We're not friends
1 O menino de ouro
Uraraka quase não chegou a tempo de assistir pelo menos o final da reunião. Sua entrada indiscreta atraiu todos os olhares daquela sala, mas ela fingiu estar tranquila e sentou-se na única cadeira vazia que restava ali. Agora, respirando calmamente podia se concentrar melhor no tema que era abordado. Estavam na reta final, e aquela era a época mais estressante para a revista All Right. Os finais de ano sempre levavam os funcionários à loucura, e era definitivamente uma luta de sobrevivência.
"Esse ano decidi variar um pouco os setores." Midnight, a brilhante e exacerbadamente sensual chefe disse olhando por trás de seus óculos de grau com armações charmosas. "Foi enviado para seus respectivos e-mails quem irá cooperar com quem e o que terão que fazer"
Uma falha tentativa de fazer nossos ânimos se acalmarem. Uraraka pensou com uma expressão de conformismo. Sabia que, seja lá com que fosse a sua parceria até o final do ano, não amenizaria o caos que estava prestes a chegar. Quando a reunião finalmente havia chegado ao fim, Ochako seguiu sem cerimônia até sua mesa de trabalho e checou em seu computador os novos e-mails recebidos.
E como se já não tivesse problemas demais para lidar…
Após a mensagem automática escrita pela secretária de Midnight estava o nome da pessoa mais problemática e arrogante daquela empresa. E teriam que trabalhar no projeto de final de ano da revista.
"Katsuki Bakugou" Ela mordeu os lábios e como se não conseguisse lutar contra a sua curiosidade, passeou os olhos em volta na intenção de procurar os olhos vermelhos que todos queriam evitar. E lá estavam eles. Repousados em uma mesa digitalizadora, enquanto uma de suas mãos habilidosas rabiscavam algo ali, que provavelmente seria outra obra de arte. Os cabelos loiros estavam tão bagunçados naquele dia, como resultado das inúmeras vezes que ele afundou as mãos ali.
Era o menino de ouro da editora chefe. Toda a arrogância, prepotência e boca suja era compensado em talento. Sem dúvidas era indiscutível o quanto o rapaz valia para a empresa, mas só aquilo não escondia o fato de que ela teria um pouco de dificuldade em se relacionar com o seu parceiro até o final daquele ano. Seriam os três meses mais longos de sua vida, e disso ela não tinha dúvidas.
Respirou profundamente ao que fechava os olhos.
Vamos lá, você consegue. Tentou tranquilizar-se como um mantra. Reuniu toda a coragem que lhe restava para caminhar na direção do loiro com um rosto inexpressivo. Notou que enquanto fazia seu trajeto até ele, os olhares em volta iam acompanhando-a. Será que podia ficar pior? Pensou já sentindo uma ansiedade esquisita se aproximar sem que nem tivesse chegado ao seu destino.
"Uraraka, certo?" Ela inutilmente tentou esconder o suspiro de surpresa quando ele perguntou, sem sequer voltar o seu rosto para ela.
"Sim." Parabenizou a si mesma por não ter nem gaguejado. Mas logo depois reconheceu que só não havia feito tal coisa vergonhosa porque aqueles olhos não decidiram encará-la.
"É o seguinte. Não tem porquê grudar um no outro porque isso é uma merda. Você faz a sua parte na matéria e eu desenvolvo a parte de design"
Ela quase bufou de raiva, só não sabia se era porque o menino de ouro estava sendo apenas ele ou se era por ainda não ter direcionado seu olhar para sua futura parceira. Talvez as duas coisas.
"E como acha que isso vai dar certo?" A pergunta ficou pairando no ar por alguns instantes "Olha eu também acho tudo isso desnecessário, mas quanto mais você cooperar mais rápido vamos nos ver livre disso"
"Porra, mas você fala..."
Os olhos dela dobraram de tamanho ao que sua boca levemente se entre abriu. Levou alguns segundos para só então digerir o que ele havia dito. Então era mesmo como todos haviam dito. Bakugou era mesmo só um arrogante boca suja que só servia para trabalhar sozinho. Agora ela só queria se ver livre logo daquela pedra no seu sapato. E se ela pelo menos se desse conta de que a chegada do loiro em sua vida acontecera para transformá-la completamente mudaria totalmente suas reações de início. Mas no entanto, ainda não fazia ideia de que os próximos dias a revelariam tudo isso.
Só pensava em como realizar o seu trabalho com eficiência. Mas parecia uma tarefa árdua quando na verdade seu parceiro era apático e antissocial.
As próximas duas horas foram as mais torturantes do seu dia, tentando buscar paciência até onde não tinha enquanto só recebia respostas em tom de indiferença do rapaz. Mas precisava ser o mais profissional possível, caso quisesse se ver livre daquilo tudo. Toda e qualquer ideia que a morena tinha parecia boba ou ingênua demais para o rapaz, e aquela frase idiota que ele sempre repetia no final das falas só aumentava a vontade dela de voar no pescoço dele e arrancar aqueles olhos com as unhas.
“Está perdendo tempo comigo"
Era praticamente a décima vez que ele repetia aquilo, sempre com o mesmo tom de voz, e ela queria quebrar tudo na cabeça dele, com a mesma intensidade a cada nova vez. Mas não deixava de ser uma grande verdade, ela estava mesmo perdendo tempo com ele quando já podia estar avançando boa parte do seu projeto.
“Tem razão. Estou perdendo meu precioso tempo com um idiota arrogante que acha que sabe de tudo nessa empresa só por ser o menino de ouro” Ela disse sem sequer se importar com os olhares que atraiu no mesmo instante.
Já estava de saco cheio de ter que se esforçar por pelo menos uma colaboração do rapaz, e tudo o que recebeu como resposta era uma frase vazia e irritante. Entretanto, diferentemente do que ela esperou, o rapaz de olhos vermelhos abriu um sorriso. Um maldito sorriso lindo que quase rasgou sua boca de tão grande, e que quase fez o coração dela sair pela boca. Maldito. Irritou-se com sua reação, principalmente no instante em que um olhar jocoso foi lançado em sua direção. Trazendo uma tremedeira suave mas incômoda em suas pernas. Agradeceu mentalmente por estar sentada.
Ela preferia ter recebido outra resposta vazia ou apenas um xingamento, mas ficou imóvel com apenas um olhar intenso e um sorriso largo na sua direção.
“Menino de ouro, é?”
“Tsc.. sabe que não fui eu quem inventei isso...”
“Foda-se.” Voltou seus olhos para seu projeto “Talvez seja melhor do que ainda ser virgem.”
Uraraka engasgou-se com a própria saliva depois de ouvir aquilo. Foram breves segundos tossindo enquanto aquele sorriso irritante permanecia ali, mostrando o quanto se divertia com tudo aquilo. E agora era oficial para a garota de cabelos curtos. Queria esganá-lo com as próprias mãos ali mesmo, naquele exato momento.
“Quem você está chamando de virgem?” Ela baixou o tom de voz para dizer a última palavra, e notou o quanto aquilo alargou ainda mais o sorriso maldito. Era mais do que perceptível que Uraraka perderia alguns de seus neurônios até o final do ano se as coisas permanecessem daquele jeito.
“Porra você é neurótica por trabalho, fecha a blusa social até o último botão e ainda lê esses romances de merda.” Uraraka ia responder sobre a maneira como se referiu a ela, mas foi pega de surpresa com seu último comentário. Como ele sabia sobre isso? Mas, como se ele tivesse lendo os pensamentos dela, respondeu.
“Na capa do celular.” Ela então voltou os olhos para onde ele apontava.
Era a capinha que sua mãe havia comprado quando as duas foram assistir à estreia de a culpa é das estrelas. Não necessariamente ela gostava do filme, afinal, só tinha ido porque estava próximo o dia em que teria de se mudar por causa do emprego, por isso fez o sacrifício de assistir a um filme que sua mãe tanto queria ver só para ter um momento legal antes de se mudar. E antes de tê-la longe por tanto tempo.
“Não é meu favorito e essa capa tem uma explicação, mas isso não é da sua conta.”
Ele riu anasalado, e agora direcionando o olhar para ela. Quase como se estivesse invadindo suas íris com as dele, cor de rubi.
“Supondo que não é virgem.” Sua voz era branda mas ao mesmo tempo irritadiça “Então faz uma cota que ninguém comparece”
Imediatamente Ochako sentiu suas bochechas queimarem enquanto seus olhos suavemente se arregalavam depois de ouvir aquilo. Não só pelo fato dele ter tido a cara de pau de lhe dizer aquilo, mas por ele sequer se importar se aquilo a constrangeria de alguma forma. Ela levou alguns segundos para se recompor, mexendo nos fios de cabelo castanhos que caíram na frente de seus olhos quando direcionou rapidamente o olhar para as mãos entrelaçadas. Bakugou irritou-se por dentro ao assistir aquela cena e ter suavizado um pouco a sua carranca para analisá-la com cautela. Até parece. Pensou puto, logo voltando a assumir o seu semblante de sempre. De zangado.
“I-isso não te interessa” A voz dela saiu um tanto rouca “E pra sua informação ontem tive uma noite ótima com uma pessoa ótima, mas nem sei porque estou dizendo isso se não faz mais de duas horas que nos conhecemos.” Ela disparou a falar e ele entendeu aquilo como o seu mecanismo de defesa falando mais alto.
“Uma pessoa?” Ele ergueu um pouco o corpo para afastar as costas que estavam apoiadas na cadeira daquele seu jeito largado. “Aposto que o babaca só deixou você na porta e você como é medrosa pra caralho não o convidou pra entrar.”
Merda. Como ele sabe disso?
“Acha mesmo que estou tirando uma com sua cara?” Ela se irrita de vez, sentindo uma brasa esquisita e desafiadora surgir em seus olhos. “Vou ligar agora mesmo e marcar um encontro.”
“Tsc... tanto faz” Ele retornou para sua posição de largado novamente enquanto ela pesquisava a todo custo a localização do trabalho do rapaz.
Na realidade tudo acontecera tão rápido na noite passada que sequer ela teve tempo para trocar telefones com o rapaz. Estava em um bar, próximo de sua casa, e o jovem bonito de olhos verdes pagou uma bebida para ela. Por mais clichê que aquilo tenha parecido, na verdade ela não podia deixar de concordar que fazia muito tempo que algo do tipo acontecia a ela. Mas, graças à sua boa memória, ela lembrou que ele havia dito que trabalhava em uma empresa de advocacia perto de seu apartamento. E procurar por essa empresa foi a primeira atitude que Uraraka tomou.
De repente, em um surto de lucidez em meio a suas atitudes insanas e impulsivas, ela se deu conta do que estava fazendo. Mas que droga... Esse... Agora era tarde demais. Estava enfiada naquela busca infantil e naquela tentativa idiota de provar para o loiro insuportável que o rapaz da noite passada era real.
“Achei” Ela comemorou feliz com um sorriso doce nos lábios.
“Grande merda” Ela fez uma careta para ele que sequer se moveu ou desviou os olhos de seu desenho.
Quando finalmente a secretária atende, ela se dá conta de que não tinha um nome. Por mais que sua memória fosse boa, provavelmente no momento em que ele disse um nome ela já estava sendo deixada na porta de sua casa e com um nível de álcool elevado no organismo. Merda.
Envergonhada, ela tentou de todas as formas descrever o rapaz, e aquilo soou muito estranho, pois ela estava dizendo explicitamente que havia praticamente se deitado com o rapaz e que agora queria repetir a dose. Ela suspirou pesarosa quando a ligação ficou em espera, só não soube se foi porque a impressão que passou era falsa ou se ela gostaria que o que a moça pensara a respeito dela tivesse realmente acontecido.
Quando a voz descontraída soou do outro lado da linha, Uraraka lembrou-se de um nome. Sim. Midoriya.
“Me desculpe, eu não tinha um número para ligar.” Ela disse envergonhada e quando esbarrou os olhos, sem querer, em Bakugou, ele estava olhando para ela e silabando de maneira irritante a palavra “virgem” sem que deixasse sair som de sua boa. Ochako se enfureceu mas foi contida pela voz que surgiu na linha.
“Tudo bem, na verdade eu quem agradeço por ter me ligado. Caso contrário teria que te esperar sair de casa para te ver de novo”
Ela sorriu. Bakugou revirou os olhos.
Era definitivamente patético que a garota havia ligado para uma pessoa que sequer pediu o telefone dela na noite passada. Não deixou que passasse despercebido a vontade de dizer que ela soou um tanto desesperada quando terminou de marcar outro encontro.
“Ta desesperada pra caralho”
“Cala a boca, babaca”
Ele riu sonoramente, e aquilo a assustou. Foi como se um choque elétrico tivesse se dissipado por toda a sua corrente sanguínea e enviado uma grande carga para seus pulmões, tornando quase impossível o ar se mover por ali. A reação dos outros em volta foi semelhante. Era incomum ver Bakugou rindo daquela forma e ela não sabia se isso era bom ou ruim. A única certeza que tinha era que aqueles olhos vermelhos, absolutamente, a fizeram agir de modo espontâneo e impulsivo.
Ele era mesmo muito irritante.
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