What If...?
3 Capítulo 3 - O inferno começa
Notas iniciais
O fim de semana passa bem rápido, e eu aproveito-o para passear e brincar com Dragon. Coloquei a casa em ordem, já que meus pais chegam na semana que vem. Acordo um pouco tarde demais na manhã de segunda feira, e sei que acabarei encrencado e tendo que assinar uma daquelas advertências idiotas de Nathaniel.
Nathaniel.
Dou um tapa na testa só de me lembrar de como hoje o dia vai ser uma bosta. Sinceramente, não tenho vontade nem de sair da cama. Encarar o que está por vir não será fácil, principalmente quando se trata do Nathaniel. Não vou aguentar ele palpitando na minha vida, horários e bagunça. Nunca gostei de dividir o quarto com ninguém, prefiro ficar sozinho.
Em minha opinião, aquela escola está afundando aos poucos...
Tomo um banho e visto minhas calças jeans, blusa preta de manga comprida e minha jaqueta de couro. Pego a guia de Dragon e o prendo nela, pronto, mas nem tão pronto assim, para sair.
***
– Nem no maldito colégio interno eu me livro de dividir o quarto com você – ouço Alexy reclamar para o irmão
– Ei! Não fale como se eu fosse um monstro ou algo assim – o gêmeo revira os olhos e Kentin ri – Você está exagerando.
– Eu achei que eu tinha me livrado dessa vida – Alexy o ignora completamente – Achei que finalmente ia poder desfrutar de noites tranquilas de sono profundo e pleno, mas não! A minha vida é mesmo uma tragédia grega, que desespero!
– Eu estou a ponto de fazer uma tragédia grega nessa sua cara – Armin resmunga, fazendo Alexy encará-lo indignado
– Ei, Castiel! – o garoto de cabelo azul chama assim que põe os olhos em mim
– Que é?
– Você sabe se podemos mudar de parceiro de quarto? – ele pergunta – Eu estou numa situação muito difícil aqui.
– Porque está perguntando isso pra mim? – pergunto desconfiado
– Acho você mais confiável que a Peggy, e como é a segunda pessoa que mais tem acesso a informações úteis...
– Sinto lhe informar, mas seu drama continua – eu suspiro – A diretora diz que está fora de questão mudar de quarto.
– Como sabe disso? – Kentin pergunta
– Eu tentei – eu retruco – Não obtive sucesso.
– Quem é o seu colega de quarto? – Armin pergunta, me olhando curioso
– Nathaniel.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, eles me olhando como se eu tivesse acabado de anunciar que o apocalipse zumbi aconteceria daqui a cinco minutos.
– Você não pode estar falando sério! – Alexy exclama surpreso
– A velha só pode ter feito de propósito – Armin comenta rindo, e eu o fuzilo com os olhos
– Se me dão licença, preciso deixar isso aqui na merda do meu quarto – digo apontando preguiçosamente para minha mala
– Ah não, não podemos entrar no dormitório ainda – Kentin diz meio avoado – Professor Faraize avisou que entraríamos mais tarde na aula, e é pra esperar aqui.
Suspiro, aliviado.
– Ótimo, assim me livro de pegar mais uma advertência. – digo sorrindo
– E eu de ter que fazer você assiná-la – ouvimos uma voz rouca e eu já me preparo para encará-lo
Nathaniel voltou com todas aquelas malas (e até mais) e está com uma marca um pouco avermelhada no rosto. Sua expressão não é a das melhores e já parece estar de mau humor.
– Olhe só, quem decidiu chegar atrasado também – eu provoco
– Não decidi, eu simplesmente fui avisado com antecedência sobre essa situação toda iria acontecer – ele revira os olhos e suspira – Não enche, Castiel. Não estou com paciência pra você e suas brincadeirinhas.
– Se o representante está pedindo, quem sou eu pra negar? – eu arqueio a sobrancelha numa expressão irônica – Quer um cafezinho também?
– Não acredito que vou ter que dividir o quarto com você.
– Não acredito que eu vou ter que dividir o quarto com você – eu friso as palavras e trinco o maxilar
Nathaniel sai como se não estivéssemos no meio de uma conversa, me ignorando completamente. Eu odeio esse tipo de atitude nele, de começar e de não saber terminar.
– Vai fugir é? – grito com raiva, para as costas dele
– Simplesmente não estou com vontade de discutir a essa hora da manhã – ele devolve – Vamos ter o dia inteiro para isso – ele me olha irônico e acena
Fico olhando para ele, até que desapareça no final do corredor, provavelmente entrando na sala do grêmio. Solto um grunhido de raiva e aperto as minhas malas.
– Vai ser um longo dia... – Armin diz risonho – Boa sorte, Castiel.
– Não comece – eu rebato com raiva – Algum de vocês viu o Lysandre?
Todos fazem que não e Alexy me olha estranhamente.
– Vocês também viram aquela marca vermelha no rosto dele? – pergunta preocupado
– Não passou despercebido nem para mim – Armin completa
– Ele luta boxe, deve ser por isso. – Kentin diz, mas parece um pouco inseguro
– Sim, mas ele é muito bom – Alexy diz, revirando os olhos – Duvido que tenha sido acertado.
– O representante luta boxe? – eu pergunto surpreso – Caramba, coisas que nunca se pode imaginar.
– Bom dia – Rosalya fala atrás de nós e trás Elizabeth junto – O que nunca se pode imaginar?
– Que o Nathaniel luta boxe – Armin diz rindo
– Ah sim, ele é muito bom mesmo – Lizzie reforça – Nunca erra uma.
– Já o viu lutando? – Alexy pergunta, a olhando de forma maliciosa
– Meu pai faz aula na mesma academia que ele – Elizabeth responde corando – Encontrei ele por ali quando fui entregar alguns papéis...
– Claro que foi isso... – o garoto de cabelo azul olha ainda mais mal intencionado para ela
– Ah, me deixe em paz, Alexy! – ela está ainda mais vermelha, se isso é que isso é possível, e todos rimos da cara dela – Kentin, com quem vai dividir o quarto?
– Com um cara novo do segundo ano – ele suspira – Espero que ele não seja um saco.
– Sempre tem essa possibilidade – Armin ri
– Ao menos você não terá que dividir o quarto com um gamer maluco – Alexy recomeça seu drama – E que ainda fede.
– Eu não... Ei! – Armin reclama, com uma expressão de poucos amigos
– Vou dividir o quarto com a Viollete – Lizzie diz animada – E Rosa com a Kim. Tivemos muita sorte.
– Com certeza! – Rosa diz animada – Imagine só ter que dividir o quarto com a Ambre! Deus que me livre desse mal...
– Que bom que ele poupou vocês – eu resmungo emburrado – Porque eu com certeza não fui poupado!
– Ah, pare de exagerar Castiel – Rosa devolve – Algum de vocês viu o Lys? Não consegui falar com ele ou Leigh o dia inteiro...
– O dia mal começou – Kentin revira os olhos – Tenha paciência.
Quando Rosalya abre a boca para responder, ouvimos um apito agudo vindo dos alto falantes da escola.
– Mas que merda?! – eu grito levando a mão aos ouvidos, minha voz mal se sobrepondo ao barulho insuportável
– Ér... – ouvimos a voz do Professor Faraize e tudo fica muito claro – Desculpem por isso. Todos os quartos estão prontos para a ocupação, por favor dirijam-se a eles. As chaves se encontram em cima de uma das mesas. Tem uma para cada aluno. Hoje o dia vai ser usado para arrumação, então estão dispensados das aulas. Tenham um bom dia!
– Ele nunca vai aprender a mexer nesse maldito auto-falante?! – Armin resmunga contrariado – Nem é tão difícil assim.
– Acho engraçado – Elizabeth diz rindo de leve
– Engraçado quase estourarem os tímpanos da gente, realmente – eu devolvo com uma expressão maldosa
– Alguém está de mau humor... – Rosa diz sorrindo desdenhosa
– Ah, pare vai Castiel – Lizzie revira os olhos – Não é para tanto.
– Se me dão licença, quero chegar ao quarto antes do representante – me viro em direção aos dormitórios
Caminho por um tempo, e acabo indo parar na frente do meu antigo quarto. Olho para a porta meio melancólico, sabendo que provavelmente vai ser a última vez que vou encontrá-lo vazio.
A porta se abre bruscamente e Lysandre me olha confuso.
– Castiel? – ele pergunta – Você é meu parceiro de quarto?
– Eu não – eu respondo, um pouco bravo por ser ele quem vai ficar no meu antigo quarto, mesmo sabendo que a culpa não é dele – Infelizmente.
– Ah sim, eu não faço ideia de quem é – ele me olha um pouco avoado
– As listas estavam presas aqui na sexta feira, você não deu uma olhada nelas? – pergunto incrédulo
– Sim, eu a olhei – ele responde – Não é a toa que sei o número do quarto. Mas acabei me esquecendo de com quem vou dividi-lo. Não que isso seja grande coisa, para mim tanto faz.
– Que bom que você pensa assim – eu resmungo aborrecido – Vou indo.
– Boa sorte. – ouço-o falar quando me viro
Continuo a andar mais um pouco, até chegar mais ou menos no fim do corredor. O quarto 13 está entre o 15 e o 11. Eu suspiro e giro a maçaneta, entrando com tudo. Nathaniel, que já está lá dentro dá um pulo, assustando-se, e me encara com reprovação. Mal olho para ele e começo a jogar minhas coisas pela cama.
O quarto não é pequeno, é até bem grande. Mas com ele ali dentro, parece que tudo o que eu tenho é uma linha a beira de um precipício, e por mais que eu tente, não consigo ignorar sua presença, sempre sentindo-o logo atrás de mim.
Vai ser um longo dia...
– Eu peguei essa cama – ele se pronuncia – Se você liga pra coisas tipo feng shui ou algo do gênero, posso trocar.
– Não me importo – eu digo secamente e começo a arrumar minhas coisas
Parece que está tudo dobrado. As camas, os baús, os armários, as escrivaninhas, tudo idêntico. Um banheiro só. Observando-o pelo rabo do olho, percebo que Nathaniel já lotou a escrivaninha dele com uma infinidade de papéis e a parte debaixo dela, que eu geralmente uso para por a mochila, está cheia de livros. Eles estão quase explodindo para fora, e eu me pergunto como foi que ele conseguiu enfiar tudo naquele espaço.
O armário dele está aberto, e já organizado. Parece ter tido a mesma linha de raciocínio que eu e trouxe roupas de frio também. Trouxe o dobro de sapatos que eu, e agora está arrumando o baú, fingindo que eu não existo.
Viro a minha mala em cima de minha cama, deixando que todas as roupas caiam sobre ela. Começo a pendurar os casacos e jaquetas, depois as calças e algumas bermudas. Dobro as blusas e guardo coisas como pijamas, cuecas e roupas de banho nas gavetas do armário. Coloco meus sapatos na parte de baixo, e prendo meu pôster da Winged Skull na porta do armário.
Retiro a roupa de cama da mala e começo a arrumar. Não fui idiota, igual da outra vez, em que esqueci o edredom na época do inverno. Eu quase congelei por uma semana inteira, e quando fomos dispensados na sexta feira corri loucamente para chegar em casa e colocar um na mala. Também trouxe o meu travesseiro, já que o que a escola fornece é um lixo. Jogo o outro para trás com agressividade e ouço um protesto.
– Ei, o que pensa que está fazendo? – Nathaniel joga o travesseiro no meu rosto
– Esqueci que você estava aí – eu digo indiferente
– Tome mais cuidado, o quarto também é meu! – ele diz se virando, irritado
Jogo o travesseiro com mais força dessa vez, nas costas dele.
– E o que você vai fazer? – desafio, arqueando a sobrancelha
Ele pega o travesseiro com calma, e começa a colocá-lo em cima da cama. Pelo visto ele não vai aceitar minhas provocações, não tem nada que me deixa com mais raiva do que quando ele me deixa falando sozinho e...
Nathaniel faz um movimento tão rápido que não tenho nem tempo de erguer os braços para me proteger. Ele me acerta com o travesseiro no rosto e com uma força com certeza não esperada. Caio em cima da cama e bato a cabeça na parede.
– Isso – ele me encara com desdém
– Seu babaca – eu me levanto e jogo o meu edredom nele, mesmo não sabendo em como isso poderia me ajudar de alguma forma.
Ele me olha e ri. O edredom enrolado em seus pés de modo nada ameaçador.
– É o melhor que pode fazer? – ele fala sorrindo – Não é a toa que sempre fui eu que fiz os planos de ataque quando nós éramos crianças.
Puxo o edredom num movimento rápido, e ele me olha surpreso antes de cair no chão, batendo a nuca em sua cama.
– E não é a toa que quem sempre fazia a parte física era eu – eu digo me aproximando e pegando o travesseiro. Talvez eu possa asfixiá-lo, acho que dá tempo de eu fugir antes de acharem o corpo...
– Não Castiel, espere – ele diz com uma cara de dor – Não consigo me mexer...
– O que? – eu coloco o travesseiro de lado – Onde exatamente você bateu?
– A parte da nuca, perto da coluna – ele me olha assustado
Me inclino, para inspecionar o local. Não estou com tempo para ter peso na consciência, caso algo tenha acontecido com ele.
– Merda Nathaniel, e agora? – eu digo olhando para a parte detrás do pescoço dele.
Tem algumas manchas roxas que descem para dentro de sua camiseta, e antes que eu tenha tempo de dar uma olhada naquilo ele pega a barra da parte detrás da minha camisa e a puxa até cobrir os meus olhos, me fazendo cair para trás sem enxergar nada.
É a minha vez de cair no chão e eu o ouço rir, de uma forma que há muito tempo não ouvia.
– O que? – eu puxo a camisa para baixo, olhando-o incrédulo – Você estava fingindo?!
– Você devia ter visto sua cara! – ele não para de rir – Ficou preocupado foi? – Nathaniel me olha com ironia
Fecho a cara e rebato com raiva.
– Como se em algum dia da minha vida eu fosse me incomodar em me preocupar com você – digo quase cuspindo as palavras – Só vi uns roxos nas suas costas e achei que fosse por conta da batida. Andou apanhando, Nathaniel? – encaro-o com desdém e com o sorriso mais cruel que consigo dar
O sorriso em seu rosto desaparece e sua face fica branca como papel. Ele parece ter levado um tapa na cara.
– Não mencione isso com ninguém, entendeu? – ele me olha com medo e ao mesmo tempo ameaçador. Eu nem sabia que um feito como esse era possível – Com ninguém!
– Eu não...
– Me deixe em paz! – ele me interrompe, se levanta e sai correndo do quarto, apanhando apenas a sua chave.
Quando sai, bate a porta com força e eu encaro tudo com incredulidade.
O que foi que acabou de acontecer?
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