What Doesn't Cut The Flesh...
11 Capítulo 10
Notas iniciais
.Capítulo 10 – Passado, presente e possível futuro
Era difícil ficar um dia inteiro sem comer, mesmo estando acostumado a ter pequenas quantias de alimento.
Primeiro o café da manhã. Depois o almoço. E, por fim, ela não apareceu com comida na hora da janta. Quem o olhasse de fora poderia julgá-lo um mal acostumado, mas ele sabia exatamente o porquê da padeira dar-lhe tantas regalias de bom grado. E o irritava ter de admitir que ela o tivesse trocado facilmente depois de se mostrar tão avidamente devota a ele.
Sweeney sabia que Mrs. Lovett era uma mulher a qual não se poderia esperar muita dignidade, mas ele nunca tinha imaginado que ela pudesse ser tão fácil. Ele não considerara que ela era capaz de se rebaixar tanto. Ele jamais pensou que ela fosse capaz de se vender para o primeiro que demonstrasse qualquer tipo de afeição por ela. Mesmo levando em consideração o fato de que a padeira claramente não tinha nenhum tipo de moral, visto que era cúmplice de ninguém menos que Sweeney Todd. E, ainda assim, ele não a tinha julgado como alguém tão desesperado por amor, por atenção.
Não que ele se preocupasse com o que ela fazia, mas, por algum motivo desconhecido para si mesmo, o irritava profundamente vê-la nos braços de Robert, ou de qualquer outro. Ultimamente sua mente vinha lhe pregando peças, trocando os já costumeiros pesadelos que o assombravam constantemente por imagens que ele mesmo gerava da Mrs. Lovett se entregando a outro homem que não fosse ele. A necessidade de tê-la nua só para si fazendo com que visse vermelho, só que dessa vez por pura luxúria.
Grunhindo em frustração, Todd puxou o ar por entre os dentes semicerrados, buscando fazer o máximo de barulho possível com sua respiração a fim de se distrair de qualquer maneira que fosse. Nos últimos dias ele vinha se pegando perdido em pensamentos confusos quanto ao que sentia pela Nell... — argh! — Mrs. Lovett.
Sentia?
Não. Não. No que ele estava pensando? O coração de um demônio não era capaz de nutrir qualquer emoção além de raiva e ódio. Ele não era humano no fim das contas. Não era fraco como Benjamin Barker fora. Sweeney Todd nascera da morte de uma pessoa e iria alimentar-se de sofrimento até completar seu objetivo. Tudo o que ele tinha para si era vingança.
Ele não tinha porque se preocupar em perder a padeira. Afina, por mais que fingisse não notar, Sweeney tinha plena consciência da intensidade do sentimento que ela nutria por ele. Se é amor eu não sei– pensou, os olhos encarando a janela suja como de costume enquanto se perdia em pensamentos profundos — mas algo me diz que alguém sem escrúpulos como ela não é capaz de tanto.
Eleanor Lovett era um demônio assim como ele. E isso o assustava tanto quanto o aliviava. Sendo um indicativo de que eles tinham uma conexão que ia além da mera formalidade de serem cúmplices, garantindo que ela o ajudaria a ter sua vingança independente de qual fosse. E, no entanto, tal conexão o assombrava de tal forma que, por muitas vezes, ele optava por evitá-la ao sentir algo dentro de si gritar que somente aquela mulher era capaz de decifrar os segredos de sua alma atormentada. Somente a padeira era capaz de compreender os desejos mais obscuros de Sweeney Todd. E isso era algo que ela jamais deveria descobrir.
Foi ao ouvir seu estômago roncar em desespero que ele se lembrou de sua linha de pensamento inicial. Comida...
Droga! Mas que merda vinha acontecendo com ele que desviava toda a sua atenção para a padeira? Ele não precisava dela. Ele não queria falar com ela. E, certamente, ele não sentia nada por ela! Nem um pingo de desejo sequer.
Para falar a verdade, ele bem poderia matá-la agora mesmo sem nenhum problema.
Como que para provar a si mesmo do que era capaz, levou automaticamente uma das mãos ao cinto onde uma das lâminas sempre ficava ao seu alcance rápido. A mente em deleite ao imaginar os preciosos rubis escorrendo lentamente pelo pescoço alvo da padeira, enquanto os seus olhos arregalavam em terror e a boca ficaria aberta na vã tentativa de dar um último grito, sem som algum conseguir reproduzir. Uma sombra de sorriso veio, então, ao rosto do barbeiro, sumindo tão súbita quanto surgira.
Suspirou exasperado. A mente trabalhando com mais lucidez.
Quem ele pretendia enganar com todo aquele show?
Eleanor Lovett era a única cúmplice possível para ele ter naquela mísera existência. A única capaz de dar a vida para ajudá-lo a vingar a morte uma pessoa pela qual ela não nutria qualquer tipo de compaixão.
Por hora ele ainda precisava dela. E isso era um fato.
Mas depois... Ah, no futuro Sweeney terá o imenso prazer de tirar a vida de Eleanor. Uma imagem que ele claramente podia formar da poça de sangue que ela e Robert iriam produzir ao perderem o último brilho de vida de seus olhos amorosos e os sorrisos tão sujos quanto Londres.
Afinal, a sua Nellie não podia desejar outro homem mais do que o desejava. Caso isso viesse a acontecer, ela deveria ser punida de alguma forma.
Esmurrou, então, a porta da barbearia só por esporte e respirou fundo várias vezes antes de se convencer de que estava apto a descer as escadas sem correr o risco de matar a primeira pessoa que encontrasse em seu caminho.
Não que se importasse com quem ficaria vivo ou não. Matar era o seu passatempo no fim das contas. Contudo, se assassinasse a todos iria logo ser descoberto, sendo óbvio que controlar seu desejo por sangue era algo indispensável. Matar aqueles que não fariam falta ao mundo era o seu lema. De resto, apenas o juiz e o Beadle valiam a pena o risco de ser enforcado. Somente por eles Sweeney estava disposto a arriscar o pescoço. Afinal, sua vingança era reservada para eles desde o início.
Entrou na famosa loja de tortas andando da forma mais silenciosa possível, a fim de não acordar nenhum dos que ali residiam – e não pense que era por compaixão, mas sim o simples asco por contato humano, preferindo ficar sozinho a ter que falar com alguém — . Sorrateiramente, então, Sweeney buscou pelos armários da cozinha por qualquer tipo de alimento que não fosse uma das tortas de carne humana. Podia ser um assassino, mas ainda não havia desenvolvido gosto pelo canibalismo e não pretendia aderir a tal hábito tão cedo.
Agarrou com paixão determinada uma garrafa de gim que encontrou escondida no alto do armário. Era bom saber que Mrs. Lovett mantinha um estoque de álcool fora do alcance do menino viciado.
Com a bebida sob um dos braços prosseguiu com sua caçada silenciosa.
Estava prestes a desistir da comida, dando-se por satisfeito somente em ter o gim, quando ouviu os passos distintos da padeira. O som se aproximando em uma lentidão cadenciada.
Os milissegundos que passaram até ela estar em seu campo visual foram gastos refletindo o que fazer naquela situação. Encará-la e agir com a costumeira indiferença, ou ser rabugento – como ela sempre ressaltava – e reclamar amargamente sobre a greve de fome forçada pela qual estava passando?
Ignorou as duas ideias, uma se mostrando mais desnecessária que a outra, e moveu o corpo de forma a esconder-se num dos inúmeros pontos escuros do cômodo e observou com atenção enquanto a mulher surgia por trás da pesada porta de ferro com uma vela em mãos. Os grandes olhos da padeira analisando todos os pontos possíveis em busca de alguém que pudesse estar à espreita no momento mais indevido.
Ainda faminto Sweeney torcia para que seu estômago raivoso não o entregasse no esconderijo.
A expressão do barbeiro iluminou-se consideravelmente quando seus olhos captaram a imagem que o brilho do fogo remontava diante da sua – não, não, pare com isso! – Nellie. A mente assassina ficando maravilhada com a beleza mórbida que era a mistura do fogo com a pele pálida manchada de sangue. Os cantos dos lábios subindo ligeiramente e formando um sutil sorriso macabro no rosto de Sweeney enquanto ele admirava a senhoria com seu caminhar cauteloso, tentando ser tão silenciosa quanto ele. Conseguindo lidar com as sombras que a circundavam como se uma fizesse parte da outra, camuflando e protegendo, abraçando sua eterna companheira da mesma forma que ele mantinha um relacionamento íntimo com a escuridão. Induzindo ainda mais a ideia de que o barbeiro e a padeira complementavam um ao outro. Afinal, enquanto Lucy era a luz no caminho de Benjamin, Eleanor era a sombra que pairava sobre Sweeney Todd o protegendo. Restava apenas que ele notasse tal fato e aceitasse a adoração gratuita que tinha da mulher.
Lucy estava morta, assim como Benjamin. E, mesmo se ela ainda vivesse, jamais seria capaz de aceitá-lo como era agora. Ele tinha plena certeza disso, mas preferia continuar a se enganar e pensar que ela lhe daria uma chance. Todd podia muito bem mentir para si se isso significasse manter a fina linha de sanidade que ainda restava em sua mente conturbada.
Parou o fluxo de pensamento assim que notou Mrs. Lovett saindo da cozinha sem olhar para trás. Não notando que havia mais alguém no cômodo além de si.
Esperando mais alguns instantes para ter certeza de que ela não voltaria, Sweeney tomou o tempo para buscar com os olhos algo que pudesse comer. Encontrando, por fim, uns pedaços de pão que julgou serem suficientes para o momento. A mente em hora alguma pensando sobre o futuro e que, provavelmente, logo teria necessidade de buscar mais alimento caso a padeira continuasse a ignorá-lo.
Pegou a comida e o gim, saindo tão sorrateiro da loja quanto no momento em que entrara. Tentando por tudo conseguir tirar de sua mente a bela imagem que tinha da Eleanor manchada de sangue. Enfurecendo-o que ultimamente vinha passando mais tempo a tentar não pensar nela do que planejando sua vingança ou com lembranças de sua esposa. Como era a voz de Lucy, mesmo?
Retornou à barbearia e, com muito cuidado com o pedal que abria o alçapão, sentou em sua poltrona, tratando de abrir logo a garrafa de gim. Levando, então, o gargalo à boca e sentindo o ardor bem vindo ao engolir o líquido.
Fechou os olhos com força, concentrando os pensamentos em um fluxo feliz que remontasse a vida de Benjamin ao lado de Lucy e Johanna. Sentindo o sono chegar lentamente conforme a mente mudava o foco aleatoriamente e retornando ao tópico que vinha assombrando e maravilhando o barbeiro recentemente. Sua última lembrança nítida antes da escuridão o envolver sendo de Mrs. Lovett e sua bela máscara de sangue. Um meio sorriso surgindo em seu rosto conforme o sono o fazia pensar na padeira com um afeto que ele imaginava não mais possuir.
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Sentindo-se renovada e não mais cheirando a farinha e carne humana, Nellie saiu do banheiro trajando sua veste de dormir e andando em um caminhar lento, permitindo que o corpo sentisse as dores do trabalho árduo que realizava diariamente. Apesar de tanto, ela trazia em seu rosto um sorriso sutil refletindo o frescor proporcionado pelo banho e a sensação estonteante do tracejar delicado da água ao escorrer de seu cabelo e percorrer sua pele.
Abriu um sorriso doce ao entrar na sala e encontrar Robert deitado no sofá, os pés pendendo para fora de forma infantil visto que ele era maior que o móvel. Os olhos fechados e as mãos repousando no colo refletindo a expressão relaxada do homem.
Notou então que, mesmo estando perto do fogo da lareira, ele parecia sentir frio. Eleanor suspirou resignada. Era bom ter a casa cheia para varia, mas a padeira mal tinha espaço para alojar todo mundo, quanto mais aquecer e alimentar. Contou mentalmente quantos cobertores detinha. Um estava com Miranda e sua filha, que ocupavam o quarto de Toby, outro com Sweeney – apesar de ela desconfiar que o barbeiro nunca o usasse – e o terceiro em seu quarto, que ela vinha dividindo com o menino.
Sabia que os tempos estavam difíceis, mas será que tinha sobrado apenas isso para se cobrir?
Balançou a cabeça confusa por estar se preocupando com algo tão banal quanto cobertas. Ora, ela era uma viúva, por favor. Vinha passando tempo o suficiente sozinha para mal conseguir se alimentar, imagine só se aquecer. Era estranho pensar que ainda se surpreendia com as dificuldades que a vida lhe impunha.
Passaram-se mais alguns segundos em contemplar até que lembrou de algo útil: toalhas de mesa! Ela tinha várias, com certeza. E algumas até relativamente limpas.
Voltou silenciosa para a cozinha e pegou num dos armários a velha toalha azul que usara no piquenique com Sweeney. Espanou um pouco de mato seco e voi lá, nova em folha.
Dando-se por satisfeita Nellie seguiu para a sala mais uma vez, indo direto na direção de Robert e o cobrindo. Demorou um pouco mais ali, os dedos acariciando gentilmente o cabelo macio enquanto admirava o homem que ela passara tantos anos se forçando a esquecer.
O primeiro amor que ela perdeu. Deixando uma ferida que a machucava tanto quanto aquela deixada pela partida de Benjamin anos mais tarde.
ntas vezes em sua vida que uns poderiam julgar que ela não mais sentisse tal dor. Entretanto, era inevitável. O sofrimento pelo qual passava era sempre o mesmo dia após dia, jamais atenuava com o tempo como as pessoas diziam. O amor podia ser belo, mas somente enquanto vivo. Um amor morto jamais seria saudável ao coração. E um coração despedaçado raramente detinha capacidade de retornar ao seu enérgico estado prévio. Isso ela podia afirmar sem nem se dar o trabalho de refletir.
E doía tanto. Cada vez mais acumulando os fantasmas passados em seu peito. Era pior que sufocar. Pior do que o fogo queimando sua carne. Pior que sangrar. Superava a morte em diversos ângulos.
Eleanor muitas vezes se perguntava como se mantivera viva por todos esses bem sabia que a morte era algo que não precisava temer, não quando a enfrentara tantas vezes antes.
Suspirou resignada e fechou os olhos com força buscando espantar as lágrimas que teimavam acumular. A mão ainda acariciando o cabelo de Robert, um sorriso delicado em seu rosto fazendo com que o coração da padeira perdesse uma das batidas.
Parou abruptamente o que fazia quando uma simples pergunta lhe veio à mente.
O que você está fazendo, Nellie? Esclareça a si mesma por quais caminhos você vem forçando o seu coração a seguir.
Balançou a cabeça descontente. Não era óbvio que estava fugindo dos seus reais sentimentos e tentando retornar para o porto seguro que era estar nos braços de Robert? Ela sabia que era cedo demais para julgar ter esquecido o barbeiro, entretanto, não era cedo para declarar amores pelo homem que um dia significou o mundo para si. Não era óbvio que a padeira estava cansando de todo o sofrimento que passou e ainda passava apenas em nome do sentimentalismo?
– Tudo o que eu quero é ficar em paz. Sem nenhum fantasma a me perturbar. – Suspirou cansada. O rosto em uma expressão que exprimia o quão ela havia amadurecido e envelhecido nos anos passados sozinha. — Também espero não ser tida como louca de tanto que eu falo sozinha. – Exclamou tentando voltar à sua natureza fluída, esforçando-se a abrir um pequeno sorriso.
– Louca, porém não menos bela em momento algum. – Soou uma voz que certamente não era a sua – já que era mais grave – a tirando do transe em que se encontrava, fazendo com que ela pulasse de susto. Os olhos castanhos arregalados encarando Robert e o irresistível sorriso maroto que a encantava.
– Desculpe, love. Não era minha intenção te acordar. – Apressou-se a explicar, sentindo as bochechas corarem.
– Se você soubesse quantas vezes já sonhei em acordar e encontrar o seu rosto a me encarar, não se daria o trabalho de pedir desculpas. – Ele falou enquanto acariciava as costas das mãos da padeira. – Eleanor, você não é louca. Uma sonhadora iludida talvez, mas louca jamais. – Continuou a falar. Agora em um tom mais relaxado e com toda a adoração que sentia transparecer pelas palavras. Ajeitando o corpo de forma a poder sentar-se ao lado dela.
– Sonhadora iludida. Só você para me dar um apelido desses. – Mrs. Lovett comentou se aproximando ainda mais do corpo ao seu lado, deleitando-se no calor que dele irradiava. Ficando ombro a ombro com Robert. Um sorriso melancólico aparecendo em seu rosto conforme lembrava dos momentos felizes que passara com ele.
– Você achou em algum momento sequer que eu havia esquecido do traço que fez eu me apaixonar pela menina Millian? – Ele perguntou envolvendo a cintura da padeira com um de seus braços e a puxando para si de forma a juntar ainda mais os corpos dos dois.
– Na verdade, eu achei que você tivesse me esquecido no momento em que descobri a sua partida. Quando vi que você iria casar-se com outra meu mundo simplesmente desabou. Naquele dia eu comecei a questionar se você havia me amado mesmo ou se tudo não tinha passado de pura ilusão. No fim eu cheguei à conclusão de que eu realmente era uma sonhadora iludida. – Ela respondeu juntado toda a sinceridade que conseguiu, as mãos parecendo discutir entre si pelo tanto que os dedo se moviam no claro nervosismo que tentava esconder.
– Eleanor, — Robert começou a falar, puxando o rosto da padeira pelo queixo de forma a fazê-la o encarar. – se eu não tivesse pensado em você todos os dias durante todos esses anos, provavelmente nem estaria mais vivo. Foi o desejo de te encontrar que me manteve em movimento, querida. Eu nunca quis ir embora. Nunca desejei fugir para casar com outra. Tudo o que eu queria era você, sempre foi, e eu estou aqui para lhe provar isso. – Terminou aproximando lentamente o rosto do da padeira, deixando clara sua intenção e dando tempo para que ela pudesse assimilar. Vendo Nellie manter-se estática onde estava, Robert rapidamente avançou os últimos centímetros que ainda os separavam e selou os lábios em um beijo delicado e ao mesmo tempo passional. Um beijo que expressava todos os sentimentos há tanto guardados pelo par, entretanto sem ser em forma das tão sobre-estimadas palavras.
Nellie sorriu durante o beijo ao pensar que por mais que o que estivessem fazendo fosse algo totalmente comum para dois adultos, ela ainda era capaz de sentir borboletas no estômago só com a proximidade. A respiração ficando descompassada como a de uma adolescente inexperiente. Não importava se tivesse beijado Robert ontem ou tantas vezes antes, sempre teria a mesma reação nervosa.
Assim como a voz de Mr. Todd era capaz de deixá-la em transe em questão de segundos, mesmo ele só lhe dirigindo palavras para mandá-la sair de perto. A felicidade da padeira diminuindo um pouco ao lembrar-se de seu inquilino.
Será possível que ela jamais fosse deixar de amá-lo? Seria tão melhor se somente pudesse esquecer que um dia Benjamin Barker já existiu. Esquecer de todos os sentimentos que nutria por ele e em como isso somente aumentou com seu retorno como Sweeney Todd.
– Nellie, por que você está chorando? – Robert perguntou afastando-se do rosto dela ao sentir o líquido salgado entrar em contato com seus lábios, tirando-o do torpor que era tê-la em seus braços. As mãos se apressando para alcançar as bochechas úmidas.
Eleanor soltou um grunhido em agonia. Não percebera que tinha começado a chorar. O que tinha acontecido com todas as barreiras que erguera? Ela não podia amolecer agora. Não quando tinha plena noção do quão sombrio era o mundo em que vivia.
– Eu já não sei muito bem ao certo o porque disso. Foi algo involuntário, confesso, mas já passou. – Ela falou abaixando o rosto e secando as lágrimas que ainda teimavam em sair.
– Nellie, por favor, olhe para mim. Você não precisa se resguardar tanto, eu não vou embora. Não dessa vez, prometo. – Ele a encarava veementemente, tentando compreender o que tinha a deixado tão ferida a ponto de ela ter tanta dificuldade de confiar em alguém. O que tinha feito crescer aquele lado sombrio na menina doce que ele conhecera em sua infância.
– Robert, eu...
– Eleanor, — Ele começou a falar, a silenciando rapidamente. — eu passei tanto tempo longe, tanto tempo fora e de sua vida, mas, ainda assim, nunca parei de pensar em ti durante um dia sequer. Meu coração sofria a cada vez em que me perguntava como você estava, imaginando a mulher da minha vida casada com um homem que não fosse eu. – Robert falou segurando ternamente as mãos da padeira, os olhos não deixando seu rosto em momento algum. Um sorriso gentil iluminando as feições de Mrs. Lovett, enquanto suas bochechas iam corando de forma sutil.
– Robert, por favor, foi tão difícil lidar com a perda durante os anos, então eu lhe peço, my dear, não insista no que até hoje me fere. Não insista em fazer meu coração sangrar mais um pouco. O passado não é um tempo do qual eu me orgulhe.
– Por favor, Nellie, eu apenas faço essa súplica. Tudo o que desejo é poder saber de sua vida. Entender o que você passou para ter formas de me aproximar. Saber de suas dores para ter noção do que lhe feriu, o que marcou sua memória.
– Robert, eu...
– Apenas conte a verdade – Falou a cortando. – sem preâmbulos, sem enfeites. Narre como se fosse um dos romances que você tanto lê se isso te ajudar, mas me conte, por favor.
Sabendo que não tinha mais argumentos válidos para se desvencilhar de ter de falar – e quem diria que um dia Eleanor Lovett preferiria ficar quieta em uma conversa , ela suspirou derrotada e lançou para Robert um olhar que claramente expressava o quão incomodada ela se sentia com aquele assunto em particular.
Suprimiu, então, as lágrimas que logo começariam a rolar por seu rosto e pôs-se a relatar os fatos da forma mais breve e resumida que encontrou. Buscando não demorar muito em sua narrativa que mesmo depois de tantos anos tinha o poder de parecer lhe arrancar fora o coração.
~~ misteriosamente entra a música ~~
''There was a young lady and her fiancée
And he was beautiful
A proper man for his future wife,
But they arranged him another bride
And she was also beautiful.
Robert his name was
Robert Lennington.
.-.
There was another man who saw
That she was beautiful
Tried to separate her from her love
And with her parents made a plan.
Poor thing!''
– E o que houve com a dama, então?
''She had this sister, ya see
Pretty little thing
Loved her like mad
The oldest of the Millian siblings.
Poor thing!
Poor thing!
She thought something, ya see
To get the other free from the man
And she decided to marry him
She said to herself '' Everything will be alright''
Poor fool
Ah, but there was worse yet to come!
Poor thing!
.-.
She sketched the plan and married the guy
Poor thing!
Poor thing!
She tried to get her sister out of such a dreadful life
She told her " Only you still got a hope fire"
She thought she was doing right
Poor dear!
Poor thing!''
Eleanor parou de cantar de repente. O rosto banhado pelas lágrimas que nem percebera ter começado a verter. Era tão difícil manter a concentração quando tudo o que sentia era o mais profundo pesar. Toda aquela dor que carregava há tantos anos. Escondeu o rosto nas mãos e prosseguiu com seu pranto, deixando os soluços angustiados serem o único som no momento. Os braços de Robert a abraçando sendo sua fonte de calor agora que o corpo lhe parecia frio como gelo e tremia descontrolado.
Ela balançou a cabeça inconformada. Não conseguiria terminar de falar. Estava sendo fraca e tola, mas a tristeza era demais para seu coração aguentar.
– Des... Desculpe... – Sussurrou sem saber se havia sido escutada. A voz saindo baixa e trêmula, abafada entre suas mãos e o corpo de Robert.
– Shh – Ele sibilou a silenciando antes que sequer tentasse prosseguir. – Não se preocupe, Nellie, se você não está pronta para falar, então deixe para outro momento. Eu sei que quando for a hora você irá falar. – Continuou, levantado o rosto de Lovett ao segurar delicadamente seu queixo. — Afinal, uma tagarela não consegue ficar quieta para sempre. – Completou sorrindo carinhoso para padeira enquanto acariciava o rosto dela e beijava a testa de forma suave, fazendo cócegas como quando uma pluma toca a pele.
– Um outro dia. Eu lhe prometo contar o que quiser, mas, por hora, saiba que depois que você se foi tudo ruiu. Minha irmã acabou por se casar com o Turpin, pois já estava noiva naquela época e se recusou a desfazer o noivado, acreditando piamente que ainda havia esperança em minha vida. – Eleanor rolou os olhos, resignada. – Se ela não fosse tão cabeça dura, mas acho que é de família. Enfim, dali para frente foi apenas catástrofe. Eu fugi de casa e fui morar com a, então, nova senhora Turpin. Fiquei lá com o pretexto de ajudar minha irmã que estava grávida, mesmo sabendo que teria de lidar com o assédio diário de Charles, era melhor que estar sozinha.
Parou de narrar por um breve período, tomando fôlego para prosseguir.
– Ela morreu no parto. Seu último pedido foi para que eu cuidasse do menino, Michael, meu sobrinho. – Sorriu ao lembrar-se da pequena criatura que uma vez segurou em seus braços com tanto carinho. – E ali, chorando copiosamente, nós nos despedimos. Ela me segurando com a pouca força que lhe restava e o menino entre nós. Lembro-me de pegá-lo e limpar o sangue com o primeiro pano que vi, levantando e me preparando para sair do quarto sem olhar para trás, pois sabia que aquele momento iria me dilacerar para sempre. Ele era tão belo. Mesmo naquele caos pude distinguir alguns traços de minha irmã. Os bracinhos balançando no ar em busca da mãe que ele já não tinha mais.
Mordeu os lábios reprimindo um soluço. Apenas mais um pouco. Disse a si mesma.
– Quando estava prestes a sair e chamar por auxílio, de preferência avisar os funcionários de forma a poder deixar o bebê com alguém e encontrar meus pais, ou Richard, eu ouvi o barulho de passos trôpegos e apressados e algo me avisou que o que estava por vir não seria nada bom. Sabendo que deveria proteger Michael como pudesse, o deixei deitado no berço e avancei para enfrentar o meu cunhado bêbado. Um arrepio percorrendo minha espinha ao apenas sentir o cheiro de álcool que provinha dele e encarar aqueles olhos vazios que tanto me atormentavam. Não deu tempo de falar, muito menos de agir, quando vi, ele já estava jogando meu corpo contra a parede e... – Fechou os olhos deixando mais umas lágrimas caírem.
– Eleanor, não se force, por favor. Eu não vou morrer se você parar de falar agora. Posso não saber pelo o que você passou, mas imagino que tenha sido algo ruim só pelas suas ações. Sei que atitudes também deixam cicatrizes.
– Obrigada... Mas, antes, deixe-me terminar ao menos essa parte. – Respirou fundo mais uma última vez. – Enfim, ele me atacou e você pode imaginar em busca de que. No entanto, eu tive reflexo e por sorte, diga-se de passagem, tinha uma faca por perto – porque, né, eu cortei o cordão umbilical de um recém-nascido – e pude me defender antes que algo acontecesse. E balançando a faca no ar de forma aleatória, acabei por provocar um leve corte eu seu rosto. Nada comparado, é claro, com o ferimento que ele fez em meu ombro com o resto de garrafa que trazia em mãos. Foi com um resto de reflexo que eu cravei a faca em sua barriga e sai correndo de lá desesperada e atrás de ajuda. A visão embaçada pelas lágrimas e a típica escuridão das noites de Londres. O corpo sentindo os efeitos da fadiga do dia e mais a recente briga. O sangue quente se esvaindo a medida que eu me movia, escorrendo pelo corte que eu sabia iria deixar marcas. A última lembrança nítida que eu tenho daquela noite foi de cair sozinha na rua suja, sem forças para andar ou gritar. A certeza de que aquele era o meu fim sendo o único pensamento em minha mente.
Robert apertou mais e mais a padeira em seus braços enquanto ela falava, sabendo que a mulher precisava de todo o apoio possível naquele momento. A expressão vulnerável dela o lembrando tanto da jovem que conhecera tantos anos antes. Ele se manteve calado apenas esperando que ela continuasse.
– Não sei quanto tempo levou, só sei que acordei bem e em um lugar desconhecido. Aquecida e aconchegada. Foi a primeira vez em que entrei nessa casa. Albert me salvou naquela noite, ouvindo meu último suspiro de esperança ao cair desmaiada em frente à sua casa na Fleet Street. – Ela parou de falar e ia deixar por isso mesmo, a dor de revelar o fim da história lhe partindo o coração. Voltou o rosto para Robert e notou a curiosidade latente nos olhos dele, pedindo por mais um pouco. Era só ter um pouco mais de força. – No fim das contas eu descobri que haviam considerado todo aquele evento uma chacina. Charles morreu do ferimento da faca, largado sangrando no chão da própria casa sem ter forças para levantar. Os criados ele havia espanto ao chegar bêbado e irritado, então não tinha ninguém para salvá-lo. Minha irmã já estava morta. E o bebê, ah, o pequeno Michael também não sobreviveu. Afinal, que tipo de recém-nascido desamparado consegue se manter? Os seres humanos não são autônomos iguais outros animais. Nós somos altamente dependentes de nossos iguais e a nossa cria é mais simples prova de tal fato. O tempo que eu passei desmaiada na casa de um desconhecido, foi o tempo de vida e sofrimento do meu sobrinho. Com frio e fome, sem uma alma carinhosa para lhe dar colo. Se eu me culpo pela sua morte? Sim, todos os dias. Eu podia ter feito algo! Se eu fui pega pelo assassinato de meu cunhado, porque sim eu matei Charles Turpin mesmo que em defesa própria? Ainda não. Mas algo me diz que mais cedo ou mais tarde o juiz vai tomar uma atitude quanto a isso. Afinal, Richard pode não ter provas de minha culpa, entretanto, ele tem certeza e com razão de que a culpa é minha. E ele tem poder para fazer o que quiser comigo. Ele mesmo deixou isso bem claro, quando afirmou não ter me prendido, pois ''Existem diversas formas de vingança, minha querida, e ver alguém definhar lentamente é a mais doce delas. Aproveite a vida enquanto ainda sabe o que é sorrir. ''
Terminou de falar percebendo que tinha revelado muito mais do que deveria. Fechando os olhos e deixando as lágrimas rolarem pelo rosto. Preferindo a escuridão que via agora a tornar a encarar Robert e encontrar o olhar assustado que esperava. Temia a reação dele mais do que tudo no momento. Será que ele a julgaria por algo que ela não pode controlar o caminho que tomou?
– Eleanor, não se preocupe eu estou aqui contigo e não te deixarei sozinha de novo. Eu sei que é difícil de acreditar, mas, por favor, acredite em mim quando eu digo que estarei ao teu lado de agora em diante. Já lhe decepcionei uma vez, não pretendo repetir o mesmo erro. E, acima de tudo, irei te proteger do juiz. Ou de qualquer outra pessoa que tente lhe causar algum mal. Eu te amo, Eleanor Millian, e espero sinceramente que um dia você consiga retornar o sentimento. Sei que um dia fui amado por ti, então... – A padeira o silenciou repentinamente ao arrebatar um beijo caloroso de Robert como forma de expressar toda a gratidão que sentia e não conseguiria passar para palavras.
Soltou-o para buscar ar, o coração batendo acelerado e os lábios formando o sorriso de alívio mais belo que o mundo – de acordo com Robert ao menos – já vira. – Obrigada por me ouvir, Robert. Você não sabe o quão aliviada eu fico ao por poder compartilhar isso contigo. É uma parte da minha vida em que você não esteve presente, uma parte que eu pensei em ti todos os dias que se passaram, nunca te esquecendo. Nunca esquecendo o seu amor e do quanto eu te amava.
– Mas você teve de deixar para trás em algum momento, certo? Hey, não estou te julgando, apenas querendo entender. Você se casou, querida, isso significa algo. – Robert comentou apertando as mãos da padeira de forma a mantê-la perto de si, não querendo que ela fugisse como um animal arisco.
– Não, não no meu caso. Eu e Albert casamos mais pela praticidade da ideia. Eu estava sozinha e sem ter onde cair morta, enquanto ele era sozinho também e, tendo um negócio que vinha crescendo mesmo que lentamente, precisava de ajuda, de companhia. Nos juntamos apenas porque era o mais lógico a fazer. Eu vinha passando uns dias com ele para me recuperar e as pessoas estavam começando a fofocar, então a ideia veio em uma conversa qualquer. Era fácil conviver com Albert e eu sabia que ele estaria ao meu lado sempre. Mas ele jamais iria me amar como se ama uma mulher, assim como eu não consegui amá-lo como um marido. Ambos estávamos presos a pessoas com as quais não poderíamos ter um futuro. — Eleanor falou deixando toda a sinceridade que tinha para fazer com que as palavras fluíssem com facilidade através de seus lábios, mas sem saber até que ponto iria continuar a falar. Não se sentia segura o suficiente para revelar o que sentira — ou sentia? Será que o sentimento ainda prevalecia?– por Benjamin Barker.
Robert a encarou sem saber o que dizer. Era muita informação nova para poder processar ao mesmo tempo. Tentou manter o rosto em uma máscara imparcial durante todo o relato, buscando não deixar transparecer qualquer sentimento que estivesse experimentando como forma de preservar a mulher já tão ferida em seus braços. Ele não se julgava capaz de causar mais danos à vida de Eleanor. Por alguns instantes ele se pegou fazendo para si a mesma pergunta que vinha o assombrando desde que voltara. Será que ela tinha se apaixonado por outro? Suspirou tentando entender para onde o fluxo de pensamento tentava levá-lo. Claro, não podia culpá-la por ter seguido em frente, mas desejava com todas as suas forças que o homem de sua história fosse ele. Afinal, ela não podia ter um futuro com ele. Ao menos não quando o considerara morto.
Mas e agora, o que seria dos dois? Robert se perguntava isso o tempo inteiro, mesmo que sem notar. Será que era tarde demais para o amor que um dia fora tão forte? Por que, afinal, ele sabia que ainda a amava, mas não conseguia perceber até que ponto o sentimento se mantinha na mesma intensidade de outrora, ou se tinha se tornado em um amor mais fraternal. E, acima de tudo, ele temia que ela tivesse essa mesma dúvida.
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