Welcome to badlands
49 Capítulo Quarenta e Oito: nascimento.
O segundo aviso da ameaça do traficante apareceu em setembro, em forma de uma pequena caixa preta. Seth estava sentado no sofá rasgado do beco quando um dos seus garotos lhe entregou. A caixa era diferente da que haviam recebido antes, por isso não hesitou em abrir, Sawyer estava ao seu lado e tentou não olhar, mas a curiosidade o venceu.
O papel de seda estava sujo de sangue e uma língua grossa e rosada parecia pesada enquanto Seth segurava a pequena caixa. Alguns dentes amarelados estavam jogados em volta.
Seth fechou a caixa rapidamente e a colocou no sofá entre eles.
Sawyer não disse nada até Seth levantar-se e vomitar todo seu almoço no chão, na frente de todo mundo.
O silêncio era perturbador enquanto encaravam Seth, à espera do que diria ou faria.
Sawyer esperava que ele dissesse para irem em frente e acabar com o cara, mas então ele reparou melhor no irmão. Seu semblante estava todo franzido em uma careta e seus ombros encolhidos.
Sawyer percebeu, pela primeira vez em toda a sua vida, que Seth estava com medo.
— É até estranho só mandarem essas ameaças – Seth começou depois de cuspir em cima do vômito. Sawyer percebeu na sua voz o tremor, mas sabia que os outros não notariam. – Acho melhor darmos um tempo do trabalho – ele pigarreou, porque aquilo era difícil para ele. – A gente se arrisca muito estando aqui, à mostra para ele.
Sawyer tinha certeza que ele os encontrariam em qualquer lugar do bairro, mas não discutiu porque quanto menos tempo trabalhando com Seth, melhor.
— Dessa vez você se meteu com os leões – Sawyer murmurou antes de se afastar, como todos estavam fazendo.
Ele não tinha para onde ir, mas não queria ir para a casa, porque sabia que era para onde Seth fugiria.
Sawyer se deu conta que dali em diante eles não estariam mais em segurança em nenhum lugar. O dono do morro da Costa Rica os acharia e seria as partes deles enviadas para seus outros inimigos.
— É tudo culpa sua, sabia? – Seth o encarou e Sawyer franziu o cenho para ele, parando de andar. Não era culpa de Sawyer que Seth se metia onde não deveria. – Se não fosse por você, não teriam apreendido o carro e agora eu não estaria com um alvo nas costas.
Sawyer não lhe respondeu, apenas o observou ir embora e ele teve certeza de que Seth não iria para a casa.
*
Ingrid estava no apartamento de Keith quando a bolsa estourou. Ela estava sozinha, assistindo televisão e ficou uns segundos imóvel, encarando a poça d'água que havia se formado sobre seus pés, o ar escapou da sua boca entreaberta quando entendeu o que havia acontecido.
Ela procurou seu celular pela bagunça na mesinha de centro e ligou para Keith, que atendeu rapidamente, pois sabia que aquele seria o mês de chegada da Lara.
— A bolsa estourou – Ingrid disse, a respiração falhada. – Precisamos ir pro hospital agora.
*
Keith não tirou seu uniforme, ele apenas avisou que teria de sair para os cozinheiros e correu para o seu apartamento. Eles haviam combinado que Tristan os levaria quando a hora enfim chegasse, mas Keith não queria ligar para o amigo porque sabia que ele estava na aula.
Chegou ao apartamento a tempo de ajudar Ingrid a terminar de arrumar a bolsa do bebê e pegaram um taxi no ponto ao lado dos prédios.
Ingrid estava nervosa, respirava com dificuldade e Keith não queria estragar tudo falando alguma besteira, então apenas pegou sua mão e tentou passar tranquilidade – que ele não tinha – para Ingrid.
Depois que Ingrid já estava no hospital, Keith enviou as mensagens ao seus amigos e família – sua mãe e seu pai -. Ele estava ciente que ainda estava com seu uniforme da lanchonete por baixo da roupa azul que lhe deram, mas não se importou com nada disso quando entrou no quarto de Ingrid e se posicionou ao seu lado enquanto ela tentava empurrar Lara para fora.
Pelos poucos, mas angustiantes, minutos que passaram, Keith teve certeza que Lara seria além da sua maior felicidade, sua maior preocupação.
Ele observou enquanto Lara saía, ensanguentada e chorona e escutou o choro da Ingrid.
Keith, porém, não demonstrou nenhuma emoção. Ainda parecia tudo surreal à sua frente.
Ele observou os médios limparem o bebê e dizerem "está tudo certo, mamãe" para uma Ingrid chorosa, querendo ver seu bebê logo.
Quando a pequena bebê enfim foi para os braços de Ingrid, os dois a apreciaram antes que ela fosse levada embora. Ela estava com os olhos fechados e Keith percebeu que por enquanto ela não parecia nenhum dos dois, mas já era possível ver os fios de cabelos pretos, como os de Keith.
— Bem vinda, Lara – Ingrid passou o dedo na bochecha rechonchuda da bebê e encarou Keith – ela não é a coisinha mais linda do mundo?
Keith não disse nada, porque sua visão estava embaçada demais por causa das lágrimas que ele insistia em segurar.
*
Os garotos chegaram juntos ao hospital e se aproximaram do pai de Keith, sentado na sala de espera.
— Já nasceu? – Tristan perguntou, apressado. O pai do Keith negou. Ele parecia nervoso com a situação, mas levantou e cumprimentou os garotos com um aperto de mão.
A mãe de Keith chegou alguns minutos depois, com o marido atrás dela. Ele não parecia tão feliz, mas cumprimentou os amigos e o pai de Keith com um sorriso cordial.
— Já nasceu? – ela perguntou. Sabrina segurava sua bebê de forma protetora, mesmo quando seu marido pedia para segurá-la para que Sabrina ficasse mais confortável.
— Ainda não – Tristan respondeu, alheio ao drama familiar.
*
Keith mal sentia Lara em seus braços, de tão pequena que era. Ingrid parecia cansada, não havia dormido direito e os observava com um sorriso fraco no rosto, como se só um sorriso demandasse muito esforço.
Ele queria mostrar sua filha a todas as pessoas os esperando lá fora então seguiu para o berçário com uma das enfermeiras e percebeu as pessoas reunidas nos vidros. O primeiro que notou a presença de Keith foi Sawyer, que os cutucou e apontou. Os acenos começaram assim que Keith parou na frente deles, mostrando a pequena Lara.
A criança estava com os olhos fechados e nem percebia que era o centro das atenções.
Era estranho para Keith ver sua mãe — que segurava sua filha no colo, mostrando Lara para ela e dizendo "olha sua sobrinha ali" — e seu pai — com os olhos marejados -, no mesmo ambiente e sem se odiarem. Keith estava acostumado em presenciar raiva e medo quando os dois estavam presentes, mas naquele dia eles sorriam enquanto observavam Keith e Lara.
Mas os seus amigos...
Sawyer parecia um bobão encarando Lara, tentando chamar sua atenção, Aiden a chamava com a mão e Tristan acenava, rindo.
Ele até queria dizer para os amigos pararem de ser tão maricas por serem tão sentimentais, mas não disse porque sentia-se da mesma forma que eles.
A enfermeira lhe socilitou a bebê para colocar no berço, mas ele queria ficar com ela o tempo todo e hesitou em entregar.
— Vocês já vão levá-la embora – ela sorriu, como se estivesse acostumada com aquela situação e Keith lhe entregou Lara. Ele saiu do berçário de costas, sem tirar os olhos da sua bebê nos braços da enfermeira. Seus amigos e seus pais observavam Lara também, com os mesmos sorrisos nos lábios.
— Minha mãe chegou? – Ingrid perguntou quando Keith voltou sozinho para o quarto que ela repousava. Ela parecia prestes a dormir, mas a resposta de Keith era mais importante.
— Eu acho que não. Estavam todos lá fora, menos ela.
— Você a chamou, né?
— Claro, você viu eu usando seu celular! – Keith revirou os olhos e parou ao lado de Ingrid, pedindo espaço na cama.
Keith não se importava em estar ali, na cama desconfortável do hospital. Ele sentia que aquele era o momento para falarem sobre o depois. Embora Ingrid parecesse mais sonolenta do que com vontade de conversar.
— Você quer dormir ou podemos conversar sobre nós? – Keith sussurrou e Ingrid ergueu o rosto para ele, pegou sua mão e a colocou em cima da sua barriga.
— O que você quer conversar?
— Você acha que estamos preparados para ficarmos juntos de verdade agora que Lara nasceu?
— Eu que te pergunto, Keith – ele tentou sustentar seu olhar – você está pronto?
*
Como Sawyer tinha tempo de sobra já que seu irmão havia encerrado as vendas das drogas por tempo indeterminado, ele passava bastante tempo com seus amigos. Quando Keith não estava com Lara e Ingrid no apartamento, estavam no de Ingrid. E aquilo estava sendo mais recorrente do que esperavam, deixando o apartamento dos garotos para Aiden, que o aproveitava com Sawyer.
Passavam as noites juntos depois que Aiden voltava do serviço. Às vezes assistiam filmes, outras preferiam ficar no quarto desfrutando da presença um do outro no silêncio do apartamento.
Tristan se juntava a eles às vezes, e então as noites eram só de filmes ou bebidas e conversas. Ele nunca perguntou a eles sobre o relacionamento, mas quando sentia que precisava ir embora, dava qualquer desculpa para deixá-los a vontade.
Quando Keith ficava no apartamento e Ingrid estava na faculdade, Sawyer o ajudava a cuidar de Lara.
— Quem te vê segurando um bebê nem imagina que você trabalha com tráfico – Keith riu enquanto encarava Sawyer brincando com Lara no chão da sala, mas ele apenas ignorou Keith e continuou entregando brinquedos para Lara se ocupar.
Quando Keith estava trabalhando na lanchonete – que havia contratado outra pessoa para Keith conseguir ter tempo com Lara -, Sawyer ajudava Ingrid.
Sawyer não queria demonstrar, mas estar com Lara e naquele apartamento era o mais perto de redenção que ele teria e ele não sabia quanto tempo aquilo duraria, então aproveitava cada segundo que podia.
Já nem lembrava-se quando havia sido a última vez que viu Seth ou sua mãe. Ou sequer deitou em sua cama.
Mas nenhum deles reclamava da presença constante de Sawyer.
Em uma noite chuvosa, Lara começou a chorar e Aiden, que estava no quarto com Sawyer, escutou e a pegou do berço antes de Keith e Ingrid acordarem com o choro, eles estavam cansados e dificilmente conseguiam dormir juntos.
Eles a pegaram e levaram para a sala, colocaram em um canal de desenhos infantis e a pequena logo abriu os olhos, parando de chorar, para encarar todas aquelas cores. O volume estava baixo, para não acordar os pais cansados, mas Lara não parecia se importar, erguendo os dedos reconchudos tentando pegar a borboleta do desenho.
Sawyer a aproximou da televisão, o que resultou em risadas altas da garotinha, feliz por pegar a borboleta. Mas quando abriu a mãozinha, não havia nada.
— Você pensa no futuro?
Sawyer parou onde estava, em frente à televisão e com Lara no colo e encarou Aiden. Estavam na sala escura, mas o rosto dele ficava verde e branco dependendo do que projetava na televisão e àquela hora, cansado e admirado por Aiden, Sawyer disse:
— Você é meu futuro.
Aiden corou. Sawyer sorriu. Lara não fazia ideia do que acontecia, mas não gostava do silêncio repentino.
— Eu estou falando sério.
— E eu também. – Sawyer sentou ao seu lado novamente e tocou a coxa de Aiden – Não importa para onde eu for, ou o que acontecer, eu quero que você esteja comigo.
— Mas você pensa em... estarmos juntos? Na frente de todos?
— Futuramente, sim. Quando eu estiver pronto. Ou quando estivermos fora daqui. Qualquer um que acontecer primeiro – Sawyer sorriu e aproximou a boca da bochecha de Aiden, depositando um beijo ali. Lara viu e fez a mesma coisa, arrancando um sorriso do rosto vermelho de Aiden.
E teria sido a vida perfeita para Sawyer, simplesmente ignorar que havia recebido uma folga de Seth, porque a vida sempre lembrava a ele do seu devido lugar.
E no final de outubro, enquanto Sawyer estava na sala com Keith, Ingrid e Lara, Aiden chegou do trabalho, e ele percebeu em seu semblante que havia acontecido algo.
Lara estava em seu colo, mexendo no zíper do casaco dele, quando Aiden lhe chamou.
— Seu irmão disse que você precisa voltar pra casa.
Sawyer fez uma careta. Sentia-se tão bem longe das incomodações. Aiden não parecia tão satisfeito em dar aquele recado e até passou por sua cabeça não lhe falar nada, mas sabia que Seth apareceria no apartamento atrás dele.
Seth não precisava dele para nada, mas queria ficar de olho em Sawyer.
— Eu tenho medo que eles façam algo com você e eu não esteja por perto pra ajudar.
A desculpa do irmão em necessitar da presença de Sawyer o enojou. Seth só estava infeliz por Sawyer ter o abandonado logo no momento que ele precisava.
— Eles não vão fazer nada. Você já levou fé em quem só manda ameaça? – Sawyer revirou os olhos, mostrando a incredulidade da situação, mas ele também tinha medo.
E por isso escolheu ficar perto de seus amigos e não do irmão. Se era para morrer, preferia que usufruisse o tempo de vida com quem ele amava de verdade.
Porém... Seth era seu irmão. Mesmo que significasse duas coisas diferentes para cada um. Para Seth, era uma obrigação.
*
Já fazia alguns meses que Tristan trabalhava com Osmar na empresa dele. Eles saíam de manhã cedo de casa, almoçavam juntos e depois Osmar o deixava na faculdade. Era algo que estava funcionando bem, mas com o tempo percebeu que talvez estivesse abusando da boa vontade de Osmar.
— Se você preferir que amanhã eu venha sozinho, não tem problema.
— Deixa de besteira, Tristan. – Osmar disse enquanto estacionava o carro em frente à faculdade. – Não é sacríficio algum. E você sabe, quanto menos carros na rua, melhor para o meio ambiente.
Mas Tristan sempre achava que incomodava os outros.
Ele só não trabalhava com Osmar nos fins de semana e na segunda ele se atrasava um pouco porque era seu dia de consulta com a Geovanna, que estava cada dia melhor, mas ele ainda não se sentia confortável com outra pessoa e havia parado de tentar forçar as situações.
Passava os fins de semana no apartamento de Keith e quando ele e Aiden estavam trabalhando, ele fazia companhia para Ingrid e Lara. Zion ia junto e Lara brincava com ele até os dois cansarem.
Às vezes Sawyer voltava a aparecer porque ele dizia que tinha medo de Lara esquecer dele. Ele tentava, a todo custo, fazê-la falar seu nome.
— Já é difícil pra nós falarmos, imagina pra uma bebê? – Ingrid dizia, rindo, mas ela começou a aprender a gostar de Sawyer.
Outras vezes Tristan e Sawyer levavam a garotinha à pracinha perto do prédio, mas sempre tinham de voltar cedo quando percebiam uns homens estranhos se aproximando.
O bairro piorava conforme o tempo passava. Pessoas nas ruas, deitadas em cima de papelões gordurosos ou se drogando na praça.
— Tão cedo e ela precisa ver essas cenas... – Tristan dizia depois que se afastavam dos horrores do bairro. Lara era tão pequena e não compreendia nada que eles viam, mas Tristan se lamentava, falando que aquele mundo era muito ruim para criar uma criança.
Mas Lara enchia os dias deles de alegria. Nunca pensaria que uma criança seria capaz de fazer Sawyer sorrir a toa. Ou aproximar ainda mais os quatro amigos.
*
Mas Keith também ficava sozinho com sua filha. Às vezes, no começo, ele chorava. Não sabia bem o porquê, mas sentia que havia destruído sua vida.
E então a garotinha ria, sem motivo algum, e ele parava de chorar.
Ele nunca teve coragem de dizer a ninguém, mas até os primeiros meses de Lara ele preferia trabalhar até tarde a ficar com ela. E ele tinha tanta sorte por ter amigos que o ajudavam.
A afeição pela filha não foi imediata, mas quando aconteceu, já não imaginava sua vida sem ela.
Keith não conseguia dormir por causa do calor do fim do ano e Ingrid era espaçosa. Então ele levantou, mas Keith fez muito barulho, acordando a garotinha.
Ela chorou até que Keith finalmente a pegasse no colo. No começo, ele a pegava e ela chorava, abria um berreiro até estar em outro colo.
Mas ali, naquela madrugada quente e silenciosa, ela parou de chorar no segundo que Keith a aconchegou em seus braços.
Depois desse dia, ele saía com ela todos os dias para conhecer cada vez mais o mundo onde vivia.
Em uma dessas passeadas, segurando ela no colo e levando o carrinho na outra mão caso cansasse de segurá-la, ele encontrou Vanny.
A princípio, não a reconheceu.
Seus cabelos estavam escuros, no tom natural, e longo, ela engordou e não havia mais olheiras por baixo dos olhos claros. Vanny sorria para Keith, parecendo satisfeita em vê-lo.
— Pelo visto é verdade mesmo – ela disse, olhando para Lara em seu colo.
Lara sorriu para a desconhecida.
— Ela tem o seu charme – Vanny continuou quando percebeu que ele não diria nada. Tocou no rosto da garotinha e Lara sorriu mais ainda.
— Você está bem? – Keith conseguiu perguntar, porque não a via há muito tempo.
Ele morava na mesma rua que ela, sabia que alguma hora aquilo aconteceria.
— Eu estava... fora – ela deu um sorriso de lado e se afastou um pouco – Você está bem? – ela devolveu a pergunta e o encarou.
Às vezes ele sentia falta de Vanny. Do seu jeito atrevido e impetuoso. Da forma como ela sabia bem lhe dar prazer. Ou como ficavam loucos juntos.
Mas ela estava diferente. Não parecia querer se aproximar, só estava sendo educada.
E Keith também estava diferente. Sentia-se bem com Ingrid, embora o relacionamento fosse mais de amizade do que qualquer outra coisa. Porque, de alguma forma, Ingrid sabia que ele não estava pronto.
Pelo menos ele havia descoberto o motivo.
— Eu estou ótimo – ele forçou um sorriso.
Ele se perguntava... O que teria sido dos dois?
— Eu estava em uma clínica de reabilitação – Vanny disse antes que ele conseguisse expor qualquer pensamento. Ele franziu o cenho e a encarou. Percebendo as mudanças em seu rosto, que parecia sempre cansado e cheio de manchas, estava liso e ela estava ainda mais bonita.
Ele queria saber por quanto tempo, se ela estava bem e como ia sua vida.
Mas esse era o Keith de antes, que não era pai e não se importava com o futuro.
O Keith-Pai murmurou um breve "foi bom te ver" e "espero que você continue bem" e se afastou com Lara.
O Antigo-Keith, viraria para trás, só para saber se ela olhava.
O Keith-Pai colocou sua filha no carrinho e caminhou sem olhar para trás em direção ao seu apartamento.
*
Aiden saiu mais tarde do trabalho naquela noite, Carlos era simpático e sempre contava histórias incríveis de lugares que visitou para seus funcionários. Naquela noite ele havia recebido seu salário e nunca levou tanto dinheiro no bolso
Quando virou a rua do apartamento, percebeu dois garotos se aproximando.
Era uma presença diferente, como se não fossem daquele lugar. Aiden os cumprimentou, tentando soar educado, mas quando notou a aproximação maliciosa, tentou correr.
Mesmo que ele corresse e chegasse a tempo na porta do prédio, havia dois deles e apenas um Aiden.
O garoto maior parou na frente da porta, o impedindo de entrar.
— Passa tudo que você tem. — o garoto atrás dele falou. Percebeu que eram dois mauricinhos pelo jeito que falavam e se portavam. Sabia também que o que o garoto apontava nas suas costas era apenas seu dedo fingindo ser arma por dentro da camiseta.
Mas ele também sabia quando ia apanhar caso não colaborasse. E aiden não queria apanhar. Não queria se sentir impotente de novo.
Então ele entregou o dinheiro, porque não tinha como não entregar, já que o garoto mais alto estava apalpando seus bolsos, já tirando o celular do bolso de trás da calça.
Eles deixaram Aiden jogado no chão antes de dar um último chute em sua barriga.
Aiden não tinha forças para levantar e gritar ou sequer ir atrás dos garotos, então ele ficou deitado no asfalto até perceber um carro buzinando ao seu lado e ele levantar, alarmado.
*
Sawyer estava em casa na madrugada, tentando ligar para Aiden já que eles sempre se falavam à noite antes de dormir, mas só chamava. Até ele ligar uma terceira vez e o celular ir direto para a caixa postal.
Após algumas tentativas falhas, o celular começou a tocar com um número diferente e ele escutou a pessoa fungar do outro lado.
— Aiden? – ele perguntou, levantando da cama, pronto para ir aonde quer que ele estivesse. – Fala alguma coisa!
— Eu fui assaltado – Aiden conseguiu responder, mas sua voz era um sussurro.
— Onde você tá? – Sawyer já estava prestes a sair de casa quando Aiden respondeu:
— No apartamento. Tô ligando do telefone. Eu não consegui fazer nada, só entreguei o meu salário e pegaram meu celular.
Sawyer não sabia o que dizer porque todas as alternativas envolviam bater em alguém.
— Você viu quem era?
— Eram de outro lugar, não pareciam ser daqui – Aiden não estava chorando, mas sua voz continuava anasalada. – Eu vou tentar dormir...
— Quer que eu vá pra ai? – Sawyer perguntou, com uma esperança infantil de que ele dissesse sim. Porque ele não conseguiria deixar Aiden sofrendo em silêncio.
— Não precisa. Acho que até não é seguro andar por aí de madrugada...
— Você estava fazendo o que?
— Eu tava voltando para casa do trabalho. Eles roubaram meu dinheiro todo! – Aiden choramingou e Sawyer percebeu que ele havia voltado a chorar.
Sawyer decidiu que todos os dias de manhã iria buscar Aiden em casa e levá-lo para o trabalho e depois o deixaria em casa ao fim do expediente. Ele queria descobrir quem eram os garotos, mas depois de uma semana acompanhando Aiden nada de estranho aconteceu e nenhum garoto surgiu.
Mas Sawyer não deixou de acompanhá-lo.
E todas as noites Aiden ligava para Sawyer do telefone do apartamento. Sentava-se no chão da sala e cochichava, para não acordar o casal e o bebê no quarto. Passavam horas conversando até Aiden encontrar o sono e ir para o quarto deitar.
*
Em uma das vezes que Sawyer acompanhou Aiden para o trabalho, eles notaram homens de terno em frente à casa abandonada da rua. Sawyer foi até eles perguntar o que estava acontecendo enquanto Aiden esperava na esquina do seu trabalho.
— Pelo jeito eles vão demolir – Sawyer se aproximou de Aiden e seguiram caminho para o restaurante. – Só responderam que até semana que vem já não existiria mais aquela casa.
— Vão construir o que ali? – Aiden perguntou, mas Sawyer deu de ombros, não fazendo ideia.
— O que você acha de passarmos uma noite ali dentro? Antes de destruírem – Sawyer arregalou os olhos, animado. Aiden apenas riu e balançou a cabeça.
Ele até ficou animado com a ideia, até perceber que Sawyer não estava sugerindo para apenas os dois passarem a noite lá.
— Acho melhor só nós dois. Tristan não tem lembranças boas desse lugar e Keith tem a Lara, ele não vai querer largar ela pra ir passar a noite em uma casa nojenta que vai ser demolida.
— Você não tá entendendo – Sawyer tocou o ombro de Aiden, que já estava aborrecido e atrasado para o trabalho. Sawyer apontou para a casa, que já estava vazia e aterrorizante, como sempre foi para Aiden. – Essa casa simboliza nossa vida aqui. Ela será destruída, uma peça nossa...
— Na única vez que dormimos lá não foi bom pra ninguém.
Sawyer até poderia cansar de argumentar, mas ele queria desesperadamente fugir da realidade.
— Ela sempre foi um lugar diferente pra nós. Como se algo pudesse acontecer estando lá.
Aiden continuava pensando que era uma péssima ideia, mas Sawyer sabia ser insistente.
— Eu realmente não sei se eles vão querer. Depois de tudo que aconteceu, e agora somos mais velhos, a casa é só uma casa abandonada.
— Eu só quero uma noite com meus amigos. Só meus amigos. É perdir muito?
— E eu só quero uma noite com você. É pedir muito?
— Dormimos juntos por semanas – Sawyer soltou um sorriso e revirou os olhos.
— Antes do seu irmão acabar com nossa felicidade – Aiden bufou e Sawyer assentiu.
Seth não estava mais indo ao beco para vender, ele arranjou outros lugares e dizia que quanto mais gente soubesse, pior, então ele não sabia de mais nada e nunca esteve tão agradecido em viver na ignorância. Ele só aproveitava o tempo com Aiden e buscando formas de gastar seu tempo, mas não sentia falta da vida que levava com Seth.
— Podemos ir, por favor? – Sawyer pediu mais uma vez, dessa vez com a voz doce e os olhos em Aiden, para amolecê-lo. Aiden suspirou e concordou, incapaz de dizer alguma coisa.
— Mas você chama eles. Não quero me meter – Aiden disse enquanto se afastava de Sawyer para ir ao restaurante. Sawyer acenou e depois que Aiden já estava seguro dentro do trabalho, foi para a lanchonete falar com Keith.
— E você acha mesmo que Ingrid vai aceitar isso? – Keith o encarou, incrédulo.
— Quer que eu fale com ela? Eu convenci o Aiden.
Keith franziu o cenho quando ele disse aquilo. E riu. Mas Sawyer não entendeu nada.
— Não precisa. Eu falo com ela. Mas se eu não aparecer já sabe...
— Sim, a patroa não deixou — Sawyer se afastou antes de Keith falar alguma coisa e mandou uma mensagem para Tristan, sabendo que ele só responderia à noite.
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