Welcome to badlands

44 Capítulo Quarenta e Três: de volta à realidade.


Sawyer foi o caminho todo para a casa pensando que aqueles dias no alojamento deveriam ter feito com que ele se sentisse um homem melhor, pronto para fazer o bem e seguir as leis, mas aquilo não fazia sentido. A injustiça o seguia novamente, em forma de um de seus maiores prazeres na adolescência: a maconha. Sawyer nunca faria uma coisa daquelas, mas aos olhos de todos os outros, era capaz sim. Então, de que adiantava tentar ser bom se tudo o que pensavam quando olhavam para ele era um delinquente sem futuro? Ele divagava em pensamentos autodepreciativos e sentindo raiva de si e da sua vida quando percebeu que perdeu o ponto da sua casa, então levantou do banco do ônibus e seguiu para a porta, quase atropelando uma pessoa enquanto carregava sua pequena mochila com seus pertences. Quando desceu do ônibus percebeu que já estava amanhecendo e o bairro acordava aos poucos. Ao longe conseguiu ouvir uma mulher gritando com uma criança e dois cachorros remexendo no lixo de uma das casas.

Ele não queria ter voltado, não tão cedo. Não sentia falta do chão de areia, das casas e famílias iguais e muito menos da sua casa. E do quando ela parecia a pior olhando de longe. Como se uma nuvem carregada pairasse apenas ali, pronta para soltar a tempestade. Sawyer não sentia falta alguma da sua casa, a qual se aproximava calmamente, como se atrasasse ao máximo aquela chegada.

Um assovio baixo chamou sua atenção e quando ele olhou para as casas no lado direito, percebeu Osmar em frente ao seu carro. Não passava das seis da manhã, Osmar estava pronto para dirigir ao trabalho quando notou Sawyer, encurvado e com uma expressão de cortar o coração. Ele não precisou fazer as contas, sabia que não era hora de voltar.

— Eu queria agradecê-lo – Sawyer se aproximou de Osmar, que fechou a porta do carro e encarou o garoto com o cenho franzido. Reconheceu que ninguém havia feito metade do que Osmar fez por ele e sentia o olhar de decepção no seu rosto. Queria pedir desculpas por tê-lo feito perder tempo tentando ajudá-lo, mas ele não conseguiu dizer mais nada.

— O que aconteceu?

— Me incriminaram – Sawyer pigarreou e encarou o bairro. Não queria olhar para Osmar e encarar seu olhar decepcionado.

Garotos sem escolhas ou chances interrompidas ou negadas tem dois caminhos a seguir, a princípio: dar a volta por cima ou achar uma saída fácil. Era o que Osmar pensava e havia feito o possível por Sawyer.

— Se você quiser peço uma reavaliação do caso, já que você não teve nada a ver...

Sawyer percebeu, por trás de toda a frustração, que Osmar nem sabia ao certo se acreditava nele.

— Não – ele o interrompeu – o senhor já fez demais.

— Eu realmente queria te tirar dessa vida – Osmar lhe entregou o sorriso mais triste que Sawyer já viu, mas desviou os olhos e fechou as mãos em punho quando entendeu o verdadeiro interesse de Osmar na sua vida.

Não era porque a vida no quartel era incrível e ele ganharia muito dinheiro. Era porque Osmar queria salvá-lo de Seth, o que deixou Sawyer sentindo-se pior.

Ele sentia vontade de chorar, mas não sabia se era capaz de tal coisa. Ele soltou um suspiro alto e se afastou de Osmar com um aceno tímido.

Naquela situação Sawyer culpava o destino infeliz que lhe foi dado. E se ele simplesmente agarrasse o caos, aceitar seu fim nas garras do irmão. Ele estava a caminho de casa, ignorando Osmar ainda parado no mesmo lugar, quando pensou como seria fácil simplesmente dar meia volta e seguir com sua mochila quase vazia, ir até o apartamento dos garotos e fugir com Aiden. Já estava longe dos olhos e atenção do irmão, de qualquer forma.

Antes de Seth despertar, Sawyer correu até o apartamento e só parou para tomar fôlego antes de continuar sua corrida.

Ele tocou a campainha, não se importando em acordá-los e depois de quase dez minutos parado ali, batendo na porta, Aiden a abriu.

O primeiro pensamento de Aiden foi: estou sonhando? Ele demorou a perceber que era Sawyer ali, a centímetros de distância.

— O que você tá fazendo aqui? – Aiden começou, mas então se deu conta de que era Sawyer. E fazia dias que não o via. Ele abriu mais a porta e deu um passo a frente antes de jogar os braços em volta do pescoço dele. Sawyer envolveu a cintura de Aiden com seus braços e toda sua raiva e indignação se esgueirou para fora do seu corpo, porque não importava para onde ele fosse ou o que aconteceria com ele.

Sempre teria um abraço para onde voltar. Um lar. Aiden tinha o cheiro familiar que não deixou os pensamentos de Sawyer em todos aqueles dias. Não tem ideia de quanto tempo ficou ali, nos braços do seu amor, mas não reclamou quando Aiden o puxou para dentro, deixando a mochila em qualquer lugar pela sala, e seguiram para o quarto.

Eles se desgrudaram por alguns segundos depois da porta ser fechada atrás de Aiden, que encarava Sawyer com diversas perguntas, mas sem coragem de quebrar aquele momento. Sawyer percebeu que tudo continuava igual. Queria saber como estava a vida, mas não queria que Aiden devolvesse a pergunta. Então os dois sentaram-se lado a lado na cama, encarando o chão.

— Eu senti muito a sua falta – Aiden começou, sem conseguir olhar para Sawyer – se você ver seu celular e estiver cheio de chamadas não atendidas ou caixa postal lotada, fui eu – ele riu, sentindo-se ridículo de repente.

— Muitas novidades por aqui? – Sawyer não conseguia desviar os olhos da parede e olhar para Aiden. Sua vontade era segurar sua mão e levá-lo embora de todas as coisas ruins, mas ele não era tão corajoso assim.

Sawyer era uma fraude.

— Não – Aiden fechou os olhos e se jogou de costas na cama – só queria me sentir perto de você.

Aquelas palavras, por mais inocentes que soassem, despertaram Sawyer. Por mais que ele estivesse de volta contra sua vontade, ainda era Aiden. O garoto que o esperou por todos aqueles dias. Anos. Esteve ali, mesmo depois que Sawyer deixou claro que eles nunca poderiam se tratar como um casal na frente dos outros.

Sawyer olhou para trás, por sobre seu ombro, e encarou Aiden, deitado com as mãos atrás da cabeça e o olhar perdido pelo teto. Ele deitou-se ao lado de Aiden e os dois ficaram de frente um para o outro. O olhar de Sawyer era atento em cada detalhe de Aiden. Sua mão desajeitada pousou na sua face, quente contra sua mão suada. Quando aproximou os rostos, a centímetros de distância, o beijo começou calmo. Aquele beijo depois de ficar tanto tempo longe.

Até perceber que eles estavam finalmente perto. E sozinhos. Onde não precisavam se esconder de ninguém. O beijo se tornou urgente, com aquele tipo de saudade que os esmaga porque finalmente estão juntos e não há mais para onde ir.

*

Ingrid tentou se afastar de Keith para escapar do calor, mas aquilo acordou o garoto, que se assustou com o toque nada sutil de Ingrid em suas costas.

— O que foi, diacho? – ele murmurou enquanto virava-se para a parede, para continuar dormindo.

— Você está grudado em mim, chega mais pra lá.

— Mas aí eu atravesso pra sala! – Keith bufou e se ajeitou na cama de barriga para cima. Quando Ingrid jogou o braço em cima da sua bexiga, ele fez uma careta – deixa eu passar aí – ele pediu, fazendo ela sair da cama enquanto reclamava. – Ninguém mandou apertar minha barriga, senão ia aguentar segurando. – ele respondeu, tentando se explicar, mas ela já estava se ajeitando na cama para voltar a dormir.

Keith estava saindo do quarto quando escutou vozes familiares pela sala.

— Não acredito! – Keith correu até Sawyer, ignorando as mãos entrelaçadas dos dois em cima do sofá – o que você tá fazendo aqui, cara? – o abraço de Keith era apertado enquanto ele agradecia Sawyer pelo presente e em resposta Sawyer o abraçou mais forte.

— Bom, parece que vocês não vão se livrar tão fácil de mim – Sawyer deu um sorriso sem graça quando Keith se afastou.

— Mas nós nem queremos isso, Sawyer – Aiden respondeu, um sorriso estampado em seu rosto.

Keith os encarou. Percebeu os rostos corados. Percebeu os olhares que trocavam quando achavam que ele não estava prestando atenção e finalmente teve a confirmação que nem precisava. Tudo que Tristan havia lhe dito era verdade, porque Keith finalmente entendeu com quem diabos os dois transavam e não contavam a ninguém.

E ele pensou: é agora.

Mas ele conhecia Sawyer tão bem para saber que ele só causaria danos. Decidiu que, se fizesse algo assim, expor seus amigos e colocá-los contra a parede, Tristan deveria estar junto.

— Fico feliz que você esteja aqui, mas não era agora que terminava, né? – Keith perguntou, fazendo Sawyer desviar os olhos de Aiden para olhá-lo.

— Eles o incriminaram – Aiden respondeu, sentindo raiva. Sawyer lhe contou tudo, mas Aiden estava mais chateado que Sawyer com toda a situação.

— Quem?

— Algum dos garotos – Sawyer deu de ombros – acho que não gostavam muito de mim.

— Você teve problemas com eles?

— Não, lá eu fui bem responsável – Keith fez uma careta, como se fosse difícil de acreditar naquilo – não arrumei briga, só fiz o que me pediam para fazer. Mas aí em uma das vistorias acharam uma ponta de baseado nas minhas coisas – Sawyer soltou o ar pesadamente – enfim. Já era – ele deu de ombros, como se não fosse nada.

Mas eles sabiam que Sawyer estava chateado e por isso não falaram mais sobre aquele assunto. Ingrid saiu do quarto depois de alguns minutos de demora do Keith e os quatro ficaram conversando sobre tudo que havia acontecido enquanto Sawyer não estava presente. Lhes contaram sobre Lara e Sabrina e só pararam quando estava na hora dos garotos irem trabalhar e Ingrid ir para a faculdade. Sawyer sabia que precisava ir para a casa, mas tentou adiar o possível enquanto tomava café na lanchonete.

Não ficou surpreso quando chegou a casa e viu Seth deitado no sofá, apenas de cueca. A sala fedia e estava bagunçada. Ele respirou fundo e segurou o ar, pronto para subir até o seu quarto e dormir, mas Seth parecia farejar a presença do irmão mais novo. Sentia o cheiro do medo, talvez. Medo de não conseguir ir embora nunca.

— Ué? — Seth franziu o cenho. A luz da sala estava acesa e seus olhos inchados na direção de Sawyer, parado em frente à porta fechada. — O que você tá fazendo em casa tão cedo?

— Acabou mais cedo — Sawyer murmurou, segurou a mochila nas costas e virou, indo em direção às escadas, ouvindo a madeira estalar sob seus pés e sentindo o olhar de Seth o encarando, à espera de alguma outra resposta.

Acabou mais cedo para mim. Era só o que ele pensava no caminho até seu quarto. Fechou a porta, tirou o tênis e se jogou na cama, fechou os olhos e esperou o sono aparecer e leva-lo embora da sua atual realidade.

Sawyer sentiu o sono se aproximando quando a porta do seu quarto bateu com força na parede, mas só demonstrou reação quando enxergou Seth ao seu lado na cama.

— O que diabos você pensa que é pra ir embora como foi? E voltar como se nada tivesse acontecido? Você acha que segurei seu emprego? Fique sabendo que você precisa arranjar outro jeito de pagar sua dívida...

— Fiquei sabendo que o Jonas não está morto – Sawyer o interrompeu, não aguentando a marra do irmão.

Por alguns segundos Sawyer percebeu indiferença percorrer o olhar de Seth, como se ele já soubesse daquilo, mas então ele arregalou os olhos e assentiu, porém não disse nada, esperando o que seu irmão diria.

— Acho que não faz sentido eu continuar te ajudando...

Seth soltou uma risada baixa e balançou a cabeça. Quando seu olhar pousou no de Sawyer, não havia sentimento algum.

— O policial voltou à vida igual o Jonas? – Seth perguntou, sua voz era baixa, cortante. – Você não está me ajudando! Está me devendo. Infelizmente você não tinha o dinheiro para o serviço, então terá de pagar trabalhando. Você não pagou nem metade da dívida porque está arranjando trabalhos que te dispensam e amigos que tem mais o que fazer da vida e não tem mais tempo para você.

Sawyer não queria que as palavras de Seth o atingissem porque era como se seus pensamentos ganhassem vida. Uma vida fracassada, que só piorava. Ele teria de se convencer da realidade em algum momento. Seth o tinha. Ele arruinou todas as chances de escapar e lá estava ele novamente, de volta à vida que jurou um dia se livrar.

A partir daquele dia Sawyer reestabeleceu suas três prioridades, que eram: seus amigos, Seth e Aiden. Naquele momento, enquanto seguia para o Pantanal com Seth à sua frente, ele só queria escapar vivo e voltar para Aiden, sua única prioridade dali em diante.

*

Na consulta de Tristan naquela manhã ele resolveu falar com ela sobre Tobias. Contou que tinha medo de nunca conseguir se relacionar com outra pessoa. Que não tinha problemas se fosse com um homem.

Mas sua resposta o pegou de surpresa.

— Você não pode forçar essas relações – ela disse, tirando a atenção das suas anotações para encarar Tristan. – Sei que quer que seu tratamento passe rápido, sei que quer testar relações e pessoas, e até mesmo você. Mas quando você força algo, é capaz de ficar pior para você. Nós estamos progredindo tanto, você já se sente diferente, não precisa arranjar pessoas com quem se relacionar para dizer que está bem. Você precisa se conhecer antes disso e enquanto você não se sentir bem o suficiente, não estará 100% capaz de se entregar para uma relação. – Tristan ficou quieto e Geovanna continuou – Se você adiantar o processo, sempre achará algum problema porque você assossiará com a sua tia. Quando você conseguir e perceber que está bem, é outra questão, porque você não vai tentar forçar interesse. Precisamos trabalhar no seu tratamento, não no seu futuro romântico.

Tristan não conseguiu responder à sua análise porque não tinha certeza se estava errada. Ele vinha forçando algo que não deveria e ele nunca tentou forçar esse tipo de coisa, era sempre o que acabava com qualquer tipo de aproximação.

— Há quanto tempo você vem fumando? – Geovanna o questionou, o que o fez erguer os olhos para ela. Como ela sabia? Ele se questionava. – Você disse no nosso primeiro dia que não tinha vícios. – ela folheou as páginas até encontrar aquela informação e Tristan tossiu, nervoso.

— Eu experimentei esses dias... – ele balançou a cabeça, se odiando por mentir – Desde o meu aniversário.

Geovanna assentiu e escreveu em seu caderno antes de voltar sua atenção para ele.

— Eu vi você fumando quando estava lá embaixo – ela respondeu ao olhar confuso dele e prosseguiu – você acha que esse novo hábito tenha relação com o que você sofreu no passado?

Tristan franziu o cenho, incerto a respeito daquilo.

— Às vezes esses vícios após um trauma surgem para suprir uma necessidade emocional, entende, Tristan? Não é porque você tem vontade de fumar, é porque você quer um hábito repetitivo e sob seu controle.

Seu coração estava acelerado. Ele nunca havia parado para pensar sobre aquilo, mas não poderia negar o que a doutora estava dizendo.

— Não estou viciado... – ele tentou dizer, mas seus pensamentos o trairam, lembrando-se de todas as vezes que ele colocou um cigarro na boca e desde seu aniversário ele já havia perdido a conta de quantos maços comprou.

— Existem hábitos mais saudáveis, que não vão prejudicá-lo. Você tem feito os exercícios que te passei? – Tristan apenas assentiu. Geovanna havia lhe passado exercícios de respiração e associação, que o acalmava, mas às vezes nem pareciam o suficiente porque durou anos de pesadelo com sua tia, ele sabia que era um tratamento longo.

Tristan saiu pensativo da consulta e jogou seu maço de cigarro – com apenas dois – no primeiro lixo que encontrou no consultório. Sabia que algo dentro de si ainda queria, mas não se sabotaria mais.