Um motivo. Só um pequeno motivo, um único, não precisava ser grandioso ou ao menos plausível, eu só precisava de um motivo para levantar daquela cama. Mas não achei. E não achava que iria, de qualquer jeito.

Minha mãe gritou novamente. Eu estava enrolando há muito tempo deitada na cama. Esse é o tempo que se leva geralmente para se achar um motivo para continuar vivendo? Por que para uma pessoa que passou tanto tempo procurando, deveria ter encontrado ao menos um.

Havia faltado aula. Estava com dor na garganta novamente, mas tinha exagerado um pouco para conseguir não ir para escola. Peguei meu celular para olhar as horas, ver quanto tempo havia conseguido ganhar dormindo.

Mas não importava mais. Havia mensagens novas para ler, e eu sabia que só havia uma única pessoa que mandaria mensagens para mim antes mesmo da hora do almoço.

Ela.

“Eu estou com saudades de você.” “Eu te amo.” “Sinto falta do ano passado, quando a gente se via todos os dias. Era tão bom.”

Li as mensagens com um aperto no coração. Eu queria responder, mas não tinha crédito. Eu queria chorar, mas não tinha lágrimas. Eu queria gritar, mas não tinha voz.

Coloquei uma roupa e saí do quarto tropeçando na bagunça do chão, me preparando psicologicamente para os gritos que eu sabia que viriam a seguir.

E assim como eu havia previsto, aconteceu. Eu tinha que lavar a louça, arrumar o quarto, lavar a área de serviço, fazer isso, fazer aquilo... Sempre me perguntei se eram necessários tantos gritos só para me por para fazer algo. Eu faria tudo aquilo mesmo se minha mãe decidisse não gritar por um dia. Mas essa era a minha mãe. Gritos faziam parte da convivência com ela.

Ela divagava sobre as coisas que tinha que fazer novamente, mas eu não prestava atenção. Eu nunca prestava atenção, de qualquer jeito, a não ser que fosse algo de extrema importância. Caso contrário, simplesmente não merecia que eu queimasse o cérebro.

“Coma alguma coisa e vá fazer o que você precisa fazer.”, ouvi essa frase sendo proferida.

“Não estou com fome”, disse eu, minha resposta automática para todas as vezes que eu ouvia algo relacionado com comida.

E eu não estava com fome mesmo, então não estava mentindo. Minha mãe parou de falar e olhou pra mim por um segundo. E então disse: “Então vá arrumar seu quarto.”

Dirigi-me ao quarto com os ombros baixos. Sentei na cama e fiquei olhando para o chão por alguns momentos. Meu celular vibrou e quando percebi, ela estava me ligando.

Atendi às pressas, dizendo um “oi” rouco. Ela respondeu com um “oi” feliz, dizendo que tinha acabado a prova e que podíamos conversar por um tempo. Eu sorri só de ouvir a voz dela.

Ela é o que fazia meu dia menos infeliz. O que dava um pouco mais de luz nessa escuridão. O que talvez eu pudesse chamar de minha “esperança”, se preferisse.

Conversamos por um tempo, eu falando menos e ouvindo mais, como a maioria das vezes. Principalmente hoje, que eu estava totalmente para baixo. Ela comentou sobre o Baile do Hawaii, e meu coração palpitou. Faltava tão pouco. Um dia, para ser exata. Havíamos combinado tudo, e se desse tudo certo, com certeza eu estava pertíssimo de viver um dos dias mais felizes da minha vida. Mas eu não estava confiante, como sempre. Nada nunca dava certo para mim, o jeito era só pedir que dessa vez as coisas fluíssem.

Quando eu desliguei, meu humor estava um pouquinho melhor. A carranca havia diminuído consideravelmente. Arrumei meu quarto pensando nela, pensando na festa. Pensando nas coisas que eu definitivamente não poderia aprontar no dia que estava por vir.

Ia ser perfeito, tinha que ser. Estava arriscando tanto com isso, mas sabia que se não tentasse ia morrer me perguntando como teria sido. E se não desse certo, porém... Não, não podia ficar me corroendo desse jeito. Ia dar certo. Tinha que dar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.