Were you really surprised? - Cobrade
2 Capítulo 2
Notas iniciais
E ficou esperando pela resposta. Até que ela chegou. E ela não poderia ser mais simples:
"De: Jade
Para: Cobra
Não."
Jade não estava com cabeça para pensar e muito menos falar com o Cobra. Ele iria aprender, querendo ou não, que ela não era igual as outras. Minutos depois, mais uma mensagem chegou no celular da dançarina. Depois ela que era a insistente.
" De: Cobra
Para: Jade
Qual é, gata? Não tô te pedindo jura de amor eterno, só uma chance. Uma só.
Vai dizer que você não tá com saudade? Sai comigo esta noite. Estou esperando boas respostas.
Bjs"
Jade ficou parada, olhando fixamente para o aparelho em suas mãos. Como ele conseguia ser tão irresistível? Mas não. Já havia saído na noite anterior, então hoje precisava ficar em casa cuidando da mãe, que aliás poderia desconfiar de alguma coisa. Melhor deixar a longa conversa para o dia seguinte.
Lucrécia observava a filha, que estava sentada no sofá a algum tempo, hipnotizada pelo celular. Já preocupada com o que poderia conter naquela mensagem, perguntou:
– O que houve, minha filha?
– Nada não, mãe. — Disse Jade, despertando de seu transe particular e escondendo o celular sem nem ter mandado a resposta. — É só a Joaquina e a sua mania de dramatizar mais do que o necessário de novo. Acredita que ela quer que eu saia com ela hoje de noite para fazer ela esquecer do Renê? Vê se pode? — Forçou um sorriso e pensou que a orelha da Joaquina deveria estar fervendo naquele exato momento.
– E por que você não vai? Afinal, ela é sua amiga e amiga é para essas coisas. — Comentou Lucrécia, deixando a filha confusa.
– Como assim, mãe? Hoje é dia de semana e eu já saí ontem, lembra? Você não vai dizer que para ser a melhor é necessário dedicação exclusiva e oito horas de sono? — As perguntas saíam antes que Jade pudesse evitar. Por que logo hoje, quando ela precisava de uma boa desculpa para ficar em casa, sua mãe resolveu empurrá-la para os braços do vagabundo? Alguns dias atrás ela ficaria radiante com a ideia, mas agora... agora as coisas estavam confusas.
– Minha filha, é claro que eu sei que hoje é dia de semana e obviamente me lembro que você já saiu ontem. E continuo afirmando com total certeza que para ser a melhor é necessário dedicação exclusiva e oito horas de sono, mas eu também acredito que a sua felicidade é importante. Que tipo de mãe eu seria, se privasse minha filha de viver as coisas boas da vida enquanto ela pode? — As palavras da mãe deixaram Jade pensativa. Ela estava agindo feito uma vadia mentindo para a mãe doente e deixando-a sozinha para se encontrar com um vagabundo em uma sala nos fundos do trabalho dele. Certamente, se soubesse disso, dona Lucrécia não falaria em "coisas boas da vida". Mesmo assim, a professora continuou: — Vai, minha filha, vai sim. Consola a sua amiga, porque ela está precisando de atenção. E para não dizer que eu deixei totalmente de lado a bruxa que há em mim, volta antes da meia noite, certo? — sorriu, encorajando Jade a fazer o mesmo. Se insistisse na ideia de ficar em casa, a mãe poderia desconfiar, e também, se ela já tinha que acabar tudo com o Cobra, que fosse o quanto antes.
– Tá bem, mãe. Eu vou dar a atenção que a Joaquina precisa. — Lucrécia pareceu satisfeita com a resposta de Jade, então levantou-se da cadeira de onde estava e foi em direção ao quarto, sorrindo. A dançarina aproveitou o momento sozinha e mandou a resposta para o Cobra:
" De: Jade
Para: Cobra
Tá bom, vagabundo.
Mas não se anima muito não, viu? Porque eu não prometo nada.
Passa aqui lá pelas 20:30
Bjs"
Assim que recebeu a mensagem, um sorriso brotou no rosto de Cobra. É claro que ela não resistiria aos seus encantos, mais cedo ou mais tarde ela acabaria cedendo e falaria com ele. Pegou a carteira e pensou onde poderia levar a sua dama com aquela esmola que tinha no bolsa. Bom, aquilo ele resolveria depois. Foi então que se deu de conta que tinha treino marcado para mais tarde, mas aquilo não tinha mais importância. Jade havia lhe dado outra chance e esta ele não desperdiçaria.
***
A tarde se arrastou enquanto Cobra tomava seu banho e colocava o seu melhor perfume. Ainda não sabia se o programa que havia arrumado estava a altura da sua dama, mas era o que ele tinha a oferecer. Mal sabia ele que enquanto isso, Jade estava desesperada em frente ao guarda-roupa. Quem diria que algum dia Jade Gardel, sempre tão decidida e confiante em relação às suas roupas e maquiagens, naquele dia estaria insegura para se vestir para um encontro com um pé-rapado. E pior: para o seu último encontro com esse pé-rapado, pois ainda estava confiante na sua decisão.
Acabou se decidindo pelo primeiro vestido que havia experimentado com um salto alto e uma bela maquiagem. Ele era simples, já que ela ainda não sabia para onde Cobra a levaria.
Quando chegou a hora marcada, recebeu uma mensagem:
"De: Cobra
Para: Jade
Tô na frente do seu prédio. Quer que eu suba para te buscar? hahah
Bjs"
A sua resposta foi:
"De: Jade
Para: Cobra
Mas nem em sonho, vagabundo! hahahah
Tô descendo.
Bjs"
Enquanto Cobra a esperava, ansioso, dentro do carro, Jade foi se despedir de sua mãe:
– Já vou indo, tá mãe? — Lucrécia já estava deitada tomando o seu chá. Após receber um beijo da filha, respondeu:
– Tá bem, minha filha. Vá com Deus, te cuida e manda um beijo para a Joaquina. — Mesmo pensado algo como "melhor não", a resposta de Jade foi um sonoro:
– Claro, pode deixar! — E então saiu. Quando estava na porta, ainda ouviu sua mãe a lembrando do horário marcado para a volta para casa, e não pode evitar de pensar que se alguma coisa acontecesse com a Lucrécia, ela sentiria falta até do seu lado meio "bruxa".
Quando Jade surgiu na portaria do seu prédio, deixou Cobra paralisado. Ela estava linda. Assim que o lutador desceu do carro, Jade pôde ver que ele estava se esforçando para agradá-la, e estava conseguindo. Ele vestia uma calça jeans surrada e uma camisa social com as mangas puxadas na altura dos cotovelos. Na hora de cumprimentarem-se, Cobra tentou arrancar um beijo da sua dama, porém no último momento, Jade virou o rosto, deixando para Cobra apenas o canto da sua boca.
– Pelo que eu me lembro... — Explicou-se a dançarina. — Você me pediu uma chance, e não um beijo. — E então sorriu, irônica.
– Interprete como preferir. — Brincou Cobra, enquanto abria a porta para que Jade tomasse seu lugar no carro, em seguida correndo para o outro lado e pegando no volante.
O tempo do caminho da casa de Jade até o local do encontro foi curto e correu em silêncio, já que nenhum dos dois se incomodava com ele. Assim que chegaram ao lugar, Jade quase teve um colapso.
– Sério, Cobra? — Ela ria.
– O que? — Mesmo sem entender o que estava acontecendo, Cobra estava feliz por tê-la feito sorrir.
– Você não me conhece mesmo, né vagabundo? — Ela divertia-se. — Você quer me reconquistar e me traz para um pagode? Ninguém merece!- Ela se explicou, em meio a risos.
– Ah, é isso. — Sem perceberem, andavam em direção a pista de dança de mãos dadas. — Eu sei que não é lá como as balada que você tá acostumada, mas é tudo o que o meu pobre bolso de vagabundo pode oferecer. E também, uma boa dançarina como você deve saber dançar todo tipo de música. — Ele a puxou para mais perto de si.
– Que eu saiba, entre nós dois, quem sempre dizia que não sabia dançar era você. — Ela se afastou, provocante.
– Isso é um desafio? — Ele arqueou as sobrancelhas.
– Interprete como quiser — Jade, sua burra! Nesse momento, você devia estar terminando tudo, não recomeçando o joguinho!. Realmente, para onde foi o plano de "acabar com tudo o que eles tivessem, seja lá que diabos fosse"?
Então começou uma outra música e Cobra envolveu a cintura de Jade com seu braço esquerdo e com o direito elevou a mão esquerda da morena, puxando-a para uma dança.
Sonhos, planos
Do dia pra noite tudo isso se perdeu
Gotas rolam
A cada movimento que a vida me remete a nós
Seus corpos estavam perto o suficiente para que pudessem sentir a respiração ofegante um do outro. Estavam mergulhados naquele olhar de uma forma tão intensa que Jade podia jurar que não havia mais ninguém dançando, apenas os dois. Já o Cobra sabia que poderia passar dias e dias desvendando cada mistério contido naqueles olhos e jamais se cansaria. Só precisava de uma chance.
Nossos lábios
Se completam de um jeito tão perfeito
Que eu guardo em mim
Hoje vejo o fim
Os lábios estavam trêmulos, pedindo um pelo outro. Por que você tem que ser tão irresistível, vagabundo?, desesperava-se Jade. Para tentar afastar esses pensamentos, a dançarina desvincilhou-se do olhar magnético do Cobra e repousou sua cabeça no ombro forte do lutador. Mesmo sem ter entendido a razão do afastamento de Jade, Cobra aproveitou o momento para sentir o cheiro de Jade, pelo qual ele sempre foi viciado, desde a primeira conversa entre os dois. A cada respiração, Jade arrepiava-se um pouco mais.
E entendo que
Um dia mal
Chega para quem merece ter um dia bom também
Irracional
Dizer que quero te ver mais feliz
Nos braços de outro alguém
Eles já não eram iguais ao que eram antes. Mesmo que nenhum dos dois admitisse, era claramente visto que toda aquela história de "puro interesse" e "troca de favores" era mentira. Eles estavam juntos porque queriam se ajudar. Porque gostavam e precisavam um do outro. Sabiam disso, mas eram orgulhosos demais para falar. Preferiam demonstrar, como naquela dança. Se quisesse, bastava o lutador jogar seu charme e teria várias na sua mão. E a dançarina certamente não teria grandes dificuldades em seduzir qualquer outro. Porém, ambos preferiam estar ali, naquela eterna queda-de-braço.
Eu sofro ao te ver
Arrogante, mas preciso estar distante pra você olhar
Pra trás e perceber
Surpreendendo Jade, Cobra a prende mais perto de si e investe em uma sequência de giros que fez a bailarina perder o fôlego. Boa condução, pensou, pena que é tarde demais. Cobra era imprevisível. Em uma tarde, ele havia mudado de novo, desta vez para melhor. Lá estava ela, novamente admirando aquele rosto, pensando em tudo o que já havia sentido por ele. Atração puramente física. Carinho. Raiva. Medo. E agora? Nem ela sabia direito. Só sabia que estava cansada. Aquela montanha-russa sentimental, apesar de ser ótima como naquela dança, exigia um esforço grande.
Que sou eu
Teu porto seguro
Do seu coração o dono sou eu
O abraço mais sincero
O beijo mais gostoso é meu
O seu porto seguro
Do seu coração o dono sou eu
O abraço mais sincero
O beijo mais gostoso é meu
Cobra não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Jade estava ali, em seus braços, mas parecia estar distante. Por que ela tá fazendo isso?, perguntava-se. Tortura quebrava todas as regras estabelecidas no jogo particular do dois, e agora ela não tinha o mínimo pudor de fazê-la. Por quanto tempo?, pensava o lutador. Ao mesmo tempo, Jade fraquejou e ergueu novamente os olhos em direção ao Cobra. Viu que ele mantinha o olhar fixo em sua boca e isso fez com que o seu coração acelerasse perigosamente. Pensar naquele beijo fazia com que ela se esquecesse de todos os seus argumentos para terminar tudo entre eles. Ela o queria, e pelo que podia perceber, Cobra também a desejava.
Um dia mal
Chega para quem merece ter um dia bom também
Irracional
Dizer que quero te ver mais feliz
Nos braços de outro alguém
Eu sofro ao te ver
Arrogante, mas preciso estar distante pra você olhar
Pra trás e perceber
As mãos tremiam e as pernas estavam bambas. Era no mínimo estranho. O lutador sem escrúpulos estava vulnerável a cada movimento daquela dama. Já a dançarina acostumada a fazer piada com a vida de todos sem o menor respeito, estava a mercê de um simples vagabundo. Se os seus inimigos os vissem naquele momento, certamente iriam tirar deles o posto de "vilões da história".
Eu, eu, eu, eu
Teu porto seguro
Do seu coração o dono sou eu
O abraço mais sincero
O beijo mais gostoso é meu
Teu porto seguro
O dono do seu coração sou eu
O abraço mais sincero
O beijo mais gostoso é meu
Sem que percebessem, todas as forças acabaram-se, as armaduras caíram por terra e eles dividiam um beijo que terminava com a angústia daqueles três minutos de dança. Eles precisavam daquilo. Era vital, mais do que o próprio oxigênio, que começava a terminar-se.
Só meu
Só meu
Só meu
Quando conseguiu se organizar e percebeu o que estava fazendo, Jade se desesperou. Não era isso que ela tinha planejado. Obviamente, ela não queria parar. Por que ele sempre consegue?. Já para Cobra, aquilo parecia um sonho, do qual ele só foi acordado quando sentiu o salgado das lágrimas de Jade invadindo sua boca. Afastou-se rapidamente, pensando no que poderia ter feito de errado. E então ouviu, entre soluços:
– Eu não... não... podia... ter feito... isso. — Foi então que a viu sumir entre as pessoas.
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