Welcome to badlands
30 Capítulo Vinte e Nove: ele teve o fim que mereceu.
O toque estridente de ligação no celular de Sawyer irrompeu por toda a sala. Keith abriu os olhos, sentindo tudo girar e segurou a cabeça, tentando fazer a sensação passar. Sawyer resmungou enquanto pegava o telefone e o atendia.
— Onde você tá? – Seth soava preocupado, mas quando Sawyer demorou a responder, sua voz era ríspida – sua folga era ontem. O ontem acabou há – ele ficou em silêncio por alguns segundos – seis horas.
Sawyer bufou, não fazia ideia de que era tão cedo e queria desligar o telefone na cara de Seth e voltar a dormir.
— Eu chego em trinta minutos – ele mentiu e Seth apenas murmurou "não se atrase" e desligou.
— Que horas são? – Tristan perguntou, a voz abafada por causa do travesseiro. Ele não conseguia erguer a cabeça, sentia-se cansado e não sabia se o que havia visto na noite anterior era sonho ou realidade. Encarou Sawyer e Aiden, à procura de algum sinal, mas Sawyer estava sentado encarando o celular e Aiden deitado no colchão, de barriga para cima e encarava o teto.
— Seis da manhã – a voz de Sawyer soava rouca e cansada. Ele tossiu duas vezes e levantou do colchão – vamos à piscina? – ele encarou Tristan, que ergueu a cabeça rapidamente, sua expressão era de desespero.
— Podemos ir mais tarde?
— Não – Sawyer respondeu enquanto colocava a roupa da noite anterior. – Preciso resolver isso logo.
*
Keith continuou no sofá enquanto Tristan, Sawyer e Zion saiam. Aiden se ajeitou de bruços no colchão para dormir novamente. Eles ainda teriam tempo para descansar antes de ir à lanchonete. Keith pegou o travesseiro abaixo da sua cabeça e o ajeitou, mas sentiu tudo girar e levantou, correndo para o banheiro. Há muito tempo não se sentia tão mal quanto naquela manhã. Ele não havia comido nada, seu vômito era apenas água. Quando saiu do banheiro, sentindo-se fraco, encarou o chão e reparou nos sapatos. Aiden riu.
— Eu te avisei várias vezes pra não deixar suas coisas jogadas pelo apartamento.
*
A ida até a casa de Tristan foi silenciosa enquanto ele ainda pensava sobre o que havia acontecido. Tinha vontade de falar com Sawyer, perguntar, mas resolveu ficar quieto quando percebeu o semblante preocupado em seu rosto. Zion corria atrás deles, tentando alcança-los.
Sawyer não queria ser visto por Seth enquanto eles deixavam o cachorro em casa, mas ele não parava de encarar o lugar, olhando por cima do seu ombro e pelas ruas. Quando chegaram à porta de Tristan, ele abriu e colocou Zion lá dentro, sem demorar. Sawyer ficou na porta aguardando e analisando o território.
— Você não acha que sete horas é cedo pra irmos lá? – Tristan perguntou quando se aproximou de Sawyer, mas ele apenas balançou a cabeça e voltou a andar, seguindo em direção ao ponto de ônibus.
— Pode ser – ele cuspiu no chão – mas se não tiver ninguém a gente volta mais tarde – ele deu de ombros.
Não queria contar a verdade, que estava fugindo do seu irmão e buscando sua liberdade.
Seth continuou ligando, mas Sawyer colocou o celular no silencioso. Lidaria com ele depois, mas ele havia acordado naquele dia decidido a não ficar nas mãos do irmão. Decidiu que seguiria sua vida, sem se importar com Seth. Infelizmente ele sabia que não seria fácil.
O ônibus estava vazio e eles permaneceram em silêncio o caminho todo até a piscina pública. O lugar inteiro estava deserto e eles consideraram voltar mais tarde, porque provavelmente não havia ninguém, mas ao darem dois passos para trás, se afastando, um homem usando boné os chamou.
— Vocês precisam de ajuda? – ele perguntou, do lado de dentro da grade na piscina.
— Sim, eu vim aqui ontem e queria saber se fui aceito para a vaga – Tristan sentia sua voz falhando pelo nervosismo, mas tentou focar a atenção no homem à sua frente, que provavelmente devia ter a mesma idade da Karen, mas seu rosto parecia mais velho.
— Tristan? – o homem olhou a prancheta em sua mão – estávamos tentando te ligar porque amanhã faremos o treinamento.
— Então fui aceito? – Tristan perguntou, os olhos arregalados de surpresa, enquanto tateava os bolsos à procura do celular, mas sentiu apenas a textura da carteira em seu bolso na parte da frente da calça. Ele não lembrava se estava com o celular naquela manhã, seus pensamentos e ações estavam falhadas pela bebida da noite anterior.
— Claro – o homem deu de ombros – e você? – ele encarou Sawyer.
— Eu gostaria de me candidatar – ele pigarreou.
— Tudo bem – ele abriu o portão e se afastou para eles entrarem – você pode aguardar enquanto eu o entrevisto? – ele perguntou e Tristan assentiu – vai se familiarizando com o lugar – ele piscou e tocou o ombro de Sawyer, o guiando até onde fariam a entrevista.
Sawyer sentou na cadeira de plástico em frente ao homem e aguardou.
— Meu nome é Igor. Daqui dois dias abriremos a piscina e estamos precisando de pessoas responsáveis e comprometidas – Sawyer começou a escutar sentindo-se péssimo por não ser aquela pessoa, mas ele poderia fingir por algumas horas. – Que estejam dispostas a se arriscar para salvar a vida de outra pessoa. Sei que você pode ser essa pessoa, Soir. – Igor tentou pronunciar o nome de Sawyer e fez uma careta quando saiu apenas um som incerto e abafado.
— É Sawyer – ele bufou –"Só-i-er". – ele pronunciou o nome lentamente e Igor assentiu, envergonhado.
— Me desculpe, Sawyer. Você conseguiria salvar uma pessoa caso ela se afogasse?
— Acho que sim – ele deu de ombros, como se aquela pergunta fosse estúpida.
— Ótimo! – Igor festejou e sorriu para Sawyer – Amanhã faremos o treinamento e se você for apto ao trabalho, será contratado.
Sawyer assentiu e Igor levantou-se e ergueu o braço em direção à porta, indicando que já haviam acabado a entrevista. Sawyer levantou e o agradeceu enquanto caminhava até Tristan.
— E aí?
— Tudo certo — Sawyer deu de ombros, como se aquela entrevista não fosse sua fuga de Seth, como se fosse apenas um trabalho qualquer. Sawyer não queria evidenciar o quanto estava ansioso em conseguir aquele emprego.
— Eles te chamaram para ajudante ou salva-vidas? — Tristan perguntou enquanto saíam da piscina.
— Não sei exatamente. Só disse para vir ao treinamento amanhã. E você? — Sawyer chutou cascalho em seu caminho enquanto encarava o chão. Não se importava com o cargo, só queria menos tempo para Seth.
— Ajudante – Tristan tossiu, sentindo-se inseguro – Não tenho habilidade para ser salva-vidas.
Sawyer encarou Tristan, querendo perguntar o que ele queria dizer com aquilo, mas não deu tempo de conversarem muito porque o ônibus parou no ponto e eles entraram junto com algumas pessoas, o movimento pelo bairro começando na manhã. A ida até a casa deles foi silenciosa e Tristan estava com vergonha para simplesmente falar algo e Sawyer estava distraído, pensando em Seth e no que teria de enfrentar quando chegasse em casa.
Ele estava sentado ao lado da janela e encarou as casas passando como borrão, Tristan mexia nervosamente com a perna para cima e para baixo enquanto encarava a parte de trás do banco da frente com uma pichação de Sawyer de anos atrás. "Swyr, 012".
*
Keith sentia sua cabeça pesada enquanto Carl falava sobre uma história que ele ouviu diversas vezes.
— Você não parece bem – Carl murmurou enquanto terminava de bebericar o café gelado – tá mais branco que o normal.
— Bebi muito ontem – Keith sentiu o enjoo antes de fechar os olhos e respirar fundo.
— Vocês acabam com a vida de vocês – o velho riu e largou a xícara – tenham um bom dia – Carl se despediu dos garotos e se afastou. Aiden estava limpando o balcão, tarefa de Keith, mas ele estava "enjoado demais".
— Acho que ele tá certo – Keith arrotou, sentindo o gosto da bebida da noite anterior voltando, ameaçando sair da sua boca em cima do balcão recém-limpado. Ele correu para o banheiro e não conseguiu chegar a tempo na cabine para usar o vaso, vomitou na pia.
*
O semblante de Seth foi a primeira coisa que Sawyer reparou quando chegou à rua deles, Tristan seguiu para a sua casa murmurando um "até mais tarde" a Sawyer enquanto o observava caminhar até Seth.
Seth sorriu e tocou o ombro do irmão, apertando com força, o que fez Sawyer arregalar os olhos.
— Onde você tava? – ele sussurrou quando notou algumas pessoas passando pelos dois e os olhando com curiosidade. – Trinta minutos? – ele riu e encarou Sawyer com aquele olhar ameaçador que era costumeiro aparecer antes de bater no irmão. Sawyer se encolheu, pensando que seria um daqueles dias que ele apanharia, mas Seth bufou e olhou para o chão. – Eu esperei por duas horas!
— Eu estava em uma entrevista de emprego – Sawyer respondeu aquilo tão rápido que ficou surpreso de ter conseguido dizer. Seth franziu o cenho e não pareceu entender o que ele havia dito. E quando entendeu, começou a rir. – Eu realmente preciso desse emprego, Seth – sua voz era fraca, como ele se sentia enquanto Seth o encarava com desprezo.
— Como fica sua dívida? – Seth o encarou com o queixo erguido, demonstrando sua superioridade. Sawyer fechou os olhos e respirou fundo.
— Eu vou continuar ajudando...
— Ajudando – Seth riu – desde que não atrapalhe seu trabalho comigo, faça o que quiser – ele deu de ombros – mas agora tá na hora de você ir pro seu lugarzinho no beco – Seth apontou para trás, indicando o beco a alguns metros de distância.
— Posso pelo menos tomar banho? – Sawyer sentia-se humilhando, como se ainda tivesse onze anos e precisava pedir permissão ao seu irmão. Seth balançou a cabeça, olhou o irmão dos pés à cabeça e murmurou um "não" curto e grosso.
Sawyer estava pronto para ir até sua casa, a apenas alguns centímetros de distância, quando escutou Seth responder. Passou a mão pela cabeça raspada e sorriu para o irmão.
— Você que manda, chefe. – Sawyer seguiu em frente, em direção ao beco, enquanto Seth entrava em casa.
*
A comida da lanchonete não era boa, mas saciava a fome de Aiden quando não tinha mais nada. Resolveu comer na pequena sala onde os funcionários podiam ficar e aproveitou seu momento de folga enquanto Keith trabalhava. Aiden ainda sentia que todo seu uniforme fedia a vômito de Keith. Não podia lembrar-se da cena do banheiro sem querer vomitar, a pia inteira suja, o chão com vômito pisado e o banheiro mais fedorento que o normal.
Amaldiçoou Keith e o xingou de diversos nomes enquanto limpava, tapando o nariz com a camiseta do uniforme e escorregando três vezes, segurando-se ao que encontrava para não cair de bunda e se sujar.
Apesar da fome, Aiden não conseguiu voltar a encarar aquele lanche com a mesma vontade.
— Você tá demorando muito pra comer – Keith abriu a porta, sem se importar com os clientes que deveria estar atendendo.
— Eu tô passando mal – Aiden murmurou, tapando o nariz. O cheiro parecia estar em todo seu corpo. Keith revirou os olhos.
— Bem vindo ao clube – ele se jogou no pequeno sofá azul sujo de diversos tipos de molho e com pequenos rasgos no estofado. Keith deitou e fechou os olhos, pronto para dormir.
— Não, você precisa continuar seu trabalho – Aiden levantou-se da cadeira e chutou o joelho de Keith.
— Mas tá na minha hora do almoço – ele continuou de olhos fechados, sem se abalar com o chute. Aiden bufou, estava sem paciência para o Keith, mas não queria brigar.
— E você não vai comer? – Aiden cutucou Keith com o pé no seu cotovelo, ele resmungou e abriu os olhos – Por favor, Keith. Deixa eu ficar mais cinco minutos.
Keith estava pronto para dizer algo quando franziu o cenho e sentou, ajeitando-se no sofá.
— Certo – ele levantou, sentindo-se confuso com o que havia acabado de acontecer e saiu, sem dizer mais nada. Aiden sentou novamente na cadeira e encarou o lanche.
Hambúrguer com duas carnes e batata frita murcha. A aparência era boa, mas o sabor não era dos melhores. Infelizmente era aquilo que Aiden tinha para o almoço. Tinha dias que ele nem conseguia almoçar porque o pai não havia dormido em casa. Com o tempo aprendeu a cozinhar, mas nunca tinha muitos ingredientes em casa então ele se limitava a pão com ovo.
Enquanto mastigava a batata, lembrou-se de quando ele estava na cozinha, preparando o almoço às duas da tarde, quando seu pai chegou, bêbado e machucado.
— Você tá fazendo o que na cozinha? Aí é lugar de mulher – ele ria, achando suas piadas incríveis e originais. Aiden bufou e revirou os olhos, não se importando com o que pai bêbado estava dizendo. E era aí que ele explodia. – Você não me ignora, moleque!
Aiden balançou a cabeça, tentando esquecer aquelas lembranças. Tentando esquecer aquele homem. "Ele teve o fim que mereceu" era o único pensamento de Aiden quando se lembrava do pai.
*
Dormir à tarde nunca foi um costume para Tristan. Ele costumava estar sempre alerta, mas quando chegou em casa não conseguiu nem almoçar, deitou com Zion em sua cama e dormiram até Osmar finalmente ir embora, às duas da tarde.
Sua mãe estava preocupada, desde que moravam juntos o garoto nunca dormiu tanto.
Zion estava no chão do quarto, mordiscando um brinquedo de borracha em cima do tapete e Tristan continuava dormindo, o semblante tranquilo, seu rosto virado para a parede. Daisy se aproximou e notou que ele estava respirando. Ela sorriu, sentindo-se patética por pensar aquilo e estava pronta para se afastar, sem fazer barulho, quando Tristan acordou.
Seus olhos eram arregalados na direção de Daisy, puxou a coberta para cima, cobrindo seu rosto. Respirou fundo e retirou a coberta da frente do seu rosto. Daisy se aproximou, preocupada.
— Tá tudo bem? – ela tocou na sua mão e Tristan apenas assentiu, tentando sorrir.
— Só me assustei – ele murmurou e bocejou, tentando se afastar um pouco da aproximação da sua mãe. Ela percebeu e franziu o cenho.
— O que você tem?
— Desculpa mãe, só não gosto que apareçam enquanto estou dormindo – sua voz era ríspida e ele pensou em se desculpar, mas então sua mãe entendeu, de repente, o que estava acontecendo.
Daisy sabia que Tristan precisava de ajuda, mas enquanto o encarava, com os olhos arregalados e o medo estampado em seu rosto, decidiu que não adiria mais. O problema era que Daisy não confiava no sistema gratuito e sabia que Osmar tinha dinheiro. Ela queria ajudar Tristan, mas queria com os profissionais que ela se sentisse mais confortável.
E foi com isso em mente que ligou para a Francisca, a avisando sua decisão.
— Não me importa onde Tristan será consultado, Senhorita Daisy – a mulher bufou do outro lado da linha, o que fez Daisy se encolher – só quero que o garoto tenha o tratamento necessário.
*
Sawyer não voltou a encontrar Seth nem quando voltou para a casa após seu turno. Sabia que o veria mais tarde, mas ele estava sentindo o que não sentia há muito tempo: medo do irmão. Seth aparentou lidar bem com a situação, mas Sawyer o conhecia.
— Cadê seu irmão? – Mary perguntou enquanto saía do banheiro. Fazia uns dias que Sawyer não a via. Seu olhar parecia perdido, mas ele não sabia se aquilo era remédio ou droga.
— Não sei – Sawyer deu de ombros – Acabei de chegar – ele subiu as escadas e decidiu não olhar para trás, porque veria uma pessoa diferente. Ele se jogou na cama e aquele barulho da madeira foi como um soco em suas costas.
De repente, ele percebeu que nunca sairia daquele lugar. Ele percebeu que seria o único dos garotos sem um futuro pela frente, não um que prestasse pelo menos.
Ele perdeu todas as suas oportunidades quando entregou sua alma para Seth. Ele sabia o que estava fazendo, mas sua raiva falou mais alto. A sede de vingança sem sujar as mãos com o sangue. A facilidade em acabar com a vida de uma pessoa. Pareceu tão tentador enquanto ele se sentia o justiceiro. Mas a justiça foi feita? Onde estava Mikael e sua família àquela altura? Pessoas que não receberam justiça alguma.
Sawyer arrependia-se todos os dias de suas decisões. Perdeu sua liberdade. Perdeu Aiden.
Ele sabia, nunca o perderia, mas ele não estava ali ao seu lado. Estava?
Aiden finalmente estava crescendo, se tornando independente e livre. Sawyer o invejava. E o amava por isso. Por conseguir se livrar das amarras.
*
Dormir no sofá do trabalho não foi tão ruim quanto Keith esperava. Ele usou todo seu intervalo do almoço para cochilar e acordou melhor que nunca.
O enjoo havia passado junto com a sensação de cansaço. Aiden conversava com uma garota quando Keith saiu da salinha, os cabelos bagunçados embaixo do boné. A garota mexia no cabelo e tentava tocar no garoto, que só conseguia se afastar quando percebia a mão fina e branquela dela. Keith riu, Aiden não tinha jeito com mulheres.
— Estou vendo que você pediu o especial da casa – Keith olhou para o copo de milk-shake de morango e sorriu para a garota, mas ela apenas semicerrou os olhos para ele.
— Enfim, vou indo nessa. Amanhã nos falamos – ela se afastou, acenando para Aiden, que apenas sorriu e pegou o copo, que ainda tinha milk-shake. Keith ergueu a mão para pegar e tomar o resto, mas Aiden balançou a cabeça e colocou fora.
— Então – ele olhou para Aiden – porque diabos você não sabe lidar com mulher? – Keith tentou lembrar-se de alguma vez que viu o amigo com alguma garota, mas não conseguia recordar. Ou ele preferia fazer tudo em segredo, como Sawyer, Keith considerou.
— Porque você só pensa em mulher? – Aiden revirou os olhos e riu – ela estudava na mesma escola que a gente.
— Bom, sinceramente já peguei metade da escola, mas aquela lá nunca. Muito linda.
— Você costumava zoar ela – Aiden riu enquanto lavava o copo que a garota usou – ela usava óculos e aparelho. E você era um garoto babaca que zoava todo mundo.
— Sawyer ajudava – ele deu de ombros, como se aquela fosse sua única defesa – mas ela ficou gatinha. Deveria chama-la para sair.
— Não – Aiden continuou rindo – ela não faz meu tipo.
— Bom, eu não sabia que você era um garoto exigente – Keith se inclinou no balcão enquanto observava Aiden lavar o copo diversas vezes, até se cansar e coloca-lo no escorredor de louças. – Qual seu tipo, então? – ele ergueu a sobrancelha e Aiden secou as mãos, guardou o pano de prato e olhou para Keith.
— Pra que você quer saber? Você avisou ao cara que a lava louças tá estragada ainda?
Keith revirou os olhos e bufou. Aiden fazia aquilo quando não queria falar sobre algo.
— Vou avisar.
*
A caminhada pelo bairro se tornava melhor cada dia que passava. Tristan passeava por todos os lugares quando estava com Zion, ele não tinha medo. Passava pela casa e não sentia o medo que sentia antes. Ele estava crescendo, mas Zion o ajudava a manter a calma.
Sua mãe estava sentada no sofá, a televisão desligada enquanto sua cabeça estava apoiada nas mãos em cima dos joelhos. Ela olhou para Tristan e sorriu, mas seu sorriso não chegava aos olhos.
— Tudo bem? – ele soltou a coleira de Zion, que correu para beber água e Tristan sentou ao lado da mãe. Ela sorriu, sentindo-se nervosa.
— Eu quero que você se consulte com uma psicóloga, mas não aquela que aquela velha quis – ela bufou e Tristan riu.
— Qual problema de ser a que ela sugeriu? E como você vai pagar, aliás?
— Não confio em nada de graça e o Osmar está disposto a ajudar — ela bufou, querendo acabar com o assunto, mas Tristan sentiu-se estranho em saber que sua mãe falava sobre seus problemas com o namorado — mas você topa, filho? — ela pegou a mão de Tristan, mas ele não conseguiu olhar para os seus olhos – olha, a partir de agora eu não quero mais errar com você, entendeu? – seu olhar era suplicante encarando Tristan. Ela precisava de uma segunda chance – e eu sei que pode ser complicado falar sobre isso com uma pessoa desconhecida, mas isso é pro seu bem.
Tristan sabia. Ele era inteligente o suficiente para saber, mas tudo era mais fácil na parte teórica, certo? Ele ainda tinha medo, mesmo sentindo-se mais seguro com sua mãe, havia uma parte dele que nunca esqueceria, ele precisava aprender a lidar com o que aconteceu. Não tinha como voltar no tempo e consertar tudo.
Ele começou a se questionar: como será viver sem medo? Sem a sensação de ter alguém sempre à espreita? Daisy o encarou, esperando uma resposta.
— Eu sei. – ele suspirou – Estou disposto a fazer isso, mãe — Tristan já era quase maior de idade, mas quando estava com sua mãe, era como se ainda fosse criança.
Uma criança pronta para ser cuidada e amada pela mãe.
*
Os pesadelos de Sawyer eram sempre iguais, mas naquela tarde, enquanto descansava para o turno da noite, sonhou com Aiden. O sonho parecia uma lembrança. Conseguia sentir o toque do amigo. Conseguia sentir o cheiro dele. E quando Sawyer estava pronto para se inclinar e beijá-lo, Aiden não estava mais ali. Era Seth e Sawyer sentia o cheiro de álcool enquanto ele berrava: você vai trabalhar para mim até apodrecer.
Ele sentou na cama, sentindo a camiseta branca grudada nas costas suadas e passou a mão pela testa, sentindo as gotículas. Seu coração acelerado no peito e sua respiração ofegante.
A escuridão invadia seu quarto, mostrando o quanto ele havia dormido.
Desceu as escadas, sentindo a garganta seca e bebeu água gelada.
Ouviu os passos pesados de Seth, mas não olhou para trás. O sonho ainda incomodando seus pensamentos.
— Tá preparado pra trabalhar? Acho que dormiu bastante, né?
Sawyer apenas assentiu, sem conseguir olhar para trás. Seth se aproximou e tocou no ombro do irmão.
— Estou falando com você.
— Eu falei que sim – Sawyer rosnou.
Seth riu, sem acreditar na petulância do irmão. E lhe deu um soco.
— Isso é pra você aprender a falar direito comigo – saiu da cozinha, mas antes de sair de casa, gritou – te vejo em dez minutos no beco.
O nariz de Sawyer doía por causa do impacto do punho de Seth, mas a raiva percorrendo seu corpo era maior que a dor no rosto.
*
O humor de Aiden não estava dos melhores enquanto caminhavam para o apartamento após o trabalho. Keith tentou conversar, fazer piada, mas Aiden apenas assentia e ria na hora certa. Keith não insistiu e quando chegaram, cada um foi para seu quarto.
A cama de Aiden havia sido retirada do antigo quarto, fez sua mudança quando sabia que o tio estaria no bar bebendo. Ele queria ter tido dinheiro o suficiente para comprar uma nova, mas o salário que ele recebia todo meio do mês era para a metade do aluguel. Às vezes se arrependia de ter saído da casa de Sawyer, mas a segurança que ele sentia não dormindo na mesma casa que um traficante era maior que o arrependimento e a saudade.
Não tinha forças para tomar banho naquela noite, então simplesmente deitou-se na sua cama com lençóis novos e esperou o sono o segurar e o levar para longe de todas as suas preocupações.
Enquanto Aiden dormia, Keith aproveitou para jantar as sobras que ele havia levado da lanchonete e tomou um banho demorado, sentindo a água quente escorrer por seu corpo. Na sua antiga casa ele não podia ficar mais de cinco minutos embaixo da água quente porque tinha medo do chuveiro não aguentar a pressão, ele só conseguia escutar o barulho da resistência e contava os segundos enquanto se lavava rapidamente. Mas no apartamento, Keith não tinha medo. Aquela havia sido a melhor decisão de sua vida.
*
Fazia muito tempo que Tristan dormia em paz em sua casa. Mas naquela noite seus pensamentos oscilavam entre a faculdade, o trabalho e a terapia. Em tão pouco tempo, diversas responsabilidades, mas ele estava feliz.
Zion dormia nos seus pés em cima da cama, sua respiração era tranquila. Daisy estava em seu quarto, que era de Eleanor, mas não existia resquício algum dela e da sua presença. A casa finalmente havia se tornado um lugar seguro para Tristan.
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