Welcome to badlands

17 Capítulo Dezesseis: os garotos já não são mais garotos.


Tristan ainda tinha muitas dúvidas sobre sua mãe, mas ainda não se sentia confortável para perguntar, ou comentar com qualquer pessoa, até mesmo com seus amigos. Não era vergonha, mas ao lado dela ele sentia-se uma criança novamente, em busca do colo da mãe. E se ele contasse para os amigos e no dia seguinte ela fosse embora? E se ele tivesse tanta expectativa em relação a ela e no final ela apenas o decepcionasse? Tristan queria apenas passar aquele tempo ao lado dela. Já fazia duas semanas e Tristan estava indo devagar, quase do mesmo jeito que tratou qualquer outro relacionamento em sua vida. Ele era um garoto movido por medo e insegurança. Duas semanas distante dos amigos. Duas semanas inventando desculpas. Os garotos até imaginavam que ele estava namorando alguém.

— Gostaria de conhecer melhor seus amigos — sua mãe disse, o pegando de surpresa logo depois de um dia longo de sorvete no parque — acho que começamos com o pé errado.

Tristan considerou aquilo por alguns segundos. Ele nem conseguia acreditar que aquela mulher era a mesma de duas semanas atrás, quando a encontrou toda bagunçada na frente da sua casa. E agora ali estava ela, dentro da sua casa, sentada ao seu lado no sofá enquanto escutava sua tia na cozinha preparando um chá.

Ela não era nenhum exemplo de mulher, ou mae, mas era uma pessoa encantadora. Cheia de histórias e piadas. Claro que Tristan ignorava as partes ruins: ela sumiu por anos; ela era uma mulher que ganhava a vida de um jeito que ele nem queria pensar; e o mais importante de tudo, todas as histórias que ela contava aconteceram enquanto ele vivia naquele fim de mundo cheio de problemas na cabeça. Mas não, Tristan não queria falar ou pensar sobre isso.

E era exatamente por isso que ele nunca contaria a verdade aos seus amigos.

Eles nunca entenderiam.

A mãe do Tristan morreu, a do Keith fugiu do seu pai e consequentemente do próprio filho, e a mãe de Sawyer passava mais tempo dormindo ou chapada demais para lembrar que era de fato uma mãe.

Mas a mãe do Tristan não era exemplo algum disso.

— Não sei se seria uma boa ideia — Tristan murmurou, considerando que seria impossível fugir por tanto tempo assim.

Aiden estava preocupado com Sawyer. Cada dia que passava ele estava mais parecido com Seth. Todos os dias que se encontravam Sawyer cheirava à bebida e cigarro e sempre havia resquícios brancos de pó em sua roupa, às vezes Aiden até conseguia ver algo em suas narinas. Mas Sawyer não falava sobre isso. Então Aiden não perguntava nada. Sawyer não falava sobre muitas coisas.

Diversas vezes ele saía de casa de madrugada e só voltava no dia seguinte, perto da hora do almoço. Mas Aiden não perguntava nada.

Sawyer sempre foi independente e sozinho, como um lobo solitário. Cheio de fúria, sede de sangue e cercado de mistérios, nunca de pessoas. Aiden era o mais perto que ele tinha de alguém, nem mesmo Seth era capaz de acompanhar Sawyer.

Mas Aiden vivia preocupado. Temia o dia em que Sawyer de repente acordasse e não quisesse mais Aiden na sua vida. Temia que ele ficasse igual seu irmão, sozinho na vida, mas cheio de problemas. Aiden tinha todos os medos que Sawyer parecia não ter.

Mas Aiden o amava. Amava aquele jeito desapegado dele. Amava o jeito que ele aparecia, todo sorridente, que até ignorava que provavelmente era por causa de toda aquela droga na sua cabeça.

Sawyer ainda era ele, Aiden sentia. Ainda era aquele garoto que faria de tudo por seus amigos, que tentaria fugir da cidade quantas vezes fosse necessário. Ele só precisava acordar aquele Sawyer adormecido, trazer de volta a realidade. Mas não conseguia fazer aquilo sozinho, sem os outros “garotos selvagens”. Keith vivia com tantas garotas que era impossível encontra-lo em casa. Tristan estava cada dia mais sumido. Só restava Aiden, que continuava no mesmo lugar, que não tinha nada a não ser o Sawyer.

Sawyer sentiu a pressão de ser um “garoto de gangue”. Mas claro que ele nunca admitiria que havia se tornado um. Tudo começou aos poucos. Claro, ele já sentia o perigo que a vida podia ser, afinal de contas, ele era irmão do Seth, muitas vezes fez trabalhos para o irmão ou os amigos dele. Desde cedo experimentara o amargo da vida, e o lado bom também. A maconha. As bebidas. Os cigarros. E quando cheirou pela primeira vez, era como se estivesse conhecendo um novo mundo. Um mundo que seus amigos nunca entenderiam, um mundo que o aproximava do irmão.

Mas e será que era isso que ele procurava esse tempo todo? Alguma forma de se aproximar do irmão. Ou se tornar ele, quem sabe? Mas Sawyer sabia de todos os riscos. Nunca aconselharia ninguém a seguir esse seu novo caminho. E por isso ele não compartilhava esse mundo com seus amigos.

Sawyer nunca imaginaria que estaria em um beco às três da madrugada esperando um pacote de cocaína para levar para o centro da cidade. Nunca imaginaria que faria negócio com o lado rico da cidade. Claro, levar maconha para os “mauricinhos” era uma coisa, mas o que ele fazia era muito além disso. Não eram apenas riquinhos querendo dar um gostinho para a sua vida com uma erva pura, eram pessoas importantes atrás de um pozinho específico que só a gangue do irmão dele conseguiria.

Políticos, figuras públicas, pessoas que ninguém imaginaria atrás de cocaína. E Sawyer ganhava tanto dinheiro com isso, mas de que adiantava? Seu irmão confiscava tudo, alegando que estava guardando para Sawyer fazer uma faculdade.

Sawyer ria. Ele nunca entraria em uma faculdade.

Keith sentia falta dos amigos. Sentia falta das noites na praça bebendo ou fumando. Sentia falta de descolar alguma festa de última hora para eles estragarem, ou melhorarem.

Sentia falta de ser um adolescente. De ser um garoto que só queria aproveitar a vida.

Mas os dias de garoto inocente ou imprudente haviam acabado.

Há duas semanas, logo após o episódio na casa de Vanny, Keith se embebedou e saiu por ai. Acordou na cama de uma desconhecida. Não sabia o nome, só conseguia perceber que a garota era rica. E não era Vanny.

A primeira coisa que ele pensou naquela manhã foi: como vim parar do lado sul da cidade?

A segunda coisa que ele percebeu foi que estava nu.

A terceira coisa que ele notou, foi a falta de uma camisinha.

A última coisa que ele fez foi surtar. E então acordar a garota desconhecida.

— Ei — ele disse, todo sem graça, cheio de ressaca e sem perder, por um segundo, seu charme. — tudo certo?

— Oi — ela sorriu. Era bonita, foi só o que ele conseguia pensar.

— Entao... Lamento dizer isso, mas...

— Ah, Deus — ela riu — você não lembra de nada, certo?

Ele não disse nada. Muito envergonhado para isso.

E então ela contou tudo.

Keith chegou nesse bar do lado sul – ele ainda não sabia como diabos foi parar lá, mas ela não parecia ter a resposta para isso – e estava todo animado, conversando com todas as garotas que ele via. Até que chegou nela. Ela já estava com um garoto, mas achou Keith muito interessante e dispensou o garoto na mesma hora – Keith sorriu, pelo menos alguém preferia ele afinal de contas -, e conversa vai, conversa vem, ela o convidou para ir até sua casa.

Keith tinha esperança de que não fizeram nada, apenas deitaram pelados e dormiram.

Mas não.

— Ah, nós transamos — ela disse, corando logo em seguida — estávamos bêbados, mas nós dois queríamos — ela deu de ombros.

— E a camisinha? Jogou fora?

Ela arregalou os olhos por uns segundos.

E foi daquele jeito, nu e na cama de uma desconhecida, que Keith percebeu a burrada que havia feito.

— Vamos comprar a pílula do dia seguinte — Keith disse, levantando da cama e colocando sua cueca.

— Não — ela disse simplesmente.

— Como não? Eu não estou preparado para ser pai.

— Caramba — ela riu — isso não vai acontecer.

— Você toma pílula então?

— Não.

Keith ficou a encarando, esperando uma resposta.

— Eu não confio nessas coisas.

— Pelo visto nem em camisinha — ele resmungou, pegando todas as suas roupas enquanto a desconhecida continuava na cama, apenas o encarando. — eu nem ao menos sei seu nome.

— É Ingrid. — ela o encarou — e eu confio em camisinha, mas você não tinha e estávamos com muita...

— Foda-se — Keith explodiu — eu não posso, beleza?

— Mas na hora de fazer...

— Garota — Keith arregalou os olhos — eu nem sequer lembro do que aconteceu. Eu nunca transaria com você sem camisinha. Meu deus, eu sou tão burro. — Keith começou a batera na sua cabeça e ela levantou. Pelada mesmo. Keith a encarou. Poxa vida, ela é muito gostosa, ele pensou.

— Eu não vou engravidar — ela disse, rindo.

Mas ela engravidou.