Were you really surprised? - Cobrade
37 Capítulo 37
Notas iniciais
– [...] e em homenagem a nossa querida carioca, Rio de Janeiro, no Brasil.
***
– Vai ser um fim de semana em cada cidade, com apresentações na sexta, no sábado e no domingo. Tudo isso vai dar pouco mais de um mês. — Finalizou Jade, depois de explicar passo-a-passo o roteiro da viagem.
– Você tem mesmo que ir?
– É bem importante pra minha carreira, vagabundo. — Respondeu Jade, com certa irritação, afinal já era a terceira vez que ele perguntava aquilo. — Qual é o teu medo?
– Medo é coisa de gente fracassada. Eu só tô... Você sabe. — Ele terminou, deixando a bailarina completamente perdida.
– Não, eu não sei. Dá pra especificar?
– Se eu falar, você vai dizer que tá ficando chato ou não sei mais o que.
– Acontece, Cobra, que eu ainda não consigo ler pensamento, então se der pra ser um pouco mais claro seria ótimo. — Intimou ela, perdendo a paciência.
– Tá... É que você e o John, viajando juntos, durante tanto tempo...
– Ah, fala sério, Cobra! — A garota levou a mão a cabeça e a passou pelos cabelos. — Eu vou tá com um monte de gente e você só pensa no John? Supera, vagabundo! — Ela riu e ele acabou rindo junto.
– Tudo bem. Só... Se cuida, tá? — O lutador se aproximou e pôs alguns fios de cabelo da menina para trás da orelha, aproveitando e fazendo um carinho de leve no seu rosto. — Eu não vou tá lá pra te proteger se alguma coisa acontecer.
Ela sorriu, finalmente entendendo que todas aquelas perguntas era só preocupação. Afinal, ele tinha prometido.
– Sabe, Cobra... Se eu pudesse, levava você na mala. — Ela falou, baixinho.
– Ah é? Por que? — Perguntou o lutador, já sabendo da resposta.
– Porque sempre é bom ter um segurança por perto... Esse mundo tá tão violento, né? — Respondeu a bailarina, provocante.
– Só por isso? — Disse Cobra, a pegando firme pela cintura e trazendo a moça mais para perto de si. — Pensei que eu fosse mais útil...
– Tem razão. — Admitiu ela, já completamente entorpecida. — Tem várias outras coisas em você que eu preciso.
***
Faltando duas semanas para a apresentação no Rio, Jade não poderia estar mais ansiosa. Fazer uma apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, lugar onde várias vezes já tinha assistido grandes espetáculos ao lado da mãe, era emocionante. Além de que estava com saudades de absolutamente tudo. Da Joaquina, do Lírio, do Edgard, da Dandara e até um pouco da Bianca, sem falar no Jeff, na Mari, na Sol, no Pedro, no João, na Guta. Estava com saudade da cidade, da Ribalta, do seu apartamento. Pessoas e lugares que faziam parte da sua vida, porém de uma forma diferente agora que ela estava longe. Era como se eles fossem boas memórias que ainda estavam ali, prontas para dar início a novas assim que a bailarina voltasse para casa.
Toda essa saudade que ela sentia das coisas que deixou para trás quando foi embora do Rio era até aceitável, mas o que dizer sobre a saudade da Karina, da Alice e, principalmente, do Cobra?
Menos de um mês longe de casa e o lutador não saia do seu pensamento. Quando ela ensaiava, descansava, dormia e acordava, lá estava ele marcando presença. Ansiava por sentir seu cheiro, o seu toque, olhar em seus olhos e beijar a sua boca o mais rápido possível. Sentia um aperto forte em seu peito quando pensava nessas coisas e imaginava se ele estaria sentindo o mesmo.
E estava.
Desde que Jade saiu de Las Vegas, Cobra só sabia sentir sua falta. A rotina tinha ficado mais monótona sem o sorriso da bailarina e os dias começaram a passar mais devagar. Obviamente, se falavam sempre que dava, porém assim que desligavam a chamada, Cobra pensava em ligar novamente e alimentar o seu vício pela garota. Raramente fazia isso, pois sabia que incomodava e não era isso que ele queria. Queria vê-la feliz e se a turnê a deixava assim, faria o possível da sua parte para que ela fosse um sucesso.
***
– ESQUENTADINHA!!! – Berrou Pedro, dando giros na cadeira em frente ao computador, assim que a Karina aceitou sua chamada de vídeo.
– Ai Pê... O volume já tá alto, não precisa gritar. — Comentou ela, fazendo careta e cutucando o ouvido, verificando se não estava surda.
– Também tô morrendo de saudades, namorada! — Continuou o guitarrista, ignorando o comentário da lutadora. — É por isso que eu quero te fazer uma proposta.
– Proposta? — Karina sentiu um frio percorrer sua espinha. — Eu tenho até medo quando você fala assim, Pê.
– Relaxa, esquentadinha! – Ele ficou sério de repente e apontando para tela, falou com voz confiante: — Lembre-se: Não tema! Com Pedro...
– Não há problema. — Completou Karina, rindo. — Eu sei. Mas fala aí, qual é a proposta?
– Na verdade, é pra você e pro Cobra... Dá pra chamar ele?
Mesmo sem entender, Karina chamou o amigo.
– Fala, maluco! — Cumprimentou o lutador. — Que tá pegando?
– É o seguinte: daqui há duas semanas, vai rolar uma ação do C.R.A.U e... — Foi interrompido por uma gargalhada do lutador. — O que aconteceu, Cobra?
– Faz tanto tempo que você não pratica essa ação que até esqueceu o nome, né guitarrista? — O lutador riu mais ainda, fazendo com que o Pedro e a Karina entendessem menos ainda.
– O que?
– É ação do créu, cara! — Concluiu o lutador, fazendo com que a Karina risse junto.
– Não é possível... — Murmurou Pedro, com o rosto enfiado entre as mãos, negando-se a acreditar no que tinha ouvido. — Além de tarado, é desinformado! É C.R.A.U, Cobra! Comando Revolucionário dos Anarquistas Unidos. É um grupo de pessoas que faz manifestos sociais por uma vida melhor e coisas do tipo. Eles são amigos do Nando e nos conheceram por meio dele.
– E o que a gente tem a ver com isso? — Perguntou Cobra, se dando conta do mico que tinha passado.
– Como eu ia dizendo antes da sua interrupção filosófica, lutador, daqui há duas semanas tem uma ação do C.R.A.U na praia, com apoio da prefeitura e tudo, em conscientização contra a sujeira na praia. Vai ser três dias consecutivos, sexta, sábado e domingo. Então eles nos convidaram pra animar as três noites do evento. Não é incrível?
– Como eu ia dizendo, o que a gente tem a ver com isso? — Perguntou Cobra, sem muita paciência para toda aquela enrolação de músico feliz.
– Sim, é incrível, Pê! — Concordou a Karina, acalmando os ânimos daquela conversa.
– Eu também acho, esquentadinha! A gente sabe que não é nenhum 'Rock in Rio' ou 'Lollapalooza', mas vai ser a nossa estreia pra um grande público, já que vai no meio da praia e vai ter um monte de gente. Como vai coincidir com a data das apresentações da Jade aqui no Rio, eu pensei que vocês pudessem vir pra cá.
– Eu tô dentro! — Respondeu Cobra, talvez um pouco rápido demais. — Quer dizer, eu ainda não voltei a treinar e não tenho nada pra fazer, então tá de boa.
– Eu sei o que é saudade, lutador, fica tranquilo. E você, esquentadinha? Vai fazer o coração deste pobre poeta bater um pouco mais feliz? - Perguntou ele, sorrindo do jeito mais fofo do mundo para a namorada.
Toda derretida por dentro, ela ainda tentou argumentar:
– Mas os meus treinamentos começam na quarta... Eu devia ficar descansando.
– Você pode descansar nos meus braços, esquentadinha.
Como dizer não a esse convite?
– Tudo bem, Pê. A gente tá chegando aí. — Ela sorriu.
***
Era a sexta-feita de estreia do espetáculo no Rio de Janeiro. Joaquina, Lírio, Edgard, Dandara, Karina e Cobra estavam na plateia e logo depois acompanhariam Jade até o local da ação do C.R.A.U., onde já se encontrava o resto do pessoal.
Nem o Cobra, nem a Karina contaram que chegariam ao Rio naquela mesma noite, indo do aeroporto direto para o Teatro, por isso Jade nem sonhava com a presença dos dois ali. Entrou no palco nervosa, como sempre, e a apresentação foi um sucesso, como sempre. Quando recebia os aplausos, teve tempo suficiente para caçar o rosto do Edgard em meio a multidão e, quando finalmente conseguiu, desvendou o rosto das pessoas ao redor dele. Aos poucos, um sorriso maior ainda foi estampado no rosto da morena. Nem ela sabia que era tão bom rever a Joaquina, o Lírio, a Dandara, a Karina... O que? Olhando um pouco mais ao lado, pôde vê-lo.
– Cobra...
Lá estava ele, com sua camisa social puxada na altura dos cotovelos, ar de engomadinho, porém com o eterno sorriso orgulhoso do vagabundo. Com o coração pulando pela garganta, Jade saiu o mais rápido do palco assim que as cortinas fecharam. Precisava dele.
Ao chegar no camarim, ele já estava lá. Não disseram nada, apenas se beijaram durante minutos a fio, até que não sobrava nenhum resquício de oxigênio dentro de seus pulmões. Com o batom borrado, Jade tentou falar alguma coisa, ainda tentando normalizar a respiração:
– O que... tá... fazendo... aqui?
– Senti sua falta. — Respondeu ele, simplesmente voltando a beijá-la.
Segundos depois, foram interrompidos por uma tosse forçada.
– Ed! Que saudade! — Correndo para o abraço acolhedor que tanto sentia falta.
– Eu também tava morrendo de saudade, honey! — Sorriu ele, retribuindo o abraço apertado. — Agora um conselho: antes que chegue mais alguém, limpa esse batom, por favor! E você também, Cobra!
Os três acabaram rindo e o casal seguiu o conselho do professor. Instantes depois, Joaquina, Lírio, Dandara e Karina surgiram no camarim. Depois de abraços longos e muita conversa, todos foram para o local onde o show da Galera da Ribalta estava acontecendo.
***
Assim que o Pedro percebeu a presença dos recém-chegados, apenas esperou a música que estavam tocando acabar e puxou o microfone para si.
– Ei, pessoal! Queria pedir só um minutinho da atenção de vocês, por favor. — Ele suspirou. Por mais sem-vergonha que fosse, falar sobre a Karina sempre o deixava nervoso. — É que hoje, uma pessoa muito especial e que tava muito longe voltou: a minha esquentadinha. Pode parecer ofensivo pra muitos de vocês, mas acreditem: "esquentadinha" é elogio pra ela.
Muitos riram e Karina começou a ficar abalada emocionalmente. Com o sorriso de lado, ela ouviu o namorado prosseguir:
– Sabe o que falam sobre o amor, esquentadinha? — Ela negou com a cabeça, no meio das muitas pessoas que estavam reunidas na frente do palco. — Evite. — Muitos riram novamente, mas a Karina não entendeu. Ele não a amava, afinal? — Mas eu não consegui. Quando você chegou no Perfeitão naquele dia, pedindo um misto e dois sucos, depois começando a me bater porque eu disse que o restaurante ainda não tinha inaugurado... Eu soube que era amor. Eu passei boa parte da minha existência procurando por alguém que fizesse o meu verso ter sentido. Alguém que eu desejasse a tal ponto de ser capaz de aceitar apanhar calado. Alguém com quem eu pudesse rir, chorar ou simplesmente não fazer nada. Alguém com quem, apesar de todas as diferenças, eu pudesse contar. Passei procurando alguém para amar e... — Ele suspirou, tentando evitar que a sua voz ficasse embargada. — Naquele momento, esquentadinha, eu soube que era você.
Muitas palmas, muitos assovios, mas Karina não ouvia nada. Apenas a voz dele, pedindo:
– Espera aí, gente! Eu só queria dizer que eu sinto muito a sua falta. Eu sinto falta do seu mau-humor, do seu sorriso de lado, dos seus chutes, ou jabs, ou cruzados, ou... Ah! Sei lá! Não entendo nada de luta mesmo! Nem de luta, nem de amor, apesar de te amar inexplicavelmente. Só sei que te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Repetiria isso até que da minha garganta não saísse mais som algum. Sabe por quê? — Karina negou novamente, com os olhos tomados pelas lágrimas. Sorrindo como uma criança na mais divertida das brincadeiras, ele completou: — Porque eu te amo. E amo também o Mestre Crue... Digo, digo, Mestre Gael por ter ajudado a pôr essa menina tão especial no mundo. Por isso, a próxima música é com você Mestre! O que manda?
– Proibida Pra Mim, capiroto! — Gritou Gael de pronto, no meio da plateia.
– Isso foi uma indireta, sogrão?
– Não, foi uma direta mesmo.
A Galera da Ribalta começou a música e Cobra olhou para o lado. Parece que a declaração não afetou apenas a Karina, já que todas as garotas ali perto estavam com os olhos marejados. Ele sorriu ao olhar para Jade, percebendo que ela também fora atingida pelo romantismo. Afetado também, ele a abraçou pelo seu lado e cantarolou ao seu ouvido, no ritmo da música:
– Se não eu, quem vai fazer você feliz?
Ela sorriu também e devolveu na mesma moeda, sussurrando no ouvido do lutador:
– Ninguém, vagabundo.
Com o coração acelerado de uma forma incrivelmente perigosa e boa ao mesmo tempo, eles se balançaram no ritmo da música até que ela se acabou. Com sede, Cobra anunciou que compraria um refrigerante e perguntou se a dama queria. Depois da resposta negativa, ele foi na direção de um quiosque ali perto. Enquanto esperava seu pedido chegar, Cobra ficou observando a cena.
Já era tarde da noite, então a maioria das pessoas já estava indo embora, restando apenas alguns lutadores do Gael e o pessoal da Ribalta. Era incrível como ela se destacava dentre eles. Seus movimentos suaves no mesmo ritmo da música fascinavam qualquer um e seu sorriso sincero brilhava mais que a lua cheia daquela noite. Parecia tão... Divina. Por mais pecadora que fosse, e todos sabiam que ela era, naquele momento ela estava revestida de uma pureza tão grande que Cobra só conseguia pensar que queria ela para si. Ou melhor, precisava. Precisava da dança, do sorriso, do olhar, das provocações e da paz que só encontrava nela. E para sempre.
Sem pensar nas consequências e muito menos se importando com elas, pegou seu celular e mandou uma mensagem para a garota que estava a poucos metros.
"De: Cobra
Para: Jade
Casa comigo?"
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