What Dreams May Come
1 Prólogo
Notas iniciais
Primeiro foram os sonhos, ou pelo menos o que William pensou se tratarem de sonhos. Pessoas falando uma língua que ele não conhecia, mais tarde viria a identificar como francês; bandeiras nazistas que cobriam a fachada inteira de prédios; soldados com suásticas em seus uniformes; pessoas vestidas como era natural vestir-se em séculos passados. O rapaz francês que apontara um revólver para si em um beco, forçando o seu peso contra o dele, imobilizando-o contra uma parede úmida de tijolos extraordinariamente vermelhos, o braço esquerdo que apertava fortemente a sua garganta, de encontro com seu pomo-de-adão, com propósito de realmente machucá-lo – e como aquilo doía.
Os sonhos se repetiam com uma frequência assustadora, e tinham sempre como cenário a França ocupada pelos nazistas. Primeiro os sonhos eram confusos, como devem ser, William perambulava pela cidade, cuja localidade não era capaz de determinar, amedrontado que os soldados o descobrissem ou que alguém denunciasse a sua presença estrangeira, uma vez que não falava uma palavra em francês, ou pelo menos não o suficiente para explicar-se. Sentia frio durante a noite, pois no começo sonhava que vestia exatamente o que estava vestindo quando fora para cama, trajes estes que não eram os mais adequados para o inverno francês.
Gostava particularmente dos sonhos em que se encontrava em um vasto campo aberto, pois por algum motivo não temia ser descoberto. A primeira vez que sonhara que estava em um campo, foi no seu quarto sonho – naquela altura, após acordar, ele relatava o que havia vivido nos sonhos em um pequeno bloco de notas – correu por entre a grama queimada pela geada até perder o fôlego, como uma criança o faria, e riu como se o mundo de seus sonhos não fosse um mundo que estivesse destruindo a si mesmo. Agora que pensa sobre isso, talvez ele não tenha associado o campo à França e ao momento histórico que ela enfrentava.
“To have a thought, there must be an object — the field is empty, sloshed with gold, a hayfield thick with sunshine. There must be an object so land a man there, solid on his feet, on solid ground, in a field fully flooded, enough light to see him clearly, the light on his skin and bouncing off his skin.”¹ ele recita para si mesmo, deitado no solo gélido, fascinado ao ouvir apenas a sua voz naquela imensidão de vida natural morta, apesar do céu azul e do sol impassível sob ele.
É possível chamar um sonho no qual se está sempre temeroso de ser apanhado e ferido de sonho? Não seria este um pesadelo? Sim, deveria rearticular a sua visão, eram pesadelos, não sonhos.
Foi no fim do segundo mês em que os pesadelos começaram que ele decidiu explorá-los, pois a cada novo pesadelo, mais reais e mais longos eles pareciam. Ao ir dormir, naquela noite, vestiu as roupas mais condizentes com a época, organizou um pequeno “kit de sobrevivência” em uma bolsa de carteiro, que consistia em um dicionário bilíngue francês e documentos falsos, que encomendou de um sujeito fascinado pelo século passado. Agora possuía uma carteira de dupla nacionalidade, francesa e britânica, cujo nascimento datava o ano de 1922, ele não sabia exatamente em que ano os pesadelos se passavam, então ele tinha uma margem de erro de quatro anos para mais a partir dos 18, possuía também uma carteira de estudante britânica, pois era necessário explicar porque diabos ele não falava uma palavra de francês, uma vez que aquela era a nacionalidade que alegava ter.
O resultado final dos documentos era impecável. Não diria ao artista que estava descrente do seu talento até ter os papéis em mãos, mas agora que os tinha, passara horas os analisando. Esperava que a sua teoria estivesse correta, pois a mão de obra lhe custou boa parte de seu salário, sem falar nos apetrechos que comprou para tornar o seu “traje” o mais verossímil possível.
Passara algum tempo articulando uma história que julgava ser minimamente consistente: sua mãe era francesa e seu pai britânico, apagou, obviamente, a sua descendência judaica por parte de mãe, apesar desta ser longínqua. Caso fosse pego diria que sua mãe estava muito doente, e que ele havia pedido licença da faculdade para cuidar dela, isso antes da ocupação nazista tomar lugar. No entanto, torcia para não ser pego, uma vez que sua história possuía muitas falhas; primeiro, ele não conhecia nenhuma mulher que pudesse se passar por sua mãe, caso os soldados quisessem alguma prova do que ele dizia; segundo, não queria de maneira alguma se ver obrigado a fazer a saudação nazista; e terceiro, não sabia se seria mesmo capaz de articular o seu nervosismo frente aos soldados.
Tratando-se de um sonho, poderia recorrer a um recurso que dificilmente falhava: apertar os olhos fortemente e obrigar-se a acordar. Torcia para que ainda dominasse essa tática.
A noite veio, e com ela uma estrada rural, com um sol tímido entre nuvens que falhava em sua missão de evaporar as poças d'água, que acumulavam-se na precária estrada de chão batido, e transformar a lama novamente em um trajeto que se pudesse andar sobre. Era um lugar quieto, à sua direita havia um muro de pedras de aproximadamente um metro de altura que estendia-se por quilômetros delineando uma barreira entre o campo de plantação e as casas. Seria este o seu campo?
Desta vez os seus sentidos estavam mais apurados. A cada “experiência” eles pareciam aflorar-se mais. William era capaz de sentir o vento gélido em seu rosto, queimando-lhe a ponta do nariz e congelando-lhe as mãos; logo começaria a lacrimejar. Já podia prever. De sua boca desprendeu-se uma pequena nuvem esbranquiçada e ele lembrou-se de quando era pequeno e fingia que estas nuvens eram a fumaça de seu cigarro inexistente.
Cobriu boa parte de seu rosto com o cachecol marrom que usava e abrigou as mãos nos bolsos de seu sobretudo preto. Pôs-se a andar pela estrada enlameada, a cabeça baixa tentando concentrar o máximo de calor que podia e também evitando ser reconhecido. Se bem que ninguém parecia habitar aquelas casas. Podia-se ouvir apenas os seus passos incertos, que buscavam um solo estável para pisar. A última coisa que gostaria era escorregar na lama e sujar-se todo.
Andou bons minutos naquela estrada sem avistar uma vivalma, salvo alguns animais como gatos e cachorros, estes que fugiam no mínimo sinal de sua presença, mas sabia que algumas casas não estavam abandonadas, pois era possível ver roupas estendidas em varais, garrafas de vidro vazias postas do lado de fora de portas, fumaça escapando das chaminés. Esses pequenos detalhes que indicam a existência de vida humana.
Quanto mais passava despercebido, mais a sua confiança ia aumentando. Agora observava as casas com mais curiosidade e atenção, às vezes parava diante de uma e ficava admirando-a. A sua simplicidade, a sua arquitetura, suas cores e formatos adquiridos com o tempo. Caso ele não soubesse do contexto recorrente desses sonhos, ele poderia dizer que estava passando por casas comuns, que encontraria caso andasse por aquela parte da França, ou qualquer parte rural.
Ele não entendia como esses sonhos poderiam ser tão reais, como o seu cérebro era capaz de dar vida a tais visões, com tantos detalhes, tão vívidos. Gostava mais do fato de ter controle de suas ações e pensamentos, não havia aquela urgência característica dos sonhos, as situações não eram complexas e aleatórias, era como se de fato ele estivesse naquele local naquele exato momento.
Em determinada parte do caminho, a rua chegava ao seu fim, abrindo-se duas opções à sua frente, uma à esquerda que seguia as residências e o outro à direita que ia em direção ao campo. Enquanto decidia qual caminho seguir, foi subitamente surpreendido por uma movimentação vinda da esquerda, eram vozes cujo tom ia aumentando, até que estas tornaram-se gritos, seguidas de uma série de disparos.
A imprevisibilidade da situação o paralisou, o coração batendo forte contra o seu peito – era possível senti-lo tentando escapar de sua carne. De repente tudo ficou muito real, queria esconder-se, mas não conseguia mover-se. De fato era um pesadelo. Sentia o perigo aumentando e era incapaz de proteger-se. Tudo que podia fazer era ouvir e esperar. Pelo quê? Pelo homem que corria em sua direção. Ensanguentado. Segurando o braço esquerdo rente ao corpo com a mão direita, que portava uma pistola. A ação, que inicialmente parecia promissora, foi perdendo a sua vivacidade, os passos foram reduzindo-se, e a corrida tornou-se um caminhar lento e sôfrego, no qual o homem tropeçava em seus passos, por fim caindo em um baque em direção ao chão. Sem dó nem piedade, quebrando, por sorte, apenas o nariz.
Estava a pouco mais de cem metros de distância de si. Não usava um uniforme militar, mas sim um sobretudo cinza. Parecia jovem. Tão jovem quanto William.
Ele tinha que pensar rápido. Os disparos certamente atrairiam aqueles que escondiam-se tão bem em suas casas. Mas o que fazer com o homem? Deveria intervir? Era capaz de fazê-lo? Deixá-lo era uma opção? Era apenas um sonho, deveria correr na direção oposta, esconder-se, esperar que alguém o achasse.
Viu-se, no entanto, num súbito ato de adrenalina e coragem, que nem sabia possuir, indo em direção ao corpo. Levantou-o da melhor forma que conseguiu, apoiando o braço que não estava machucado sobre o seu ombro, e forçando o peso deste sobre si, há três casas atrás havia visto algo que se assemelhava a um galpão, e passou a arrastar o corpo, percebendo que a tarefa era mais difícil do que parecia. Sabia ser capaz de levantar cinquenta quilos, pois algumas vezes havia ajudado uma jovem que era cadeirante a fazer pequenas mudanças de ambiente, mas eram pequenas mudanças, e não trajetos, e o homem certamente não pesava somente cinquenta quilos.
Talvez tenha sido de fato a adrenalina, talvez o fato de tudo aquilo não passar de um sonho, mas ele fora capaz de alcançar o pátio em questão no qual o galpão se encontrava a tempo de não serem vistos, pelo menos não explicitamente, por alguém. Agradeceu o dia que agora estava nublado e à chuva que sucedeu a sua chegada no local em questão. Torcia para que esses detalhes atrasassem um pouco o destino do homem. Este que ele nem ao menos sabia qual viria a ser. Torcia para não estar ajudando alguém que fosse se arrepender de ter ajudado. E confortava a si mesmo dizendo que não havia tempo para traçar um julgamento de caráter, não nas circunstâncias em que se encontravam. Precisava agir primeiro, pensar depois.
Largou o homem no chão, a fim de tentar abrir o cadeado que protegia o local. Agora uma chuva pesada caía sobre eles, e no alto céu, trovões e raios cortavam o mundo em dois, iluminando-os vez ou outra, o que tornou fácil arrebentar o cadeado com uma pedra sem que a ação fosse nitidamente ouvida. Agradeceu às árvores dispostas no pátio por cobrirem em parte a sua ação.
Arrastou o corpo para dentro do local o mais rápido possível, deixando-o em qualquer canto. Não havia tempo para gentilezas. Primeiro precisava fechar o local por fora, para que não percebessem que alguém tinha entrado, e com sorte estariam protegidos por um pouco mais. Agradeceu pelas janelas, duas em seu total, serem fechadas por dentro por apenas trincos sem cadeado. Pulou uma das janelas e bateu o cadeado por fora da porta, com certa dificuldade, pois este agora estava danificado. Voltou para dentro do local, também com dificuldade, pois não era acostumado a pular janelas tão frágeis.
Assim que se encontrou são e salvo junto ao corpo, não soube o que fazer. Estava encharcado, sentia como se seus sapatos portassem lagos dentro de si, as pontas de seu cabelo pingavam incessantemente, seu rosto estava molhado como nunca havia estado, e sentia tanto frio, principalmente em suas mãos, que não eram mais capazes de sentir nada senão fisgadas que pareciam romper a sua pele. E havia este homem jogado no chão, que nem ao menos parecia vivo, de tão pálida que sua pele estava, e era realmente pálida, pois era a única coisa que ele conseguia enxergar na escuridão do local quando os raios iluminavam o céu. Fora necessário se aproximar cuidadosamente e ligar a tela de seu celular para iluminar o corpo por mais tempo, a fim de averiguar se este demonstrava qualquer sinal de vida.
Tamanha fora a sua surpresa quando sentiu o cano da pistola em seu abdome, encaixado-se perfeitamente naquele vão presente no início da cavidade torácica, como se fora feito para isso. Seus olhos estavam precariamente abertos, e seu peito mal se movia.
“Qui es-tu?”
A voz saiu penosa, por entre os lábios roxos e machucados pelo frio.
O contato entre o cano e suas vestes molhadas e gélidas aumentava, conforme a resposta tardava.
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