Weight of Love
7 Something is just about to break
Notas iniciais
Sentado entre seu irmão e seu primo em um restaurante que ele nunca havia notado em Konoha antes, Uchiha Sasuke se deu conta de que não sabia ao certo o que o estava deixando mais irritado naquela tarde de abril.
Ele tinha tantos motivos para querer atear fogo em cada um dos presentes em sua mesa que era um verdadeiro milagre que ele conseguisse se manter com a cabeça no lugar – embora seus olhares tivessem o efeito de mil lâminas perfurantes, eles não eram igualmente letais.
Seu momento de relaxamento após uma sessão de treinamento havia sido arruinado por Shisui. Era possivelmente a sua última oportunidade de aproveitar a presença de Kakashi antes que seu clã o sufocasse e o deixasse sem tempo para tamanhas trivialidades como tomar um chá antes de uma sessão de treinamento e ela evaporara – não que Sasuke fosse admitir que sentiria falta da companhia do Hatake.
Ele poderia ter ignorado o Uchiha mais velho e o que quer que ele tivesse para falar e convencido seu professor a fazer o mesmo se os nomes “Itachi” e “Sakura” não tivessem sido citados juntos e em uma mesma frase.
Kakashi não fizera questão de esconder um certo entusiasmo com o prospecto de passar uma tarde adorável com pessoas tão queridas por ele e Shisui não tinha porque fingir descontentamento com um comportamento que ele aprovava – e Sasuke tivera a impressão de que ele o induzira, na verdade.
Subestimar Shisui era uma coisa que os Uchiha já nasciam sabendo que se configurava como tolice.
Sasuke estreitara ligeiramente os olhos para seu primo. Sua postura podia emanar nada menos que hospitalidade, mas o garoto sabia que o mais velho queria mais alguma ali do que simplesmente convidar dois companheiros shinobi para um almoço.
Talvez Shisui apenas quisesse medir o nível de interesse dos dois pela mais nova dinâmica de Itachi e sua companheira de time.
E para ser sincero, Sasuke estava longe de estar indiferente ao andamento dessa nova relação. Quando ele vira os dois interagirem pela primeira vez no aniversário de Sakura, ele fora predominantemente tomado por curiosidade e um leve aperto no coração que ele agora conseguia nomear como “ciúmes”.
Mas a curiosidade morrera e dera espaço para insegurança assim que Naruto lhe contara sobre o tempo que os dois passavam juntos por causa de treinamento.
Primeiramente, ele se sentiu possesso, como a muito tempo não acontecia. Por que, de uma hora para outra, ele passara a ficar no escuro em relação a sua amiga de infância? Sasuke se sentia rejeitado e traído por Naruto e até mesmo seu irmão saberem de coisas sobre a rosada que ele não fazia ideia – Sasuke tinha certeza que demoraria a perdoar Sakura por não ter lhe contado sobre a ANBU.
E então sua ficha caiu e ele percebeu que estava perdendo seu time para Itachi.
Naruto lhe colocava a par da situação envolvendo seu irmão, o clã e a posição de Hokage e Sasuke só sabia pensar que finalmente havia chegado a hora de Itachi tomar, mesmo sem querer, a última coisa sua que ele ainda não tinha domínio; o Time 7.
Quando Sasuke nascera, Itachi já tinha o amor de seus pais, o reconhecimento do clã e a expectativa da vila lhe sobrevoando. Por muitos anos, Sasuke fora apenas o irmão de Itachi, que merecia tudo isso pela metade porque, afinal, o mais velho era muito melhor e tinha muito mais potencial.
Levou anos para que ele entendesse isso – mas nunca ficasse realmente satisfeito – e não sentisse mais ressentimento pelo seu irmão ter simplesmente nascido antes dele. Itachi não tinha culpa pelo comportamento das pessoas ao seu redor, Sasuke se convencera.
O Uchiha então conheceu Uzumaki Naruto e Haruno Sakura e começou a fazer parte do Time 7, sentindo-se renovado pela primeira vez na vida. Os dois não se importavam com o seu sobrenome, quem era seu irmão ou os grandes feitos do shinobi para a Vila da Folha.
Seus dois companheiros de time só se importavam com ele, Sasuke.
E isso se encontrava ameaçado de ir por água a baixo no momento.
Sasuke olhou para Sakura, sentada do lado de Kakashi no outro banco da mesa, e se sentiu incomodado. Seu rosto apresentava uma coloração vermelha típica de quando a garota se sentia envergonhada e mesmo assim, ela parecia pertencer a cena, conversando amigavelmente com Uchiha Shisui e lançando eventuais olhares para seu irmão como se tivesse feito isso durante toda sua existência.
Isso não estava certo.
Se antes o moreno desejava que Sakura pudesse conhecer e gostar de seu irmão do jeito que ele merecia, Sasuke não poderia querer mais do que o contrário no momento. Não era exatamente ciúmes o que lhe corroía por dentro; era algo mais sinistro e complexo, algo que ameaçava sua própria existência.
Era mais como o medo de perder a pessoa mais importante da sua vida.
Porque Sasuke tinha a certeza cega e arrebatadora de que era isso o que estava acontecendo ali; ele estava perdendo Sakura para Itachi e o mesmo não precisara nem fazer esforço para isso.
Sasuke subitamente não conseguia mais olhar para a kunoichi.
— Sasuke, está tudo bem? — Kakashi lhe perguntou de forma privada, esperando que a voz de Shisui abafasse a comunicação breve.
— Aa.
O Uchiha mais novo se sentiu observado por Itachi e apoiou a cabeça em uma das mãos, fingindo tédio. Kakashi não voltou a perguntar qualquer coisa para Sasuke e fez questão de se manter numa conversa animada com Sakura e Shisui.
Sasuke sequer sabia sobre o que eles falavam.
— O que você vai pedir? — Itachi lhe perguntou.
A pergunta o pegou de surpresa e ele olhou para seu irmão, a expressão acompanhando o sentimento.
— Do cardápio. — Itachi apontou uma unha pintada para o pedaço de papel plastificado a frente de Sasuke.
— Aa, — o shinobi deu de ombros. — qualquer coisa. Pode ser o mesmo que o seu.
— Certo.
Sasuke suspirou internamente. Ele estava chateado com o seu irmão e por mais que isso não o impedisse de conversar com ele de forma natural e prazerosa, no momento Sasuke não estava com paciência para trivialidades e só havia um assunto sobre o qual ele queria tratar com Itachi.
— Por que você não me contou? — Ele se viu perguntando antes mesmo de se dar conta de que iria falar alguma coisa.
O capitão ANBU o olhou como se já soubesse o rumo da conversa.
Mas ele esperava uma confirmação mesmo assim.
— Sobre o Naruto. E o treinamento com a Sakura. — Sasuke não precisou olhar para a rosada para perceber que ela agora mantinha um interesse discreto nos dois irmãos, sem deixar de entreter Shisui.
Itachi pareceu notar também.
Ele olhou de soslaio para a Haruno enquanto o respondia.
— Achei que Sakura fosse querer explicar as coisas.
Sasuke levou milésimos de segundos para reunir coragem e olhar diretamente para a companheira de time. Sakura sorria de um jeito afetado, os dedos se remexendo desconfortavelmente sob a mesa.
Ele se sentiu satisfeito que a garota se sentisse pelo menos culpada pelas suas atitudes.
— Estava errado. — Sasuke sabia que essa era a forma de seu irmão de pedir desculpas.
O garoto teria dispensado o assunto com um dar de ombros se outra coisa não o incomodasse.
— Como você tem tempo de treinar ela...?
E comigo você nunca tinha? Sasuke podia ter completado, mas nem na privacidade de seus pensamentos ele se sentia confortável com a ideia de que além de seus amigos preferirem Itachi, seu próprio irmão preferia Naruto e Sakura a ele.
Uchiha Itachi era a pessoa com quem ele compartilhava o laço mais forte de sua vida.
E Sasuke nunca deixaria de proteger essa relação.
Seu irmão parecia ter lido seus pensamentos e controlava sua expressão para não deixar transparecer um pouco da incerteza que sentia. Itachi contorceu os lábios antes de se preparar para responder.
— O que vocês tanto cochicham aí?
Mas foi Shisui quem falou primeiro.
Sasuke viu o rosto de Itachi se tornar cuidadosamente branco antes de voltar a mirar a frente, ignorando de propósito seu primo. O mais novo fez uma careta e resmungou alguma coisa semelhante a “nada que te interessa”.
Shisui apenas riu como se apreciasse uma piada interna.
— Certo, certo. Bem, eu já estou pronto pra fazer meu pedido, e vocês?
Kakashi foi o único a concordar verbalmente. Sakura chamou uma atendente que passava pelo corredor e Sasuke usou seu tempo para olhar seu sensei. Ele ainda não estava muito certo sobre o porquê o Hatake aceitara estar ali em primeiro lugar.
Ele tinha duas teorias pré formuladas que precisavam de mais embasamento.
Sasuke viu Kakashi passar os olhos vagamente pelo cardápio numa tentativa de escolher o que pedir. Quando nenhum prato lhe chamou a atenção, ele claramente optou pelo mais barato, falou sua ordem para a funcionária e se colocou a observar despreocupadamente algum ponto do local.
Que coincidia com a presença de Itachi.
Então ele estava certo.
Kakashi queria estar a parte da situação tanto quanto ele.
— Eu vou querer o prato de número 13, por favor. Porção extra de camarão. — Shisui falou ao seu lado.
Ele olhou então para seu irmão. O Uchiha encarava Sakura de um jeito diferente e Sasuke não pôde decifrar o que se passava exatamente ali, mas parecia que Itachi estava se divertindo com alguma coisa particular que acontecera somente para os olhos dele e da kunoichi.
Quando Sasuke dirigiu o olhar para Sakura, ele preferiu não ter feito isso.
Ela estava linda com os cabelos soltos, o lábio inferior preso entre os dentes e aquele rubor adorável que ele não se cansava de colocar na garota quando os dois eram menores. Agora, entretanto, não era ele quem causava essas reações em Sakura.
Ela estava linda e não era por ele, quanto mais para ele.
Sasuke se sentiu invadindo a privacidade alheia e se concentrou em qualquer outra coisa que não fosse eles dois.
Itachi fez seu pedido e a mesa retornou a conversar – com a exceção dos irmãos Uchiha – descontraidamente enquanto a comida de todos não ficava pronta. Sasuke ouvia a tudo com uma névoa de torpor lhe pairando sobre a cabeça. Ele queria estar em qualquer lugar que não fosse aquele restaurante.
Qualquer lugar que ele não percebesse que Sakura não era mais tão dele quanto ele achava que era.
— Itachi, — Ela disse uma vez, um sorriso no rosto e um brilho divertido nos olhos verdes. — é verdade?
Ele não sabia sobre o que estavam falando mas resolveu prestar atenção.
Seu irmão se mostrou pego de surpresa por ter sido arrastado para uma conversa que ele não tinha intenção de participar e demorou alguns segundos para responder.
— Talvez. — Um sorriso ameaçava tomar seus lábios.
E essa era uma reação que poucos conseguiam tirar de Itachi.
— Talvez nada, não minta para a Sakura-chan. Eu já te ganhei num confronto de taijutsu.
— Aa, se você contar aquela vez em que trapaceou...
— Não foi trapaça.
— Você usou chakra para aumentar sua velocidade e resistência.
— Shisui, isso é trapacear. — Sakura interviu, rindo.
E todas as vozes se tornaram superficiais perante a risada de Sakura. Se havia uma coisa capaz de tomar seu fôlego completamente era aquele som desajeitado que saia de sua companheira de time quando ela se sentia particularmente feliz.
Sakura provavelmente sentiu que estava sendo observada e travou seus olhos verdes em seus pretos.
Eles só se separaram quando a atendente retornou com os pedidos da mesa.
(...)
— Hm, isso tá uma delícia. — Disse Sakura, a voz se arrastando em um prazer forçado.
Ela não estava se sentindo particularmente no clima para aproveitar o paladar de seu prato.
Sakura fizera um esforço para parecer relaxa e descontraída durante toda a duração daquele encontro e só poderia agradecer aos deuses por apenas Itachi ter percebido sua inquietação – e ela ainda precisava pensar sobre o que a denunciara.
Quando Shisui aparecera e dissera que iria chamar Sasuke para almoçar com eles, sua ficha não caíra. Entretanto, bastou que seus olhares se cruzassem pela primeira vez naquela tarde para que Sakura se lembrasse do porque o prospecto de estar na companhia de seu amigo recentemente a deixava com os nervos à flor da pele.
Sasuke estava irritado com ela e tinha todos os motivos para não a perdoar tão cedo.
— Está mesmo, mas nem se compara a comida da Mikoto-san.
Sakura levantou os olhos do prato que degustava e viu Sasuke se remexer em desconforto ao ouvir o nome da mãe. Itachi, por outro lado, apenas fez um gesto de cabeça em concordância.
— Não duvido nada. — Kakashi disse ao seu lado.
A rosada resolveu adicionar seu próprio comentário ao assunto, lembrando-se vagamente dos seus dias como gennin.
— Eu lembro de roubar alguns onigiri do Sasuke quando ele os levava para o almoço. Eram realmente deliciosos.
Alguma coisa na fala de Sakura mudou o ar dos três Uchiha sentados lado a lado no banco e ela não pôde especificar mentalmente o que, afinal. Os ombros de Sasuke ficaram levemente mais enrijecidos, Shisui abrira um sorriso esperto – que tentara esconder de forma débil ao colocar uma porção de camarão na boca – e Itachi...
Apenas a fitou com uma intensidade que não lhe era desconhecida.
Ela olhou de soslaio para Kakashi e viu que ele estava tão perdido quanto ela.
— Então, Sakura-chan, — Shisui falou após engolir sua comida. — Quem faz os onigiri na casa do Sasuke-kun é o Itachi.
A Haruno sentiu seus olhos se arregalando levemente e se dirigindo quase que automaticamente para encarar o futuro herdeiro do clã de volta.
— Sério? — E suas bochechas se coloriram em vermelho contra a sua vontade.
— Sim. — O mais velho respondeu, mesmo que a pergunta havia sido direcionada para seu primo. — Mikoto-san o encobriu com essa tarefa no momento em que percebeu que seu filho de sete anos fazia onigiri mais gostosos que os dela.
Um pequeno sorriso brincou com os seus lábios enquanto Sakura pensava em um pequeno Itachi de cabelos curtos usando um avental e enrolando arroz em suas mãos pequeninas e hábeis.
Itachi arqueou uma sobrancelha fina como se pudesse ver exatamente a mesma imagem mental que a kunoichi a sua frente.
— Aa, então é você quem eu devo parabenizar... — Kakashi adicionou de forma vaga, sem tocar em sua comida, a máscara ainda no lugar.
Algumas coisas nunca mudam.
Mas seu divertimento morreu assim que Sasuke pigarreou e pediu licença para usar o banheiro.
— Uau, que bicho mordeu o Sasuke-kun hoje? — Shisui cochichou de forma conspiratória para o copy-nin.
— Faço a mesma pergunta... você sabe, Sakura? — Kakashi a olhou forçadamente desinteressado.
A Haruno mordeu o canto da boca e suspirou internamente.
— Você sabe tanto quanto eu o que deu nele, Kakashi-sensei.
— Verdade.
— Mas eu não sei, alguém pode se dar o trabalho de me explicar? — O Uchiha mais velho afastou a tigela de sua frente e colocou um cotovelo na mesa, apoiando a cabeça com a mão.
Sakura deixou bem claro em sua expressão que não faria o mínimo de esforço para o deixar a parte da situação.
Ela pensou sobre Sasuke e Naruto, na traição que eles poderiam estar sentindo no momento e foi tomada por uma dor quase física no coração. Ela agira errado, muito errado, e não sabia agora como consertar – Sakura mal conseguia manter contato visual com Sasuke sem querer correr e se esconder daquele sentimento que conseguia definir nos olhos escuros tão marcantes.
— Sasuke não está contente que eu esteja... aa, interagindo com os seus companheiros de time.
Hatake Kakashi e Uchiha Shisui pareceram entender e emitiram um monossílabo. Sakura não se sentia mais disposta para continuar ali, interagindo com tantas pessoas e Sasuke quando tudo o que ela queria era focar em seu treinamento e esquecer de seus problemas pessoais causados unicamente por sua burrice.
Ela ignorou o que seu companheiro de time iria pensar quando voltasse e se deparasse com uma pessoa a menos na mesa – justamente ela – e se levantou de forma decidida do banco, arrancando olhares surpresos dos outros presentes.
Sakura tirou uma quantidade razoável de seu bolso traseiro, sabendo que seria mais do que o suficiente para pagar a sua parte – ser a aprendiz da Hokage lhe gerava uma renda superior do que era necessário para o seu conforto e Sakura realmente não se importava com dinheiro – e a depositou na mesa.
— Eu não me sinto bem e gostaria de ir para casa.
— Não é melhor esperar o Sasuke chegar para se despedir?
— Não, não mesmo. — Ela olhou para Kakashi. — Diz pra ele que eu fui convocada pela Hokage ou algo do gênero.
— Aa.
Ela proferiu um “obrigada pelo convite” para Shisui, sem animosidade alguma em sua voz e se preparava para se desculpar com Itachi por tudo quando a linguagem corporal do moreno a fez parar.
Itachi a imitava no gesto de separar dinheiro e Sakura soube imediatamente que ele a iria acompanhar em sua saída.
— Você não precisa v-
— Nós temos treino, esqueceu?
Oh, Sakura se estapeou internamente por sua lerdeza.
Ela esperou até que ele se levantasse, falasse alguma coisa para Shisui que a rosada não conseguiu ouvir, maneasse em despedida para Kakashi e se colocasse a seu lado, esperando que ela começasse a andar para seguir seus passos.
Sakura conseguiu ouvir seu sensei murmurando “interessante” antes que os dois pudessem se tornar inaudíveis da porta do restaurante.
Itachi e Sakura caminharam em silêncio pelas ruas movimentadas de Konoha. Passados alguns minutos, a kunoichi se lembrou que eles não deveriam ser vistos juntos sozinhos e alertou esse fato para seu acompanhante. Ele apenas deu de ombros, ignorando seu comentário.
Sakura não entendeu.
— Itachi, você me ouviu? Acho melhor irmos pelos telhados.
O Uchiha parou e olhou para Sakura como se não tivesse prestado atenção no que ela falara.
— Você quer ir pra casa?
Itachi a olhava com interesse e uma preocupação velada apenas da postura relaxada e o ar de tédio que pairava sobre sua expressão. Levara alguns dias para Sakura começar a decifrar as nuances que invadiam os olhos de Itachi, mas ela finalmente o fazia, ainda que não com a precisão desejada.
Mas ela não entendia o que ele queria ou estava fazendo mesmo assim.
— Achei que fossemos continuar o treinamento?
Itachi abriu seu quase sorriso.
— Era uma desculpa para eu ir embora também.
— Oh!
Sakura começou a se sentir inquieta. Será que ele queria...
— Você quer me levar em casa? — Ela se viu dizendo antes mesmo que pudesse nutrir o pensamento.
O Uchiha a olhou de um jeito curioso – aquele mesmo olhar que ela recebera no restaurante quando ele começou a esbarrar seu pé no dela propositalmente (Sakura só conseguia pensar que aquela era sua maneira divertida de lhe chamar atenção e fazer com que ela focasse nele ou nas conversas de Shisui e não em qualquer pensamento sórdido envolvendo Sasuke e o Time 7).
Sakura pensou sobre Itachi, o homem parado a sua frente, e em sua educação. Ele era o primogênito da família principal do mais tradicional clã de Konohagakure. Itachi certamente havia sido criado sob o melhor dos treinamentos aristocráticos para ser um verdadeiro cavalheiro como cidadão, não importando todo o seu treinamento árduo de shinobi.
Ele tinha as melhores qualidades de um homem.
E isso não significava que ele quisesse a acompanhar em casa – até porque, Haruno Sakura não precisava ser escoltada até a porta como se fosse uma donzela indefesa. Isso mostrava que ele se deixava levar pela criação ou que quisesse alguma coisa com todo o ato.
Itachi, como sempre, pareceu ler seus pensamentos.
— Eu quero acompanhar você, Sakura.
Ela o olhou de forma suspeita.
— Quer porque quer ou por que quer falar sobre alguma coisa?
— Aa. — Ele fechou e abriu rapidamente os olhos, como se contemplasse alguma coisa. — Não me incomodaria falar também.
Certo.
Então ela seria levada em casa por Uchiha Itachi.
Eles falaram sobre coisas triviais por mais da metade do caminho. Sakura se sentia estranha por estar passando pelas ruas da vila com o Uchiha prodígio do lado. As pessoas olhavam e cochichavam e Sakura não sabia se isso era um bom sinal.
Ela entendia que não era uma visão comum ter Itachi desfilando pelas ruas em plena tarde de mercado, mas mesmo assim... Os cidadãos sabiam enxergar uma tempestade onde só havia um copo d’água.
Sakura lembrou-se sobre o motivo inicial pelo qual os dois não saiam juntos assim e sentiu seu estômago se contorcer ao imaginar que um par de olhos que acompanhavam suas costas enquanto eles se distanciavam do centro comercial poderia ser de um Uchiha.
E que isso poderia mandar todo o seu treinamento e sua possibilidade de ingressar na ANBU por ralo abaixo.
— Não se preocupe com isso. — Itachi falou de forma baixa, certa hora.
Sakura olhou em seus olhos sem deixar de o guiar até o distrito residencial.
— É claro que eu me preocupo. E você se preocupava até poucas horas atrás.
— Hn.
— O que mudou?
Itachi não respondeu imediatamente, mas Sakura sabia ser paciente quando se tratava de Uchiha.
— Eu percebi uma coisa.
— O que? — A voz da rosada mal continha sua curiosidade. Afinal, o que poderia ter passado despercebido por Uchiha Itachi?
Mas sua curiosidade deu lugar para um sentimento desconhecido assim que Itachi encontrou o seu olhar. Ele não iria responder a sua pergunta com palavras. Em seus olhos parecia havia a resposta para sua pergunta, mas Sakura não conseguia colocar as mãos no que era.
Era difícil de se concentrar numa tarefa quando Itachi a olhava como se quisesse que ela se afogasse em sua complexidade.
Sakura se viu impossibilidade de manter o contato visual e arfou, desviando o olhar para qualquer outro ponto da paisagem que não a fizesse tremer por dentro como aqueles ônix faziam.
— Por que você está evitando lidar com o problema?
Sakura não precisava olhar para Itachi ou pensar muito em sua fala para saber que ele se referia ao problema.
— Não é tão simples lidar com o Sasuke quando envolve você. Com o Naruto eu sei que eu posso me entender porque, bom, ele é fácil de ler. O Sasuke costuma se fechar ainda mais quando algo o machuca.
— ...
— E eu o magoei. Quer dizer, nós magoamos. — Sakura colocou uma mecha de cabelo conscientemente atrás da orelha. — O que você disse no restaurante...
— O que?
— Que eu deveria ter contado para o Sasuke, assim como para o Naruto. Mas para ser sincera, — Ela suspirou e o olhou de soslaio. — Acho que você deveria resolver as coisas com ele antes que eu fale qualquer coisa porqu-
— Porque não se trata só de você. — Itachi interviu, o corpo tencionando de leve.
Sua linguagem corporal denunciava que lidar com Uchiha Sasuke era tão complicado que até mesmo seu irmão sentia alguma dificuldade para abordar assuntos que fugissem da sua zona de conforto.
Sakura prendeu o lábio inferior entre os dentes.
— Eu não deveria me meter nisso, mas já que eu fui arrastada para isso... — Ou me arrastei, para ser mais precisa. — ambos sabemos que o problema maior não foi eu ter omitido meus planos do Sasuke-kun.
— Eu sei.
A medi-nin olhou ao seu redor e reparou que eles já haviam chegado ao destino. A alguns passos de distância se encontrava sua casa grande, vazia e nada acolhedora, que a incentivaria a remoer suas ações e se condenar por todas as escolhas que a levaram ao presente momento.
Sakura tinha certeza que Itachi era uma das únicas partes de sua vida que não tinha sido um erro.
Ela parou e virou o corpo para encará-lo, mas não conseguiu, optando então por fitar suas sandálias ninja.
Sakura não queria ficar sozinha pelo resto do dia estudando venenos ou preenchendo papeladas do hospital. Ela queria estar na companhia de alguém que a ajudasse a pensar melhor, a clarear seu ponto de vista e que, principalmente, a guiasse a uma solução para tudo que a incomodava.
Ela estaria mentindo se disse que queria qualquer um porque, naquele momento, sentindo a presença forte e imponente de Itachi a sua frente, Sakura sabia que era ele quem ela queria a fazendo companhia pela tarde, nem que fosse para de fato prosseguirem com o treinamento em andamento pela parte da manhã.
— Você...
Sua voz saiu em um suspiro e ela parou antes que pudesse se envergonhar ainda mais.
Com dezoito anos, Sakura quase não se sentia consciente de sua própria figura feminina e do cuidado que deveria ter ao conviver com pessoas do gênero oposto. Ela era uma kunoichi, tinha três companheiros de time e lidava com frequência com homens no hospital, mas nunca os enxergando dessa forma. Ela sempre via os garotos ao seu redor na base de igualdade de que todos ali eram shinobi.
Mas ao pensar em propor Itachi a entrar em sua casa, Sakura se sentiu incisivamente atenta ao fato de que ela era uma mulher pedindo a um homem, um muito bonito e charmoso, o qual ela não poderia se dizer indiferente da presença física e emocional, para ficar a sós com ela em seu espaço pessoal.
Uchiha Itachi já havia entrado em sua casa antes e se sentado em sua sala.
Mas havia uma diferença fundamental na nova cena que se expandia por sua mente.
Ela queria que ele estivesse ali.
Itachi, somente ele.
E no fundo, Sakura estava com medo de que ele pudesse retribuir de alguma forma esse sentimento no momento em que ela pedisse:
— Você quer entrar?
No torpor de suas emoções, Sakura não notou o que havia dito em voz alta.
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