Welcome to badlands
6 Capítulo Cinco: pedir desculpas é para fracotes.
Nunca mais foram até a tal casa. Tristan passava mal só de lembrar, embora Sawyer nunca perguntasse nada. Alguma coisa aconteceu naquela noite, mas nenhum deles saberia dizer o que exatamente.
Mas quanto mais o tempo passava, mais eles se reaproximavam. Tristan evitava a casa de Sawyer, ao contrário de Aiden, que continuava indo até lá.
Keith nem sempre escolhia os amigos, aceitando às vezes dar uma saída com Vanny.
Sawyer tentava esquivar de Seth e em alguns dias até conseguia. Seth estava ocupado demais tentando conseguir dinheiro. Não tinha tempo para bater no irmãozinho.
Keith já não dormia tanto em sua própria casa. Preferindo ver os vários namorados da mãe de Vanny do que as várias namoradas do próprio pai.
Tristan estava ficando mais velho e forte, conseguia escapar pela janela em algumas noites e em outras conseguia simplesmente se defender. Nada que lhe causasse algum conforto, pois as coisas dificilmente mudavam. Mas quanto mais ele se mostrava no controle, melhor.
O pai de Aiden estava ficando velho e bêbado demais para se preocupar com o filho. Talvez tenha notado que já não era o bastante bater no filho quando Aiden apareceu, certa tarde depois da escola, se agigantando na frente do seu pai. Aiden tinha a altura e a força dele e os olhos dóceis da falecida mãe. Mas o pai de Aiden nem sempre estava sozinho para educar o filho na base da pancada.
Aos dezesseis anos o esperado é você já ter estabelecido coisas boas para o seu futuro. Mas aqueles garotos nem sabiam o que fariam depois de acordar. Suas vidas não estavam cheias de oportunidades.
Eles estavam atrás da casa do Sawyer em uma tarde de inverno. A brisa fresca desarrumava os cabelos de Keith, que só era longo na frente do seu rosto e estava sempre sujo. Tristan, por ser o mais magrinho, quase podia sentir o vento levá-lo, seus pensamentos estavam bagunçados, mas ele ficaria alegre em ir embora, voando para bem longe. A bebida era para aquecê-los, eles sentiam tudo queimando dentro de si, ficando altamente intocados pelo frio. Pelo vento e pelas ameaças silenciosas que reinavam em suas casas ou naquele bairro inteiro. Era uma tarde pacífica de fim de semana. Estavam livres dos colegas e aproveitavam o dia com as pessoas que mais gostavam no mundo. Mas, é claro, sempre tinha alguém para incomodá-los.
O tio de Aiden, que há algum tempo estava morando com ele e seu pai, apareceu algum tempo depois. Aiden não saberia dizer como chegou tão rápido até ele, mas o tio tinha aquela habilidade única de farejar confusão e tentar acabar com ela antes de começar a diversão.
— Aiden, Aiden — o tio disse, se aproximando dos meninos. Keith tentou esconder a garrafa de vodca no casaco, mas já era tarde demais.
— Oi — ele disse, sem encarar o tio. Não mostraria que estava com medo.
— Seu pai sabe disso, não sabe? Aposto que ficaria bem bravo — o tio riu. Faltavam alguns dentes na parte da frente. “Briga de bar”, ele contou a Aiden quando o garoto era mais novo, “um dia eu te ensino a se defender”, o tio concluiu quando o garoto, tão pequeno e inocente, o olhava com uma espécie de desprezo e confusão. O seu tio nunca o ensinou a se defender. A não ser que “se defender” queira dizer “batendo até não conseguir respirar mais”.
— Não tem nada de interessante por aqui — Sawyer disse, levantando. Seu modo protetor ativado. Ele destruiria o resto dos dentes do tio de Aiden se tivesse oportunidade. Aiden se aproximou de Sawyer, tocando no seu ombro.
— Ah, que amor — o tio de Aiden riu — tentando defender meu sobrinho?
— Não enche, tio — Aiden disse, mas estava muito nervoso com tudo aquilo. Ele sabia que aquilo pioraria sua situação. O tio de Aiden riu mais um pouco e semicerrou os olhos para ele.
— O que você disse? — o homem se aproximou, pronto para bater em Aiden na frente dos garotos. Tristan levantou do chão, alarmado. Keith se colocou no meio do tio de Aiden e Sawyer.
— Ele disse que não estávamos fazendo nada — Keith começou. Era sempre ele que lidava com as pessoas mais velhas tentando confrontá-las — e que não há o que o senhor contar ao seu irmão, certo? Estávamos apenas conversando, aproveitando a tarde livre — Keith sorriu, crente que estava fazendo algo bom. Aiden fechou os olhos com força, tentando deixar de lado toda a angústia que estava sentindo.
— Tudo bem — o tio disse, depois de um silêncio terrível. Depois de observar Aiden e seus amigos com muita atenção.
O tio se afastou, não olhou para trás e seguiu até a casa onde estava agregado.
— Foi por pouco — Tristan suspirou, mas Aiden estava ainda mais ansioso. Não queria voltar para a casa naquela noite.
Encarou Sawyer, que estava com o maxilar cerrado, as mãos em punhos ao lado do seu corpo. Parecia ainda mais nervoso que Aiden. Keith continuou observando enquanto o homem se afastava.
— Você vai voltar pra casa hoje? — Keith perguntou, olhando Aiden.
— Vou — Aiden disse, sabendo o que o aguardava, mas não temendo. Sawyer o encarou, perplexo.
— Você não pode, Aiden — Sawyer começou, mas logo se interrompeu quando viu o semblante de Aiden. Estava determinado.
— Não me importo — ele disse, inabalável. Embora se importasse, e muito.
Aiden apanhou, como previsto, mas não foi até a casa de Sawyer naquela noite.
Sawyer esperou, no entanto, a batida na porta característica de Aiden, mas só escutou Seth chegando naquela noite e pela porta aberta podia notar o irmão trôpego, tentando subir as escadas.
Na casa de Keith, a cama fazia aquele barulho. Keith e Vanny faziam aquele barulho em um sofá barato em um hotel.
Tristan estava todo tapado, com uma cadeira na porta, impedindo sua tia de entrar.
Em uma dessas noites que o frio estava insuportável, as casas rangiam com o vento.
Sawyer tremia com seu edredom rasgado. Ele entregou o cobertor para a sua mãe, que apagou no sofá da sala. Seth estava deitado em algum beco, os braços todos marcados. Aiden estava contorcido no seu quarto enquanto seu tio chutava sua barriga. Ele nem perguntava o motivo. Apenas aceitava. Seu tio o encarou uma última vez antes de fechar a porta. Ele continuou deitado ali por alguns segundos até ter coragem o suficiente para levantar.
Sawyer não conseguia dormir. O frio era demais. Os dentes batendo. As pernas tremendo. Os braços arrepiados. Ele escutou a porta. Mas não era a casa inteira fazendo aquele barulho? Mas ele desceu, querendo se mover para acabar com o frio. Sua mãe estava roncando ainda. Ele queria acordá-la, pedir que fosse para a cama, mas sabia que era bom nem tentar chamá-la.
Aiden estava chorando. O vento fazendo seu cabelo curto voar em todas as direções. Ele estava com uma camiseta de manga curta, se abraçando enquanto encarava Sawyer.
— Entra, cara — Sawyer sussurrou. Ele nem precisava pedir para Aiden entrar, mas o garoto estava paralisado na frente da casa. Sawyer se aproximou dele e lhe entregou seu casaco. Aiden o colocou, as mãos tremendo. Os dois subiram para o quarto de Sawyer em silêncio.
Sawyer estava arrumando a cama improvisada no chão enquanto Aiden deitava na cama do amigo. Aiden o encarou enquanto ele tentava procurar mais alguma coberta para colocar no chão.
— Sawyer — Aiden sussurrou. Sawyer o encarou enquanto fechava o seu guarda-roupa. Aiden o chamou para deitar ao seu lado. Era estranho quando eles dormiam na mesma cama, mas era algo que sempre faziam, isso não deveria mudar só por que ficaram mais velhos — Está frio demais pra ficar no chão — Aiden prosseguiu, ganhando a atenção de Sawyer, que deitou ao seu lado, mas sempre com uma distância mínima. A cama já estava pequena para os dois garotos, mas era melhor que ficar no chão.
— Está doendo? — Sawyer resolveu perguntar, quebrando o silêncio. O rosto de Aiden denunciava a dor que ele sentia. Ele estava todo contorcido na cama, se aproximando ainda mais de Sawyer. Aiden apenas murmurou “não”, e fechou os olhos.
Sawyer deitou de costas, sentindo o joelho de Aiden em sua cintura. Ele estava encolhido ao seu lado, mas Sawyer não estava mais com frio. Ficou encarando o teto enquanto escutava o vento na rua. Parecia prestes a arrancar as casas do chão. Não seria uma péssima ideia.
— Sawyer? — Aiden murmurou novamente. Sawyer fechou os olhos. Por que o coração dele estava tão acelerado? Que vontade era aquela de chorar? Ele nunca chorava! A primeira vez que apanhou de Seth ele chorou. Seth começou a rir “ah, meu Deus. Você sabe que chorar é coisa de menina, não sabe?”.
Sawyer estava com as duas mãos entrelaçadas em cima da barriga. Seus olhos permaneceram fechados por tempo demais. “Se continuar de olhos fechados, Aiden vai achar que estou dormindo e não vai encher o saco”, ele pensou. Mas então sentiu o toque gelado da mão de Aiden em sua mão esquerda. Ele se assustou, mas continuou quieto.
Aiden se aproximou ainda mais. Sawyer sentiu o calor dele. Ele não precisava abrir os olhos para saber que Aiden estava o olhando. Sentiu os centímetros que os separavam. E sentiu os lábios de Aiden nos seus. Estavam gelados. Um gosto salgado. Gosto de lágrima.
Sawyer não queria abrir os olhos. Ele não queria ver aquilo acontecendo. Mas então sentiu a língua de Aiden encostando na sua. Quem diria que o primeiro beijo de Sawyer seria com seu melhor amigo?
Sawyer nem sabia como fazia aquilo. Ele sempre esteve ocupado demais para sair beijando quem quisesse. Mas ele não queria que aquilo estivesse acontecendo. Não daquele jeito. E então ele se afastou. Tão rápido que Aiden se assustou.
— Desculpa — Aiden murmurou quando voltou para o seu lado da cama.
— Não peça desculpas — Sawyer murmurou — isso é pra fracotes.
Sawyer encarou Aiden. Sua boca estava roxa. Seus olhos estavam fixos nele. E então Sawyer mandou tudo à merda e aproximou sua boca da de Aiden, o beijando.
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