Welcome to badlands
16 Capítulo Quinze: Harry Potter.
Flashbacks breves de quando Tristan era menor invadiram sua mente enquanto encarava aquela mulher. Nunca pensou muito sobre que fim levou sua mãe. Se ela estava de fato ao seu lado desde o nascimento.
Mas se ele pensasse bem, se conseguisse se permitir lembrar.
Ele sabia.
Ele não lembrava de nada.
Sua primeira lembrança acessível não era com sua mãe, e sim com sua tia.
Lembranças traumáticas ou não, era sua tia que estava ao seu lado durante todos esses anos.
Não aquela mulher desarrumada que se dizia sua mãe.
Os garotos encararam Tristan, esperando uma reação. Ele estava calmo, sereno, do jeito Tristan de ser.
Porém...
Na sua cabeça, nos seus desejos silenciosos de criança “eu quero minha mãe”, um pensamento fez morada: e se? E se for ela mesmo? E se pudéssemos resgatar todo o tempo separados...
Não. Ele encarou novamente a mulher.
Ela não estava com intenção de ficar.
Não tinha indícios de que gostaria de recuperar esse tempo de mãe e filho.
Tristan suspirou fundo.
— Não a conheço para ter tanta intimidade assim — ele disse, tão baixo que quase torceu para qu ela não escutasse.
Mas a rua, estranhamente, estava silenciosa. Parecia que todos estavam esperando por aquele encontro.
— Nem sabia que você tinha mãe — Aiden murmurou, pensativo.
Tristan queria responder: eu também não.
Tristan nunca teve interesse profundo no assunto, ele tinha seus próprios problemas desde cedo. A única coisa que sabia, se é que era verdade, era que sua tia era irmã do seu pai, que faleceu antes mesmo de conhecê-lo. Sua mãe, de acordo com sua tia, não estava ali.
Ele perguntava: como assim? E ela simplesmente dava de ombros e murmurava: simplesmente não estava aqui, Tristan.
E agora ele entendia.
— Vamos, Nathaniel — a mulher disse, após acender um cigarro.
— Nathaniel? — Keith riu — você se confundiu, moça — ele apontou para Tristan — o nome dele é Tristan.
A mulher arqueou as sobrancelhas escuras, soltando a fumaça.
— Pelo jeito ninguém gostou da minha escolha de nome — ela disse, quase como se estivesse conversando consigo mesma — sua vó queria esse nome, por causa do seu pai.
— Meu pai? — Tristan engoliu em seco. A única verdade sobre o seu passado que ele conhecia.
— Sim, o Tristan — ela revirou os olhos — aquela velha sempre se intrometia na nossa relação. Só parou quando o coitado morreu.
— Pelo menos disso eu já sabia.
— Sua tia não te contou sobre mim? — se Tristan conhecesse aquela mulher parada ali, diria que ela estava muito decepcionada com aquela declaração. Desapontada por não ter sido parte de uma história na cabeça de Tristan.
Ele apenas negou com a cabeça, se aproximando lentamente da mulher. Temia que sua tia aparecesse na janela e o tirasse de lá. Temia, pois queria conhecer aquela mulher que de repente se tornou tão fascinante aos seus olhos.
— Temos muito o que conversar então — ela tentou erguer a mão e encostar no rosto do menino, mas se conteve em apenas encarar aqueles olhos. Os olhos que ela cansou de ver nos espelhos de boates caídas. Mas aqueles olhos traziam cansaço e inocência, apenas a cor era semelhante.
— Aqui? — Aiden perguntou, encarando a cena, ainda sem acreditar.
— Não. Hoje estou com pressa — ela pisou em cima do cigarro pela metade e o apagou — eu venho amanhã, Tristan...
— Mas então o que você estava fazendo aqui? — Saywer estava desconfiado. Era o único encarando aquela cena de longe, com olhos críticos. — você não veio para ficar e nem para conversar com seu filho. Tem algum cliente na área? — ele disse, parecia uma cobra com aquele olhar selvagem em cima dela.
— Você tem amigos bem... peculiares, não é mesmo? — a suposta mãe de Tristan o encarou de cima a baixo, com tanto desprezo que até Keith estremeceu. — o que eu vim fazer aqui não lhes diz respeito. Mas, Tristan... — ela baixou os olhos para ele — eu queria te ver. Já faz um tempo que tenho pensado em você. Mas não podemos conversar hoje, tenho horário, você sabe — ela parecia estar se desculpando com ele, mas apenas Tristan acreditava naquilo.
— Amanhã nos vemos — foi a única coisa que Tristan disse antes de entrar em casa e fechar a porta na cara dela, deixando seus amigos confusos e sozinhos com aquela mulher.
O dia seguinte foi marcado por confusão. Os meninos acordaram com a sensação de que a noite anterior não havia acontecido.
Sawyer cutucou Aiden, roncando ao seu lado na cama.
— Acorda.
— Que foi? — Aiden murmurou, esfregando os olhos cheios de remelas. Sawyer estava levantando da cama.
— Vamos sair.
— Pra que? O dia tá péssimo — Aiden olhou pela janela, encarando o céu nublado — eu vou ficar aqui — ele disse, segurando o lençol em cima da sua cabeça.
— Que pena — Sawyer riu, tirou sua samba canção suja que ele usava como pijama e ficou pelado no quarto — ia te convidar para um encontro — ele disse, pegando uma toalha e saindo do quarto, em direção ao banheiro.
Aiden permaneceu com o lençol tapando sua cabeça, mas conseguiu observar Sawyer por causa do tecido fino do lençol.
Tristan acordou com uma sensação estranha naquela manhã. Pensou no sonho que teve, em sua mãe reaparecendo. Apenas alguns segundos depois ele se deu conta que não era sonho. Era realidade.
Ele pensou em falar com sua tia, perguntar a verdade.
Mas e o medo de aquilo causar algum efeito colateral? Toda aquela perseguição dela em cima do garoto havia cessado, mas e se houvesse alguma recaída? Tristan não estava preparado.
Ele desceu para tomar café, mas a casa estava vazia. Um singelo bilhete estava em cima da mesa de vidro da sala.
“Fui ao mercado. Volto logo”.
Sua tia nunca deixava bilhete quando saía. Tristan estava desconfiado. Qualquer coisa que acontecesse naquele dia ele acharia que era uma conspiração por causa da sua mãe.
A primeira coisa que Keith fez naquela manhã, antes mesmo de abrir os olhos, foi olhar seu celular.
Vanny não havia ligado. Ela nunca ligava, era muito independente para isso.
Mas ele não era. Ele ligou.
Depois de apenas três toques o celular foi para a caixa postal.
Keith estava sendo evitado. E ele odiava isso.
— Ok, para onde vamos? — Aiden perguntou enquanto eles caminhavam pela rua.
As crianças do bairro estavam brincando de Queimada. Sawyer encarou a bola, quase atingindo o rosto de um dos garotos, e lembrou de quando eram eles ali brincando.
Sawyer sentia muita falta de quando era mais novo, mas quando ele pensava nisso, lembrava da dor que sentia no corpo todos os dias. Lembrava de todas as brigas com o irmão e sentia-se aliviado por finalmente conseguir revidar todo aquele ódio do irmão.
— Surpresa — Sawyer sorriu para Aiden.
Quando eles estavam juntos Sawyer era uma pessoa boa. Ele não pensava em coisas ruins. Pensava que Aiden merecia o melhor, merecia alguém sem problemas ao seu lado, e então ele gostava de fingir, nem que fosse por um dia inteiro ou uma noite, que era digno deste amor.
Amor. Sawyer nunca havia amado ninguém até conhecer Aiden.
Ele não sabia bem o que era amor. Não sabia porque as pessoas amavam. Mas quando olhava Aiden, aquele olhar inocente, aquela pele clara e cansada, os machucados se destacando assim que olhavam para o garoto, quando via toda este conjunto na sua frente, ele sentia algo por dentro. Uma coisa difícil de explicar e entender, por isso ele nem tentava.
Sawyer gostava da sensação. Gostava de sentir aquilo. De dormir ao lado de Aiden e fingir que eles estavam em outro lugar. Em um lugar onde eles poderiam ser felizes.
Quando eles pararam em frente ao cinema comunitário do bairro, Aiden olhou para Sawyer.
Aquele olhar. Seus olhos brilhavam de alegria, ele parecia uma criança recebendo presente de natal. Ele parecia tudo aquilo que Sawyer queria.
— Você gostou? — Sawyer perguntou, tentando não ficar todo bobo com a reação de Aiden.
— Claro! — Aiden correu para ver os filmes em cartaz.
Não era um cinema chique como os que tinham no outro bairro. Os filmes que passavam eram velhos e o cheiro de pipoca invadia todas as salas. Era um cinema pequeno, com apenas quatro salas de exibição, mas a vantagem era o preço e o horário. Um cinema vinte e quatro horas, quem não gostaria disso?
— Harry Potter, não acredito — Aiden disse, apontando para o filme do Harry Potter e a Pedra Filosofal.
— Eu acho que já assisti esse — Sawyer considerou e foi ver os outros filmes. “O Clube dos Cinco”, Sawyer fez uma careta. — Jurassic Park — Sawyer disse, animado. Foi a vez de Aiden fazer uma careta. O resto eram comédias românticas, e Sawyer já estava apaixonado o bastante para ficar assistindo essas coisas. — vamos assistir Harry Potter mesmo — ele disse, dando de ombros.
Tristan foi até a casa de Sawyer depois do almoço.
— Sim? — a mãe de Sawyer atendeu a porta. Seu rosto estava pálido com olheiras negras. Sua camiseta estava do avesso, mas Tristan apanas murmurou:
— Sawyer está?
A mãe dele observou Tristan por alguns segundos. Tristan a observou por alguns segundos.
Ele queria uma mãe. Queria poder dizer “eu moro com minha mãe”, mas encarando a mulher na sua frente, ele já não tinha tanta certeza. A mãe de Sawyer parecia nem saber quem era “Sawyer”. E então algo na sua mente pareceu se iluminar e seus olhos estavam um pouco mais lúcidos, mas durou apenas uns segundos.
— Ele deve estar no quarto — ela deixou a porta aberta e voltou para dentro de algum dos cômodos, provavelmente seu quarto, Tristan considerou.
Tristan entrou e fechou a porta atrás de si. A cama dele estava bagunçada. Roupas estavam espalhadas pelo chão. Tristan notou uma camiseta lá que pertencia ao Aiden, mas não havia sinal de nenhum dos dois naquele quarto.
Seth apareceu na porta do quarto do irmão e encarou Tristan por alguns segundos.
Ele lembrava de quando Tristan era novinho. Lembrou do incidente na casa e se sentiu mal. Mas Tristan cresceu bem.
— Ei — Seth disse e Tristan quase pulou de susto.
— Seth — ele murmurou — você viu seu irmão?
— Acho que saiu com Aiden — ele respondeu, enfiando um palito de dentes na boca — não convidou o bando?
— Que bando? — Tristan o encarou confuso.
— Você e Keith — Seth respondeu como se fosse óbvio.
— Acho que não... — ele deu de ombros. Não nasceram grudados, afinal de contas. Mas talvez, algum lugar na sua mente, aquilo era quase uma traição.
— Beleza — Seth bateu palma duas vezes — vou trabalhar, mas pode ficar a vontade.
Tristan esperou Seth sair do quarto e desceu para ir embora.
Keith pegou sua bicicleta e foi até a casa de Vanny. Foi necessário muita coragem e bebida para Keith fazer isto. Ele sabia que Vanny não estava mais interessada, mas ele era um garoto que não gostava de ser rejeitado. Aquilo só o instigava mais.
— Keith! — a mãe de Vanny atendeu a porta. Era uma mulher bonita e conservada para a sua idade, Keith sempre a achou linda, e se não fosse por Vanny, tentaria algo com ela.
— Olá — ele disse, todo sorridente tentando não encarar o decote dela — Vanny está?
— Hum — ela murmurou, olhou por cima do ombro e se aproximou mais de Keith, encostando a porta da casa, quase a fechando — ela está sim, Keith — ela estava começando a dizer, quase como se estivesse se desculpando — mas está acompanhada.
— Puta merda — Keith xingou e a mulher o encarou — desculpa. — Keith passou as mãos por seus cabelos um tanto compridos e mordeu o lábio para não xingar novamente. Por essa ele não esperava. Sentia-se ingênuo. Bobo. Vanny não o queria mais. Ponto final.
Sawyer e Aiden estavam sentados na poltrona do cinema, esperando o filme começar. A sala estava lotada. Era sempre assim nas férias. Sawyer estava impaciente.
— Ei, quer comer algo? Ou beber? — ele cutucou Aiden, perguntando.
— Tô de boa. A pipoca daqui é ruim e o refrigerante é aguado.
— Ah, mas eu tô cheio de fome — Sawyer disse, mordendo o lábio.
— Beleza, quer que eu vá buscar?
— Ih, relaxa — Sawyer levantou. Estavam na última fileira, perto da porta — vou ali e já volto.
Sawyer saiu da sala de cinema e foi comprar pipoca.
Tristan voltou para a casa e se surpreendeu com a mesma mulher da noite anterior sentada no seu sofá.
Sua tia não estava na sala ao lado dela.
— Oi — ele disse, cumprimentando a sua “mãe” quando entrou em casa.
Era preciso dar créditos a mulher ali sentada.
Ela estava com os cabelos penteados, o batom estava impecável e suas roupas eram mais comportadas naquela tarde.
— Meu filho — ela disse, fazendo menção para levantar, mas Tristan sentou na poltrona quebrada ao lado do sofá de couro arranhado por um gato de rua.
— Tristan — sua tia apareceu na sala com duas xícaras de café — quer comer algo? — ela perguntou, de repente sendo a melhor anfitriã do mundo.
— Não, tô tranquilo — ele respondeu, tentando não se abalar com aquela cena.
— Então — sua tia disse, sentando-se ao lado da sua “mãe”. Tristan só pensava assim: “mãe”. — acho que você já conhece sua mãe — que palavras estranhas de se dizer. E de ouvir. Tristan teve vontade de rir, de repente querendo seus amigos ali para presenciar a cena.
— É, conheci. Um pouco tarde — ele riu e balançou a cabeça enquanto a mãe tomava um gole de café.
— Eu gostaria de poder resgatar nosso tempo perdido, Tristan — ela disse, respirando fundo.
— Podemos voltar um pouco? — Tristan perguntou e as duas o encararam, confusas — primeiro de tudo: eu nem sabia que tinha mãe. Eu nem sabia que você ainda estava viva, caramba. E agora você quer recuperar o tempo perdido? — Tristan perguntou, apontando o absurdo em tudo aquilo — eu quero saber o porquê. Por que você me abandonou? — ele estava quase chorando. Aquilo tudo estava fora de cogitação. Ele nem sequer sabia o nome daquela mulher sentada no sofá.
Keith voltou para a sua casa. Tinha vontade de pedir para a mãe de Vanny para entrar na casa e surpreender os dois. Talvez eles estivessem transado.
Quem seria o novo garoto de Vanny? Ou garota, nunca se sabe.
Keith sabia que quem quer que fosse, enfrentaria a ira dentro do rapaz.
E ele sabia que não podia externar este lado dele. O lado possessivo e agressivo que herdou daquele homem que chamava de pai.
— Onde você estava? — seu pai perguntando quando o viu entrar em casa — eu te pedi ontem para me ajudar hoje.
— Ajudar em que? — Keith bufou — e não te interessa onde eu estava — “seu velho de merda”, ele queria dizer.
— Ah, você não disse isso — seu pai disse, rindo. Keith viu aquele olhar e aquele sorriso venenosos no rosto do pai sempre que estava prestes a bater na sua mãe.
Keith estava cheio de raiva, então estava apenas esperando seu pai fazer qualquer coisa para despertar esse seu lado.
— E aí? — Keith perguntou, ameaçando. Seu pai semicerrou os olhos para ele e considerou a situação por alguns segundos.
— Não vale a pena — seu pai disse, dando de ombros — me ajude a retirar algumas coisas da casa, por favor Keith — ele disse, ignorando a raiva de Keith, que poderia incendiar toda aquela casa em segundos.
Sawyer estava entediado. Ele odiava ficar horas sentado ou parado. Mas Aiden estava admirando o filme. Seus olhos brilhando assistindo toda a magia. E então Sawyer ficou o observando. Era tão bonito.
— Não quer comer?
— Shi! — Aiden disse, lhe cutucando — presta atenção.
Sawyer revirou os olhos e tomou um gole da sua bebida.
Encarou o cinema inteiro. Estava tudo escuro. De repente ele teve uma ideia.
Sawyer levou sua mão até a coxa de Aiden, que o encarou, os olhos arregalados, olhando para os lados.
— Estamos em público — ele sussurrou.
— Foda-se — Sawyer disse, indo para mais perto de Aiden e subindo sua mão até a virilha do rapaz.
Aiden de repente sentiu o cheiro da boca de Sawyer.
— Você bebeu? — ele o encarou. Decepção estava estampada em seu rosto. Aquilo fez Sawyer recuar.
— Não... — mas Aiden sabia que o líquido do copo de papel era vodca, e não refrigerante.
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