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40 Capítulo Trinta e Nove: Mikael tem um segredo.


Tristan e Tina se deram bem, apesar da diferença de idade, até mesmo sua filha pequena gostou de Tristan. Mas a única pessoa que não conseguia nem olhá-lo era o marido dela, um homen mais velho e carrancudo, não parecia se dar bem nem mesmo com Osmar.

Naquela noite Tristan e sua mãe dormiram no apartamento de Osmar, mas ele não conseguia dormir e foi até a sacada fumar. Sabia que estava se arriscando daquela forma, mas não queria pensar naquilo. Gostava de pensar que fazia aquilo para buscar o sono, de alguma forma.

Ele revisitou os acontecimentos da noite e resolveu deixar de lado as interações com Tina, que não tirou o olhar de Tristan a noite toda. Talvez soubesse sobre sua história e sentiam pena, ou gostavam de falar sobre ele em reuniões familiares. Mas ele não conseguia esquecer o olhar dela.

*

Seth chegou em casa naquela manhã e seguiu para o quarto do irmão para chamá-lo para o trabalho. Seth encontrou o quarto vazio e desarrumado, lembrou-se que dormiria no apartamento dos amigos e estava pronto para sair do quarto quando percebeu, em cima da cama, um envolpe com seu nome.

"Seth

Provavelmente você não compreenda minha decisão, mas saí daqui pensando no meu futuro. Não vou demorar a voltar, mas saiba que quando eu voltar, as coisas serão diferentes."

A letra de Sawyer era um garrancho apressado, mas Seth pegou o pedaço de papel e o rasgou em pedaços, parado no centro do quarto do seu irmão. Deixou os papéis espalhados pelo quarto sujo e bagunçado e ao sair bateu a porta, tentando neutralizar a raiva, porque ela só iria embora quando batesse em Sawyer.

*

Sawyer levantou cedo. Encarou Aiden dormindo, tranquilo e despreocupado. Queria deitar-se ao seu lado novamente, nem sabia ao certo quando fariam aquilo outra vez. Era quase seis da manhã e precisava pegar o ônibus, mas antes de sair, se inclinou e beijou a testa de Aiden. Pensou em deixar um bilhete, mas diria o que? Agradecer pela janta? Pelo sexo? Agradecer e então ir embora? Ele sabia que Aiden não precisava de nada daquilo, então saiu do apartamento e foi em direção ao seu novo destino.

*

O interfone acordou Aiden naquela manhã. Ele olhou para o lado, torcendo para Sawyer ainda estar ali, mas seu lugar já estava frio, como se tivesse saído há muito tempo.

Quando foi até o telefone, descobriu que era o presente de Keith que Sawyer havia dado, então abriu a porta e esperou.

Não queria pensar em Sawyer, então nem ficou muito tempo para ver o berço após ser montado. Não queria ficar olhando e pensar nele, mas quando foi até a cozinha para pegar água para os montadores, percebeu que toda a louça estava lavada e ele tentou, mais uma vez, não pensar em Sawyer, mas só conseguia pensar nele de madrugada lavando e tentando não fazer barulho para não acordar Aiden e indo embora, sem nem uma despedida decente. E quando percebeu, estava agarrado à pia e chorando, só se deu conta quando escutou um dos homens pigarreando, para chamar sua atenção.

— Está tudo bem? – ele perguntou, meio incerto e encarando Aiden com preocupação e medo. Aiden tentou sorrir, mas as lagrimas continuaram caindo.

— Claro, desculpa – Aiden tossiu e entregou o copo com água para ele.

— Nós já finalizamos – o homem apontou para o corredor e bebeu um gole da água.

Aiden lhes deu o dinheiro e quando percebeu estava sozinho novamente.

Ele e aquele apartamento, que tinha até mesmo o cheiro de Sawyer.

*

Keith foi poucas vezes à casa de Ingrid e não gostava da sua mãe, por isso resolveu ir embora antes mesmo da mulher acordar, sem nenhum café da manhã decente.

Ele não sabia o que havia dado em Ingrid para lhe convidar, mas não reclamou e aproveitou seus momentos com ela. Eles dormiram juntos, mas não fizeram nada. Ingrid dizia que era medo de cutucar o bebê, mas até Keith sabia que aquilo não era possível, porém resolveu não alterar a mulher grávida e apenas deitou-se atrás dela, como ela pediu.

Mas Ingrid se mexia demais e Keith não conseguiu dormir direito.

Aiden chamou sua ateção diversas vezes no trabalho porque ele estava quase dormindo escorado na parede.

— Desculpa, dormi mal.

— Deixa pra dormir terça, que é sua folga.

— Vamos no médico – Keith bocejou – Finalmente descobrir que nome a Ingrid vai escolher.

*

Depois de terem de ficar algumas horas abaixo do sol fazendo tudo que os superiores pediam, os recrutas seguiram para seus alojamentos. Havia mais de trezentos garotos e Sawyer sabia que seria apenas mais um, sem destaque, mas tudo que pediam para fazer, ele fazia. Seth soube ensiná-lo a obedecer.

Lá, ele era apenas um número: 079. Lá, ele não tinha seus amigos. Lá era apenas ele no meio de tantos outros. Eram praticamente iguais com suas camisetas brancas e suas calças jeans. Os cabelos raspados, os olhares medrosos e as testas franzidas em uma face emburrada para tentar intimidar os outros.

Os quartos eram iguais: vinte beliches com armários de madeira e cada recruta tinha sua gaveta para seus poucos pertences. Foram ordenados a arrumarem suas camas perfeitamente, sem qualquer amassado ou fiapo.

Sawyer estava arrumando a cama, ajeitando o lençol para ficar sem nenhuma marca, como os superiores os instruíram. Ele escutava os murmúrios atrás dele e resolveu não se importar, sabia que acabaria com os mauricinhos na porrada. Sawyer estava acostumado a ficar sempre alerta, então sentiu quando alguém se aproximou, atrás dele. Sentiu seu punho fechar-se, pronto para pegar a pessoa que o atacaria desprevinida, mas antes que virasse e batesse em alguém lembrou-se onde estava, foi quase no mesmo instante em que percebeu Mikael à sua frente.

Ele estava diferente, usando o cabelo raspado, como Sawyer era acostumado a usar. A manga da sua camiseta branca parecia pequena demais para seus músculos dos braços e ele carregava um sorriso sincero no rosto. Sawyer pensou que Mikael estivesse longe e o odiando, mas lá estava ele, ignorando os olhares e cochichos enquanto abraçava seu amigo.

— Ta aí uma pessoa que eu não esperava ver aqui – Mikael disse ao se afastar. Sawyer já havia terminado de arrumar a cama onde dormiria e se permitiu a folga para conversar com ele.

— Aqui não é nenhum bar gay pra vocês ficarem assim — um garoto baixinho se aproximou dos dois, se escorando no beliche ao lado do de Sawyer.

Seu impulso foi se aproximar, brigar e sair socando quem fosse responsável por seu mau humor, mas ele estava em um ambiente diferente, onde deveria ser o contrário do que era na sua vida real. O garoto continuou com o sorriso sacana e Saywer encheu a mente de imagens do garoto apanhando e perdendo os dentes, suas mãos em punhos cerrados ao lado do corpo enquanto segurava a raiva.

O baixinho continuou falando diversas idiotices enquanto Sawyer o encarava inexpressivo.

— O que as princesas estão fazendo? — Um superior entrou no alojamento, o rosto contorcido em raiva e desprezo pelos garotos.

— Provavelmente ele está falando com vocês — o baixinho encarou Sawyer, o sorriso debochado enquanto observava o superior aproximar-se.

— Eu acho que fiz uma pergunta — a voz do homem era rouca e ríspida, seu olhar ia de Mikael e Sawyer ao resto dos garotos.

— Estávamos arrumando as camas, senhor – o baixinho fez continência ao falar e o superior se aproximou, encarando a cama do garoto.

— E porque isso tá uma merda? – ele perguntou enquanto segurava os lençois finos com suas mãos grandes de soldado. O homem jogou os lençóis no chão e encarou o resto dos garotos, encarando a cena com os olhos levemente arregalados. — Não mandei fazerem um bom trabalho?

Seu olhar pousou em Sawyer por alguns segundos e para a sua cama, o beliche de cima, o único arrumado.

— Talvez ele possa ensinar vocês – o soldado apontou para Sawyer, que não pode deixar de sorrir, mas não quis demonstrar. – Ah, você gostou da atenção? – o homem riu, uma risada rouca e curta antes de fazer a mesma coisa com os forros de cama. Os jogou no chão e saiu.

Os garotos sabiam que voltaria logo, então voltaram a arrumar suas camas.

Sawyer estava bravo. Não queria ter demonstrado nada, mas o pior era ser a piada daquele lugar, ele sentia-se uma chacota enquanto recolhia seus lençois do chão. O garoto baixinho, que resolveu pegar no pé da pior pessoa possível, se aproximou de Sawyer e pisou no lençol branco. A forma do seu coturno – tamanho 36 – suja de terra ficou marcada e Sawyer encarava a cena tentando segurar sua raiva. Esquecendo que as pessoas esperavam por uma reação. Até Mikael, que escolheu a cama abaixo da sua, parecia à espera de uma resposta. Sawyer simplesmente separou o lençol sujo e caminhou até o garoto, segurou a camiseta pela nuca e o afastou da cama.

— Nunca mais toque em nada que me pertença aqui dentro – o sussurro de Sawyer era baixo, apenas o garoto ouviu. E enquanto ele estava estático em seu lugar, Sawyer pegou o lençol para si e seguiu até sua cama. Não sentiu o garoto se aproximar porque sabia que apenas aquilo o calaria por um tempo.

E enquanto ele ajeitava a cama pela segunda vez naquele dia, pensava se realmente estava no lugar certo.

— Voce fez certo em não dar uma de Sawyer – Mikael sussurrou e ele apenas assentiu.

Mas a raiva permanecia.

*

Quando Tristan chegou à piscina, com toda a família de Osmar, seguiu para seu lugar ao lado de Karen, que fez questão de lembrá-lo que ele estava atrasado.

— Pelo menos trouxe bastante gente com você – ela o encarou, admirada. A piscina estava cada dia mais cheia e Tristan percebeu homens de terno em uns dias, apenas observando as pessoas e indo até o escritório com Karen, que nunca contava nada a ninguém.

Tristan tentou perguntar sobre o clube, se seu trabalho era garantido, mas não queria soar intrometido. Entao fez o que precisava fazer naquele dia, seguia Karen para todo lugar e depois ficava parado sozinho apenas observando enquanto Karen almoçava ou desaparecia por algumas horas.

— Parece que voce é importante ficando ai – Tina se aproximou. Tristan não gostava de olhá-la porque sentia coisas que nunca sentiu. – Voce tá com uma cara de quem precisa de um cigarro – ela sussurrou, escorada ao lado dele. Tristan tirou os olhos da piscina e a encarou.

— Se você quiser fumar, precisa sair – ele disse, voltando a encarar as pessoas. Tina ficou em silêncio por alguns segundos até bufar e seguir para fora da piscina. Seu marido estava na água com a filha, mas Tristan percebeu que o encarava.

Quando retornou naquele fim de tarde, sua mãe já estava em casa, o esperando.

— Eu não estou gostando da sua aproximação com a filha do Osmar.

Foi a primeira coisa que saiu de sua boca. Tristan teve de parar onde estava, em frente à porta aberta, tentando entender o que aquilo queria dizer.

— Você é doze anos mais novo que ela. – Daisy ergueu o olhar – e acho que não preciso te dizer que é muito bem casada e mãe. – ela bufou – francamente, Tristan. Depois de tudo que você passou, vá atrás de uma garota da sua idade.

Tristan continuou parado onde estava, sem acreditar no que escutou. Daisy seguiu para dentro da casa, se fechando no quarto. Tristan pegou Zion e saiu de casa, sentindo o maço de cigarro pesado em seu bolso, pronto para ser esvaziado.

O que sua mãe disse lhe atingiu. Ele não via Tina daquela forma, via? As coisas começaram a fazer sentindo em sua cabeça, seu interesse por ela, mas a forma que Daisy falou, jogou toda a culpa em cima de Tristan. E ele sabia que não tinha culpa de nada.

Mas foi o bastante para esquecer qualquer interesse naquela mulher.

*

O dia estava sendo cansativo para os recrutas, mas os superiores não davam sossego, e quando finalmente conseguiram descansar depois de faxinar, correr e fazer tudo que eles queriam, finalmente deitaram-se em seus beliches, sentindo os corpos cansados, a mente vazia e o sono se arrastando. Mas Sawyer ainda estava acordado enquanto ouvia os roncos e murmúrios baixos, pensando em casa. Uma casa que não era um lar. Às vezes ele pensava em Aiden como o único lugar seguro.

Ele escutou um barulho no quarto escuro e depois de alguns segundos escutou "Sawyer" sussurrado. Ele se inlinou e olhou para a cama abaixo da sua, Mikael o encarava.

— Acho melhor te contar o que aconteceu – ele sussurrou, tentando não acordar ninguém – alguns dias depois de a gente se ver, minha mãe recebeu uma ligação do hospital.

Sawyer sentou na cama, sem se importar com o barulho que a cama fazia enquanto ele se mexia.

— Eu não quis contar a ninguém porque não sei se terminariam o serviço...

— Você tá querendo dizer o que, Mikael? – Sawyer sussurrou de volta, mas seu sussurro era alto e ríspido, impaciente.

— Jonas foi levado ao hospital, quase morrendo, mas conseguiram salvar. Só que não encontraram identificação com ele, não sabiam se tinha família – Mikael não encarava Sawyer, encarava a parte de baixo do colchão dele. – E então há alguns dias ele acordou e conseguiram achar minha mãe – apesar da escuridão e do silêncio, Sawyer escutou quando ele fungou. Mikael desviou os olhos dele. – No final, deu tudo certo.

Sawyer assentiu, aliviado. Ele estava feliz que Jonas estava vivo, mas não conseguia entender como tudo havia acontecido.

— E o policial? – Sawyer se atreveu a questionar. Sentindo-se culpado, de repente, por ter sido responsável pela morte.

— Não sei, quem viu foi você. Eles são todos iguais para mim – Mikael bufou – só o que sei é que chegamos para buscá-lo e já tinham pago as despesas do hospital. Você tem noção disso? Por algum tempo pensei que poderia ter sido o policial, sentindo-se mal, talvez? – Mikael riu – mas tentei descobrir e falaram que não tinha a ver com polícia. Nem sabiam que um policial tinha atirado. Só tentaram salvá-lo.

— E conseguiram – Sawyer sorriu. De repente, ele estava feliz. Sentia-se livre.

Poderia negociar sua liberdade com Seth quando voltasse para sua casa.

— Mas não conte a ninguém, tudo bem? – Mikael o encarou. – Você sabe, nenhum preto fica vivo depois que a polícia tenta matar.

Sawyer não respondeu, apenas assentiu, porque ele sabia que o amigo estava certo. Não sabia como podia ser em outros lugares, mas onde moravam era exatamente daquele jeito. Mas Jonas não foi um desses garotos e estava vivo e em casa. Sawyer dormiu aliviado pela segunda vez em muito tempo naquela noite.