We're all under the stars
1 Riley
Notas iniciais
Abigail estava na sua rotina como sempre. Garotas do Ensino Médio sempre faziam uma roda ao redor dela assim que acabavam as aulas e, entendam, elas nem eram tão mais velhas, mas Abigail tinha uma estrutura corporal muito diferente da delas.
– Vamos lá Abe – ela odiava quando usavam seu nome daquele jeito.
– M-mas eu não quero – ela gaguejou na última palavra e a frase inteira não saiu mais do que um sussurro. – Por favor, me deixem ir pra c-casa.
A garota era com certeza uma cabeça mais baixa que todas as outras e era extremamente magra. Seu cabelo tinha um tom de palha de ouro e era liso além de ir até pouco acima do quadril. Tinha olhos de um azul escuro bonito e um rosto bem feito, mas isso era apenas mais motivo para a gozação. Incrível como se apenas gaguejasse um pouco, qualquer coisinha servia para a tiração de sarro.
– Qual é – uma delas disse enquanto cutucava com força suas costelas. – Ela está ali sozinha, apenas vá perguntar se pode se sentar ali.
– Mas t-tem outros bancos – para falar a verdade os olhos dela estavam marejando e ela lutava para que as lágrimas não escapassem. Uma das garotas a cutucou mais forte e ela reprimiu um pequeno gemido de dor. – T-t-tá bom – ela concordou e as garotas abriram a roda rindo mais ainda quando uma delas deu um chute em sua canela.
Ela odiava aquilo. Abigail realmente odiava e condenava até a morte seu tamanho e sua covardia. Havia alguns minutos que estavam ali tentando fazê-la passar vergonha por que nunca falava com praticamente ninguém. Elas disseram que essa era a chance que tinha de fazer alguma amizade. Elas estão certas, mas mesmo assim...
A garota com certeza iria achar aquilo estranho e brigar com ela. Todos faziam aquilo. Havia inúmeros bancos de madeira vazios pelo pátio já que era a hora da saída, não havia dúvida de que aquilo seria suspeito para ela. Se eu não fizer isso elas provavelmente vão me bater de novo¸ pensou enquanto olhava para ela.
Era mentira quando diziam que garotas preferiam apenas insultos verbais e se fosse verdade ela gostaria que aquilo se aplicasse a escola em que vivia. O grupo de garotas que a atormentavam adorava partir para o físico e Abigail era provavelmente o alvo preferido.
Ela tinha fones nos ouvidos e parecia teclar freneticamente na tela de seu celular. Pensou que talvez estivesse escrevendo algo, já que não havia interrupção nenhuma que indicasse uma troca de mensagens. Acho que nunca a vi¸ a analisou olhando para os cabelos castanhos e escuros divididos ao meio. O cabelo liso ia até a cintura dela e mesmo que estivesse sentada ele percebia que ela era mais alta do que ela. Bem, todo mundo era maior que ela. Naquela posição, ela não conseguia julgar a expressão que fazia, já que seu cabelo cobria parte de seu rosto e, portanto, não sabia a cor de seus olhos.
A mochila dela estava em cima do banco ao seu lado e aquilo a fez ficar ainda mais nervosa. Ela definitivamente não queria companhia e ela iria irritá-la.
Mesmo assim, andou mais alguns passos hesitantes até pronunciar um fraco chamado. Ela a chamou duas vezes e ao receber nenhuma resposta olhou para trás vendo o grupo de garotas rindo e fazendo gestos para que continuasse.
– C-com licença – ela gaguejou e tentou firmar a voz. – Eu...
Foi quando ela finalmente olhou para cima e ela viu. Os olhos dela eram verdes. Verdes claros como a sua xícara de chá preferida. Uma comparação estranha, mas era uma das coisas que mais gostava e a única que veio a sua mente quando viu aqueles grandes olhos o encarando.
– O que foi? – ela franziu a testa e ela sentiu seu coração acelerar de nervoso. – Você está bem?
– E-eu – ela respirou fundo e as garotas atrás dele explodiram em gargalhadas. Ela teve vontade de morrer. – E-eu...
Ela olhou para trás dela, as viu se contorcendo de tanto rir e olhou de volta para Abigail com um olhar questionador. Ela não conseguiu completar a frase com as gargalhadas ao fundo e o olhar um tanto inquisidor da garota a sua frente.
– Você... – ela não estava rindo ainda, na verdade parecia bem cansada. Abigail sentiu os olhos marejarem de novo e respirou fundo.
– Posso m-me sentar aqui? – a frase novamente saiu em um sussurro e ela arqueou as sobrancelhas em surpresa. Ela nem acreditava que tinha dito aquilo e estava extremamente desconfortável com ela a analisando daquele jeito.
– Elas estão te forçando a fazer isso? – ela suspirou quando ela assentiu de leve e revirou os olhos. – Idiotas.
A maioria das garotas juntava-se a elas naquele tipo de brincadeiras e aquilo surpreendeu Abigail ao mesmo tempo em que a fez ficar confusa. Ela simplesmente pegou sua mochila pela alça e a colocou no chão, batendo com a mão de unhas pintadas de vermelho ao seu lado.
– Pode sentar – ela não sorriu, mas seu tom indicava divertimento.
No momento em que Abigail sentou de cabeça baixa as risadas cessaram e ela a cutucou para olhar para frente. Levantou o olhar e viu algumas delas ficarem vermelhas e imaginou se aquilo seria de raiva. Estava pronta a se desculpar e levantar quando ela levantou o dedo do meio e gritou para todas elas.
– Por que vocês não vão cuidar da vida de vocês, suas putas? – ela sorriu no final quando todas as garotas ficaram ainda mais vermelhas.
Abigail olhou para ela incapaz de processar as palavras que acabara de ouvir. Ela tinha mesmo dito aquilo, não tinha? Ela as tinha xingado e a defendido, era aquilo mesmo? Ela nem percebeu que estava com a boca aberta de surpresa até ela a olhar e rir.
– Sua boca é muito linda, mas seria melhor se você a fechasse – ela ficou um pouco vermelha com aquilo e a garota olhou para o grupo que ainda estava atônito com o que acabara de acontecer. – Isso sempre acontece?
Abigail deu de ombros levemente e a viu suspirar.
– Por quê?
Mais uma vez deu de ombros. A garota suspirou e com um pequeno sorriso de lado.
– Sou Riley – Abigail olhou para ela um pouco confusa e ganhou mais um suspiro. – Você realmente não esta acostumada a falar? – aquilo a fez ficar vermelha e com a voz baixa e olhando para o chão a respondeu.
– Sou Abigail.
– Abe, então – ela a empurrou de leve com o ombro e estranhamente o som de seu nome sendo dito por ela não saía irritante ou zombeteiro como estava acostumada a escutar. – Me mudei recentemente, acho que essa bosta acontece em todo lugar.
Abigail simplesmente meneou com a cabeça e Riley sorriu um pouco.
– Nossa – ela pareceu de repente surpresa com algo e Abigail tomou um susto dando um gritinho. – Nossa calma – ela riu. – Eu só ia dizer que a cor do seu cabelo é incrível.
– Você – ela gaguejou e tocou a ponta do seu cabelo. – Você acha? Elas dizem que é horrível.
– Elas são invejosas – Riley a cortou no final de sua frase e com pequeno sorriso continuou. – Você parece ser uma pessoa legal, Abe. Posso ter o número do seu celular? Assim podemos trocar mensagens futuramente.
Abigail não esperava por aquilo, mas como não conseguia ficar mais vermelha do que já estava simplesmente assentiu e enquanto outro sinal indicando que era realmente para os alunos darem o fora dali, elas trocaram números. Só para confirmar, Riley mandou uma carinha sorrindo para Abe que mandou um “oi”.
– Vamos conversar mais tarde, ok? – Riley disse acenando, após pegar sua mochila do chão e colocar nas costas. Abigail não sorriu de volta mais levantou sua mão em um leve aceno.
Levantou-se também, pegando a própria mochila do chão. O que diabos tinha acabado de acontecer? Estava sendo incomodada como sempre pelas idiotas de sempre depois da aula e desta vez quando elas tentaram envolver uma completa estranha, nova na escola, provavelmente esperando que fosse se juntar a elas, as coisas não vão como planejam e talvez...
Somente talvez, Abigail pensou que talvez tivesse conseguido uma amiga.
Olhou para o pátio vazio e percebeu que nem notou quando o grupinho tinha ido embora. Esperou que aquilo tudo não causasse ainda mais problema para ela, afinal, as garotas tinham ficado bem surpresas, mas com certeza a raiva tinha se instalado nelas depois de entender a situação.
Riley, Abigail repetiu o nome em sua cabeça enquanto andava de cabeça baixa pela portaria da escola. Pensou que o nome dela era bonito e que tinha uma voz bem legal. Diferente da dela que somente conseguia falar gaguejando.
Abigail não tinha nenhum problema de fala, na verdade. Ela desenvolveu uma dificuldade grande para a socialização desde muito cedo. Sua mãe tentou leva-la no terapeuta, mas aquilo somente a introvertia mais.
Um dia, a notícia de que ela ia ao terapeuta, mais o fato que ela não conseguia conversar com ninguém levaram a um grupo de garotas e até mesmo alguns garotos a, como eles gostavam de dizer, “ajuda-la a socializar”. Com essa mascara idiota e muito falha, o colégio simplesmente ignorava quando juntava dez garotas ao redor dela para ficar perturbando. No começo era só azucrinação, mas depois por motivo nenhum começaram a puxar seu cabelo, dar cotoveladas em suas costelas, chutes não eram frequentes, mas existiam.
Ela sabia, entretanto, que deveria falar aquilo para alguém, mas não conseguia. Simplesmente era impossível para ela falar com garotas da sua idade, imagina denunciá-las para a diretoria.
Abigail deu sinal para o ônibus e em quinze minutos chegou ao apartamento. Era um condomínio simples com cinco torres e um jardim bem legal nos fundos. Os prédios também eram altos, mas sua mãe sabia que lugares muito altos a deixavam nervosa, então escolheu um apartamento no terceiro andar.
Amava sua mãe. Ela era a melhor, de verdade. Trabalhava o dia inteiro para sustentar aquele apartamento sozinha e a escola dela. Mesmo assim, estava sempre ali para o que Abigail precisasse. O pai de Abigail sumiu quando ela tinha seis anos e isso serviu durante um tempo como motivo para a gozação, mas as garotas se cansaram daquele “tópico”.
Nem acreditava que havia falado com uma garota e que ela ainda havia a defendido. O rosto de Riley apareceu em sua mente e ela deu um sorrisinho de canto. Mesmo que fosse apenas por pena, ela queria que Riley se aproximasse mais dela. Ela queria ter uma amiga.
Entrou no apartamento vazio e foi direto para a cozinha fazer o jantar, como sempre. Vinte minutos depois com o arroz pronto, era só esquentar o feijão e estava tudo certo. Foi ai que seu celular deu sinal como se tivesse recebido uma mensagem.
Abigail levou um susto gigante. Nunca tinha escutado aquele celular tocar assim, sua mãe somente ligava e as raras vezes que fazia isso, seu celular estava no vibra então realmente nunca tinha escutado ele tocar.
Correu para ele e desbloqueou a tela ansiosa. Era Riley.
“Oi Abe, o que está fazendo?”
Aquela única frase fez seu coração pular com tanta alegria. Ela queria sair gritando para todos os cantos do mundo que alguém estava mandando mensagem para ela.
“Acabei de fazer o jantar” mandou e percebeu que parecia meio seco. “E você?” escreveu em seguida e junto de uma carinha feliz enviou a mensagem. Riley então contou que estava presa na porcaria do trânsito. Levaria mais meia hora para chegar a casa. Assim, Abigail descobriu que Riley morava longe da escola e também que tinha irmãos mais novos.
Ela não fez perguntas sobre a família de Abe e isso a deixou bem mais tranquila. Durante a meia hora que Riley passou no ônibus elas conversaram sobre a escola. Quais eram as matérias preferidas, em que sala estavam, que aulas tinham no dia seguinte e com isso perceberam que tinham todas as aulas no laboratório juntas desde o começo do ano, só nunca tinham percebido.
“Vamos sentar juntas amanhã” Riley enviou uma carinha sorrindo e Abigail levou cinco minutos inteiros para processar o que havia lido. Não resistiu e mandou um “você tá falando sério?” se arrependendo logo em seguida. Tinha dado motivos para ela repensar e provavelmente recusar o que tinha oferecido. Como ela era burra.
“Claro.”
Abigail teria começado a chorar se sua mãe não tivesse chegado. “Eu tenho que ir, minha mãe chegou” mandou para ela. “Tudo bem, já vou descer também” ela enviou e mandou mais uma mensagem em seguida, “Te vejo amanhã Abe”. Com um suspiro e um pequeno sorriso ela mandou um “até”.
– Nossa filha, o que te deixou de tão bom humor?
Olhou para sua mãe, uma mulher alta com feições muito cansadas e mais rugas do que era normal da sua idade, com um terninho um pouco velho e deu um pequeno sorriso.
– Acho que fiz uma amiga, mãe.
O mais engraçado foi que sua mãe pareceu mais surpresa do que ela. Elas se abraçaram e sua mãe disse que estava muito feliz por ela. Não sabia que sua filha passava por agressões físicas na escola, mas tinha consciência de que não tinha absolutamente nenhum amigo e aquilo a fez incrivelmente feliz.
– Vem vamos jantar – ela concordou e aquele jantar foi um dos melhores que ela já teve.
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