Welcome to The Family
1 Único ~
Notas iniciais
— Tchau, Soyo-chan, até amanhã. — Kagura se despediu da amiga, vendo-a acenar antes de entrar em casa.
A ruiva seguiu caminho para sua própria residência, olhando para o céu meio encoberto enquanto divagava sobre sua novela e o quanto seria bom assisti-la na companhia de seu amado e delicioso sukombu. Quando chegou à porta de casa, seu celular tocou com o aviso de uma nova mensagem.
Surpresa, ela até parou o abrir da porta pela metade quando viu de quem se tratava:
Vou levar uma pessoa pra casa hoje. Avise a mamãe e o careca. E tentem não ser idiotas.
Ass.: Seu adorado irmãozão
Kagura arqueou uma sobrancelha para a mensagem. Desde quando Kamui avisava antes de fazer alguma coisa? E "trazer uma pessoa"? Aquele idiota conhecia alguém além de Abuto?
Ainda encucada com aquilo, ela entrou em casa e partiu para a cozinha onde seus pais estavam, dando a eles o recado — para ver o que eles achavam, não para obedecer ao irmão!
— Talvez ele só quisesse garantir que teríamos comida para mais um. — Kouka opinou tranquilamente, mexendo o caldo da sopa enquanto Kagura cortava as cenouras.
— Mas trazer uma pessoa misteriosa... Esse moleque deve estar aprontando alguma. — Kankou já teorizava mil e uma artimanhas, coçando sua peruca e fazendo- a sair do lugar.
— Não é? — Kagura estava de acordo com o pai.
— Ou ele fez amizade com mais alguém além do Abuto-kun e quer nos apresentar. — Kouka parecia ser a única ali a ter qualquer esperança na vida social do filho.
— Nenhum daqueles brutamontes, bêbados e traficantes com quem ele estuda vai entrar na minha casa!
— Mas esses brutamontes, bêbados e traficantes não são também seus alunos? — A pergunta retórica de Kagura o calou.
Com um revirar de olhos, ela resolveu ignorar o pai e falar para a mãe:
— Mami, ele nunca avisa nada, não pra mim pelo menos. Se falou algo desta vez, é porque a coisa é séria. — E fechou a cara. — Além disso, ele nos pediu para não agirmos como idiotas, sendo que ele é o maior idiota dessa casa!
Kouka pegou a tábua com os pedaços de cenoura que a filha cortou, despejou na panela, mexeu um pouco mais e fechou-a com um olhar satisfeito, antes de enfim responder:
— Só posso deduzir, então, que esse alguém que o Kamui está trazendo é realmente importante para ele.
Enquanto Kouka foi dar atenção à outra panela com arroz, Kagura e Kankou trocaram olhares como se o que a mulher falou não tivesse sentido nenhum. Quem, em nome de Sorachi, poderia ser importante a esse ponto para o rei dos psicopatas idiotas, Kamui Yato?
Ouviram o barulho da porta abrir e, automaticamente, os três olharam pelo corredor que dava para a sala, esperando ver a qualquer momento quem (ou o que, em algumas teorias de Kankou) seria o acompanhante de Kamui.
O dito cujo foi o primeiro a aparecer, vendo a família do outro lado do corredor.
— Cheguei. — sorriu como sempre para a mãe e a irmã na pia, ignorando o pai completamente.
Sem dar tempo para perguntas, ele agarrou a mão da pessoa que o acompanhava e marchou corredor adentro até a cozinha, sempre com seu sorrisinho.
O resto dos Yato, no entanto, não conseguia acreditar no que estava vendo. Kankou e Kagura estavam de queixos caídos e até mesmo Kouka mostrava sinais de surpresa. Mas isso não era para menos, já que o tão misterioso acompanhante de Kamui não passava de uma garota.
Uma. Garota.
Não deveria ser tão mais alta que Kagura; a pele era clara, mas mais bronzeada que a de todos naquela casa; os cabelos loiros e medianos eram parte soltos, parte amarrados num coque alto; vestia o uniforme da mesma escola que Kagura; e quando ela alcançou a cozinha, eles puderam conhecer o belo tom ametista que tinham seus olhos.
Kamui ajeitou a garota de frente para eles e deu uma boa puxada de ar, antes de apresentar:
— Pessoal, essa é a Hotaru. Hotaru, essa é a minha família. — E mal concluiu, já foi puxando a loira pela mão de volta até a saída. — Muito bem, objetivo concluido, vocês se conheceram, até que foi tudo bem, podemos repetir isso daqui uns trinta anos, que tal? Adeus.
— Kamui! — A exclamação repreendedora o fez parar antes que chegasse à metade do corredor.
A família ficou ainda mais em choque quando o viram soltar a mão da loira e baixar a cabeça para o olhar que ela lhe lançava.
— Tá, a gente fica mais um pouco. — Murmurou, evidentemente contrariado.
A tal Hotaru lhe sorriu, apoiou o comportamento com um aceno de cabeça e deu alguns passos para voltar à cozinha, onde ficou mais uma vez de frente para os Yato.
— Sou Hirano Hotaru. — Mostrou um sorriso cortês e fez uma breve reverência. — Muito prazer em conhecer vocês.
— EU TE CONHEÇO! — Kagura berrou do nada. — Você me perguntou as horas ontem!
— Você falou com ela? — Kamui disfarçou sua apreensão ao questionar para a loira, que revirou os olhos.
— Eu estava com pressa e sem telefone, nem reparei que era sua irmã até depois de um tempo. — Então sorriu para a ruiva. — É bom finalmente te conhecer, Kagura-chan.
Kagura apenas piscou os olhos, confusa, enquanto Kouka analisava a recém-chegada, pensativa. Já Kankou franziu o cenho e questionou sério para o filho:
— Kamui, por que você trouxe esta jovem?
— Pode acreditar, careca, se fosse por mim, você nunca botaria seus olhos nela. — Apesar do sorrisinho, dava para perceber o desgosto pelo homem em seu tom infantil. Foi para o lado de Hotaru e passou um braço sobre os ombros dela, puxando-a para si de forma possessiva. — Mas ela insistiu.
Os olhos de Kagura se arregalaram, Kouka crispou os seus e Kankou explodiu:
— Solte-a imediatamente! Pensei que pelo menos educação com as garotas você tivesse, seu filho idiota!
— Quem está chamando de idiota, velho inútil? — Apesar de sua expressão não mudar em nada, Hotaru sentiu o aperto em seu ombro aumentar. — Eu tenho todo o direito de abraçar minha namorada.
O silêncio caiu instantâneamente. Pai e filha poderiam jogar pôcker de tão inexpressivos que estavam; Kouka demonstrou surpresa antes de sorrir de leve, mas ninguém falou nada.
Olhando para a ruiva e o careca, Hotaru começava a ficar com vergonha e ela realmente considerou tentar se afastar de Kamui naquele momento. Talvez ele estivesse certo e ainda não fosse o momento para ela conhecer sua família.
Pareceu que eles ficaram horas naquele silêncio constrangedor antes de Kagura quebra-lo com uma sonora gargalhada.
— Tá, me engana que eu gosto!
— Ei, mocinha. — Kankou apareceu na frente de Hotaru, parecendo sério e preocupado. — Ele está te ameaçando, não é? Está te forçando a isso, não é? Está tudo bem, pode me dizer.
— Já disse que se dependesse de mim, ela nunca conheceria sua careca feia. — Kamui puxou a namorada para mais perto, tentando afasta-la do pai.
— É a única explicação lógica!
— Ou isso é uma pegadinha! — Kagura sugeriu, olhando em volta. — Cadê as câmeras, cadê?
— Eu não disse para não serem idiotas hoje? — Kamui já estava perdendo a paciência que geralmente não tinha, muito menos com a família.
Era por essas e outras que ele não queria que Hotaru os conhecesse ainda.
— Olha quem fala! — Kagura levantou-se também, indo até o irmão. — Inventar uma mentira dessas... você já foi melhor com enganações. Quero dizer, olha pra ela. — Indicou Hotaru. — Tá na cara que a Hotaru-chan tem opções melhores do que você. Até o mendigo da esquina tem opções melhores do que você.
Kamui alargou mais seu sorriso. Sabendo o que seu futuro comentário iria causar, soltou a namorada antes de declarar com ironia:
— Infelizmente não posso dizer o mesmo, você e aquele sádico se merecem.
O rosto de Kagura avermelhou-se e seus ouvidos soltavam fumaça como um vulcão prestes a explodir, isso mais de raiva do que de vergonha. Ela deu um berro que mais pareceu um rugido e avançou na garganta do irmão.
Kankou foi rápido em tentar separá-los, mas Kagura acertou-o um soco na cara (sem querer) e Kamui um chute na barriga (com toda a intenção do mundo), o que acabou desnorteando-o e tornando a tarefa mais difícil do que já seria.
Hotaru apenas ficou olhando espantada enquanto os dois irmãos rolavam no chão, entre socos, chutes e puxões de cabelo, enquanto o pai fazia o possível para separa-los. Ela foi salva do choque de não saber o que fazer quando uma mão pousou em seu ombro e Kouka lhe indicou para irem para a sala.
Entretanto, estando agora sentada numa poltrona, de frente para a mulher que sentara no sofá, Hotaru pensou se não teria sido melhor ter ficado na bagunça da cozinha. A matriarca parecia ser a pessoa menos exaltada da casa, o que a acalmava um pouco, mas então a loira se lembrava do carinho que Kamui tinha para se referir a ela nas poucas vezes que falava da família e seu estômago revirava de nervosismo.
Se dar bem com Kouka não era uma opção.
— Então. — Ela quase pulou no lugar quando Kouka se pronunciou.
Os olhos de jade a analisavam desde o momento que entrara na cozinha, no entanto estavam mais leves agora e a mulher lhe oferecia um pequeno sorriso reconfortante.
— Hotaru, não é?
— S-sim, senhora. — Tentava manter as costas retas na cadeira, quando o que mais queria era se afundar nela e sumir.
Kouka pareceu divertir-se com isso.
— Está nervosa?
— Nervosa? Por que estaria nervosa? — Ela tentou rir, mas o olhar analítico da mulher a fez admitir: — Um pouquinho... talvez...
— Ora, não precisa. — Kouka lhe garantiu. — Se você conseguiu conquistar a atenção do Kamui e se manteve com ele, eu realmente te admiro. Você já deve ter visto como ele é, não?
Hotaru apertou a barra da saia do colégio, sentindo uma onda de raiva e cansaço subir por seu corpo ao ouvir aquelas palavras. Sim, Kamui era um rapaz complicado, conhecido como "garoto-problema", o manda-chuva do colégio de delinquentes, por se meter em mais confusões do que o número de estrelas no céu... Mas e daí?! Hotaru vinha aturando muita gente apontando os defeitos de seu namorado na cara dela recentemente, mas parece que a hora que o vaso escolheu para transbordar foi bem ali, na frente da mãe do garoto.
— Com todo o respeito, Kouka-san. — Hotaru começou.
E a mulher se surpreendeu quando o olhar amedrontado se tornou determinado.
— Eu já vi como o Kamui é, já vi ele se metendo em várias brigas feias e inclusive já vi os machucados porque fui eu quem fez os curativos; vi o quanto, mesmo isso sendo problemático, ele adora lutar e já vi nele o olhar que todo mundo diz ser o aviso prévio da morte. Eu vi tudo isso, mas... — Ela baixou um pouco o olhar, deixando a mente divagam em lembranças. — Eu também vejo, todos os dias, ele me tratando bem; vejo o quanto ele se esforça para ser cuidadoso comigo; vejo as vezes em que ele é tão inocente e sincero que chega a ser grosso, mas eu mesmo assim acho fofo; vejo o quanto ele é inteligente, por mais que tente esconder; eu vejo... — Parou de repente, seus olhos começando a arder. Às vezes não acreditava na pessoa maravilhosa que estava namorando. — ... Eu vejo o quanto o sorriso dele é importante pra mim.
Kouka não interrompeu-a em momento algum, apenas ouvia sem se alterar, mas sentindo o coração bater aliviado. Hotaru entendeu errado, ela queria dizer apenas que Kamui nunca foi de prestar atenção em garotas, mas foi bom ouvir o que aquela garota pensava sobre seu filho. Para ser sincera, ela ficou meio aflita desde que ouviu a palavra namorada, justamente por Kamui nunca ter sido o tipo de pessoa que se importa com relacionamentos, então estava preocupada que alguma das duas partes acabasse ferida pelo outro não ser o que esperava.
Mas aquela garota... Ela sabia no que estava se metendo e mesmo assim enchergava mil e uma qualidades em seu filho, amando-o como era. Para uma mãe, não haveria pessoa melhor.
— Ele também sempre foi muito sortudo.
Apenas quando ouviu-a falar que Hotaru pareceu voltar à realidade, se tocando do que havia dito. Até suas orelhas ficaram vermelhas de vergonha.
— Ah! Gomen, gomen, gomenasai! — Juntou as mãos, fazendo várias reverências para tentar pedir perdão. — Eu não devia ter falado assim, a senhora é a mãe dele, o conhece melhor do que eu, desculpe se fui muito rude!
Kouka não pôde evitar em rir de leve pelo pânico da loira; Kamui havia arranjado uma garota muito fofa, isso era certo.
— Já disse que não precisa ficar nervosa. — Garantiu mais uma vez. — E dispence o "senhora", me chame apenas de Kouka.
Ainda com o rosto vermelho, Hotaru voltou a ficar direito na poltrona, alternando os olhos entre a ruiva e os próprios pés.
— Agora, você me poupou de muitas perguntas. — Comentou, fazendo Hotaru se afundar mais no acento. — Mas ainda tenho uma: vocês estão juntos há muito tempo?
— ... Oficialmente, faz três meses. — Hotaru começou, tentando recuperar a calma. — Mas nos conhecemos no início do ano.
— Hm... — Kouka murmurou, como se tivesse compreendido algo.
Kamui parecia feliz no últimos oito meses como ela não o via há muito tempo, e agora ela entendia o porquê.
— Sabe aquela cena na cozinha? — Perguntou do nada; a loira assentiu. — É sempre assim, esta família é composta por idiotas violentos que só falam bobagens e acho que isso nunca poderá mudar. — E encarou a garota, desafiante: — Você está pronta para enfrentar isso?
Ao invés de se desesperar de novo, que era o que Kouka esperava, Hotaru ficou pensando seriamente por uns segundos, antes de responder:
— Bom, eu convivo bem com o Kamui todos os dias, já vi a Kagura pela escola e achei ela uma graça, e a cena na cozinha não mudou minha opinião, afinal irmãos brigando e se provocando é muito normal, no orfanato onde eu cresci tinha isso direto.
"Ela é órfã?" — Kouka pensou, mas não interrompeu.
— Sobre seu marido... ele não me pareceu tão estúpido quanto o Kamui me falou, achei até que é bem divertido. — Riu um pouco. — E sobre você... — Ela interrompeu-se por um instante. — Eu agora entendo porque o Kamui fala de você com tanto carinho.
Encerrando a resposta, Hotaru continuou a mirar a mulher, parecendo finalmente ter perdido a vergonha e nervosismo inicial.
Kouka dedicou-se a analisa-la mais uma vez: Hotaru parecia mesmo uma boa garota, já deu mostras de ser educada, provou ter algum controle sobre Kamui quando o parou na cozinha, Kouka não tinha duvidas sobre os sentimentos dela a cerca de seu filho e ela poderia ter os culhões necessários para ser uma Yato.
É, não faria mal tê-la na família.
Oferecendo um sorriso para sua nova nora, ela falou uma última vez:
— Continue cuidando do meu filho, por favor.
Hotaru sentiu o coração dar um salto, sem acreditar. Aquilo queria dizer que ela estava aprovada?
— Ah, e se ele lhe fizer algo, pode vir falar comigo. — O sorriso gentil continuava, mas a aura negra que a envolveu deixou claro para Hotaru que todos naquela casa tinham tendências violentas.
Não que ela se importasse.
As duas voltaram juntas para a cozinha e Kouka só precisou de uma frigideirada na cabeça de cada um para acalmar sua família, que se comportaram o resto da noite.
O jantar foi servido, ainda com alguns comentários e perguntas como "Eu nem sabia que você gostava de garotas" ou "Tem certeza de que está com esse idiota por vontade própria, Hotaru-chan?", mas no mais foi tudo bem e Hotaru se sentiu acolhida naquele ambiente. Ela acabou contando como passou parte da infância num orfanato, até ser adotada por pais maravilhosos e mostrou também uma foto deles; o que foi a deixa para Kouka realizar o pior medo de Kamui: ela pegando o álbum da família.
Após bastante conversa, muitas risadas, alguns gritos e terem limpado toda a comida que Kouka fizera, Hotaru insistiu que ajudaria com a louça, mas já estava tarde, tinha aula no dia seguinte e ela ainda precisaria andar até em casa. Sendo assim, mãe e filha expulsaram a garota da casa, jogando Kamui pra fora logo em seguida, insistindo que ele deveria acompanha-la.
Sem dar tempo para "mas" e com um forte baque, a porta da residência Yato foi fechada, deixando como única opção para os namorados de irem para a casa de Hotaru.
Eles iam andando pelas ruas noturnas, iluminadas apenas pelos postes e luzes que vinham de dentro das casas, com os únicos sons sendo de um carro ou outro que passava e de Kamui assoviando alguma música.
Quando já podiam ver a casinha amarela da família Hirano do outro lado da rua, Kamui parou do nada, tanto de andar quanto de assoviar. Hotaru também se deteve e voltou-se para o namorado, que simplesmente olhava para o paquinho agora vaziu, parecendo divagar.
— O que- — Hotaru ia começar a pergunta, mas o ruivo interrompeu:
— E aí, o que achou deles?
Ela sorriu pelo jeito do namorado; por mais que ele tenha dito mil vezes que não ligava e não queria que Hotaru conhecesse sua família, a loira sabia que a opinião deles sobre ela e vice versa era, sim, importante para o Yato.
— São exatamente como você me descreveu. E eu adorei cada um deles.
Por ter se virando para voltar a andar, Hotaru não viu o sorriso alegre que Kamui não conseguiu conter; apenas sentiu quando ele a fez parar novamente, abraçando-a por trás e pousando o queixo em seu ombro, com o carinho forte ao qual Hotaru já estava acostumada e amava ser envolvida.
Após uns segundos assim, Kamui abriu os olhos azuis, brilhando com uma nova ideia:
— Ei, que tal se amanhã eu conhecesse os seus pais?
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