Welcome To My Life
1 Oneshot
Notas iniciais
Lá estava eu pelo fórum da Uol, quando achei um gif do Shinji com essa música do Simple Plan, que compartilha o nome com o título da Fanfic, então eu resolvi escrever algo baseado nisso. Já fazia um tempo que eu queria fazer algo relacionado com o Shinji, pois amo ele e irei sempre o defender, faço parte do Esquadrão de proteção do Shinji Ikari, haters gonna hate, mas ele é pra mim o melhor protagonista ever, simplesmente não consigo parar de me identificar e ver o quão humano ele é.
Espero que gostem. Boa leitura!
Aquelas gotas taciturnas rastejavam pela janela como vermes em uma sepultura. A chuva caia fortemente, uma tempestade se iniciava. Os clarões provocados pelos relâmpagos neons sobre o céu nublado do fim de tarde eram aterrorizadores, a potência com que os trovões ecoavam seus gritos graves, a forma que o choro dos céus caia, tão frio, tão cortante, com o granizo rígido se chocando contra o chão, fazendo sons metálicos ao entrar em contato com as superfícies do trem-bala, que apesar da velocidade, não escaparia da ira atmosférica.
O silencio era como de costume nos trens japoneses, os poucos passageiros que pegavam aquela linha azul para o interior estavam quietos, olhando para seus celulares, ou simplesmente sonolentos. No assento isolado ao fim das fileiras, ao lado direito, com a cabeça encostada sobre a vidraça, estava um jovem sorumbático; de cabelos curtos e castanhos, mesma tonalidade de seus olhos pequenos e chorosos, a pele clara era contrastada com extremidades e um tom mais amarelado, o dando uma aparência comum, era o típico adolescentes japonês, trajado com o uniforme clássico de calça negra e camisa social branca. Em seus ouvidos estavam um par de fones, preenchendo o silencio monótono que experimentava, com uma sinfonia apreciável, a nona de Beethoven.
Queria apenas trancar-se em seu quarto, ir embora de todas as responsabilidades, fugir daquilo chamado de vida, daquela ruina que o engolia em uma profunda escuridão dolorosa. Apesar de todas suas tentativas, continuava sentindo-se um fracassado, nunca iria conseguir agradar o próprio pai daquele jeito, era apenas um covarde, estava fugindo novamente de seus deveres na NERV para dar passeios como aqueles em metrôs, pensando em toda sua realidade. Talvez fosse apenas um mimado, sempre havia recebido tudo que queria, nunca teve que lutar pelo conforto de uma vida boa, mas aquilo não mudava a falta de amor em sua vida, às rejeições, era algo que nunca havia conseguido, algo que nenhum dinheiro compraria. Ter sido criado por outros parentes sempre havia sido o suficiente para sentir-se deixado de lado, aliás, ninguém gosta de cuidar dos filhos alheios.
Estava quebrado, não podendo pertencer a lugar nenhum, não tendo um lar, não tenho um porto seguro. As lágrimas logo começaram a escorrer por seu rosto, marejando os olhos que piscavam rapidamente na tentativa de cessa-las, não queria profanar o silencio do ambiente, mas falhou, deixando seus gemidos abafados e soluços tomarem conta. Assim que o trem-bala parou na próxima estação, desceu, correndo em meio à tempestade, não se importando com o fato de que estava ficando encharcado, talvez seu celular pifasse após o banho que estava tomando, mas não era como se importasse para Shinji. Continuava com os fones, as músicas no aleatório, chegando em “Welcome To My Life” do Simple Plan, ótimo, era tudo que precisava uma música deprimente para um momento como aquele.
Você já se sentiu como se estivesse desmoronando?
Você já se sentiu fora de lugar?
Como se de alguma forma você não se encaixa
E ninguém te entendesse?
Você já quis fugir?
Você se tranca em seu quarto
Com o rádio ligado e o volume tão alto,
Para ninguém te ouvir gritando?
Nenhum deles nunca saberia como se sentia perdido, deslocado e machucado por dentro, como seu coração estava partido com todas as mentiras, com todas as provocações e momentos de solidão, mas era sua vida apesar de tudo, estava sendo apenas bem-vindo a mais um dia naquela estressante rotina. Não tinha a mínima intenção de retornar para a NERV, queria apenas desaparecer. O rosto quente pelo choro tinha um choque térmico com o frio da chuva, escondendo a vermelhidão que surgia nos olhos, estava tendo mais uma recaída, era a segunda naquele dia. Sentir-se amargurado e deprimido apenas te corrói, e agora estava sendo corroído por estes sentimentos de insuficiência, não teria coragem de adentrar o EVA 01 novamente e ter o risco de fracassar, estava fugindo para nunca mais voltar, sem destino.
Por que eu não posso mudar meu passado? Por que eu não nasci em uma família feliz? Por que eu nasci? Por que eu estou vivo? Por que eu estou aqui? Quem sou eu? Eu me odeio e quero morrer. Toda essa merda ao meu redor, todas essas pessoas, suas expectativas...
— Parem de me exigir coisas!
Gritava para o céu, correndo pela calçada em direção ao outro lado da rua, ouvindo as batidas do próprio coração pelo cansaço, lhe alarmando que estava excedendo a capacidade física em toda aquela fuga, não tinha destino algum, não era como se estar perdido fosse mudar alguma coisa. Não sabiam como se sentia como era vazio estar sozinho, como era viver cada dia pensando no ontem e no amanhã, mas nunca no hoje. Sempre que acordava, olhava para o teto, desgostoso por estar vivo, ficando na mesma posição entre o breu do quarto por longos períodos, algumas vezes deixava-se chorar nessas matinais melancolias, outras vezes apenas ficava quieto tentando se esquecer de tudo, mas em todas às vezes o sentimento era o mesmo, de que estava em um lugar ao qual não pertencia, como um estranho em meio a uma família.
Perguntava-se se poderia ser outro alguém algum dia, se poderia abandonar todo o passado e construir um novo futuro. Havia dias em que sorria ao sentir a luz do sol contra o rosto, lhe aquecendo, o dando esperança de dias melhores, mas aquele não era um desses dias. Era o tipo de dia em que estava deprimido, desejando apenas a morte e nada mais. Podia ouvir as palavras de Gendo Ikari ecoarem por sua mente, que era desnecessário e inútil. Fugir não resolveria seus problemas, sabia disso, independente do quanto corresse, seria acompanhado pelas memórias tristes, por todo o pessimismo, pelas expectativas. Seu desempenho escolar apenas diminuía mais com o passar do tempo, lhe tirando a única coisa que poderia orgulhar-se; notas. Provavelmente seu pai não iria mover um dedo para ajuda-lo naquela situação, iria permanecer com aquele olhar frio e repleto de desdém por trás dos óculos alaranjados, com ambas as mãos a frente do rosto longo e quadrado, deixando o queixo apoiado nestas, podendo coçar sua barba sempre tão visível nos dedos — Era a figura que mais temia— Era seu pai.
Você está preso em um mundo que você odeia?
Você está cansado de todos ao seu redor?
Com seus grandes sorrisos falsos e mentiras estúpidas,
Enquanto por dentro você está sangrando?
Caso voltasse, também teria de encarar Katsuragi, ela deveria estar magoada, havia tentado tanto o integrar, e ele havia apenas jogado tudo para o alto e fugido. Aya deveria estar em seu estado apático de sempre, seria como se nunca tivesse existido para ela, mas não conseguia tira-la da cabeça. Todos ao seu redor eram importantes para ele, mas não sentia-se que era algo reciproco. Odiar a si mesmo era sua maior falha, considerar-se um incapaz, um lixo. Queria poder ter a coragem dos suicidas para acabar com a própria vida, a coragem de saltar de um prédio, puxar o gatilho, pressionar a lâmina contra as artérias, apertar a corda contra o pescoço e finalmente morrer. Estava vivendo ou apenas existindo? Sua lamuria era incessante, os soluços estavam sendo sobrepostos pelos trovões e gotas d’água que se fundiam em poças, fazendo sons repetitivos que lhe acalmavam, parecia que a tempestade não passaria tão cedo.
— Vocês não sabem como eu me sinto... — Sussurrava para si mesmo. Ser julgado como um simples perdedor sem motivos era o que mais lhe machucava.
Todas as criticas contra si eram sem fundamento, não possuíam respostas para lhe ajudar a resolver os defeitos, a melhorar as qualidade e perder os medos. Aqueles que o chamavam de garotinho chorão e covarde nunca haviam sentido sua dor. O corpo esbelto e de porte pequeno tremia por conta do frio, estava com a camisa colada pela umidade, deixando visível a regata preta que usava por baixo, pela transparência do tecido branco encharcado. Os cabelos cobriam boa parte da testa. A música ainda tocava, o celular ainda estava vivo apesar da água. Quantos sorrisos verdadeiros havia dado ao longo de sua vida? Não sabia dizer, mas sabia que eram um número pequeno, quase que minúsculo em comparação as vezes que chorará.
Não sabia se Gendo havia verdadeiramente matado sua mãe, como diziam as más línguas de onde morava; que era filho de um cientista louco que havia sacrificado a própria esposa em um experimento. Estava longe da verdade. Toda duvida e incerteza que acercava seu coração era capaz de ofuscar as razões, nublando qualquer resquício de esperança que pudesse ter, ela seria necessária para que encontrasse as respostas para suas infinitas perguntas, em sua maioria, sobre si mesmo, sobre a própria capacidade. A música repetia-se, havia colocado em loop, era uma de suas preferidas, do tipo que o fazia identificar-se e imaginar clipes tristes consigo mesmo enquanto ouvia.
Não, você não sabe como é,
Quando nada parece certo,
Você não sabe como é,
Ser como eu!
As nuvens abriam suas cortinas nubladas, dando visão a um fraco Sol, raiando de maneira opaca por trás da nevoa, dando uma visibilidade melhor do ambiente. Era uma típica rodovia de estrada reta, com casas e estabelecimentos ao redor, as calçadas estavam úmidas, as rodas dos carros agitavam as poças próximas do meio-fio, no qual Shinji arriscava-se, tentando equilibrar-se nas extremidades da calçada, dando um passo de cada vez, imaginando que seriam dias de sua vida, deveria prosseguir de maneira cuidadosa, ir sem medo e concluir cada um como se fosse o último, como se fosse despencar a qualquer momento, tentando fazer o melhor para se manter no topo. Uma brecha de otimismo se abria em sua soturna mente, lhe concedendo expectativas de dias melhores, não era a primeira vez que fugia, também não seria a última, mas era a primeira em que conseguia por a cabeça no lugar.
Logo se enchia de duvidas novamente, lembrando-se de Kaworu, daquele dia tristonho em que ele havia aparecido, daquele dia em que havia o beijado e o feito questionar-se sobre a própria sexualidade. Não era como se não gostasse de garotas, havia se sentido extremamente atraído pela misteriosa Aya, com seus olhos escarlates e cabelos azulados como o céu, mas havia algo de diferente sobre Kaworu, como se já o conhecesse. Não era também como se não houvesse gostado do contato que tiveram, havia sido reconfortante, havia aceitado talvez por estar em um momento fragilizado, quando havia visto o EVA 00 explodir com Rei dentro, lhe aprofundando em um luto quase que abismal, que nunca havia sentido antes, assim como o colapso ao saber a realidade sobre aquela garota, sobre o tipo de vida sintética que era.
Então gostava de garotos? Não sabia. Talvez gostasse de qualquer um que o fizesse sentir-se bem, talvez estivesse apenas confuso e gostasse apenas de um, mas estava se deixando levar. Sua longa meada de pensamentos perdeu o fio ao chegar perto de uma ponte, na qual poucos carros passavam, o que o fez ir para o canto em que os pedestres atravessavam, parando, observando a vista. Abaixo de si, só havia o mar, era uma altura surpreendentemente grande, bastaria um deslize para que um terrível acidente ocorresse. Sua visão embaçava-se conforme aprofundava os olhos naquela vista tão atraente, afogando-se nas turvas águas, podendo ouvir o som da mare atingindo as pedras, as umedecendo, correndo por entre as elevações, subindo, as ondas se desmanchando, era tudo tão tranquilizante. Desejava ter a liberdade eterna, poder voar; Iria sobrevoar toda a costa, indo baixo para tocar as águas, criando ondas com a velocidade e podendo ouvir claramente a ressaca dos mares, estaria tão próximo, seus olhos arderiam com o sal elevando-se e adentrando as narinas, consumindo sua respiração com o frescor das praias.
Estar à beira de um penhasco,
E não ter ninguém lá para te salvar
Não, você não sabe como é,
Bem-vindo à minha vida!
A coragem começava a surgir, limpava a garganta diante dos pensamentos de libertar-se de todos aqueles pensamentos e memórias, poderia descansar e fugir de tudo definitivamente, sem chance de voltar. Sentou-se nas grades que separavam a queda livre da superfície, aspirando ao odor salgado que o mar exalava, poderia facilmente fundir-se com sua imensidão azulada. Perder-se no espelho dos céus seria como um desejo realizado, seu corpo iria chocar-se com tamanha força contra as águas que teria cada órgão retirado do lugar, o impacto o mataria e transformaria em um simples boneco sem vida, cujas articulações estavam falhas e quebradiças. Todos que passavam ignoravam a visão do jovem suicida, Shinji percebia que deveria ser só mais um adolescente problemático aos olhos alheios, que ninguém o ajudaria, no fim, iria ser apenas mais uma estatística para os números de suicídio no Japão.
Realmente queria virar apenas um número? Não era como se quisesse ser um herói, mas queria fazer algo antes de morrer, antes de que sua juventude se extinguisse, antes que as responsabilidades da vida adulta preenchessem o tempo livre para fazer descobertas. Ergueu a cabeça, fechando os olhos escuros, apreciando a brisa cortante do vento, vindo junto da chuva, atingindo seu rosto e podendo o ferir superficialmente. Todo o metal estava escorregadio, não poderia vacilar ou confrontaria seu inevitável destino, a morte. Abriu os olhos de repente, e olhou uma última vez para baixo, tomando sua decisão.
Notas finais
Apesar de não ser meu estilo, já que não sou muito chegada em música emo, eu gostei bastante da letra, foi bom escrever esse oneshot xD
agora, se o Shinji se matou ou não, fica ao critério de cada um imaginar o desfecho.
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