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26 Capítulo Vinte e Cinco: vizinhos fofoqueiros.


Tristan estava brincando com Zion quando Osmar estacionou o carro no chão de terra à frente da casa. Zion largou a bolinha amarela e correu para descobrir quem era, começou a latir enquanto sua mãe saía do carro.

— Ele morde? – ela gritou encarando Tristan, que estava rindo e apenas balançou a cabeça. Se agachou para cumprimentar Zion após descer da camionete. – Qual nome?

— Zion – Tristan olhava para o cachorro com admiração e sua mãe ergueu os olhos para ele, sentindo o sol nas vistas enquanto seu filho se aproximava dela.

— Você parece radiante – ela disse, sorrindo e levantando-se para abraçar o filho – que saudades.

O abraço da sua mãe era forte e Tristan poderia muito bem se debulhar em lágrimas, mas se recompôs e encarou os convidados.

— Vamos entrar? Titia fez bolo – algo dentro de Tristan estremecia todas as vezes que precisava tratar sua tia bem. Ele queria vingar-se de tudo, mas era tão fraco.

— Osmar só veio me trazer – Daisy tocou no seu rosto – amanhã nos vemos – ela se inclinou no banco do carona para dar um beijo de despedida em Osmar. Zion saltitava aos pés da nova convidada.

— Amanhã vamos fazer algo em família – Osmar disse antes de afastar-se com o carro e abanar casualmente para Tristan.

— Onde você conseguiu essa belezinha? – Daisy perguntou enquanto seguiam até a porta. Por sorte, sua tia não estava lá.

Tristan foi até a cozinha enquanto sua mãe se ajeitava no sofá com Zion.

— Ele é muito querido – ela continuou falando enquanto brincava com seus pequenos dentes e Tristan escutava através da porta aberta. Serviu dois pratos com torta e levou até a sala – acho que mais do que nunca quero morar junto com você – ela pegou o prato e tocou o joelho de Tristan sentado ao seu lado.

Tristan não queria falar sobre morar com ela, não naquele dia. Ele estava feliz porque tinha Zion para protege-lo de sua tia, mas os seus amigos também amavam o cachorro. Sawyer às vezes o levava para passear pelo beco, Aiden gostava de dar banho nele no quintal de Tristan enquanto sua tia estava no trabalho. Keith só gosta de pegar o cachorro porque descobriu que atraia as mulheres.

Zion saiu do colo de Daisy e foi atrás de um brinquedo que Tristan havia lhe dado, era barulhento e irritava sua tia, que sempre jogava o brinquedo para fora pro cachorro sair e não voltar.

— Então, filho – Daisy começou enquanto ainda tinha torta de chocolate em sua boca. – você pensou sobre morar comigo?

Zion continuou com aquele barulho enquanto Tristan mastigava a torta e encarava aquela sala. Suas lembranças recorrentes eram na casa. Tristan não gostava de lembrar-se como era antes dos dez anos, antes de conhecer os garotos. Ele não lembrava exatamente quantos anos tinha quando descobriu que o que sua tia fazia era errado. Achava que era normal, ela dizia que o amava, então não havia porque desconfiar.

— Eu quero morar com você – Daisy segurou a mão de Tristan em cima do sofá. Ele havia parado de comer, seu olhar era fixo em algo à sua frente, mas ela não conseguiu identificar o que prendeu tanto a atenção dele enquanto falava.

— Aonde? – ele conseguiu responder após engolir em seco e olhar para a sua mãe. Seus olhos eram preocupados e Tristan sorriu, tentando tranquilizar a situação. – Aqui? Ou com Osmar?

— Onde você quiser – ela sorriu, tentando reconforta-lo de alguma forma.

— Gosto daqui – ele tirou o cabelo do rosto e olhou ao redor, seu semblante melhorando cada vez mais. Colocou seu prato vazio em cima da mesinha de centro e se escorou no sofá, sorrindo.

Ele encarou o sofá e se deparou com a mancha verde que havia feito quando era mais novo. Olhou para um dos quadros na parede, a foto de Tristan pequeno e banguela, seu semblante assustado. Pelo que se lembrava, sua expressão era sempre aquela, como se estivesse sempre com medo, à espera dos monstros.

Tristan lembrou-se de quando sua tia costumava marcar sua altura na porta do quarto dela. Sabia que era uma lembrança boa, porque ficava feliz quando percebia que estava crescendo, mas ela havia conseguido destruir todas as memórias boas.

Sua mãe falava algo, mas sua voz e o barulho do brinquedo do seu cachorro soavam à distância, impossível para ele escutar ou até mesmo entender o que era dito por ela.

Pensou no seu quarto cheio de lembranças ruins, dos calafrios enquanto deitava na cama e sabia exatamente o que estava por vir. Escutava sua tia "você está bem?", mas não tinha coragem de dizer que não estava bem. Ele sabia que ela poderia ser pior se ele fosse desobediente. Seu toque era gelado e lhe causava calafrios.

— Tristan! – foi a última coisa que ele ouviu antes de cair no chão.

Aiden não gostava de hospitais. Não gostava do ar gélido e das luzes fluorescentes claras demais incomodando os olhos, da sala de espera cheia de gente tossindo e se abanando por causa do calor, do semblante apático dos médios e principalmente da demora.

— Será que vai demorar?— ele perguntou a Sawyer, que estava jogado na cadeira da sala de espera. Aiden se endireitou e olhou ao redor, procurando a mãe de Tristan —Keith não para de me ligar — ele mostrou o celular com as chamadas perdidas de Keith, mas Sawyer apenas revirou os olhos e encarou Aiden.

— Ele não vive sem você naquela espelunca – ele bufou e tocou o joelho de Aiden – o que será que aconteceu?

— Não sei – Aiden pigarreou – ela só pediu pra chamar os amigos.

— E porque o Keith não quis vir? Ele adora sair do trabalho – Sawyer riu e Aiden assentiu.

— Eu quis vir – ele deu de ombros – porque eu sabia que você viria.

Antes que Sawyer pudesse dizer algo sobre aquilo, a mãe de Tristan apareceu na sala de espera e parou em frente aos garotos, repararam que o semblante dela estava tranquilo.

— Foi só um susto – suspirou aliviada, mas os garotos semicerraram os olhos, desconfiados.

— Ele só desmaiou do nada? – Sawyer questionou, encarando Daisy.

— Estávamos conversando sobre morarmos juntos, ele levantou do sofá e caiu – ela passou a mão no rosto e nos cabelos – deixei o cachorro com sua mãe, tem problema? – ela encarou Saywer, que apenas balançou a cabeça.

— Ele comeu? Dormiu? – Aiden estava preocupado, mas Sawyer pensou, por alguns segundos, que ele estava perguntando sobre o cachorro, mas Daisy foi mais rápida em responder:

— O médico disse que foi estresse – ela balançou a cabeça – porque ele estaria estressado? – ela franziu o cenho.

Tristan sentia-se fisicamente exausto. Seus olhos queriam fechar para que ele pudesse descansar, mas quando notou Sawyer entrando no quarto de hospital despertou e sentou-se na cama.

— Não precisa fazer esforço – Sawyer se aproximou – Eu disse que precisava falar com você.

Tristan começou a ficar preocupado, sabendo que não aguentaria mais emoções naquele dia. Fechou os olhos com força e quando abriu encarou Sawyer, para manter sua concentração nele.

— Você precisa contar a ela – Tristan estava pronto para responde-lo, mas quando percebeu Sawyer já havia saído do quarto.

Começou a se perguntar se ele havia mesmo entrado ali.

Ele pensou em fechar novamente os olhos e tentar dormir, sentia que há anos não conseguia dormir bem, mas antes que ele conseguisse chegar a algum sonho, sua mãe entrou no quarto. Seu semblante era preocupado e confuso, as mãos indo de encontro às mãos magras de Tristan.

— Meu filho, o que aconteceu? – ela o encarava, suplicando por uma resposta.

Tristan engoliu em seco, sentindo a saliva raspar pela garganta, mas respirou fundo e olhou para a sua mãe. Concentrou-se nos seus olhos castanhos e nas pequenas manchas na bochecha. Seu cabelo estava preso, mas havia uns fios soltos, como se não tivesse tido tempo para arrumar.

— Eu não posso mais ficar com Eleanor – sua voz era fraca e trêmula e sua mãe franziu o cenho, confusa – ela não é boa pra mim.

— Porque você não me disse antes?

Tristan não queria contar aquilo no hospital. Ele não queria nunca mais lembrar-se, mas ele contou. Porque sua mãe o encarava suplicante e porque ele confiava nela. Confiava em Sawyer, que pediu para contar.

Daisy escutou tudo com o semblante assustado, sem imaginar que aquilo havia acontecido com seu filho. Após o médico aparecer e dizer que Tristan já estava liberado, Daisy o segurou pela mão e pegou um táxi em frente ao hospital.

— Para a delegacia, por favor – sua voz era fraca e seu olhar era amedrontado encarando Tristan, sem saber como agir. Ele olhou de soslaio para a mãe, sentindo-se pior. Sentindo o enjoo voltar, sentindo a cabeça pesada. A sorte era que ele estava sentado no carro.

Quando o taxi parou, Tristan paralisou com a mão na porta, pronto para abrir, mas algo o impedia.

— Filho – sua mãe tocou no seu joelho. Ele ergueu os olhos e abriu a porta. – Eu sei que esse é o último lugar que você quer estar – eles pararam em frente à delegacia enquanto o carro se afastava aos poucos. As mãos de Tristan tremiam – Mas nós precisamos falar sobre sua tia.

Ele queria dizer que ela tinha razão, sim, mas ele não estava pronto para falar tudo que falou para a sua mãe para um completo estranho. Um policial ainda por cima. Mas ele sabia que, se não fizessem nada, ele nunca se perdoaria. Seguiram para dentro da delegacia e um homem os recebeu, o olhar era amigável.

— Gostaríamos de fazer um boletim de ocorrência. Meu filho estava sendo abusado pela tia. – a voz de Daisy era um sussurro, querendo apenas que aquele homem escutasse. Ele assentiu e seguiram para uma sala, apenas os três.

Tristan precisou relatar como tudo começou. Ele não se lembrava, mas sabia que desde criança ela fazia aquilo. Ela parou quando ele já estava grande o suficiente para se defender se precisasse, mas a ameaça continuava lá. O policial encarou Daisy em certo momento dos relatos e a questionou.

— Onde você estava? Mais alguém sabia disso?

— Eu não estava... Em condições de cuidar dele – Daisy engoliu em seco, temendo que resolvessem tirar o garoto dela.

— Meus amigos – Tristan não conseguia encarar o homem, olhava para o chão – mas eu nunca deixei eles fazerem nada – ele fungou e ergueu os olhos para o homem – já faz uns quatro anos que ela não coloca as mãos em mim porque eu não deixo. Eu não me sinto seguro morando com aquela mulher.

Quando Aiden voltou para o trabalho, Keith conversava com uma mulher. Todo o corpo dele inclinado sobre ela, que não parecia se importar muito, mas quando Aiden se aproximou, percebeu que era Ingrid.

— E ai, como está o bebê? – Aiden a cumprimentou e Ingrid sorriu, entusiasmada.

— Você será o colega de apartamento, então? – ela ergueu as sobrancelhas – vai ajuda-lo a trocar fraldas?

— Eu não – Aiden riu e balançou a cabeça – não fui eu que me enfiei aí.

— Vocês precisam melhorar o vocabulário quando nascer – Ingrid torceu a boca, apontando para a sua barriga e Aiden assentiu, confirmando, apertando os lábios para não sorrir.

— Eu acho que podemos fazer a mudança no fim de semana que estamos de folga, o que acha?

— Pode ser – Aiden deu de ombros, indiferente. Sua mudança era apenas uma mala rasgada com roupas velhas.

— Se vocês quiserem ajudo na decoração...

— Não – Keith e Aiden responderam juntos.

Sawyer foi para a sua casa após despedir-se de Aiden, mas sua preocupação ficou naquele hospital com Tristan. Ele queria poder ajudar todos seus amigos, mas todas as respostas para Sawyer acabavam em morte. Sentia-se preparado para matar todos que os machucassem.

Zion correu para o colo de Sawyer quando ele abriu a porta. Sua mãe sorria, a felicidade destorcendo suas feições, mas Sawyer a apreciou por alguns segundos.

— Precisamos pegar um também! Eles são tão queridos – ela não tirou o sorriso do rosto enquanto olhava Zion. Sawyer fechou a porta de casa e sentou-se com ela no sofá. O cachorro pulou e sentou no meio deles.

— Deve tá cheio de pulguento por ai – Sawyer riu – Tristan o achou na rua. Mas acho que Seth tem alergia.

— É mentira – ela revirou os olhos — Seu pai inventou essa história. Nós tínhamos um cachorro branco, Cyber, o nome dele – ela olhou para cima, nostálgica. Sawyer nunca havia escutado aquilo antes, nem sabia que teve cachorro! – Só que fazia muita bagunça e seu pai ficava muito bravo. Um dia ele deixou o portão da nossa antiga casa aberta e o cachorro fugiu.

— E eu?

— Ah, Sawyer – ela balançou a cabeça – você era tão pequeno! Seu irmão que amava o cachorro, mas quando aconteceu seu pai inventou que Seth era alérgico porque não queria sair pra procurar.

Sawyer franziu o cenho. Tinha poucas lembranças dele, mas ficou decepcionado com aquele homem que chamava de pai. E sua mãe nunca fazia nada. Até enquanto contava sobre a história ela conseguia rir, divertindo-se.

Ele finalmente entendia porque às vezes sentia-se uma pessoa ruim. Sua casa estava cercada disso.

— E agora vai querer um cachorro? — ele riu desdenhoso e pegou Zion. Sua mãe ia responder algo, mas ele bateu a porta ao sair de casa com o cachorro a tiracolo.

Sawyer havia ficado com certo trauma da policia. Então quando ele percebeu que a viatura estava na frente da sua casa, gelou. Segurou Zion com força para não soltá-lo sem querer, encarou a viatura e engoliu em seco.

Quando Sawyer conseguiu se concentrar na cena à sua frente, percebeu que estavam em frente à casa de Tristan. Zion começou a se mexer em seu colo para descer, mas Sawyer apenas voltou para a casa e ficou observando o que acontecia pela janela da cozinha. Sua mãe se juntou a ele alguns segundos depois, tentando ver alguma coisa por cima dos seus ombros, mas ela era menor que ele.

— O que está acontecendo?

— Não sei – Sawyer bufou, agarrando Zion enquanto ele tentava sair. – Tem muita gente na frente.

— Esses vizinhos fofoqueiros – Mary revirou os olhos enquanto observava a cena. Sawyer franziu o cenho para ela.

— Nós também somos os vizinhos fofoqueiros.

Daisy ocupou Tristan o restante daquele dia após sair da delegacia. O levou para comer, tomar sorvete e passear pelo centrinho, que consistia em uma rua com lojas, salões de beleza e livraria.

— Você gosta de livros, né? – Daisy o encarou sorridente. Tristan olhou para a livraria à sua frente e sorriu, sentindo toda frustração indo embora aos poucos enquanto sua mãe o encarava na expectativa e entravam na loja.

Ele passeava pelos corredores estreitos encarando cada lombada, à procura de algo que lhe chamasse atenção. Daisy o observava de longe, se perguntando o que ele estaria pensando àquela altura. Daisy estava assustada e preocupada com Tristan. Gostaria de ter ido atrás de Eleanor e quebrar seu precioso nariz, mas resolveu fazer o certo e chamar a polícia.

Daisy temia que Tristan a odiasse para sempre por ter feito aquilo com a tia, mas era a única solução. Ela não via a hora de poder cuidar do seu filho, de poder tê-lo por perto. Ela o encarou, enquanto passava pela sessão de direito e percebeu o quanto era parecido com o pai.

— Posso levar esse? – Tristan perguntou, segurando um livro sobre direito. Daisy franziu o cenho e riu.

— É claro, mas não tinha algo mais... Prazeroso de ler? – ela riu enquanto iam até o caixa. Tristan lhe entregou o livro.

— Isso vai me agradar – Tristan deu de ombros – gostaria de ser advogado.

— Ah, Tristan – ela segurou seu rosto com as duas mãos – eu tenho muito orgulho de você.

Keith estava guardando seu uniforme enquanto Aiden fechava o caixa.

— Ei, Aiden – Keith o chamou, fazendo com que ele perdesse a concentração pela terceira vez. – Você esqueceu como conta?

— To pensando em outras coisas – Aiden bufou, largando o dinheiro para começar novamente.

— Em que? – Keith se aproximou e passou o braço pelo ombro de Aiden – Tristan está bem.

— Agora, né – ele bufou – mas e quando ele descobrir da tia dele? E de como todo mundo tá falando sobre isso na vizinhança?

— Foda-se esses merdas – Keith bufou, fazendo um gesto exagerado com a mão – Eu só quero que meu parceiro se livre dessa mulher. Deveríamos ter nos livrado dela quando descobrimos tudo.

— Ah, sim? – Aiden olhou para Keith, incrédulo, enquanto ele pegava um refrigerante na geladeira – e você ia matar alguém, por acaso?

— Nah – Keith riu – A gente tava pensando em contratar alguém.

— A gente? – Aiden franziu o cenho e Keith percebeu que havia falado demais. – Meu Deus. – ele bufou quando percebeu de quem ele estava falando.

— O que? A gente não fez – Keith deu de ombros e bebeu o refrigerante, encarando Aiden com o semblante perplexo.

— Sawyer é irresponsável, mas você? – Aiden balançou a cabeça – Me diga... Você ia aguentar passar dia após dia de bem consigo mesmo sabendo que matou uma pessoa?

— Uma pessoa ruim — Keith ressaltou, sem ressentimentos.

— Não é assim que se faz justiça – Aiden ponderou, mas não conseguia parar de pensar no que Keith havia dito. Sawyer seria mesmo capaz de fazer algo assim?

— Então como? Ein? – Keith se aproximou dele – Passar anos na cadeia pra depois sair e fazer isso com milhares de outras crianças? Pessoas como ela, Aiden, merecem – ele fez sinal de arma com os dedos e apontou para a própria cabeça, simulou um tiro e fez um som de "boom" com a boca.

Seth chegou com o cabelo molhado em casa, mas aquilo não era novidade. Sawyer imaginava que ele tinha uma pessoa, mas nunca o via com ninguém a não ser seus amigos e capangas. Seus olhos correram a sala à procura de Sawyer, que estava na cozinha com Zion. Seth encarou o cachorro e travou na porta da cozinha.

— Tira esse peludo daí, eu tenho alergia.

— Não, você não tem – Sawyer revirou os olhos – nosso paizão mentiu.

Seth franziu o cenho, pensando sobre o que o irmão disse, deu de ombros e murmurou "ah, bom, isso eu acredito mesmo" e se aproximou dos dois, sentando na cadeira à frente de Sawyer. Ergueu o braço para acariciar o cachorro e sorriu, lembrando-se de Cyber.

— Mamãe te contou sobre ele? – Seth ergueu os olhos para Sawyer, que não sabia se ele estava falando do pai ou de Cyber, então ele apenas assentiu. – O que?

— Disse que vocês tinham um cachorro e o pai não quis procura-lo quando fugiu – Sawyer bebeu a água e deixou Zion pular para o colo de Seth.

— É, aquele velho era um cretino – Seth riu e balançou a cabeça – você tem sorte, sabia? – Seth parou de acariciar o cachorro e encarou Sawyer – você não o conheceu o suficiente. Ou não lembra, pelo menos.

— Eu lembro o que ele fazia – Sawyer encarou Seth, mas ele estava ocupado demais encarando Zion. Sawyer deu um chute em sua perna, ele o encarou com raiva – ouviu?

— Ainda não sou surdo – ele murmurou – mas quer que eu diga o que? – Seth entregou Zion para Sawyer e levantou, passou as mãos pelo cabelo, olhou para cima e suspirou.

O pai deles era violento quando bebia, mas o problema era que tudo que ele fazia nos últimos anos de vida era beber. Seth era mais velho, ele sofria mais. Sawyer era apenas um bebê chorão no colo da mãe quando Seth levou o primeiro tapa do pai, aos cinco anos.

Mas Sawyer lembrava-se das vezes que seu pai queimava Seth com o cigarro. Mary nunca estava em casa quando isso acontecia e Seth precisava esconder todas as marcas. Senão eram muitas perguntas.

Seth parecia cada dia pior. Parecia morto por dentro.

Ele virou e encarou Sawyer, um sorriso torto no rosto.

— Vamos ficar com ele? – ele perguntou, encarando Zion.

— É do Tristan – Sawyer murmurou – mas acho que a "mamãe" também quer um – ele deu de ombros – mas ela está dormindo. Emoções demais hoje.

— E você? Não cansou das emoções?

— To esperando meus amigos – Sawyer encarou a janela, mas nada dos garotos pela vizinhança.

— A propósito – Seth ergueu o dedo para Sawyer antes de sair da cozinha – está feito. – ele encarou o irmão em expectativa, mas Sawyer apenas o encarou, tentando processar aquilo.

— Eu não acredito que você conseguiu – Aiden riu enquanto entrava no apartamento. Keith havia levado algumas malas, porque estava ansioso demais para se mudar.

— Você percebeu onde a gente mora? A nossa vista? – Keith pegou o braço de Aiden e o levou até a janela da sala – Um clube de strip!

— Uau – Aiden riu e revirou os olhos – vai ser muito barulho à noite – ele observou as pessoas tentando entrar no estabelecimento.

— Fiquei sabendo que aqui perto mora algum tarado – Keith apontou para uma casa ao lado do clube, amarela e com grama alta, estava tudo escuro, como se não houvesse ninguém.

— Bom, a vizinhança fica cada vez melhor – Aiden riu – eu preciso ir, Sawyer e Tristan devem estar querendo falar com a gente.

— Claro – Keith bufou – já queria ficar aqui.

— Não tem nem cama – Aiden revirou os olhos enquanto desciam as escadas e escutavam suas vozes dando eco.

— Eu já dormi em cada lugar – Keith balançou a cabeça – aquele quarto vazio deve estar mais limpo que o meu próprio quarto – ele riu e Aiden começou a se questionar se era mesmo uma boa ideia morar com ele.

Mas havia algo especial em Keith, Aiden pensou enquanto caminhavam até a casa do Sawyer. Apesar de todas as coisas ruins que aconteceram, Keith continuava sorrindo e conversando, como se nada o atingisse, mas Aiden lembrava-se de quando ele estava sempre querendo se drogar, o inferno que era conviver com ele e suas pupilas dilatadas o encarando.

Keith não era o mesmo. Em breve seria pai, estava trabalhando e conseguiu sair de baixo do teto do pai, era sua evolução. Aiden desconhecia a sua, sentia como se ele só conseguisse sobreviver porque seus amigos sempre o apoiavam. Aiden se perderia sozinho. Para onde iria? O que faria?

Zion correu para Tristan quando Sawyer abriu a porta naquela noite. A vizinhança permanecia à espreita, observando nas janelas ou nos quintais. Sawyer revirou os olhos e bateu a porta de casa.

— Cadê sua mãe? – Aiden perguntou, encarando Tristan.

Keith e Aiden brincavam com Zion antes de Tristan chegar, sentados no sofá da sala.

— Ela pediu pra eu vir buscar ele primeiro – ele segurou Zion no colo, que chacoalhava o rabo e cheirava seu rosto.

— Você tá bem? – Keith perguntou, levantando do sofá. Segurou os ombros de Tristan e o encarou – você nos assustou.

— Eu me assustei também – Tristan riu e soltou Zion, que ficou deitado no chão de barriga para cima, esperando um carinho. Aiden saiu do sofá e se agachou no chão para acaricia-lo.

— Tá se sentindo bem? – Keith continuou o segurando pelos ombros, Tristan se afastou e riu, sentou no sofá e suspirou.

— Depois que eu contei, sim. Precisei ir até a delegacia – ele sussurrou, os garotos o encararam, preocupados.

— E ela confessou né? – Sawyer ergueu os olhos, lembrando-se da polícia levando a sua tia.

Tristan assentiu. Ele sabia que ela não estaria em casa e teve certeza quando voltaram e estava vazia.

— Agora vou morar com minha mãe ali.

— E você tá bem com isso? – Sawyer estava em pé, perto de Tristan.

— Eu estou – Tristan sorriu e encarou os garotos – obrigado por serem tão legais – ele murmurou, tentando não falar alto.

O quarto de Sawyer virou o esconderijo deles do mundo naquela noite. Ficaram brincando com Zion enquanto compartilhavam uma garrada de tequila. Esqueceram Seth e Mary dormindo logo ao lado daquele quarto. Esqueceram Daisy, sozinha esperando o filho na casa escura e cheia de monstros.

Zion acompanhava o ritmo dos garotos, parecia mesmo parte do bando deles. Não latia para não fazer barulho, mas pulava e corria pelo quarto até cansar e deitar-se na cama desarrumada de Sawyer.

Tristan voltou para a casa quando estava amanhecendo e a sala estava diferente, sua mãe havia passado a noite em claro mudando todos os móveis de lugar, como se sua tia não tivesse saído há menos de vinte e quatro horas.

Keith estava fedendo a cigarro e tequila quando seu pai o encarou na garagem, pronto para sair para trabalhar.

— Achei que era responsável agora.

— Estou comemorando – Keith ergueu o punho e deu um soco no ar enquanto passava pelo pai. Abriu a porta e o encarou – amanhã vou me mudar. – entrou na casa e fechou a porta, sem dar chance de seu pai dizer algo.

Sawyer olhou para Aiden sentado na cama encarando a janela. O céu ficando cada vez mais claro.

— Eu vou morar com o Keith – ele estava de costas para Sawyer para não ver sua expressão, porque ele sabia que se visse o seu semblante chateado, mudaria de ideia.

— Legal – Sawyer sentou ao seu lado na cama – você vai conseguir ficar livre disso tudo – ele sorriu, mas seus olhos eram tristes. Aiden voltou a encarar a janela – vou poder visitar vocês?

— Claro – Aiden riu e olhou para Sawyer – acho que você já pode levar uma mala e ficar por lá também – ele sorriu esperançoso. Sawyer poderia morar com eles e ficar longe de Seth.

Sawyer olhou para o colchão.

— Não posso sair daqui – sua voz era apenas um sussurro arrastado.

Ele não queria falar sobre mais nada, queria apenas dormir abraçado em Aiden porque não sabia quando poderiam fazer novamente, mas ele estava distante e afastou a mão de Sawyer quando ele a segurou.

— Você precisa parar – Aiden fungou, mas Sawyer não havia notado que ele estava chorando – você vai acabar com a sua vida. – ele o encarou, os olhos trêmulos em sua direção, segurando as lágrimas.

— Eu não posso – Sawyer não conseguia dizer mais nada, ele estava preso ao Seth. Ele nunca poderia contar a ninguém o que fez.

Naquela manhã, após Aiden conseguir pegar no sono nos braços de Sawyer, ele ficou acordado encarando o nada à sua frente e se odiando. Odiando o que havia se tornado, odiando o que ainda seria.

Parecia que podridão e morte seguiam Sawyer em todo lugar que ia.

"Você realmente precisa ficar longe de mim", ele pensava encarando o topo da cabeça de Aiden. Seu cheiro era familiar e doce. Não tinha cheiro de fritura da lanchonete e nem de tequila ou cigarro. Era o cheiro do Aiden, que Sawyer conhecia há doze anos. O cheiro que permanecia no seu travesseiro mesmo em noites que Aiden não dormia lá. O mesmo cheiro que ficou no casaco de Sawyer depois de quase um ano com Aiden.