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41 Capítulo Quarenta: Tristan fofoqueiro.


Quando Aiden e Keith saíram da lanchonete naquela noite a vontade deles era deitar e só acordar em uma semana. Nos fins de semana a lanchonete ficava lotada e sempre eram clientes impacientes. Mas Aiden estava ansioso para Keith ver a surpresa que Sawyer providenciou. Keith demorou a notar que havia algo diferente em seu quarto – talvez por estar muito cansado ou pelo fato do berço ter ocupado pouco espaço.

— O que é isso, Aiden? – ele encarou o berço, confuso – Tenho certeza que só vi isso em uma revista, não no meu quarto – ele esfregou os olhos e quando os abriu novamente, o berço continuava ali.

— Foi o Sawyer – Aiden dissse, parado na porta do quarto do amigo. Sua voz era baixa. Já sentia a falta dele consumi-lo aos poucos.

Keith começou a chorar. O que fez Aiden franzir o cenho e entrar no quarto. Sentou-se ao lado dele na cama e passou o braço por seu ombro.

— Porque ele fez isso? E fez logo quando não está aqui pra eu poder agradecer? – ele fugnou, recuperando-se rapidamente. Odiava chorar. Mas estava agradecido demais.

— Avise a Ingrid da novidade. Vocês mereciam isso – Aiden sorriu e abraçou Keith, mas ficou envergonhado e saiu do quarto, deixando o amigo a sós para ligar para Ingrid.

Ele só escutava as risadas e a conversa animada dos dois enquanto jogava-se na cama, que ainda tinha o cheiro de Sawyer.

*

As madrugadas, que deveriam ser preservadas para o sono, eram agitadas no alojamento. Os soldados acordavam os garotos para espancá-los e mandá-los arrumar a cama, para acordar às cinco no dia seguinte e tomar café com todo mundo. Sawyer estava acostumado em apanhar, mas sabia que eles só faziam aquilo para assustar, manter apenas os fortes. Ninguém mais lhe perturbou, sequer olhavam para ele mais de dois segundos. Era Sawyer e Mikael para todo o lado. Mas não havia tempo para conversarem ou contarem sobre suas vidas. Não fazia com seus amigos, não faria com ele.

Naquele alojamento sua única vontade era que acabasse e ele pudese seguir em sua liberdade. Mas todos os dias eram cansativos, o fazendo questionar-se se estava no lugar certo. Faxinavam, cortavam mato e se revezavam para cuidar do jardim. Mas Sawyer mantinha os pensamentos silenciados enquanto trabalhava, era como se não existisse mais Seth o esperando.

*

No início da semana seguinte, na consulta com Geovanna, Tristan estava apreensivo, mas quando sentou-se em frente à doutora, seu olhar o acalmou.

— Como vão as coisas na faculdade e no trabalho? – ela perguntou após alguns segundos de silêncio, quando notou que Tristan não começaria falando naquele dia.

Cada dia dentro da sala de aula mostrava a Tristan que ele havia escolhido certo. Era seu destino encontrar-se daquela forma. Porém, no trabalho, Karen o cansava mais do que limpar sujeiras. Nunca mais precisou agir como um salva-vidas, mas sabia que era uma de suas funções caso necessário. Ninguém gostava da Karen, o que tornava Tristan alvo de olhares de desaprovasção e invisibilidade que ele havia conseguido superar na faculdade. Mas Tristan não queria falar sobre nada daquilo.

— Estou satisfeito – ele respondeu, mas Geovanna não insistiu.

Porque, de alguma forma, ele estava. Apesar de não gostar do trabalho, Karen confidenciou a ele que, com a mudança para o clube, seu salário dobraria. Não que se importasse tanto assim com dinheiro, mas enquanto não encontrasse algo melhor, estava sem saída.

— Tem tido mais pesadelos?

Os sonhos que o atormentavam haviam começado após sua tia ter sido levada embora e mesmo quando a doutora falava que eram apenas sonhos, projeções dos seus medos e traumas, ele tinha medo. E ela sempre dizia para que ele não confundisse a realidade com os sonhos. "Às vezes o inconsciente prega peças", ela dizia.

— Pararam – ele respondeu. E não sabia dizer se era porque simplesmente não dormia o necessário ou por esquecer no segundo que acordava.

— Você tem algo que queira me contar? – ela perguntou, percebendo a relutância do seu paciente. Seu olhar o encarando era atento, mas sem se tornar invasivo. Ela apenas queria entender o porquê estar retraído na sessão.

Tristan pareceu pensar por alguns segundos antes de lembrar-se dos seus amigos.

— Tentei falar com meus amigos, para ver se eles falavam algo, mas eles só falaram dos seus problemas. Não somos acostumados a conversar sobre coisas importantes.

— Você pode tentar fazê-los falar sem parecer forçado, ou uma tarefa da sua psicóloga...

— Acho que é porque não estou pronto para falar sobre ela. – Tristan pigarreou e tentou desviar os olhos da doutora para que ela não capturasse o que ele não conseguia esconder.

O medo.

— Você não precisa falar sobre ela. Nós falamos o suficiente aqui, mas vocês precisam sentir-se seguros em falar sobre o que sentem. Talvez encorajar seus amigos a contar a verdade.

Tristan sentia-se mal em contar para ela, parecia fofoca, mas ele queria falar sobre aquilo com alguém e Keith não entenderia.

— Talvez estejam com medo do que vocês possam achar sobre eles. Não sei se você tem ciência disso, mas existem muitas pessoas que não gostam das desicões de vida das outras pessoas.

— Nunca os julgaria – Tristan soou defensivo, mas não era necessário: Geovanna sabia.

Uns minutos antes da sessão acabar, Tristan sentiu vontade de descer e fumar, o que o levou a lembrar-se do seu novo hábito destrutivo. Pensou em falar sobre isso com ela, mas e se ela o fizesse parar? Ou sugerisse para parar?

— Quer me dizer mais alguma coisa? – Geovanna sempre sabia quando Tristan estava perdido em pensamentos, como se conversasse sozinho dentro de sua cabeça. Ele hesitou por alguns segundos, até lembrar-se de Tina.

— Eu conheci uma pessoa.

A informação pegou Geovanna de surpresa. Ela aguardou. Seu olhar atento em Tristan, que teve de desviar seus olhos dos da doutora e encarou o tapete.

— Ela é filha do meu padrasto.

— Achei que as filhas dele fossem todas mais velhas que você... e casadas – Geovanna ergueu o pescoço, o encarando de forma questionadora, já esperando o que estava por vir.

— Minha mãe comparou ela com minha tia. Por ser mais velha. Acho que elas tem a mesma idade... – Tristan voltou a encarar Geovanna, que seguia o encarando da mesma forma, sem demonstrar nada. – São situações totalmente diferentes – ele disse, como se quisesse explicar-se, embora não tivesse feito nada de errado.

— Você já é maior de idade, então sabe a diferença de idade e realidade entre vocês. Mas você se sentiu atraído? Lembro que disse não sentir isso por ninguém.

— Acho que foi um interesse diferente – Tristan começou a balançar a perna, seu sinal de nervosismo, e quando tomou conhecimento do que fazia, parou. Não gostava de demonstrar nada para Geovanna, que o entendia até no silêncio.

— Como assim?

— Acho que me interessei porque sabia que seria impossível.

Tristan saiu do consultório pensando em tudo que foi dito e embora precisasse ir para a casa terminar um trabalho de ciências políticas, resolveu pedir para Osmar que o deixasse na lanchonete.

Keith e Aiden o cumprimentaram quando ele entrou e percebeu que o local estava vazio.

— Deve ser legal ficar aí sem fazer nada, né? – Tristan encarou os dois.

— É chato demais – Keith retrucou – ficar esperando uma alma viva entrar aqui, pedir uma coca-cola e ir embora. – ele revirou os olhos.

— Meu medo é o fato de termos chances de sermos demitidos – Aiden começou. Já estava pensando sobre isso há alguns dias. Abriu um restaurante no mesmo bairro com uma estrutura melhor e sem dúvidas com uma comida mais saborosa. Os clientes fiéis, aqueles que temiam mudanças, continuvam aparecendo ocasionalmente. Até pararem e só restar Carl, todas as manhãs.

— Qualquer coisa vocês tentam trabalhar comigo na piscina. Acho que vão precisar de mais funcionários por causa do clube.

— Claro, minha ideia é trabalhar na piscina, onde não posso nem aproveitar – Keith revirou os olhos no momento que um cliente entrou na lanchonete e Aiden foi até a mesa dele atendê-lo.

Tristan pensou em Sawyer, de repente. Estava longe deles, mas de alguma forma sempre presente. Keith o cutucou e o fez desviar os olhos de Aiden e encarar o amigo, com uma expressão confusa no rosto.

— Porque tá olhando pra ele com essa cara? – ele perguntou, apontando para o Aiden.

Tristan havia conversado sobre Sawyer e Aiden com Geovanna, mas ela não os conhecia como Keith. E Keith os conhecia há anos, talvez ele pudesse saber do que Tristan duvidava, ou do que viu. Reparava mais neles depois do que viu e de alguma forma sentia-se parte do segredo deles.

E naquele momento, enquanto Keith o encarava esperando por uma resposta, soube que deveria envolver Keith naquele segredo. Não queria falar pelas costas, ainda mais com Sawyer longe, mas se os dois conversassem, poderiam deixar o processo mais fácil para eles em contar a verdade. Tristan não sabia qual seria sua reação até finalmente dizer, rápido antes de Aiden voltar:

— Você já reparou em algo diferente entre ele e o Sawyer?

Keith continuou com o cenho franzido tentando entender do que Tristan estava falando.

Durou alguns segundos até Keith entender. Ele ergueu os olhos para onde Aiden estava, caminhando em direção ao balcão e foi como se tudo finalmente fizesse sentido.

Porque Aiden não se interessava por nenhuma garota que aparecia. Porque ele nunca os apresentou ninguém, e nem Sawyer. Os dois estavam sempre juntos, se conheciam quando eram tão pequenos que era natural estarem no mesmo lugar e juntos, mas Keith sabia a diferença na amizade. Sawyer e Aiden não se importavam em dividir uma cama. Não se importavam em ficar horas juntos sumidos dos amigos.

Mas não podia dizer nada porque Aiden os interrompeu, perguntando "do que vocês estão falando e porque o Keith tá com essa cara de quem viu um fantasma?" escutou a risada de Aiden, mas não disse nada.

— Falou de novo sobre as penas pra quem é pego com drogas? – Aiden encarou Tristan, que fingiu uma risada fraca e sorriu.

— Preciso ir pra casa, mas nos vemos em breve? – Tristan ergueu as sobrancelhas ao se despedir, os garotos assentiram. Keith ainda não havia dito nada.

— Aconteceu alguma coisa? – Aiden perguntou, tocando o ombro de Keith, mas ele tentou se recompor e apenas balançou a cabeça, negando. Pensou em dizer algo. Talvez perguntar se era esse o motivo e sentir que finalmente poderiam conversar sobre aquilo, mas sabia que Tristan não gostaria que ele falasse nada, senão teria falado diretamente com Aiden.

E enquanto limpavam a lanchonete antes de sair, Keith não parou de pensar sobre aquilo. Caminharam juntos e falantes até o apartamento. Falaram sobre Sawyer, provavelmente vivendo a melhor fase da sua vida no alojamento. Tentou capturar a mudança no ar, mas Aiden continuava sorrindo e assentindo.

— Ele deve estar com saudades, também – Keith arriscou. Aiden virou o rosto para ele. Seu sorriso se desfez por alguns segundos. Tempo o suficiente para Keith perceber, e concordou, assentindo novamente.

Aiden não percebeu nada, mas o restante do caminho foi silencioso. Keith havia convidado Ingrid para ir até o apartamento naquela noite e ela o esperava, escorada ao lado da porta.

— Você vai precisar me dar uma chave – ela murmurou enquanto Aiden destrancava a porta. Keith percebeu o mau humor de Ingrid, devia estar ali há muito tempo, mas sabia que sua expressão mudaria no segundo que visse o berço, exatamente no lugar onde planjeram.

— Como você comprou isso, Keith? – Ela abriu a boca, incrédula. Ela estava animada, mesmo não tendo sido ela a ter aquela decisão.

— Foi um presente – Keith sorriu enquanto Ingrid passava a mão pela madeira branca do berço.

— De quem? – Ingrid franziu o cenho, sabendo que ninguém que Keith conhecesse seria capaz de fazer aquilo.

— Foi o Sawyer que deu – Aiden respondeu, estava parado na porta todo aquele tempo, apenas observando os dois enquanto apreciavam o presente do Sawyer.

Ingrid não fingiu a surpresa, nunca esperaria aquilo do garoto que parecia nem gostar dela. Mas sabia que era muito amigo de Keith e demonstrou interesse quando mostraram o berço a ele.

No dia seguinte, na folga de Keith, os dois iriam ao médico para descobrir o sexo biológico do bebê então naquela noite os dois dormiram juntos, encarando o berço e sabendo que em breve a criança estaria ali. Keith estava apavorado, cada dia que passava ficava mais, mas também estava feliz em fazer parte daquilo.