Wendingo, mais do que carne
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Cabana no Lago, Halloween de 2021
Wendingo PoV
"Entediante". Eu diria isso se eu pudesse falar algo, mas infelizmente, perdi essa capacidade a muito tempo.
Estávamos reunidos novamente, para comemorar o Halloween. Todo ano, a Cabana nos mandava uma carta, para festejar a nossa data. Era comum tudo parecer "estranho" por aqui. Chegando sempre era o mesmo, Chucky e Tiffany brigavam sobre o quarto, Annabelle encostava em tudo até quebrar algo, o monstro do Frankstein, ao qual chamamos carinhosamente de Fran, tinha que se desmembrar para entrar. Enfim, uma confusão.
Sem muitos esforços, vou para o quarto que sempre ficava, tomando cuidado para os chifres de alce não esbarrarem em nada.
A aparência que ganhei após tudo isso...é de se odiar ao olhar os espelhos. Alguns de nós reaparecem como mortos-vivos, outros ganham uma aparência animalesca, assim como eu. Minha morte foi quando um passeio com minha parceira, no final de semana, tivemos que voltar as pressas e acabou que o pior aconteceu. Virei um Wendingo, um ser carnívoro, um canibal, que somente se importa em esperar algum humano desesperado comer carne de seus parecidos para podermos ser libertados de nosso "sono".
Talvez, o mais desesperador, é pensar que pessoas chegariam ao extremo para sobreviver.
— Wendingo!
Droga. Escuto a voz do menino Glen, ele caminhava devagar até mim. Somente eu acho estranho um boneco falante?
— Você também não pode falar nessa data também? Poxa, que chatice.
Ele continuava a falar, crianças deveriam ter um botão de desligar, mas se tivesse, Tiffany me mataria se eu o desligasse.
— Sabe, mamãe me deu um vestido, acha que o uso na festa? — Cubro minhas orelhas, me negando a escutar a crise de identidade dele. Glen, ou Glenda, está a muito tempo querendo saber se é menino ou menina, não é minha culpa que ela não sabe, ela é um brinquedo!
"Me deixe em paz"
— Ora, Wendingo, não deve ser tãoo mal humorado. — Por que essa criança é a única"" a me entender melhor? Ele era estranho.
"Só quero descansar, Glenda, me deixe."
Chegando no quarto, me tranco, ouvindo a voz dela do outro lado. Boneca insistente, realmente filha da Tiffany. A janela começou a se mexer, faço um carinho na armação de madeira, a Cabana estava estranha ultimamente, tudo estava na verdade.
Aos poucos, os humanos paravam de acreditar em nós, dizendo que éramos lendas, seres fantasiosos e isso faz nossas forças caírem. Eu não gostava de ser um canibal, mas naquele acidente...
"Vai dar tudo certo, Cabana, não se preocupe. Sabe como as coisas são turbulentas nessa data"
Deito e encaro o teto.
Era complicado, para todos eu seria apenas um ser carnívoro, sem dó daqueles que se perdiam na floresta. Mas quando escutariam meu lado?
Eu fui um dos perdidos! Eu fui um dos desesperados! Mas alguém se lembra disso? Não! Para eles eu sempre fui um monstro, antes eu era uma pessoa, eu sou uma pessoa!
Não importa minha aparência, não importa meus jeitos, nem a minha maneira de falar, eu tinha sentimentos. Eu queria chorar, mas não tinha como, aquele meu rosto me impedia.
"Humanos, são sempre eles que julgam, apontam, mostram os erros... Choram e se humilham para ter redenção e adivinha? Eles mesmo se apunham pelas costas, sem ressentimentos e..."
— Wendingo!
"Glen..." Suspiro e me levanto, indo até a porta e a abrindo, vendo o pequeno boneco no chão, sorrindo com um laço na cabeça. "Eu fui claro..."
— Vem comigo! Quero te mostrar algo! — disse, caminhando na minha frente.
"Onde está indo?"
— Preparei uma coisa.
"Tiffany sabe disso?"
— Se ela não estiver queimando o papai, ela deve ter me escutado.
Seguimos em silencio, vejo ele acenar para a Cabana quando saímos, essa apenas fechou sua janelas e abriu sua porta, como um sorriso meigo. Eu não sabia o que fazer, então apenas seguis o boneco que andava calmamente.
— Boneca.
"O que?"
— Pensou em voz alta de novo, eu sou uma boneca, Wendingo! — Seu rosto se vira, e aponta para o laço. — Só por que não uso um vestido, não quer dizer que não uma garota igual a mamãe.
"Certo..."
— Estamos quase lá!
Depois demais uns 5 minutos, ela me deixa parado em frente a um pano preto, como um daqueles de piquenique. Segurando uma das pontas, ele retira aquilo, revelando os escombros.
— Você veio daqui, não? Perto da Cabana, em um daqueles passeios.
"Como você..."
— A Cabana fala, ela se lembra também do dia, e sente muito por ser egoísta. Ela apenas...diz que o acidente foi bom, para te trazer para perto e aumentar a família.
"Isso..." Me aproximo, me ajoelhando em frente ao ferro. Meu tamanho era o dobro quase, de um humano de média estatura, seguro a roda do carro. As lembranças daquele dia, a chuva, o acidente...minha esposa chorosa e me pedindo para sobreviver...
— Wendingo, você está chorando!
Não percebi quando aconteceu, mas meu rosto se molhou pela primeira vez se molhava depois de tempos. Eu devia ter um coração de gelo, um coração sem amor, mas lembrava de Leticia, aquele dia foi minha culpa.
Ela me pediu para não dirigir na chuva, disse que podíamos esperar no hotel, mas eu tinha que ir trabalhar no dia seguinte. No dia do acidente, ela não havia aguentado, e o sinal do celular não dava para nada, então...uma hora virou 12...que virou um dia...que virou 2...o que me deu fome, de primeira foram frutas que achava, depois alguns animais...mas depois isso sumiu...sobrando Letty.
Depois de algum tempo, perdi a maneira certa de falar, depois de caminhar...depois minha aparência mudou e eu virei isso, que hoje sou.
— Não queria te fazer chorar...— lamentou Glenda.
"Não se desculpe..." Ela me olha surpresa. Me levanto, segurando uma corrente fina, tendo nela dois anéis, com dificuldade, prendo em meu torso. "Me fez bem retornar aqui...onde eu mudei minha mente...e ganhei vida nova."
— Wendingo...
— O...obri....obrigada...
Surpresa por mim, Glenda segura minha mão, me levando de volta para a Cabana. De alguma forma, ela sabia, que eu não era só carne, eu era alguém.
Tinha culpa dentro de mim, mas essa nova...estranha família, me faz sentir um novo sentimento. Eu tinha um coração afinal de contas, e um dia, todos saberiam como dói ter sentimentos e ainda mais, saber que quem eu amo, nunca vai voltar.
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