece ter acontecido há meses atrás. — Eu desci a montanha sem o instrutor. Estava nervoso, confuso e frustrado... Fui atrás de Nathaniel...
— E...?
— E então, assim que passei por ele, eu bati em alguma coisa. — vou narrando, no automático, enquanto relembro a cena — Perdi a consciência logo depois de ser atingido.
— Sua memória está muito bem, o que é uma notícia ótima. — dr. Mathew constata, e Lysandre suspira aliviado — Você sente dificuldade para lembrar-se de antes disso?
— Não. — fecho os olhos, com pesar. "Gostaria de esquecer." — Está tudo bem claro.
— Você passou por um trauma bastante terrível um dia antes de se machucar e bater a cabeça, por isso o que a equipe mais temia era o esquecimento de acontecimentos recentes e passados. — ele explica — Mas pelo visto, sr. Graham, sua cabeça é dura feito pedra. Essa é realmente uma notícia maravilhosa. O sr. tem muita sorte.
Resmungo sobre minha cabeça ser dura e ouço uma risadinha vinda de Elizabeth, no canto da sala. Pobrezinha, ela está com o rosto vermelho de tanto chorar.
— Devido ao seu estado mental milagrosamente perfeito, sinto que devo passar-lhe o seu diagnóstico. — o médico segura o prontuário — Acha que isso lhe prejudicará de alguma forma?
— Não, eu quero saber disso o quanto antes. — respondo respirando fundo
— A sua situação física não está nada boa, mas com o tempo melhorará. Ao atingir a árvore, você bateu com força o lado direito do rosto, a batida na têmpora o fez perder a consciência, e a área do seu maxilar ao queixo abriu-se. Por isso está protegido com gaze e dolorido.
— Puta merda... — levo a mão ao local, inconscientemente
— Não para por aí. — ele me olha com pesar — O tórax não foi atingido, e seu braço teve uma leve torção, corrigida assim que você chegou ao hospital. Acredito que com o repouso, em dois dias ele estará em perfeita forma. Infelizmente, sua perna esquerda não teve a mesma sorte.
Puxo o lençol que me cobre, e encontro minha perna engessada da sola do pé até a altura do joelho. Tento mexê-la, mas o local dói extremamente e eu faço uma careta.
— Tíbia e fíbula são os dois ossos principais na região inferior da perna. A fíbula é menor do que a tíbia e paralela à ela. Ela está localizada no lado lateral ou exterior da tíbia. Então é comum, por estarem uma do lado da outra, que uma fratura na tíbia passe para a fíbula. Foi o que aconteceu no seu caso. Mas se seguir as prescrições de repouso intenso, logo poderá retirar o gesso e andar com as botas imobilizadoras e muletas, mas por enquanto o repouso é essencial.
— Repousar não vai ser um problema para ele, sabe. — Lizzie tenta aliviar o clima, mas isso me deixa irritado
— Cala a boca. — olho para o médico novamente — Mais alguma coisa?
— Por causa dos traumas, você poderá se sentir cansado e esgotado, mas o pior já passou. — ele sorriu calmamente — Assim que retirarmos os pontos, você receberá alta e poderá ir para casa. Por agora, alimente-se e descanse para recuperar as forças. Você lutou bravamente por dois dias, agora precisa repousar.
— Obrigado, doutor. — Lysandre sorri — Devemos chamar um enfermeiro? Para o check-up diário.
— Chamarei, por agora, deixem-o sozinho para se alimentar e dormir. — ele anuncia enquanto sai da sala, me deixando com meus dois melhores amigos
— Será que eu posso te dar um abraço? — Lizzie diz baixinho se aproximando da cama, me pegando de surpresa
Dou um sorrisinho.
— Quebrei sim, mas não sou de vidro sabe? — abro os braços e ela quase pula em cima de mim, me tirando o fôlego levemente, por causa da dor
— Você não sabe como esses dias foram agonizantes... — ela soluçou — Andar na corda bamba desse jeito quase matou a todos nós...
— E ainda assim não fomos nós que sofremos mais. — Lys me olha estranho, como se me cobrasse algo — Nathaniel não saiu do seu lado. É injusto que ele não tenha te visto acordado...
— Onde ele está? — afrouxo um pouco o abraço com Elizabeth, olhando preocupado para Lysandre — Como ele está? Está machucado?
— A saúde dele está bem, mas acho que sua mente não... — ele desvia o olhar — Acho... Acho que ele teve uma reação muito forte quando você se machucou. Mandei-o para casa pouco antes de você acordar, para ele tomar um banho e dormir.
Meu coração aperta. Ele não precisava...
— Nath revezava entre ficar aqui, naquele sofá, te olhando — ela aponta para o sofá branco, perto da janela do quarto — Ou, quando não podia ficar dentro do quarto, agonizando na sala de espera, esperando notícias. — a loira me olha como se entendesse algo e eu sinto meus olhos arderem
Talvez seja a energia acumulada, a dor, os traumas, o acidente... Mas eu sinto uma imensa vontade de chorar perante a essas informações.
— Por favor, avisem a ele que estou acordado. — imploro, segurando as mãos de Lizzie — Eu quero falar com ele...
— Você irá, logo ele está de volta. — Lys aperta meu ombro e sorri — E eu farei isso.
— Vem abraçar ele também, por favor. — Elizabeth chora e puxa o albino pela mão — Por favor, não me abandonem. Eu amo vocês.
E ficamos abraçados assim, enrolados em ternura, tristeza e amizade, até que uma enfermeira entra e os expulsa.
Ela me dá uma refeição extremamente esquisita, e eu acho que nunca comi tanta verdura e salada na minha vida inteira. Tomo bastante água, tentando compensar a secura da garganta.
Ela também me dá alguns analgésicos e verifica meus pontos, só para se certificar que está tudo bem.
Ajeita meu travesseiro e me diz que se eu precisar, é só apertar o botãozinho ao lado da cama.
Me sinto sozinho naquele quarto, e me pergunto onde estão meus pais. Uma sensação de abandono percorre meu corpo, e suspiro cansado.
Tento esperar acordado por Nathaniel, mas estou extremamente cansado. A atmosfera sonolenta me envolve, e eu adormeço, entrando em um sono sem sonhos.
***
Desperto no meio da tarde, há uma leve brisa vinda da janela e um resquício do sol de fim de tarde. As máquinas ao meu lado apitam e eu remexo na cama.
Também há uma leve pressão em minha mão e na cama, ao lado da minha coxa direita. Abro os olhos vagarosamente e dou de cara com uma cabeleira loira bagunçada, repousada no local. Seu rosto está contra o colchão, então não consigo vê-lo direito. Ele está sentado em um banquinho ao lado da cama, e parece dormir.
Abro um sorriso e aperto a mão dele, entrelaçada na minha, bem levemente.
Nathaniel ergue a cabeça de supetão, me olhando com muita expectativa. Assim que me vê de olhos abertos, ele abre um enorme sorriso e deixa escapar algumas lágrimas enquanto aperta minha mão com força. O loiro me olha como se eu pudesse desaparecer a qualquer momento.
— Céus... — ele limpa algumas lágrimas e soluça de leve — Eu pensei que nunca mais ia poder ver esses olhos. — respira fundo e ri de si mesmo — Não acreditei quando Lysandre me mandou mensagem avisando. Me perdoe por não estar aqui quando você acordou... Não deveria ter largado meu posto. Eu nunca consigo ser o primeiro.
— Nathaniel... — respiro fundo, tentando me ajeitar na cama. Quero tanto encostar em seu rosto e limpar aquelas lágrimas
— Shh, não fale nada... — ele se aproxima de mim, levando nossas mãos unidas para perto de sua boca. Daria tudo para dedilhar seus lábios... — Me deixe dizer algumas coisas, antes que minha razão retorne.
Calo-me sem questionar, o que me deixa ligeiramente surpreso. Estou com vontade de gritar, não de ficar em silêncio, mas me contento em olhá-lo com expectativa e surpresa. Seus olhos dourados me miram com intensidade e tristeza enquanto ele toma fôlego.
— Eu tinha decidido, para a minha saúde, que a melhor alternativa para mim era ficar longe de você. — seus olhos não desviam dos meus em sequer um segundo, e eu sinto uma pontada no estômago — E talvez seja mesmo, mas não está fazendo nada bem para a minha cabeça ou para o meu coração. Ir embora sem olhar para trás é uma tarefa extremamente difícil, e, sabe... — sua respiração falha, dando indício de uma nova onda de lágrimas — Quando te vi ali, caído na neve ensanguentada, eu decidi finalmente voltar. — meu coração falha a batida — Acho que não dá pra ignorar os nossos laços Castiel... Por mais que nós dois tenhamos tentado com todas as nossas forças.
— Eu esperei por isso faz tanto tempo... — dou-lhe um leve sorriso
— Eu achei que já tinha presenciado muita coisa ruim, que já tinha vivido meus piores momentos, mas ver o que aconteceu com você, ficar esperando sem poder fazer nada... — ele dá uma risada seca — Superou tudo. Eu queria discutir, queria te questionar. Queria gritar com você por não acordar. Queria... Queria... — ele fechou os olhos, respirando fundo — Queria tantas coisas. Vê-lo desse jeito me fez chegar a conclusão de que eu não quero ficar nem mais um segundo longe de você... Longe do que você representa pra mim. De tudo o que sempre representou.
Essa era a verdade. Nua e crua.
Éramos dois garotos solitários e incompreendidos, com problemas na família e em todas as outras relações. Nós sempre fomos extremamente diferentes e opostos, mas o destino nos uniu por um motivo que não podia ser ignorado ou contestado.
Nós somos os dois lados da mesma moeda. Opostos. Diferentes. Incompletos.
— Vai voltar a estar comigo? A ser o meu... Meu Nate? — pergunto quase suplicando
Ele sorri de leve.
— Eu sempre fui.
***
- Talvez deixe uma cicatriz… — ele olha chateado para os pontos em meu queixo, passando de leve os dedos longos sobre a marca
- Cicatrizes são punk rock. — digo tentando animá-lo. Será que ele entende que a culpa não é dele?
Nathaniel ri de leve. Seus dedos ainda estão sobre o machucado, estremeço e suspiro.
- Nem todas elas, Cassi… — seu sorriso é triste, e os olhos mais ainda — Nem todas.
- O que quer dizer? A minha futura cicatriz já te desagrada? — dou risada — á sei, estragou meu rostinho lindo.
- A sua é bonita. Nada pode estragar seu rosto. — ele nem se da conta do que diz ou do rubor em minha face, olha distraído para a janela — Deixe para lá...
***
EPÍLOGO — cena que eu tinha preparado para o arco final da fanfic.
- O que?! – Nathaniel exclama quase ofendido
- Fala baixo! – dou-lhe um soco leve no braço – Quer acordar o dormitório inteiro?
- Desculpe se não reajo bem a noticias absurdas – ele revira os olhos. Estamos de costas no chão do quarto, olhando para o teto e Nathaniel se apoia num dos ombros, virando para mim.
- Não é tão absurdo assim eu querer cortar o cabelo – minha vez de revirar os olhos
- É verdade – ele sorri fracamente – Mas é um absurdo você querer raspar o cabelo.
Viro apenas a cabeça, para poder olhá-lo.
- Eu fico com cara de mal com esse cabelo – eu argumento – Não que eu não goste da cara de mal, eu gosto. Mas sabe, fico clichê. É tipo, o corte de cabelo declarado do vilão bad boy.
- Não existe essa história – ele rebate – Você vai ficar pior do que está. Vai parecer um presidiário maluco.
- Obrigado pela parte que me toca – eu digo e ele ri – É sério. Assim a banda vai decair, e será culpa sua.
- Você é o dono do cabelo.
- E é você quem não me deixa raspá-lo.
Ele passa as mãos sobre a raiz de meu cabelo, e continua o caminho até onde ele acaba, um pouco acima dos ombros. Sobe um pouco a mão e mexe no meu queixo, e então para ali, olhando para mim.
- Eu gosto do seu cabelo. – ele diz sorrindo – Pra cacete.
Eu o encaro meio hipnotizado. É engraçado pensar que ele tem esse poder sobre mim.
- Deve gostar mesmo – eu digo pousando a mão esquerda sobre a dele – Até falou palavrão.
- Ah, me deixa – ele retira as mãos bruscamente e volta a deitar de costas, olhando para o teto – Mas... É sério. O que eu falei. Não quero que corte. Não mesmo
- Não, é?
- Fora de questão.
- E porque eu deveria ouvir você?
- Porque é por isso que eu te namoro sabe – ele diz e eu dou risada – Só estou com você por causa do cabelo. Achei que era hora de abrir o jogo, ser sincero...
- Deixa eu ver se entendi – eu digo me virando e ficando meio em cima dele – Você só gosta de mim por causa do meu cabelo? E quanto a minha personalidade? Ela não é brilhante?
- Seu cabelo é brilhante.
- Você me magoou e partiu meu coração pela última vez, Nathaniel.
- Vai me dizer que gosta de mim por causa da minha personalidade? – ele ri – Aposto que é por causa das minhas roupas.
- Eca, não é por isso não – eu faço cara de nojo e ele me olha mal humorado – Se fosse por causa delas, já teria te chutado e começado a namorar o Alexy.
- Claro que sim.
- Eu gosto de você porque você é o Nathaniel. – eu digo sorrindo de leve e ele me olha desconfiado
- Então é por causa do meu nome?
- Não, idiota – dou um peteleco na cabeça dele – É que... Argh. Você é você, sabe? Não tem ninguém igual.
- Ainda bem – ele sussurra, pousando as mãos em meu rosto. Fecho os olhos com o toque – Porque eu gosto de você pelo mesmo motivo.
- Então não é por causa do cabelo?
- O cabelo cobre uns 30%
- Se eu ficar careca você vai continuar gostando de mim, então?
- Vou – eu o sinto sorrir contra meus lábios – Mas você vai ficar 300% menos sexy.
- Isso é ruim – eu rio – Talvez eu corte só as pontinhas.
- Só as pontinhas é bom.
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