Welcome to badlands
14 Capítulo Treze: parque de diversões.
Keith encarou os garotos. Seth ainda estava falando alguma coisa do outro lado da linha, mas ele fechou o celular e foi em direção aos garotos. Suas pernas estavam bambas e sua camiseta colava nas costas. Estava suando. Era calor. Era nervosismo. Sawyer demorou para notar que algo estava errado. Tirou o pé do primeiro degrau do ônibus e deixou outras pessoas entrarem primeiro.
— Peguem as malas de volta — Keith disse, guardando o celular no bolso, tentando esconder as mãos trêmulas.
— O que houve? — Tristan franziu o cenho para ele. Keith não sabia como Aiden estava, não queria erguer os olhos para saber. Não queria acabar com o sorriso no rosto dele. O sorriso de liberdade. Não queria ser o mensageiro da notícia ruim.
— Ele tá bem? — Sawyer perguntou, dando um tapa leve na cabeça de Keith. Ele olhou para cima, finalmente encarando Aiden. Mas não, ele não desconfiava de nada. Estava confuso, igual seus amigos. O telefone continuou vibrando. Keith não sabia o que fazer. Ignoraria? Diria a verdade? Partiria para a liberdade e eles eventualmente esqueceriam que algum dia tiveram família?
— Seu pai morreu — Keith disse. Rápido e certeiro. Encarando Aiden, esperando uma reação.
Aiden demorou muito para processar aquelas três palavras.
— O que? — Tristan foi o único a reagir.
Os garotos sentiam a atenção neles. Todos aqueles passageiros tentando viajar. Sawyer deu as costas para os garotos e foi na direção do ônibus.
— Nós não vamos mais — ele disse. O homem das malas ia argumentar, pronto para dizer que não poderiam, ou reclamar, mas quando notou o olhar de Sawyer, quando viu toda aquela falta de esperança naqueles olhos, ele deixou que Sawyer pegasse as malas e saísse de perto do ônibus para seguirem viagem sem eles.
— Não, Sawyer — era Aiden. Sem lágrimas, sem a voz falhada — eu quero viajar.
— Você pirou? — Tristan deu um tapa nas suas costas — seu pai morreu e você quer viajar?
— Provavelmente é alarme falso — Aiden disse, indo até o ônibus — já aconteceu isso. Umas três vezes. E o infeliz continuava vivo. Vaso ruim não quebra — ele disse, rindo de nervoso. Sawyer segurou seu braço e esperou que Aiden olhasse em seus olhos.
— Temos outros dias pra ir — Sawyer disse, passando segurança para Aiden. Mas eles sabiam, aquela seria a última chance. Quando teriam outra?
O caminho até a rodoviária foi de sorriso e expectativa. A volta para a casa foi um silêncio assustador. Eles voltariam pra casa.
— Eu não queria estragar tudo — Aiden disse — eu acho que vocês deveriam ir. Encontro vocês depo...
— Você tá com problema? — Keith murmurou — a gente nunca te deixaria. Muito mais agora, Aiden.
— Ele era um filho da mãe — Tristan disse, bravo — mas era seu pai.
Seth era o único na frente da casa de Aiden. Estava andando em círculos, e quando os viu, correu na direção deles. Sawyer se surpreendeu com o soco no nariz, e caiu de bunda no chão.
— Vocês são irresponsáveis. Onde diabos estavam indo? Seus merdas. Idiotas — Seth continuou falando todas ofensas e palavrões que lembrava. Sawyer continuou sentado no chão. O novo Sawyer levantaria do chão, passaria reto pelo irmão e ajudaria Aiden com o que ele precisasse. Mas o novo Sawyer morreu tão logo aquele ônibus partiu sem eles. E quando levantou, lembrou de todas as vezes que deixou que Seth acabasse com seu rosto. Das vezes que achava que estava merecendo apanhar. Sawyer levantou do chão, jogou a mala longe e depositou dois socos certeiros no queixo de Seth.
Os dois rolaram naquela areia suja e quente enquanto tentavam acertar socos e tapas. Aiden queria ajudar Sawyer, mas ele viu seu tio parado, o encarando. Ele sentiu medo. Seu tio poderia muito bem quebrar a cara dele, mesmo estando tão podre de bebida.
Tristan e Keith ignoraram a briga dos irmãos e deram apoio a Aiden, o levando até sua casa.
— Tio — Aiden disse, a voz rouca. Ele não estava com vontade de chorar. Não estava nem triste. De alguma forma, a ficha não havia caído.
— Merdinha — seu tio sorriu, malandro e sujo. — Somos apenas eu e você agora.
— Não — Tristan disse, defensivo — Aiden está muito bem acompanhado.
— Aham — o tio dele disse, de um jeito desdenhoso. Encarou Aiden, os olhos semicerrados na direção dele — você sabe que seu pai morreu de desgosto? Descobriu que o filho dele, além de ser um fraco, é viado?
— Cala a boca — Aiden disse entredentes — me diz do que aquele velho desgraçado morreu.
— Aiden — Keith o advertiu — senhor — ele se dirigiu ao tio — acredito que todos aqui estão nervosos com a recente situação — Keith se tornava outra pessoa quando a situação pesava.
— E o que você sabe? — o tio disse, cuspindo enquanto falava. Soltou um catarro nojento e amarelado perto do pé de Keith — já levaram meu irmão daqui. Não há o que ser visto. Morreu de velho, coitado — ele deu de ombros — Aiden, entra.
O tio não esperou nenhum argumento, prosseguiu a vida como se nada tivesse acontecido.
— O que vai acontecer com você? — Tristan perguntou, preocupado, enquanto Aiden seguia até a porta da entrada de sua casa.
— Sou dele agora — Aiden disse. E naquele momento, logo depois que murmurou aquela frase, eles escutaram o choro que seguiria. Todos os dias segurando a tristeza dentro de si, seriam retiradas do corpo naquela tarde. Naquela noite. E nos próximos dias.
O pai dele não era bom. Mas o tio era pior.
— Você é nosso — Sawyer disse. O rosto todo machucado, as costas sujas de areia. Seth continuou no chão, a camiseta rasgada, a cabeça raspada apoiada na mala jogada de Sawyer.
— Não, Sawyer — Aiden estava com aquela voz. Com aquele olhar. Ele havia desistido. Do que? Ele não saberia dizer. Talvez tudo.
Os dias de dezembro estavam cada vez mais quentes. Os garotos continuavam do mesmo jeito, como se aquela quase viagem nunca tivesse existido. Como se o pai de Aiden ainda estivesse presente, ao menos os hematomas voltaram para seu rosto, mas aquilo tudo era obra do seu tio. Eles não perguntavam como Aiden estava.
Aiden nunca mais apareceu na casa de Sawyer à noite. Não por que não queria, mas simplesmente por que Sawyer nunca estava em casa.
Os garotos prosseguiam as vidas assim, cada um cuidando da sua.
Sawyer saía à noite e ninguém sabia para onde. Aiden apanhava do tio sem motivo e ninguém sabia como ele lidava com tudo aquilo. Tristan continuava com medo da tia, mesmo já sabendo se defender e mesmo ela nunca mais encostando um dedo nele. Keith estava sempre com uma garota diferente naquela cama, igual seu pai, mas ninguém falava nada, Keith sabia muito bem que estava se tornando uma versão nojenta dele.
Mas quando eles se juntavam, para beber e fumar ou apenas conversar, eles ainda pareciam aqueles garotos jovens e sem esperança que se conheceram há tantos anos. Ainda eram tão amigos que até no silêncio sabiam que algo estava errado com algum deles, eles só não falavam.
Tristan teve a brilhante ideia, na véspera de natal, de ir até o parque de diversões da cidade. Ele ficaria lá nas festas de fim de ano, e seria onde um Papai Noel estaria.
Eles já eram velhos para isso, é claro. Mas não havia muito o que fazer naqueles dias.
— Não acredito que viemos ver um papai noel — Sawyer disse quando passaram pela entrada do parque. Estava lotado. Crianças gritando e correndo. Pais e mães fingindo que conseguiam controlar tudo aquilo. Sawyer avistou Seth ao lado de Hilla, mas os dois não estavam em uma conversa muito amigável. Aiden olhou para onde Sawyer estava olhando e o cutucou:
— Hoje não vamos nos estressar com nada — Aiden estava com um olho inchado, mas isso não parecia afetá-lo mais. Passava as mãos trêmulas pelo seu cabelo recém-raspado e olhava ao redor, nervoso que algo poderia estragar aquela noite.
E a noite estava tão brilhante. Os brinquedos e suas luzes néon, a lua brilhante no céu e as poucas estrelas espalhadas pelo céu negro.
— Isso. Vamos pegar algodão-doce — Tristan disse e foi até o carrinho do algodão-doce.
— Eu vou procurar minha próxima caça — Keith disse, procurando alguma garota.
— Vai dar sorte se existir alguém da nossa idade aqui — Aiden disse enquanto acendia um cigarro — só tem pirralhada.
— E para de querer procurar mulher. Já te falei que elas só fodem com a vida dos outros — Sawyer disse rindo e pegando o cigarro da mão de Aiden.
— Vamos pegar algo para beber então. Ano passado o Mentira disse que bebeu cerveja demais e foi até um desses brinquedos e vomitou em quase todo mundo lá do alto — Keith disse, apontando para a roda gigante — vocês conseguem imaginar a cena? — ele começou a rir e pegou o cigarro que Sawyer lhe ofereceu.
— Eu dispenso — Aiden disse, mas imaginou a cena.
— Acho que seria uma boa — Sawyer considerou — melhor que ver o Papai Noel pelo menos.
— Consegui algodão doce por um bom preço — Tristan disse, distribuindo algodão doce — de graça — ele riu.
— O que? — Keith arregalou os olhos, se engasgando e tossindo fumaça — você roubou? — ele gritou e Tristen lhe deu um tapa.
— Claro que não, besta — ele revirou os olhos — Vanny e Katherine me viram na fila e me deram — ele deu de ombros.
— Vanny tá aqui? — Keith continuou com os olhos arregalados — essa vadia quer alguma coisa contigo, por isso fez isso...
— Ei, ei — Tristan lhe encarou, o senho franzido — não fala assim dela. E se ela quiser algo? Não ligo. — ele deu de ombros.
— Provavelmente a única coisa que ela quer é se vingar de você — Aiden disse, cutucando Sawyer. — provavelmente cuspiu nesse algodão doce que você está comendo.
— Ou pior ainda — Keith riu, soltando fumaça — colocou nas partes íntimas dela. Sabemos que isso você detestaria, né, Sawyer? — ele piscou o olho para Sawyer e começou a rir.
— Me erra — Sawyer respondeu, um pouco corado pelo comentário de Keith e jogando o algodão doce no chão. Escutou os resmungos do Tristan “eu sei que eu não paguei por isso, mas não precisa jogar no chão assim, é desperdício” e saiu andando em direção ao seu irmão.
— Ele tá muito estressadinho — Keith revirou os olhos enquanto os três seguiam Sawyer.
— Eu falei para ele não se estressar hoje. Ele vai acabar com a nossa noite, pode apostar. — Aiden reclamou — pelo menos hoje eu estou longe do meu tio. E estamos de férias. Temos que aproveitar.
— Para de choramingar — Sawyer gritou — eu não vou fazer nada. — ele virou para trás e encarou os meninos — vamos para a roda gigante?
A fila estava grande e enquanto os garotos esperavam, Keith conseguiu três cervejas. Aiden recusou, lembrando da cena que imaginou. Tristan não sabia se bebia sua cerveja ou comia seu algodão. Sawyer já considerava que cerveja era apenas água com cor de mijo, já não fazia tanto efeito para ele. Keith estava procurando Vanny, mas não sabia bem o por quê. Ele sabia que não a amava. Nem gostava dela. Não depois daquela cena. Mas ele só conseguia lembrar o quanto ele era feliz com ela.
— Para de pensar em buceta — Aiden lhe cutucou.
— Me deixa — Keith riu.
A cerveja de Aiden ainda estava na metade quando chegou na vez deles.
— Sem latas. Principalmente de cerveja, né — uma mulher grande lhe repreendeu. Tinha bafo de cachaça e cheiro de fritura, o jeito que ela falava parecia robotizado. Sawyer estava atrás de Tristan, então ele simplesmente ergueu a mão, pegou a garrafa de cerveja e tomou tudo em um só gole.
— Pronto. — e os quatro foram para seus lugares na roda gigante.
Aiden sentou ao lado de Sawyer e o encarou.
— Você está bem?
— Claro — Saywer disse. O brinquedo começou e Aiden não parava de encarar Sawyer.
Tristan estava sentado ao lado de Keith, o ajudando a procurar Vanny e Katherine.
— Ela estava com uma tiara de diabinha que ficava acendendo.
— Bem a cara dela — Keith riu.
— Lá, olha — Tristan apontou.
— Sabe, acho que foi bom a gente não ter ido viajar — Aiden disse, tentando arranjar alguma conversa com Sawyer, que não parava de mordiscar a bochecha por dentro.
— Por quê? Eu não aguento essa cidade.
— Não seríamos felizes longe disso — Aiden abriu os braços. Eles estavam no topo.
Keith encarou o chão, tentando enxergar o amor da sua vida no meio de todas aquelas pessoas comuns. E lá estava ela. Rindo com Katherine. Segurando sua cerveja, na vida do carro choque.
Sawyer encarou o Aiden. Seus olhos estavam brilhando enquanto ele olhava para aquela noite. Nada ali era bonito, Sawyer pensou. Aquelas pessoas fedorentas, o chão sujo, até a noite parecia falsa. Mas ele encarou Aiden. E ele, sim, era bonito. Seus cílios longos, seu cabelo mal cortado, sua boca que parecia um coração. Aiden olhou para o lado e a única coisa que Sawyer podia pensar naquela hora era em como sentia falta de beijá-lo.
— Você vai falar com ela? — Tristan perguntou, encarando Katherine. Estava linda. Aqueles cabelos encaracolados e brilhantes. Ele queria gritar “me nota, aqui em cima”, mas ficou encarando Keith, enquanto ele gritava “Vanny!”
E então Sawyer beijou Aiden.
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