Depois de alguns segundos, o cabo começou a ser alçado. Durante a subida, o equipamento da bailarina falhou.

O cabo se desprendeu.

E ouviu-se apenas um grito antes do corpo da Jade cair desacordado no chão.

***

O táxi andava lento demais, porém Cobra não tinha forças para reclamar. Parecia ter entrado em outra dimensão desde que John havia ligado e dado a notícia. O lutador lembrava-se do seu celular sendo arrancado da sua mão pela Karina e de ser puxado por ela para dentro de um táxi. Agora estava ali, sentindo-se meio tonto pela luz dos faróis passando ao redor e pela música monótona que tocava no rádio.

Só conseguia pensar que Jade estava no hospital e que ele não estava com ela.

Sentiu a culpa sendo mais forte e lhe fechando os olhos, mas Karina o sacudiu pelos ombros.

– Pode ir parando, Cobra! Pode começar a sair desse transe, desse pré-desmaio, seja lá o inferno que você estiver sentindo! A gente já tá chegando no hospital e a Jade não precisa de um fracote do lado dela agora, portanto trata de melhorar essa cara e agir como um homem. — Disse ela duramente, mas se arrependeu quando Cobra ergueu um olhar marejado.

– É culpa minha, Karina. — Disse ele, tentando conter um soluço. — É tudo culpa minha.

– Do que você tá falando, garoto?

– Eu prometi pra Jade que ia cuidar dela, proteger... — Ele enxugou uma lágrima. — E agora ela tá no hospital. Ela pode morrer, Karina!

– Calma, Cobra... A gente nem sabe como é que tá a situação agora. O John ligou pra você quando tava chegando no hospital ainda... — Lembrou Karina, tentando convencer também a si mesma de que notícias melhores estavam por vir. — E a Jade é forte. Não vai ser um tombinho desses que vai derrubar ela.

Cobra não respondeu. Estava perdido demais para isso.

Assim que o táxi parou, ele saltou para fora, deixando Karina pagando a corrida. Chegou na recepção do hospital desnorteado, procurando pelo John. Assim que o encontrou, foi correndo na sua direção.

– Cadê a Jade?! — O bailarino ficou atordoado e não respondeu. Cobra perdeu a paciência e o puxou pela camisa. — CADÊ A JADE, INFELIZ?! RESPONDE!

Calma, Ricardo... — John respondeu, num sussurro, enquanto afastava o lutador. — A Jade chegou aqui e teve de passar por um curto procedimento cirúrgico na coluna, mas...

– Procedimento cirúrgico?!Desesperou-se Cobra.

– Mas ela já foi encaminhada para o quarto e o médico tá esperando ela acordar para conversar com ela. É só disso que eu sei por enquanto. — John suspirou, procurando palavras para confortar o brasileiro. — Ricardo... Eu sei que você pode tá com raiva de mim pelo meu beijo na Jade, mas ela gosta de você, cara. Ela pode ter tudo esse disfarce de mulher forte, que não se abala por nada, mas no fundo ela precisa de você. Foi por isso que eu te chamei hoje, mesmo sabendo que vocês não estavam mais juntos. Imaginei que você ainda se preocupasse com ela. — Ele avaliou a expressão do lutador. — Pelo visto eu acertei, não é?

Cobra balançou a cabeça, afirmando. Lutando contra as lágrimas que teimavam em cair, desabou no sofá, incapaz de expressar em palavras a guerra de sentimentos que havia em seu peito.

***

Jade lembrava-se da altura, do estouro, da queda. Aos poucos, tomou consciência do que havia acontecido e tentou abrir os olhos, mas eles pareciam pesar toneladas. Respirou fundo, juntou todas as suas forças e tentou novamente abrir os olhos. Precisava ter certeza que estava viva. Assim que a escuridão se acabou, ela percebeu que o quarto era branco e a luz era forte demais. Depois de piscar algumas vezes, acostumou-se a claridade e percebeu que não estava sozinha.

– Olá, Bela Adormecida... – Um homem alto e grisalho sorriu na beirada da cama. Doctor Campbell, informava o crachá. – Como vai a nossa pequena fada?

– Fada? – A voz da bailarina saiu como um sussurro, mas serviu para certificá-la de que estava viva. Se eu tô viva e isso aqui é real, por que diabos esse homem tá falando de fadas?

– Resolveu alçar voo por aí, acho que você pensou que voava como uma fadinha... – Ele se permitiu uma curta gargalhada, talvez por se achar engraçado, talvez para diminuir a tensão do local. – Mas enfim, como você se sente, Jade?

– Dormente. – Respondeu a morena, depois de alguns instantes assimilando a pergunta. – Pelo jeito vocês me doparam mesmo...

– Foi necessário. – Ele disse, com voz firme. – Os seus acompanhantes fizeram algo que não deveriam: transportaram a senhorita. Em casos como este, um acidente, os pacientes devem permanecer exatamente do mesmo jeito até que o socorro chegue. Porém, no momento do desespero, eles lhe trouxeram até aqui. A senhorita chegou ao hospital desacordada, foi medicada, passou por exames e foi encaminhada para a sala de cirurgia, onde passou por um pequeno procedimento na coluna...

– Coluna...? – Interrompeu Jade, imaginando se haveria algo errado naquela falta de sensibilidade. – Os meus movimentos... Eu ainda posso andar, doutor?

– Claro, Jade. – Ele sorriu, calmo. – Mas sinto informar que haverão restrições.

– Restrições? Doutor, eu sou uma bailarina. Minha movimentação ter que ser perfeita. – Ela pausou, atordoada. – Minha coluna tem que ser perfeita.

– Sinto muito, mas a senhorita não pode mais fazer movimentos que exijam muito esforço da sua coluna. – O homem já dava sinais de cansaço depois de um início de noite bastante movimentado. – Nós fizemos o possível, mas infelizmente não conseguimos mudar este quadro.

– Acho que o senhor não está entendendo... Isso não pode acontecer! – Jade começou a se desesperar. – É a minha carreira, doutor! Minha vida!

– Penso que a solução seja procurar uma nova carreira, senhorita. Caso contrário, suas dores serão tão fortes que provavelmente a senhorita ou viverá dopada de remédios, ou não conseguirá sair da cama. – Ele a analisou, com pesar. – Sinceramente, não a imagino em nenhuma dessas situações. Jade, você é muito nova ainda. Você com certeza tem muitos outros talentos. Não desanime só porque a sua carreira teve de ser interrompida.

Ele não entendia. Não era só uma carreira interrompida. Era o projeto de uma vida inteira; era uma promessa feita para a mãe. Era tudo isso acabando por causa de um cabo desprendido.

Ao ver os olhos da sua paciente enxerem de lágrimas, Dr. Campbell fez um último apelo antes de deixar o quarto:

– Pela sua saúde, pelo seu bem-estar, por favor: siga em frente. Você tem uma vida inteira ainda, Jade. Não jogue ela fora.

Ao ouvir o barulho da porta fechando, Jade se permitiu chorar. Soluçava tanto e estava tão ausente da realidade que levou um susto quando ouviu a porta ser aberta novamente. Imaginando ser o John, Jade esbravejou, enquanto enxugava as lágrimas:

– Pelo amor de Deus! ME DEIXA SOZINHA!

– Eu não consigo. – Confessou Cobra, num sussurro. – Eu tento, e pode me chamar de bobo por isso, mas parece que sempre tem uma coisa que me puxa pra perto de você de novo. E como eu sou um fraco, eu venho.

– Cobra, a minha situação já é bastante humilhante. – Ela disse, encarando o lutador. – Então, por favor, me poupe da sua piedade.

– Não é piedade, Jade. É carinho, é cuidado. É vontade de tá junto, é medo de perder. É amor. – Ele baixou a cabeça, envergonhado. Baixinho, ele admitiu: – Eu acho que te amo, dama.

– O que?! – Surpreendeu-se a bailarina.

– O que?! – Cobra desconversou.

– O que você disse?

– Quem?!

– Você, Cobra!

– Hein?!

– Para, vagabundo! – Ela sorriu, mal acreditando no que tinha ouvido. – Você disse que me ama.

– Eu disse isso? – Cobra foi se aproximando da maca, vagarosamente.

– Disse sim. – Afirmou Jade, emocionada.

– E você? Não vai dizer nada? – Perguntou Cobra, temeroso.

– Quem?!

– Jade, Jade... Não faz isso com o meu coração vagabundo, não... – Ele sorriu, nervoso.

– Cobra, eu queria muito, mas eu não posso dizer nada. – Cobra sentiu o peito apertar ao ouvir aquelas palavras. Jade, lembrando-se do motivo do término entre os dois, falou com a voz embargada: – Você me traiu, vagabundo, me machucou. Eu simplesmente não posso amar alguém assim.

– Mas que inferno, Jade! Eu não te trai porra nenhuma, caramba! – Exclamou o lutador, exaltado. – Quantas vezes eu vou ter que repetir isso?!

– Ah é?! Então como você me explica aquele encontro com aquela loira falsa lá no Rio? Vocês ficaram colocando a fofoca em dia, foi? – Questionou a ex-bailarina, sarcástica.

– Eu te explico, mas só se você prometer que vai esperar eu contar tudo antes de começar a me julgar. – Pediu Cobra, antes de iniciar seu desabafo.

– É claro que eu prometo! Agora fala logo! – Apressou a morena, impaciente. Queria saber quem era realmente o cara que estava na sua frente.

– Tá... – Cobra suspirou, enquanto sentava-se na beirada da maca. – Aquela moça era a Júlia. Ela foi minha noiva antes de eu sair de Goiânia.

– Noiva?! Você já ficou noivo antes, Cobra?! – Perguntou Jade, pasma.

– Fiquei, mas foi diferente do que é com você. – Cobra passou a mão na cabeça, nervoso e sem saber por onde começar. – Jade, você lembra de como eu era quando cheguei no Rio?

– Se eu lembro daquele marginal irresponsável, machista, egocêntrico e agressivo? Lembro sim. – Respondeu Jade, concentrada na história.

– Pois é. Eu era assim porque saiu de Goiânia revoltado e... Fugido. – Diante da expressão confusa da bailarina, Cobra se apressou em explicar: — Acontece que eu vi a minha família perder tudo pro banco. Casa, terreno, carro... Tudo! Vi meu pai tendo que se virar pra sustentar a gente, vi minha mãe chorando baixinho de madrugada quando as contas não fechavam, vi meus irmãos passando fome. Senti na pele o olhar de desprezo dos ricos da cidade quando a gente passava na rua.

– E o que a Júlia tem a ver com isso?

– Nessa época, eu já era noivo da Júlia há um bom tempo. Um dia, ela começou a sentir muita dor nas costas, muita mesmo! Tipo, ela mal conseguia ficar de pé! A Júlia foi em um médico e ele disse que ela tinha uma doença, que o nome eu nem lembro mais. A cura seria uma cirurgia na coluna. Essa cirurgia custava caro... Muito caro. – Cobra pausou um instante, incrédulo. Como ele tinha conseguido fazer aquilo?

– Fala, Cobra! Tá me deixando nervosa! – Insistiu a moça, agoniada.

– A Júlia começou a juntar todo aquele dinheiro e ela confiava em mim. Era eu quem cuidava da conta bancária dela. Então a minha família começou a desmoronar aos poucos e eu simplesmente não podia ficar mais lá. Aí eu...

– Não, Cobra. Você não fez isso! – Indignou-se a ex-bailarina, chocada.

– Se com “isso” você quer dizer “roubar todo o dinheiro da minha noiva da maneira mais cruel e suja possível”, sim, foi exatamente isso que eu fiz. – Despejou Cobra, de uma vez só.

– Como você conseguiu?! Isso me dá nojo, Cobra! Você...

– Você prometeu que não ia me julgar antes que eu terminasse. – Interrompeu Cobra, desolado. Agora, contando tudo de forma aberta, suas cicatrizes vieram a tona. As marcas do seu passado, sempre tão bem trancadas, estavam totalmente expostas naquele momento e Cobra nunca havia se sentido tão vulnerável. – Quando eu juntei coragem, fui até o banco e limpei a conta da Júlia. Passei em casa correndo, peguei algumas roupas e joguei dentro da mochila. Meu pai viu o dinheiro, percebeu o que estava acontecendo e disse que se o covarde do filho dele saísse pela porta... Não precisava mais voltar. E eu fui. – Cobra suspirou, enquanto enxugava suas lágrimas. – E nunca mais voltei. Meses depois eu fiquei sabendo que o meu pai tinha sofrido um infarto e tinha morrido. Até hoje meu irmão diz que foi por desgosto.

– Mas você nunca comentou comigo sobre a morte do seu pai... – Comentou Jade, perdida. Se suas contas estavam certas, naquela época o Cobra já estava no Rio e, se duvidar, os dois estavam até namorando.

– Porque eu ignorei. Eu não tinha coragem de voltar pra lá... Não depois de tudo o que eu fiz. – Cobra ainda não encarava a ex-bailarina. Por vergonha, por medo. – Todo mundo queria me ver pelas costas, Jade, até a minha família. Como eu não apareci, depois que se recuperou, a Júlia veio atrás de mim, pra desabafar, pra me xingar e acabou que a gente se entendeu. De um jeito meio torto, mas foi. Eu só não queria que você soubesse de tudo isso antes, então eu evitei ao máximo o encontro de vocês duas. Só que você entendeu tudo errado.

– Por que você não queria que eu soubesse dessa história, Cobra? – Perguntou Jade, confusa.

– Por medo que você me achasse um canalha e me desse um fora. O mais irônico é que isso aconteceu do mesmo jeito. – Ele sorriu tristemente. – Agora que você sabe de tudo... O que você vai fazer?

– Antes eu preciso esclarecer só mais uma coisa, vagabundo... – Jade respirou fundo, tensa. – Você tá arrependido? De verdade?

– Você não entende, não é? – Cobra levantou-se e foi na direção da cabeceira da maca. Aproximou seu rosto do da morena e o acariciou levemente com a mão, logo em seguida, pousando-a na nuca da ex-bailarina. Olho no olho, coração acelerado, ele afirmou: — Você mudou tudo. Desde que eu te conheci, Jade, nada mais é do jeito que era. Parece que a vida teve sentido, sabe? Você ajeitou tudo. A confusão que eu era, de repente, se acalmou. E, respondendo a sua pergunta, eu não tô arrependido. Eu tô mudado. E hoje, eu só consigo sentir nojo do que eu era, mas infelizmente eu não consigo mudar o passado. Se desse, com certeza eu faria.

Ali, de tão perto, Jade não sabia ao certo o que pensar. A boca do lutador tão próxima da sua lhe tirava a concentração, mas ela tinha que falar alguma coisa. Com a voz falha, a morena balbuciou:

– Já que você terminou... Eu posso dizer...

– Dizer...? – Estimulou Cobra, ansioso pelo que poderia acontecer.

– Dizer que eu te amo demais, vagabundo.– Ao ouvir aquilo, Cobra não se conteve. Puxou Jade para um beijo intenso. Apaixonado.

O tão esperado “eu te amo” foi sussurrado, em meio a traumas e em um quarto de hospital. Nada de "gritar para quem quiser ouvir", nada de quarto romântico enfeitado com rosas. Estava longe de ser épico ou clássico, mas foi o “eu te amo” deles. Aquilo por si só o tornava memorável.

Depois de um incalculável tempo matando a saudade um do outro, o casal foi interrompido por uma enfermeira. Hora do remédio.

Mal sabia ela que o melhor remédio para Jade era o Cobra do seu lado.

Notas finais
Oii, meus amores!! Desculpa pela demora! E obrigada pelos comentários! Agora tô de férias (aeeeee!!) e pretendo postar mais seguido, ok? Ok. Tô meio cansada para ficar escrevendo notas, então conversamos nos reviews! Beijinhos! AHH!! GENTE, VAI TER CASÓRIO EM MALHAÇÃO!!! E VAI SER COBRADE, PORQUE COBRADE MANDA NESSA PORRA TODA!!! Desculpem, acho que me exaltei um pouquinho. ushaushuah