What Have You Done, Sexy Sadie?
1 John Lennon
Era uma tarde silenciosa de outubro de 1964 em Liverpool, o vento fresco e suave de outono tornava a tarde amistosa para um passeio pelo parque e andar de bicicleta parecia a atividade ideal para o dia. Num bar, chamado de Ollie's Club perto dos arredores de Penny Lane, estava vazio contendo não mais que três cavaleiros e o barman. Uma moça alta e magra entrou no salão com óculos escuros que pareciam olhos de gatos, uma saia justa e delineada ao corpo, uma blusa branca de gola rolê, botas de cano médio e uma audaciosa jaqueta de couro . A garota mantinha os cabelos de fios longos, cuidadosamente ondulados e de um louro claro presos em um penteado típico de Brigitte Bardot de colegial sexy. Os óculos escuros escondiam o olhar verde cuidadosamente delineado e felino que aquela garota carregava. Sua boca estava pintada num vermelho provocante, que contrastava com a calmaria daquele dia.
A garota sentou em frente ao barman e pediu uma dose de Bloody Mary. Tirou os óculos escuros e cruzou as pernas de maneira delicada e sofisticada. Sentiu o olhar das três pessoas presentes nos arredores do salão, mas estava cansada demais para olhar. O barman trouxe seu drink e com um suspiro profundo bebeu o copo com facilidade. Pagou o drink que custava cinco xelins,virou de costas para o homem que recebeu o dinheiro e saiu do bar impecavelmente do mesmo modo no qual adentrada cinco minutos atrás.
Com os pensamentos cansados andou sem rumo pelas ruas de Liverpool. Depois de andar dois quarteirões à pé, sentou à beira de uma calçada e pegou um Wild Woobine dentro de sua bolsa. Colocou-o na boca e observou as pessoas caminhando calmamente na rua sem notar sua presença, por mais bonita que fosse.
A menina chamava-se Sadie Johnson, londrina de 21 anos. Estava em Liverpool à trabalho, atrás de quatro garotos quase de sua idade que haviam parado não só a Inglaterra, mas também todo o mundo: os Beatles. Estagiária numa revista em Londres, Sadie viu-se diante à oportunidade de tornar-se assistente do presidente da revista se conseguisse uma entrevista completa com cada um dos Beatles que viriam à Liverpool por uma semana à motivos pessoais. Sadie estava esperando por eles e nenhuma notícia da chegada dos fabulosos garotos quase iguais e extremamente talentosos de Liverpool. Cansada de esperar por eles no meio de uma cidade que não conhecia, Sadie resolveu que o melhor a fazer seria voltar para seu hotel barato à espera de notícias.
***
Sadie havia feito amizade com Linda Perry, dona de um fã clube local, com esperanças de notícias rápidas sobre a chegada da banda. Eram quase nove da noite quando Sadie ouviu alguém batendo na porta de seu quarto. Com um vestido preto justo ao corpo, um coque alto, meias arrastão e a mesma bota cano médio (sem contar os olhos perfeitamente delineados e a boca vermelha provocante), Sadie estava se arrumando para tomar uns drinks em algum pub popular de Liverpool. Ela atendeu a porta e Linda entrou aos prantos em seu quarto com um enorme cartaz dizendo "I am a beatlemaniac" e saias tweed até o joelho que apavoravam Sadie.
– Sadie, eles chegaram! Eles chegaram! Mandaram fechar um pub para os amigos mais íntimos em uma rua aqui perto! — chorava Linda.
Sadie apenas sorriu e anotou o endereço do lugar. Iria encontrar com eles, conseguir a entrevista e sair daquele "lugarzinho medíocre com cheiro de baleias" como julgava Liverpool. Sadie, na verdade, não gostava dos Beatles. Tanto de sua música quanto de sua personalidade feliz que fazia garotas de 13 à 17 anos irem à loucura e até senhoras mais audaciosas.
Sadie não se deu o trabalho de pegar um táxi e foi andando até o tal pub. Ao chegar na estrada, haviam vários seguranças na entrada. Havia também um grupo de rapazes com cigarros em uma mão e garrafas de cerveja na outra rindo. Um deles se destacou com um terno de aparência cara e um belo cabelo escorrido: aquele definitivamente era John Lennon. Ela apoiou-se à um carro e ficou observando-o. John tinha um brilho próprio quando sorria que a surpreendeu, ela o achou interessante. Um a um, os rapazes foram entrando no pub. Quando John ia entrar, ela deu-se conta da chance que estava perdendo e o gritou:
– Ei, Lennon! John Lennon!
Ele virou para trás e procurou pela voz feminina que o gritava. Ele a encontrou com um olhar interrogativo e arrogante (que na verdade era nada mais que a tentativa de um míope de enxergar uma pelo figura feminina chamando seu nome). Sadie aproximou-se dele com o olhar sedutor e a boca levemente contraída num sorriso ousado.
– Pois não? — John disse abrindo um sorriso cheio de brilho e falsa confiança.
– Nada demais, é que não se encontra um Beatle na rua todo dia... — Sadie postou-se em frente à John.
Ele pareceu transtornado com o fato de ter uma mulher como Sadie claramente se exibindo para ele e ainda mais inconformado com o fato de ser casado.
– Oh, desculpe-me, mas e não preciso de prostitutas. — ele lançou-lhe um olhar sarcástico.
– Você acha que sou uma prostituta? Desculpe-me pela impressão errada, mas sou Sadie Johnson, repórter londrina e definitivamente não sou uma beatlemaníaca. – Sadie não iria esconder sua língua ferina (tão ferina quanto a de John).
Ele a olhou de cima a baixo e seus olhos se encontraram. Ele estava fantasiando pensamentos sujos em relação àquela moça e ao mesmo tempo sarcásticos.
– Que se foda, não estou dando entrevistas agora. – ele virou-se de costas para ela pronto pra entrar no pub.
Sadie o puxou pelo ombro, fazendo-o se virar para ela. Quando ela tinha um John Lennon abismado com suas técnicas de reportagens, um pouco bêbado e entediado sendo segurado pelo colarinho do terno, Sadie o imprensou contra uma parede e chegou os lábios à altura de seu ouvido e sussurrou:
– Escute aqui, Lennon, já ouvi muito falarem sobre você, o quanto você é um máximo, ou pelo menos acha que é, o jeito sarcástico e a falta de interesse, mas quero que saiba que tenho menos de uma semana pra conseguir uma entrevista com cada um dos Beatles e essa é minha grande chance e nem você nem um bando de filhos da puta drogados vão estragar isso. – ela se afastou para encará-lo – Estamos entendidos? Então, como vai ser?
John simplesmente riu e segurou os pulsos de Sadie.
– Nos conhecemos há menos de cinco minutos e você já quer alguma coisa? Pelo menos me pague uma bebida... – ele tirou as mãos de Sadie de seu terno e o arrumou.
Antes que ele terminasse de arrumar o terno, Sadie jogou seu corpo contra o corpo de John e ele ficaram novamente apoiados à parede vermelha do pub. Seus olhos se encontraram e Sadie sorriu, sussurrando novamente:
– Eu faço o que você quiser por uma entrevista de seis perguntas, Lennon...
– Pensei que não fosse uma prostituta... – John também sorriu, era um sorriso irônico e ousado.
– Não há problema algum uma mulher utilizar os artifícios que a ela foram oferecidos... – Sadie encostou seus lábios nos dele.
– Não sei se sabe, mas eu sou um cara casado...
– A mulher é sua, não minha! – Sadie afastou-se para encará-lo – Vamos, Lennon, vai me dizer que é fiel à sua esposa levando uma vida de Beatle? Não gaste sua saliva para responder, é óbvio demais.
– Não vou cair na sua pressão, garota... Porra, você pode me soltar?
Sadie o olhou com seus grandes olhos verdes e uma sobrancelha arqueada, a boca fechada numa linha provocante ao melhor estilo Brigitte Bardot. John Lennon era uma figura orgulhosa demais para admitir que havia caído no encanto de Sadie Johnson. Ela preservava uma figura forte, egocêntrica, autoritária e polêmica, assim mesmo como a dele e isso lhe era motivo suficiente para resisti-la de todas as formas e escapar da torturante sensação de sentir-se fraco. Mas Sadie era muito mais resistente do que ele, principalmente quando o assunto interessava a ela mesma, como no caso, era motivo suficiente para arrancar uma entrevista verídica de cada um dos Beatles.
Sadie subitamente puxou John para mais perto de si pela cintura da calça dele. Dei-se a liberdade de deixar suas mãos deslizarem por sua calça. John estremeceu àquele toque ousado, ele mesmo sabia que não ia resistir.
– Eu não vou fazer nada com você... – John arfou.
– Eu já disse, Lennon, uma entrevista em troca da melhor noite de sexo que você já teve na sua vida.
Sadie se afastou subitamente de John para encará-lo com um olhar crucial. Ele respirou fundo e a encarou. Ele estava atordoado, (realmente estava muito atordoado!), principalmente porque aquele sentimento de fraqueza lhe atingira em cheio. Com um olhar arrogante e ajeitando a posição de sua gravata fina, John suspirou e disse por final:
– Diga-me onde está hospedada.
***
Sadie Johnson era orgulhosa demais para levar um astro da música pop para um mísero hotel. Ela vinha de família rica e sua conta era recheada o bastante para pagar uma diária no melhor hotel de Liverpool, mas como estava ali pela revista, não lhe foi concedida uma grande quantia em dinheiro. Ela decidiu então pagar por uma diária de seu próprio dinheiro no melhor hotel da cidade, The Winchester Palace Hotel, o mesmo em que os Beatles estavam hospedados. Sadie, porém, esqueceu-se de que estava dentro de um carro com John Lennon, um Beatle. Não se deu conta também da quantidade de pessoas que dariam tudo para fotografar uma preciosa foto de John em seu momento de folga e, como o próprio havia lhe dito, era casado. Isso faria com que ela perdesse seu emprego e arruinasse sua chance. Porém, de acordo com John, Brian Epstein, empresário da banda, teve cuidadosamente o trabalho de desviar a atenção da imprensa e dos fãs do Winchester Palace, dizendo que os famosos Beatles estariam hospedados em outro lugar à sete quarteirões dali.
Com muita tranquilidade, John e Sadie entraram no hotel. Ela fez sua reserva de última hora – teve a sorte de encontrar suítes vagas – e ele a esperou no bar do hotel. Ao sinal de Sadie, John a acompanhou até a suíte que ela havia reservado (A134). Quando entraram no quarto, John a puxou contra seu corpo e a beijou de forma intensa. Os dois caíram sobre o colchão macio com cheiro suave de algodão. Para Sadie, aquilo não passaria de uma transa casual sem maior significado, muito menos para John. Eram negócios.
***
John estava sentado apoiado à cabeceira da cama fumando um Woodbine de Sadie e tomando uma taça de vinho. Sadie estava procurando por alguma coisa que pudesse anotar a entrevista e achou um pequeno bloco de anotações dentro da gaveta do quarto e pegou uma caneta em sua bolsa. Ela sentou-se ao lado de John e o encarou com uma sobrancelha erguida. Ele fingiu não perceber que ela o encarava.
– Vai responder minhas perguntas? – Sadie perguntou.
– Apenas seis, porra, como havia combinado.
– Depois da noite que te dei você merecia calar a porra dessa sua boca e me responder perguntas suficientes pra escrever um livro.
– Você é engraçada. – John riu de Sadie.
– Não estou aqui pra ser engraçada, vamos, quero que saia daqui logo...
Lennon riu.
– Ah e mais um detalhe: não comente sobre nada disso com seus amiguinhos de banda, afinal, eles podem ficar com ciúmes por eu ter priorizado ao atendimento ao fabuloso John Lennon — Sadie estava mentindo.
John pareceu não dar muito atenção.
– Foda-se, eles não precisam saber quem eu ando fodendo ou não.
John não se importava com as coisas que Sadie dizia pelo simples fato de trata-la como alguém totalmente insignificante. Como o combinado, ele respondeu à seis perguntas que ela lhe fez – ótimas perguntas, por sinal — colocou sua roupa e foi embora. Simples assim. Para ambos, aquilo não passava de negócios, John nem sabia qual era o sobrenome dela, mas ele se forçava a gravar seu nome, pois julgava ser um ótimo nome para uma música.
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