Wendy-nee?

1 Capítulo Único


Mais uma vez, Magnólia estava em festa. Era o festival das estrelas, no qual a tradição dizia que, o casal que olhasse para as mesmas constelações, estaria destinado a ficar junto. E era isso que muitos casais da Fairy tail esperavam que acontecesse naquela noite.

— Nee, nee, Natsu, não ouse olhar pra cima até eu dizer pra onde! – Lucy lembrava o namorado de dois em dois minutos, o que nem era tão questionável, já que o rosado provavelmente esqueceria se ela não o fizesse. A loira vestia um belo quimono azul, com flores vermelhas desenhadas, e o cabelo preso em um coque.

— Mas, Lucy, pra quê isso? – Natsu questionava, já olhando pra causada ao invés de para frente. Usava um simples yukata vermelho e sem mangas. – Mesmo que a gente não olhe pras mesmas estrelas, nós já estamos juntos!

— Mas é algo simbólico! Dá pra você ser um pouquinho mais romântico?

— Simbólico; romântico... Só mesmo a estranha da Lucy para inventar essas coisas. – Happy rui, claramente pegando no pé da loira.

— Eu não vou discutir com você!!

— O casal já está brigando? – Alguém perguntou de repente.

Erza e Gray apareceram, e se aproximando dos dois amigos. A Titânia vestia um kimono vermelho, como seus cabelos, e com vários detalhes dourados; enquanto o Fullbuster usava um Yukata azul e sem mangas (além de completamente aberto na parte do tórax).

- Gray-sama! – Juvia apareceu logo atrás, agarrando-se no braço do mago de gelo, que revirou os olhos. Amava sua namorada, mas essas manias dela ainda o irritavam. – Juvia já olhou para todas as constelações, então para qualquer uma que você olhar, nosso futuro estará garantido!

- Ah, que ótimo. – Gray fingiu desinteresse, mas internamente, sorriu.

Os seis rumaram para as colinas da cidade, onde muitos casais, amigos e famílias esticavam toalhas para verem as estrelas. E eles não fizeram diferente. Natsu, como o namorado “obediente” que era, esperava Lucy dar as direções de para onde olhar; Erza apenas se perdia em pensamentos, imaginando se jellal observava aquelas mesmas estrelas; enquanto Gray e Juvia observavam um ao outro, o que para eles era mais interessante.

Mas faltava alguém naquele grupo.

- Puxa vida, nunca vi essa praça tão lotada. – Falou Wendy, que andava por toda a parte a procura de seus amigos. A Dragon Slayer do céu estava uma graça naquele quimono branco, todo desenhado com pétalas de Sakura esvoaçantes. Seus curtos cabelos azuis estavam enfeitados justamente com essa mesma flor.

- Nunca vamos encontrar os outros assim. – Charlie declarou, caminhando ao lado da amiga. Ela bem que poderia voar, mas tinha acabado de voltar de uma missão com Wendy e estava muito cansada.

Ambas caminhavam há um bom tempo, mas não conseguiram achar sinal de nenhum dos amigos, ou de alguém que os tivesse visto. Resolveram então dar um tempo na área das barraquinhas, onde não estava tão lotado. Haviam muitas barracas: de doces, salgados, bebidas, e até algumas de jogos. Tudo era bem feito e decorado.

- Magnólia fica tão linda em noites assim. – Wendy comentou, olhando maravilhada para as várias lanternas que iluminavam aquela parte. Estava tão distraída que simplesmente continuou a andar, sem se importar para onde ia. Não corria risco de se perder mesmo.

Mas avoada como estava, havia o risco de esbarrar em algo ou alguém.

E foi isso que aconteceu.

E foi em alguém.

Com o impacto, Wendy se desequilibrou, e teria caído pra trás se a pessoa com quem esbarrara não tivesse lhe segurado pelo braço e puxado de volta. Deixando-os extremamente perto.

- Puxa, me desculpe! Você está bem? – A pessoa perguntou. E pela voz, Wendy pôde confirmar que era um garoto.

- Não, eu que tenho de pedir desculpas. Estava tão... – Ela não completou. Simplesmente não conseguiu. Não ao mirar os olhos de seu “salvador” e perceber que já os conhecia. Nunca os vira tão de perto, mas sabia que aquelas orbes ônix só poderiam pertencer a uma pessoa. – Romeo-san?

- Não acredito. – Romeo também parecia espantado ao ver a garota ali, mas logo que a surpresa passou, ele sorriu. – Você conseguiu terminar a missão a tempo de vir!

- Pois é. – Wendy sorriu também, suas bochechas adquirindo um leve tom rosado. Mas esse aumentou brutalmente ao notar que estava praticamente “colada” no corpo do garoto, de mãos dadas com ele ainda por cima! E o detalhe do Yukata vermelho dele ser aberto no abdômen também não ajudou seu estado. Soltou-se rapidamente de Romeo, dando uns quatro passos pra trás. – Eu consegui chegar a tempo. – Ela meio que murmurou. A vermelhidão em seu rosto continuava, mas seu sorriso também.

Charlie, que estava quieta apenas observando os dois, abriu um sorrisinho malicioso. “Sem querer bancar o Happy, mas... Ela gossssta dele.”, Pensou a exceed.

- Que bom. – Romeo bagunçou os próprios cabelos, rindo. – Não seria a mesma coisa sem você, Wendy-nee.

O mundo pareceu parar de girar para Wendy naquele momento. Seu sorriso se apagou, teve sua alegria substituída por desolamento e a única reação que teve foi abaixar a cabeça, ao ponto de cobrir os olhos com a franja.

- Ops. – Charlie murmurou para si mesma, sentindo o clima mudar drasticamente. Romeo, por outro lado, não pareceu notar a reação da garota.

Wendy não era uma pessoa com ódio no coração. Não gostava nada desse sentimento, e sempre tentava ver as coisas e pessoas pelo lado bom, justamente para não acabar pegando ódio delas. Afinal era um sentimento horrível, que te consumia se você não tomasse cuidado, e ela já vira muitas pessoas sucumbindo a ele. Wendy não suportava o ódio e tentava evita-lo a todo custo, mas... ali... ela não podia evitar. Pois a Dragon Slayer dos céus realmente, realmente odiava quando Romeo usava aquele maldito sufixo em seu nome!

Sim, era aparentemente um motivo bobo, mas como você se sentiria se o garoto no qual você tem interesse te tratassem como uma irmã mais velha? Sendo que vocês tem a mesma idade! (Mesmo que você tenha passado sete anos adormecida numa ilha parada no tempo para atingir essa igualdade...)

- Ei, Wendy-nee. – A Marvell teve de conter um grito pelo sufixo novamente usado. Encarou Romeo e viu que ele ainda sorria como antes, provavelmente nem notando o estado em que três simples letras a deixaram. — Você quer ir ver as constelações?

Wendy não pôde deixar de corar, Romeo estava chamando-a para ficar com ele em um evento de casais! Talvez o garoto nem tivesse noção disso já que, como Lucy disse uma vez, magia de fogo não era a única coisa que Romeo e Natsu tinham em comum. Eram dois lerdos também.

- C-cl-claro. – Mas ela não negou. Ora, era uma oportunidade de ficar a sós com o garoto que gostava. Momentos como esses eram raros já que eles nem eram tãaaao próximos.

- Caham! – O pigarro de Charlie tirou a Dragon Slayer de seus pensamentos. Wendy ficou completamente envergonhada, tinha esquecido da exceed, da sua amiga! – Vocês podem ir, eu vou procurar pelos outros e ficar com eles. – E levantou voo, sumindo da visão dos dois.

- Então tá. Vamos, We-

- Vamos! – Ela o interrompeu. Sabia que ele usaria o sufixo de novo, coisa que a deixaria com raiva e com um aperto no coração, então era melhor evitar.

Os dois seguiram para longe das barracas e novamente entraram na muvuca que estavam as colinas.

- Veio muita gente para este festival, não é mesmo? – Wendy perguntou, para quebrar o silêncio entre eles e para esquecer-se das inúmeras vezes em que já tinham pisado no seu pé.

- Veio, mais do que o normal. – Romeo também parecia estar com dificuldades para se mover no meio daquela multidão. Por um momento, alguém o empurrou para longe de wendy e se ele não tivesse rapidamente reencontrado a maga (pelos cabelos azuis, deve-se ressaltar), provavelmente teriam se perdido um do outro. – Isso não está dando certo!

- O-o que sugerem que faremos então?

- Hm... – O garoto apenas murmurou. Ficou pensativo por alguns segundos até que, de repente e sem avisar, pegou Wendy pela mão e começou a puxá-la com ele por entre as pessoas.

- E-ei, espera! – Ela tentou protestar, tanto pela velocidade do garoto quando por este segurar em sua mão, mas ele apenas a ignorou.

- Assim não vamos nos perder. – Declarou Romeo. Olhou para Wendy, que ainda tropeçava nos próprios pés, e lhe sorriu. – E eu conheço um lugar ótimo para ver as estrelas.

♥*♥*♥*♥*♥*

De todos os lugares de Magnólia que Wendy podia imaginar para Romeo leva-la para ver as estrelas, aquele fora o último em que pensara. Afinal, quem pensaria em subir no teto da igreja?

- Romeo-san, tem certeza que podemos estar aqui? – Perguntou um pouco receosa, fechando a passagem escondida que usaram para subia até ali.

- Claro que sim, não se preocupe. – Romeo garantiu. E com o sorriso que ele deu, seu nervosismo sumiu na hora. – Vem.

O garoto abriu a toalha (que até então carregava no ombro) e estendeu-a sobre uma parte do teto. Sentou sobre ela e bateu na parte ao seu lado, indicando para Wendy fazer o mesmo, e ela assim o fez. A vista dali era mais bonita do que se imaginava. Pela igreja ser alta, parecia que as estrelas estavam mais próximas (embora alguns metros não fizessem a mínima diferença contra anos-luz de distância).

Wendy estava encantada olhando aqueles pontos brilhantes no céu noturno. Lucy a ensinara a achar e reconhecer as constelações um tempo atrás, e usar este conhecimento estava sendo incrível. Já tinha conseguido avistar quase todas as 12 do Zodiaco: Ares, Virgem, Touro, Leão, Peixes...

Mas quando desvio o olhar dos astros e voltou a pousá-los em Romeo, percebeu que ele não tinha a mesma sorte que ela. Passeava seus olhos aleatoriamente pelo céu, aparentemente sem conseguir distinguir alguma constelação naquele mar de estrelas.

- Romeo-san, — Chamou-o. O garoto deu um pequeno pulo de susto, indicando que estava mesmo distraído, antes de fitá-la. – quer ajuda para localizar as constelações? – Perguntou, surpreendentemente sem corar ou gaguejar, apenas oferecendo seu costumeiro sorriso doce. Achava fofo quando ele se atrapalhava.

- Ah, bem... eu não, mas... quer dizer... – Romeo tropeçou nas palavras. Sua falta de conhecimentos astronômicos estava tão na cara?

Wendy não pôde conter uma leve risada. – Qual você está procurando?

- Eto... sabe aquela do... aquela do caranguejo? Que a Lucy-nee tem o espirito.

- Quer dizer o câncer? – Ela perguntou retoricamente. Estava na cara que era essa. – Bom, ele é formado por cinco estrelas. – Começou a explicar. – Três delas formam uma linha quase reta e cada uma das outras duas vai para uma direção, formando mais ou menos um “y” de cabeça pra baixo.

- Nossa, você sabe bastante sobre isso. – Elogiou Romeo, realmente impressionado. E Wendy corou de leve. – Certo! Agora eu vou conseguir achar. – E ambos voltaram a olhar para cima.

Vários segundos se passaram, mas para os dois que estavam se divertindo tanto naquele jogo do “ache”, pareceram horas procurando entre as inúmeras estrelas. Até que ambos olharam para uma mesma direção.

- Ali!

Não acho necessário dizer que tanto Romeo quanto Wendy ficaram se encarando atônitos depois daquela exclamação. Eles olharam para a mesma constelação, ao mesmo tempo!

Ao finalmente processar essa informação, a Dragon Slayer sentiu seu rosto arder mais que um vulcão e desviou os olhos do garoto. Fazendo assim com que perdesse a inédita cena de Romeo Conbolt corado. Ao que parece, até ele entendia o que isso significava.

Alguns poucos minutos se passaram, mas novamente pareceram horas para eles, já que aquele silêncio estava totalmente sufocante e desconfortável. Tanto Wendy quanto Romeo não tinham coragem para se encarar o falar alguma coisa.

S-será que... Isso quer dizer que...” – Um sorriso começou a nascer no rosto ainda vermelho da Dragon Slayer. Aconteceu com eles o que todo casal espera, será que isso era uma dica do destino? Seria bom demais!

- Isso foi meio esquisito. – A fala de Romeo a tirou de seus pensamentos. Ela se virou para ele e encontrou-o sorrindo, meio nervoso, mas sorrindo. – Mas de qualquer modo fico feliz. – Wendy ficou atônita, o coração acelerado. Ele iria dizer o que ela estava pensando? – Afinal, isso mostra que nós somos realmente bons companheiros, não é, Wendy-nee?

Mais uma vez, o mundo parecer parar para Wendy. Bons companheiros? Bons companheiros?! Sim, eles podiam ser bons companheiros, mas ele não se tocava que aquilo queria dizer que eles eram mais do que isso?? Se Romeo tivesse interrompido a frase aí, talvez ela apenas tivesse se levantado e ido embora antes que as lágrimas começassem a cair de seus olhos. Mas não. Ah, não, ele teve de acrescentar o seu nome.

COM AQUELE MALDITO SUFIXO!!

Ela repentinamente se levantou, deixando Romeo preocupado. Principalmente por ter os olhos encobertos pela franja e os punhos tremendo. “Será que eu disse alguma coisa errada?”, ele se perguntou.

- O-oe... Wen-

- Você é idiota por acaso?! — Romeo pulou de susto com o berro que a Dragon Slayer deu. Ela se virou para ele, encarando-o som aqueles olhos castanhos, normalmente tão serenos, que agora transbordavam raiva. – Tapado, retardado?! Me fala, algum problema você tem que ter!!

- W-Wendy-nee, pra que is-

- NÃO ME CHAMA ASSIM!! – Esse agora nem foi um grito, e sim um berro a plenos pulmões. Romeo nunca pensou que veria a doce e tímida Wendy tão assustadora quanto Erza. – Por que você sempre me chama assim?? Acha que eu gosto de ser tratada como “irmã mais velha” por um garoto que tem a mesma idade que eu?!

- Mas tecnicamente você é mais velha que eu. – Ele se atreveu a falar. Ganhou mais um olhar mortal de Wendy, mas não se conteve em continuar. – Além disso, é só um modo carinhoso e com respeito para te chamar.

- Mas eu não quero esse carinho e respeito! – A raiva de Wendy começou a passa, e enquanto seu tom de voz diminuía sua vontade de chorar aumentava. Antes que percebesse, lágrimas teimosas já saiam de seus olhos e ela soluçava. – Eu não quero que você me veja como uma Dragon Slayer, como uma irmã mais velha, ou até como uma pessoa sem intimidade que você respeita. Gostaria que você me visse só como... A Wendy.

- Bem, Wendy-

- Mas não! – Ela o interrompeu, sem sequer perceber que ele tentava falar, ainda com lágrimas escorrendo pelo rosto. – Você insiste em usar esse maldito sufixo no meu nome. Não tem noção do quanto eu... odeio isso!

- Wendy...

- Seria muito sacrifício você me chamar só pelo meu nome?

- Mas eu já chamei! – Romeo deu um fim naquele falatório da garota, levantando-se e segurando-a pelos ombros para que ela lhe encarasse. Levou uns segundos para que Wendy se acalmasse, mas acreditem, o sorriso tranquilo que Romeo lhe oferecia ajudou muito a controlar seus ânimos.

- O-o que você disse?

- Eu já te chamei, Wendy. Com essa agora três vezes!

Se o rosto da Marvell já não estivesse completamente vermelho por conta das lágrimas, com certeza ela teria corado. Aquilo só podia ser um sonho.

- E juro, se for pra você nunca mais dar um ataque desses, nem penso em usar aquele sufixo de novo. – Brincou Romeo, conseguindo arrancar um tímido sorriso da garota.

- Me desculpe por isso.

- Não tem importância. – Ele desconversou. – Mas posso te pedir um favor?

- O que? – Wendy ficou curiosa.

- Pare de me chamar de “Romeo-san”. É formal de mais, eu não gosto.

Após alguns segundos se encarando, eles não se aguentaram e caíram na gargalhada. Não podiam acreditar, ambos estavam incomodados com o modo como o outro o chamava. Viu o que um diálogo não resolve?

- Acho que a partir de agora, as coisas vão melhorar um pouco, Wendy. – Falou o garoto, após sessarem as gargalhadas.

- Eu concordo, Romeo. – Ela respondeu, mostrando um sorriso simples, mas caloroso.

E novamente voltaram a se encarar. Romeo percebeu que ainda tinha as mãos sobre os ombros da garota, mas ao invés de retirar os dois, tirou apenas o esquerdo. Sua mão direita escorregou pelo braço de Wendy até se encontrar com a mão da garota, e segurá-la.

Wendy voltou a corar com aquele ato, porém seu sorriso indicava que não havia se incomodado. Depois disso, ambos desviaram os olhares um do outro, meio nervosos, mas felizes. De pé mesmo (e ainda com as mãos unidas), voltaram a observar as estrelas, sem dizerem mais nada o resto da noite.

Talvez alguns pensem que essa noite deveria acabar com uma declaração, um beijo, e com um novo casal formado. Mas deixemos isso para outro dia, quando os sentimentos, juntamente com esses jovens de doze anos, já estiverem mais evoluídos. Por hora, isso bastava. Principalmente para Wendy, que não teria de sem preocupar nunca mais em Romeo chama-la com aquele maldito sufixo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!