Welcome to badlands
24 Capítulo Vinte e Três: corja de assassinos.
Aiden encarou Sawyer à distância e naquele momento, às duas horas da madrugada, decidiu que iria embora daquela casa. Não aguentaria ver Sawyer se transformar em seu irmão. Keith olhou para trás, percebendo que havia perdido a atenção de Aiden para outra coisa.
— Sawyer – Keith correu – meu querido, você tem cocaína? – os olhos de Keith eram vidrados em Sawyer, que franziu o cenho e bateu no seu rosto.
O choque foi pior que o tapa. Keith arregalou os olhos e tocou no rosto quente, sentindo a mão de Sawyer ainda.
— Você tá maluco? – os olhos de Keith faiscavam encarando Sawyer.
— Você que tá maluco – Sawyer o encarou e as faíscas nos olhos de Keith viraram cinzas. Sawyer era ameaçador encarando Keith – Eu não vou te dar droga.
— Só um pouco! Eu não consigo dormir – Keith implorava, as mãos juntas em forma de oração. Sawyer pegou o pulso de Keith e fez ele o encarar.
— Eu realmente não sei o que diabo você tá querendo agora, mas não é cocaína. – suas palavras eram afiadas enquanto Keith o encarava, os olhos amedrontados em sua direção.
— Sawyer – Aiden se aproximou, a voz seca – vou leva-lo pra casa – ele pegou o braço de Keith sem encarar Sawyer.
Keith ficou parado, encarando Sawyer, que apenas desviou os olhos, impenetrável. Aiden o puxou pela camiseta e Keith começou a cooperar, mas choramingava enquanto voltavam para a casa dele.
Aiden não olhou para trás nenhuma vez e Sawyer voltou para casa, esperando que Aiden voltasse pra dormirem e esquecerem a noite horrível, mas Aiden não voltou.
Tristan perambulou pelo quarto a noite toda, até o sol começar a entrar por sua janela. Ergueu os olhos e encarou o dia começando. Não havia dormido, mas àquela altura não fazia diferença, ele deveria fazer a segunda prova do vestibular naquele domingo, não poderia faltar. Era a sua única chance.
Correu para o banheiro, tentando tirar todo o cansaço do seu corpo enquanto a água gelada o acordava. Escutou o barulho da sua tia na cozinha e o do chuveiro falhando enquanto voltava aos poucos a jorrar água em suas costas.
Sua tia bateu na porta, o que fez Tristan franzir o cenho, geralmente ela nunca batia.
— Eu preciso usar o banheiro, querido – ela disse, soando risonha do lado de fora.
Tristan demorou vinte minutos para sair do banho.
Keith semicerrou os olhos para o sol penetrando em sua persiana. Olhou para o lado e percebeu que não estava sozinho na cama. Tentou recordar-se da noite passada, mas não se lembrava de Aiden dormir ali.
Keith pensou em acordá-lo, mas apenas deitou ao lado de Aiden e passou o braço em cima do seu ombro. A sua respiração era tranquila, inabalável.
Sawyer não conseguiu dormir. Não sabia se era pela ausência de Aiden ou pela falta de sono pensando em Jonas. Ele gostaria de poder ajudar, mas parecia inútil deitado no colchão surrado.
Ele escutou alguém batendo na porta, o som da madeira parecendo passar por todas as instalações da casa. Pensou em descer e atender, mas sabia que sua mãe estava lá embaixo. Mas considerou que poderia ser Aiden. Ele estava prestes a sair do quarto quando sua mãe abriu a porta.
— Sawyer está? – o garoto perguntou e Sawyer correu pelas escadas ao ouvir a voz de Mikael.
— Pode deixar, mãe – ele tocou o ombro da sua mãe e ela saiu da frente da porta, deixando o filho passar e sair de casa.
Mary ficou encarando a porta enquanto Sawyer a fechava vagarosamente e sumia de sua vista com aquele garoto.
— E então? – Mikael encarou Sawyer.
— A loja de ferramentas do Sebastião tem câmera, podemos passar lá pra ver.
— Podemos? – Mikael arqueou a sobrancelha – Já fez o suficiente – ele disse afastando-se.
Estavam em frente à casa de Sawyer e ele podia ver sua mãe o encarando pela janela da cozinha, questionando-se o que seu filho aprontou dessa vez.
Mikael passou por Sawyer para se afastar e ir à loja de ferramentas quando Sawyer o segurou pelo braço.
— Só deixa eu te ajudar de alguma forma – ele pigarreou quando soltou o braço de Mikael.
Mikael engoliu em seco e revirou os olhos para Sawyer e começaram a andar lado a lado pelo caminho de terra. Mary os encarou à distância enquanto se afastavam.
Tristan estava pronto para sair de casa quando Eleanor apareceu à sua frente na sala.
— Onde você vai?
— Vestibular – Tristan murmurou enquanto desviava os olhos dela.
— Mas você não fez isso ontem?
— São dois dias – ele engoliu em seco.
O avental de Eleanor estava sujo de chocolate, o que fez Tristan lembrar-se de todas as vezes que ela comprava chocolate para ele, pra depois comerem juntos no quarto.
Ele balançou a cabeça e encarou o chão, mexeu no cabelo e encarou sua tia.
— Preciso ir – ele conseguiu pronunciar as palavras, mas sua cabeça era uma confusão pelo tempo sem dormir.
— Acho que o pneu da sua bicicleta furou – sua tia o alertou enquanto ele saía de casa. Tristan encarou o pneu murcho e bufou.
— Posso te levar de carro – ela deu de ombros enquanto o observava no batente da porta.
Tristan olhou ao redor, à procura de outra solução, mas só conseguia encarar o carro da sua tia à frente da casa.
Ele considerou que poderia ir a pé, demoraria quase duas horas, mas chegaria a tempo.
Porém... Tristan sentia-se fraco até mesmo enquanto escorava-se à madeira da casa. Ele ainda encarava a bicicleta, esperando um milagre.
— Você vai se atrasar assim – Eleanor murmurou o encarando em reprovação. Tristan não conseguia manter-se muito tempo em pé, mas respirou fundo e fechou os olhos – você está passando mal? – ela perguntou, saindo da casa e aproximando-se do sobrinho.
— Preciso comer – ele conseguiu dizer, mesmo sabendo que seu problema não era aquele.
Sebastião encarou os dois garotos à porta enquanto segurava algo dentro do balcão. Um canivete, Sawyer percebeu pelo espelho atrás do homem. Mikael o encarou amedrontado e ergueu as mãos, na defensiva.
— Só queremos uma informação – suas mãos ainda estavam erguidas no ar enquanto entravam na loja. O homem atrás do balcão parecia velho, seus olhos eram frios olhando para Sawyer, ainda parado na porta.
— Você fica ai fora – o homem disse, encarando Sawyer. – conheço sua fama. Você não vai conseguir nada aqui.
— Desculpa, senhor – Mikael pigarreou, resolvendo ignorar tudo aquilo e mandando Sawyer ficar afastado. – não queremos causar tumulto – ele abaixou as mãos em cima do balcão, o que fez Sebastião tirar a mão do seu canivete e encarar Mikael por trás dos óculos de grau.
— O que posso fazer por você?
— Ontem à tarde houve um assassinato à frente da sua loja – a voz de Mikael era estável, mas Sawyer percebeu que ele não conseguia parar de mexer a perna, nervoso – e eu gostaria de ver a filmagem da câmera. Quer dizer, se sua câmera gravou...
— Provavelmente gravou – o homem o encarou, o cenho franzido. – não confiaria em uma câmera que não grava vinte e quatro horas por dia – ele riu e acessou seu computador, ainda de olho em Sawyer escorado na porta, à espera.
— Foi à tarde. Umas duas horas. – Sawyer disse, tentando ser prestativo, mas foi ignorado.
— Aqui – o homem encontrou a gravação e encarou a tela, seu semblante mudando conforme enxergava as cenas em seu computador. Sawyer o observou enquanto sua fisionomia só denunciava a surpresa e o horror em seus olhos arregalados.
— Você pode me emprestar essa gravação? – Mikael perguntou, tentando não olhar para o espelho atrás do homem. Tentando não encarar a expressão dele. Tentando não olhar para o lado e ver Sawyer arrependido.
— Mas... – ele engoliu em seco – eu não sei se posso fazer isso...
Nenhum cidadão de bem tem medo de se meter com a polícia. Sawyer encarou o velho e estava pronto para xingá-lo ou até mesmo roubar o computador dele, mas Mikael respirou fundo e encarou o homem.
— Era meu irmão ali. – ele começou, olhando para o chão – minha mãe está sumida tentando descobrir o que aconteceu. E está aí – ele tocou no computador, suas mãos eram trêmulas enquanto as colocava no balcão novamente. – esse homem não pode continuar defendendo a nossa comunidade quando ele mata um de nós – a voz de Mikael falhou até ser um sussurro inatingível aos ouvidos de Sawyer, mas Sebastião escutou.
— Só não diga que eu ajudei nisso – ele tossiu enquanto pegava uma embalagem com pendrive atrás da sua cabeça na loja e copiou o vídeo nele – e sumam daqui – ele os afastou com a mão.
Mikael pegou o pendrive e o colocou no bolso, saindo da loja e pegando Sawyer pelos ombros.
— Agora a gente acaba com aquele desgraçado – Mikael sorriu.
Sawyer estava pronto para dizer que não adiantaria. Mikael queria fazer o certo entregando o verdadeiro culpado para a polícia, mas a delegacia do bairro era a corja dos assassinos, não apenas policiais. Mas resolveu seguir ao lado do amigo enquanto seu semblante suavizava-se.
Sawyer gostaria de fazer justiça com as próprias mãos. Sabia que se fosse ao contrário, se ele perdesse o Seth, ele correria atrás do culpado e o mataria com as próprias mãos. Ele faria aquilo com todos que mexessem com um dos seus.
Mas Mikael andava tranquilamente pelo bairro. Sawyer não queria acabar com seu alívio, queria apenas notícias boas, por isso não disse nada.
Jonas merecia justiça.
— Você está muito pálido – Eleanor disse enquanto encarava Tristan ao seu lado no carro, que encarava a janela e segurava o cinto de segurança com força, os nós dos seus dedos estavam brancos.
— Eu sou pálido – ele deu uma risada fraca e Eleanor permaneceu o encarando, parada no sinal vermelho.
— Você dormiu?
Tristan engoliu em seco. Era inconveniente seu interesse àquela altura, quando ela era a maior culpada da sua insônia.
Ao seu redor as pessoas passavam apressadas e os carros buzinavam como se adiantasse algo.
Sua tia desviou os olhos para a rua à sua frente e agarrou o volante para voltar a dirigir. Tristan permaneceu encarando as pessoas ao redor, sem tentar se importar com sua tia tentando o olhar a cada cinco segundos. Ignorou a dor no seu estômago enquanto sua tia parava em frente à escola. Era nervosismo da prova. Era falta de sono. Era Tristan e seus demônios enquanto ele saía do carro cambaleante sem dizer uma só palavra para a tia após ela balbuciar um "eu te amo, você sabe, né?".
Keith e Aiden saíram juntos para irem ao trabalho. Keith cobria dois horários para ter mais dinheiro e Aiden o acompanhava porque francamente ele não tinha mais o que fazer.
— Então – Keith começou enquanto caminhavam até a lanchonete. Aiden o encarou, mas não estava de bom humor. – como você foi parar comigo na cama?
Aiden revirou os olhos e riu.
— Eu não queria dormir naquele sofá nojento – Aiden riu. Ele não estava acostumado a dormir longe de Sawyer e dormiu com Keith porque pensou que ele não se importaria.
— Foi estranho – Keith riu – mas, tipo... Não tem problema.
— Como assim? – Aiden parou de andar e o encarou – você tá assim só porque quis dormir na cama? Eu nem toquei em você – ele revirou os olhos e bufou .
— Só falei que não tinha problema você dormir lá – Keith franziu o cenho.
— Tanto faz – Aiden queria soca-lo, mas respirou fundo e voltou a andar.
A delegacia era fria e escura, mas isso não os impediu de entrar e perceber todos os policiais brancos os encarando. Sawyer se aproximou da entrada, tentando ser o primeiro a ser visto e encarou os homens. Tentou procurar o motorista assassino, mas não o encontrou.
— O que posso fazer por vocês? – o policial tinha cabelo branco e semblante gentil, mas os encarava com certa preocupação.
— Temos a evidencia de um assassinato – Mikael o encarou com o queixo erguido, não soando ameaçador, mas tentando ganhar respeito do homem.
— Ah, é? – o homem o encarou dos pés à cabeça. E encarou Sawyer atrás, apreensivo e com o cenho franzido enquanto encarava os policiais ao redor deles. Todos atentos à conversa, mas sem conseguir escutar nada.
Mikael ergueu o pendrive para ele e Sawyer desejou que ele não fizesse aquilo, pelo menos não até fazerem uma cópia da gravação, mas Sawyer não queria causar uma cena, principalmente lá.
O homem segurou o objeto pequeno em seus dedos grandes e gordos e encarou os garotos novamente, o cenho franzido. Suas sobrancelhas eram brancas e grossas.
— Vou analisar – o policial disse e sorriu, já se aproximando da porta para os dois saírem. Mikael permaneceu onde estava apesar da mão do policial em seu ombro.
— Você não entendeu – o sussurro de Mikael era ameaçador, mas o policial não esboçou reação alguma. – Há um assassinato gravado no pendrive em suas mãos gordas. Você vai olhar e vai tomar providencias.
O policial ajeitou sua postura, encarando Mikael de baixo, como se ele fosse apenas uma formiga em seu caminho. Segurou o pendrive com força e sua vontade era de quebra-lo, mas respirou fundo e sorriu.
— Eu vou fazer isso, mas eu vou te avisar uma coisa – o policial segurou o ombro de Mikael, com força. O apertou até o garoto fazer uma careta relutante — nunca mais fale desse jeito com um policial, seu malandro.
— Ok – Mikael riu e ficou na defensiva – você está certo. Eu me exaltei – ele deu de ombros e Sawyer semicerrou os olhos sem entender nada. – eu posso assistir com o senhor? – o sorriso nos lábios de Mikael causou calafrios em Sawyer.
O policial encarou Mikael e seu semblante era inexpressivo. Sawyer encarou o seu sobrenome no uniforme: Mendez. Ergueu o queixo, tentando ser maior do que se sentia ao redor de todos aqueles policiais e Mikael.
— Você precisa ir embora – Mikael sussurrou para Sawyer enquanto o policial ia até uma sala. Ele bateu a porta ao entrar.
— O que? Não vou deixar você sozinho – Sawyer franziu o cenho e encarou todos os policiais.
— Você aparece na porra da filmagem, animal – Mikael rosnou – você tá se metendo com policial, não espera que eles não cheguem até você.
As letras à sua frente não faziam sentido. Ele não conseguia lembrar-se do final daquele livro de literatura da pergunta, mas lembrava-se da sua tia tentando entrar no quarto e dizendo que, caso ela lesse o livro, ele se concentraria melhor.
Tristan suspirou, tentando recuperar a concentração.
Ele lembrava-se bem da história, porque ele só conseguia focar naquilo enquanto tudo acontecia.
Seu suor caia em gotas grossas na prova, mas ele piscou duas vezes, afastando o borrão nos olhos e voltou sua atenção para a folha de respostas ao seu lado. Tristan lembrava-se de tudo que havia estudado e terminou a prova esticando os braços à frente, os alongando. Seu sorriso tremia nos lábios, sem força, mas enquanto ele entregava o papel ao garoto à frente da sala, ele sentia-se vitorioso.
Até ver sua tia no portão da escola, a espera dele.
Eleanor estava dentro do seu carro mexendo no celular. A janela aberta e uma música dos anos 80 irrompendo pelo som. Tristan deu a volta na escola e pegou outro caminho. Chegaria em casa quase ao escurecer, mas ele precisava caminhar um pouco.
Sawyer se afastou, mas não sem antes olhar mais de três vezes para trás até certificar-se de que Mikael ficaria bem sozinho. Ele andou pelo bairro com as mãos enfiadas no bolso enquanto passava por diversas pessoas conversando em voz alta.
O barulho delas atrapalhava os pensamentos de Sawyer, martelando em sua cabeça.
Ele tinha certeza que Mikael não conseguiria nada indo até a delegacia, mas não deixou de desejar que desse tudo certo. Embora sua preocupação era evidente até mesmo na forma como ele andava, meio encurvado encarado seus coturnos sujos de terra. Seu passo era desapressado até a lanchonete, mas suas preocupações rondavam sua cabeça.
Carl encarou Aiden, o que deixou o garoto alarmado por alguns segundos.
— Você não vai trazer meu café? – o velho balbuciou por trás da baba escorrendo pela sua boca. Aiden respirou fundo e o encarou.
— O senhor não pediu...
— Ah, mas é claro! – Keith se aproximou, tocando os ombros de Carl, que se soltou com um safanão e encarou os garotos – me desculpe, vou trazer.
Keith voltou para trás do balcão e encarou Aiden.
— Vá fazer uma xícara de café – ele sussurrou, Aiden apenas o obedeceu.
Enquanto Aiden servia o café de Carl, Keith preparou seu pão torrado, encarando o velho.
— Como estão as coisas?
— Tudo igual – ele bufou – ainda estou esperando o jornal que minha filha ficou de trazer – ele revirou os olhos e riu. Os poucos dentes que lhe restavam eram podres e Keith desviou os olhos para não vomitar.
— Tá queimando o pão – Aiden murmurou ao se aproximar de Keith no balcão. Entregou o café ao Carl com um sorriso simpático enquanto o senhor pegava a xícara de sua mão com o semblante apreensivo.
— Desculpe – Keith fez uma careta e entregou o pão torrado para Carl.
— Cadê aquela garota gordinha? – Carl questionou enquanto olhava para os dois garotos.
Keith começou a pensar em uma resposta quando Sawyer entrou na lanchonete. Aiden já não se importava com Carl e aquele olhar julgador em cima deles. Keith lidaria com aquilo.
Aiden se aproximou de Sawyer, de repente sentindo-se ridículo em estar com aquele uniforme, o chapéu chamativo pinicando seu couro cabeludo. Mas Sawyer o encarava como se Aiden fosse a melhor coisa do seu dia.
— Achei que não o veria tão cedo – Aiden murmurou ao se aproximar.
— Vim só comer alguma coisa – ele encarou o cardápio à sua frente, tentando se ocupar – Onde você dormiu? – ele sussurrou, para ninguém ouvir.
— Com o Keith – ele pigarreou e encarou o amigo do outro lado, conversando com Carl. – Resolveu as coisas com o garoto? – Sawyer franziu o cenho e Aiden esclareceu – o garoto morto.
Sawyer estremeceu quando Aiden disse aquilo daquela maneira, mas apena suspirou, balançou a cabeça e pediu um sanduíche com Coca-Cola.
— Não quer me responder? – Aiden perguntou, com o cenho franzido genuinamente preocupado, após voltar com a latinha de coca-cola.
— Estou tentando resolver isso – ele apenas respondeu, sem tentar entrar em detalhes.
Aiden parecia diferente atrás daquele balcão. Era seu segundo dia apenas, mas Sawyer nem o reconhecia mais. Longe de Sawyer, Aiden era independente e destemido.
— Tá gostando de trabalhar ai? – ele perguntou enquanto bebia o refrigerante, sentindo o gás em sua garganta.
— É bom – ele balançou a cabeça – pelo menos posso ter dinheiro pra comprar minha própria latinha de coca – ele riu – não preciso que você compre mais.
Sawyer sorriu, mas seu olhar era triste. Aiden não precisaria mais de Sawyer.
— Você que deveria arranjar um emprego – Aiden disse ao entregar o lanche de Sawyer – deixar de ser a marionete do teu irmão – ele murmurou antes de se afastar.
Sawyer não ficou na lanchonete, apenas saiu. Sem despedir-se de Keith, sem terminar de comer seu sanduíche. Voltou para a sua casa da mesma forma que chegou àquele lugar: a postura curvada enquanto encarava os pés e pensava em Jonas.
Tristan sentia seu coração acelerado no peito, mas não parou até achar um lugar para sentar-se e aliviar as pernas de toda aquela pressão de levar seu corpo embora. Tristan encarou a rua, os carros passando apressados ao seu lado enquanto ele encostava-se à parede e deslizava até o chão. Seu corpo pedia socorro, mas preferiu apenas fechar os olhos e ignorar as súplicas da sua carcaça cansada.
Um cachorro se aproximou e lambeu seu nariz. Tristan abriu os olhos, alarmado. O vira-lata o encarava de volta, era pequeno e peludo, preto com mechas marrons.
— E ai, carinha? – Tristan o encarou, sorrindo para ele. Tocou seu pelo e sentiu todos os nós por baixo. Sentiu os bichos andando pelo cachorro e um sentimento de pena o invadiu.
Ele parecia aquele cachorro, largado e sujo. Tristan não soube de onde tirou forças para levantar do chão naquela avenida e pegar o cachorro no colo, mas foi assim que ele foi embora para a casa o restante daquele dia, levando dois corpos cansados.
— Deixa eu te contar algo que esqueci – Keith cutucou Aiden ao observarem Carl se afastar – Carl tem problemas de memória e todos os dias ele senta e espera o café.
— Tudo bem, mas ele não pediu.
— Sim, porque ele só senta e entregam a ele. Marion que costumava conversar com ele, por causa dela eu descobri que sua filha, que foi buscar o jornal, o abandonou e mora na costa rica com o marido, nunca nem vem visitar.
— E como ela sabe de tudo isso se ele tem problema de memória?
— Ele contava diversas coisas, ela só tentou colocar tudo na ordem que ele não conseguia – ele balançou a cabeça – às vezes a história se perde porque existem diversas lacunas na memoria dele – Keith deu de ombros – tem dias que ele se esquece de vir e não vem. Mas tem outros dias que ele vem mais de uma vez.
— Não há ninguém pra ajuda-lo?
— A mulher morreu e a filha o deixou. – Keith suspirou – é triste chegar nessa idade e esquecer tudo, né? Quer dizer... deve ser. Tinha dias que eu acordava sem lembrar nada por causa das drogas e aquilo me deixava doido – ele balançou a cabeça. Estavam sozinhos na lanchonete enquanto encaravam a porta, à espera de clientes.
— E porque diabos você foi atrás de droga ontem se você sabe que faz mal?
— Eu precisava – Keith bufou – eu vacilei. Ainda bem que foi você que atendeu a porta – ele riu e Aiden franziu a boca, concentrando-se na pequena mancha de café que tentava limpar com um pano sujo. – Escuta, porque a gente não aluga o apartamento junto?
Aiden encarou Keith, com um sorriso bobo no rosto, parecendo só se dar conta daquilo naquele instante. Keith começou a falar diversas coisas que fariam no apartamento.
— É claro que teríamos de fazer festa toda sexta – ele riu.
— Calma, Keith – Aiden parou de tentar limpar a mancha e largou o pano. Encarou Keith com o cenho franzido – você tá doido – ele riu – eu comecei a trabalhar ontem! Ainda não tenho...
— Eu acho que tenho o suficiente pra conseguir alugar o primeiro mês e o próximo começamos a dividir, o que você acha?
Aiden considerou a ideia por alguns segundos. Não seria tão terrível ter um lugar para morar, mesmo sendo com Keith. Mas Aiden lembrou-se de Sawyer, dos seus joelhos magros encostados em suas costas todas as noites quando dormiam juntos. Lembrou-se de todas as vezes que acordou de manhã e Sawyer estava com a atenção focada em Aiden dormindo.
Mas também havia o fato de que Sawyer trabalhava para Seth e quanto mais Aiden visse aquilo, pior se sentiria. Ele não queria que Sawyer virasse a versão menor de Seth, mas se fosse acontecer, ele queria estar longe.
— Tristan, aqui não pode animal! – Keith o repreendeu e correu até a porta. Seu amigo estava suado e fedorento, o que fez Keith o encarar, preocupado – O que aconteceu?
Tristan largou o cachorro no chão e esperou ele correr, mas o cachorro ficou parado ao seu lado, o encarando com a língua pra fora. Keith encarou o cão e sorriu.
— Ah, tadinho. Ele é bonito, vai.
— Bonito e sujo – Tristan torceu o nariz e limpou seus braços cheios de pelo – Mas é meu novo cachorro.
— Podemos dar um banho nele depois – Aiden deu de ombros quando chegou à porta e encarou os amigos.
— Qual nome do nosso novo amigo? – Keith se agachou à frente do cachorro, que aproximou o focinho da sua mão para ganhar carinho.
— Não pensei ainda – Tristan pigarreou – mas Zion, acho...
— Bonito – Aiden se juntou ao lado de Keith para fazer carinho no cachorro.
— Como foi a prova? – Aiden perguntou enquanto ainda alisava Zion.
— Tranquila – Tristan pigarreou e pegou o cão de volta – Preciso ir. Mas depois vocês vão lá em casa para darmos banho nele?
— Claro! – Keith levantou e se despediu de Zion no colo de Tristan – bem vindo ao nosso bando, Zion.
Sawyer se aproximava do beco com o olhar destemido encarando Seth, que brigava com um dos garotos.
— Você não pode roubar de mim – ele dizia enquanto cuspia no garoto – me devolve – sua voz era ameaçadora enquanto o garoto entregava a droga. – Você é doido se acha que vou deixar um viciado trabalhar aqui – Seth lhe deu um chute no estômago e o garoto caiu no chão, segurando a barriga com uma careta de dor no rosto.
Estavam no beco escuro, à distância de todos os olhares. Sawyer observou a cena enquanto seu irmão batia no cara. Ele só conseguia ficar feliz porque daquela vez não era ele apanhando.
— Não quero ver sua cara aqui mais – Seth se inclinou sobre o corpo contorcido do garoto e cuspiu no seu rosto, quase entrando no seu olho.
Encarou Sawyer limpando as mãos na camiseta surrada enquanto o garoto gemia de dor no chão.
— Precisa de algo? Tá vendo que não to de bom humor.
— Com quem você trata pra matar alguém? – Sawyer perguntou, mas sua voz era um sussurro. Seth franziu o cenho e aproximou-se do irmão, tentando escutá-lo.
— Quem você irritou? Mexeu com namorado de outro cara? – Seth o encarou com o queixo erguido – você vai mesmo se meter nessa? Eles pedem algo em troca e eu acho que dinheiro você não tem pra isso, né?
Sawyer suspirou e encarou o irmão.
— Quanto?
— Eles cobram na base de cinquentinha. – Sawyer estava pronto para responder que cinquenta ele tinha, mas Seth riu – mil. Claro.
— Eu não tenho...
— Foi o que pensei – Seth cuspiu no chão, seu catarro era branco e espumoso. Sawyer olhou para o garoto caído, sem forças para levantar – eles também pedem o rim, quando não pagam.
— Rim?
— É – Seth riu ao perceber a reação do irmão – e não pedem, eles mesmo pegam – Seth tocou o corpo de Sawyer, que se afastou com um safanão.
— E se você fizer?
Seth semicerrou os olhos para Sawyer, tentando entender o que seu irmão estava dizendo. Pegou um cigarro amassado do bolso e o acendeu com seu isqueiro que havia uma mulher de biquíni.
— Onde você se meteu, Sawyer? – ele balançou a cabeça e pegou o ombro do irmão enquanto soltava a fumaça no seu rosto. Sawyer não se incomodou, apenas seguiu com Seth para fora do beco.
— Não me meti em lugar algum – ele começou quando já estavam longe dos olhares dos capachos curiosos de Seth. – Quero matar um policial.
A risada de Seth invadiu toda aquela rua. Todo o corpo de Sawyer.
— Primeiro que não será você segurando a arma e nem puxando o gatilho – Seth revirou os olhos – eles cobram mais caro ainda pela cabeça do policial – Seth não escondia o quanto se divertia com aquela situação.
Seu pequeno irmão lhe pedindo um favor daqueles.
— Eu não sei o que fazer, Seth. Eu trabalho pra você, faço o que quiser...
— É ainda sobre aquele moleque?
— Só não fala assim. Diz se vai fazer ou não.
— Você tá preparado pra ficar na minha mão, Sawyer? – Seth o encarou, seu olhar era atencioso em cada detalhe no rosto apavorado do irmão. Resolveu parar de humilhá-lo e o encarou – quem é o cara?
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