What Goes Around, Comes Around...
7 Vânia.
Notas iniciais
– Lucilene, onde está a dona Vânia?
– Boa tarde, sr. Otávio, na sala da dona Charlô. Vou anunciá-lo.
– Não precisa, melhor quando são surpresas.
– Acho que não, vindas do senhor...
– Oque disse?
– Q-Que ela já deve estar à sua espera, sr. Otávio, foi isso.
– Humph. Obrigado.
"Obrigado? Mas ele nunca me agradece! O que está acontecendo com o biltre velho?" pensou a pobre secretária, incorporando inclusive as palavras da patroa.
***
Vânia estava sentada de frente pra janela, conferindo alguns gráficos e anotando no ar as conclusões que obtinha. Se não fosse tão competente, poderíamos até usar uma piada de loira aqui.
– Vânia, minha querida.
– Ai, isso é modo de entrar? Otávio, por que não pediu pra ser anunciado? Estou trabalhando, oras...
– Sei que está, lembra que isso aqui é minha empresa?
– Alto lá, sua e da Charlô, 50% para cada!
– Veremos até quando aquela araponga vai ter alguma coisa aqui, rá rá, veremos. Mas não é disso que vim falar. Melhor dizendo, é, em partes.
– Otávio, se não se incomoda eu estou trabalhando e não vou participar de nenhum plano diabólico seu dessa vez, já basta ter aceitado seu convite de sair e etc, não pega bem...
– Fique calada e me escute, por favor? Quero saber o que está acontecendo com a Charlô, para onde ela vai neste sábado.
– Ué, e por que não pergunta para ela mesmo? Ela não me disse nada e muito menos disse para que eu repassasse informações!
– Mas você está ficando igual a ela, uma cobra mal criada! Isso são modos? Quero que você descubra para mim, sorrateiramente, os planos dela para este fim-de-semana.
– Agindo como você quer vou continuar sendo uma cobra sorrateira.
– VÂNIA!
A loira gargalhou sozinha, colocou os papeis na mesa e sentou-se nesta.
– Posso até pensar nisso que está me pedindo, mas primeiro satisfaça minha curiosidade. Para quê quer saber e por que não pode perguntar?
– Oras, porque você conhece muito bem a chefe que tem e o gênio dela, e devo saber sobre as movimentações que ocorrem na casa onde eu resido. Fator suficiente.
– Sei, suficiente. — Vânia abriu um sorriso enorme — E antes de chefe, ou em decorrência disso, Charlô é minha amiga. Ela não lhe negaria um assunto de bem estar público assim. Ou seja, conhecendo também o passado em comum de vocês dois, posso supor que está interessado em saber para onde ela vai e com quem, se eu entendi certo que ela terá um fim de semana agitado e fora de casa...
– Já lhe disse meus motivos, — Otávio sentou-se na poltrona de Charlô e encarou Vânia com ar solene, sem demonstrar afetação pelas palavras dela — não há porque encontrar chifres na cabeça de um cavalo.
– Depende, se eu quiser ver um unicórnio...
– VÂNIA!
– Me diga, Otávio, diga. Quero saber qual o seu interesse. Melhor. Você acha que ela encontrou um compromisso porque vamos sair amanhã?
– Acredito que não... Ela nem sabia disso, claro, não por mim — ele a encarou diretamente — e também não teria motivos para "rivalizar". Não devo nada a ela em satisfações.
– Bingo. Nem ela a você. disse tudo.
– Não quero satisfações, quero saber como um mero espectador.
– E para quê? Invente uma desculpa melhor, por favor.
Otávio se ajeitou na cadeira e não disse mais nada. Seria fácil pensar até que ele n]ao queria nada mais que cuidar da vida social dos habitantes de sua casa. Fachada esta que Vânia quase comprou, se a esperteza dela não fosse maior. Ela sabia que ele logo cederia.
– Otávio — ela chegou mais perto da poltrona, com seu belo par de pernas — você ainda ama a Charlô?
– Mas como pode? Tanta beleza e tanta besteira falada numa mesma pessoa! Amar? E pior que isso, amar a Charlô? Tenho cara de masoquista?
– Não, mas quem sabe... Porque tudo leva a crer nisso. Essa implicância sem sentido, perseguição, sabotagem... Tudo parece mais amor do que ódio. Afinal, o contrário do amor seria a indiferença...
– E o que é que você entende de amor, Vânia? Não acredito que suas pegações com o Felipe tenham algum cunho amoroso por trás de tudo...
Otávio estava passando dos limites e percebeu pela feição ofendida de Vânia que tinha conseguido. Assim ela saía do pé dele naquele assunto.
– Entendo mais do que você imagina, minha vida não se resume a esta empresa. E descubra sozinho, se quiser. Não vou lhe ajudar em nada. Jantar cancelado também, amanhã.
– Você não pode fazer isso, Vânia!
– Já fiz. — A loira pegou seus papeis e saiu da sala.
– MALDITA! QUANDO EU CORTAR SEU SALÁRIO VERÁ COM QUEM ESTÁ FALANDO! — Ele se levantou no solavanco e derrubou uma pilha de papeis de Charlô. Enquanto os apanhava, viu várias das cartas que ele havia escrito para ela, anos atrás, no meio deles. Aqueles eram os papeis pessoais dela, ele via agora a caixa. Os papeis que ela revirava volta e meia, e nos quais ninguém tocava além dela. O que ela chamava de "sua vida fragmentada".
Então, ele percebeu, que ainda fazia parte da vida dela.
E sim, essa participação deixaria de ser fragmentada.
Mentalmente Otávio agradeceu a presença de Vânia naquela sala. Ele nunca teria percebido que ainda era um passado presente para Charlô.
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