Weak
2 UM
Notas iniciais
O mundo estava virando de cabeça para baixo. Ou talvez fosse apenas o alto teor alcoólico presente em seu sistema que estivesse lhe dando aquela impressão. Fosse o que fosse, para uma híbrida, aquilo não parecia muito certo.
Porém, o fato era um só: estava bêbada. Muito bêbada. Realmente bêbada. E teve certeza daquilo quando o mundo finalmente deu a volta de trezentos e sessenta graus e seu estômago respondeu imediatamente. Renesmee virou para o lado e mirou na lata de lixo mais próxima de uma rua de Port Angeles, colocando para fora toda a vodca que havia bebido.
As luzes da entrada da boate continuavam piscando e o ruído das buzinas dos carros que passavam não melhoravam em nada o seu estado ou a noite que já havia sido arruinada muito antes daquele momento patético. Havia sido uma semana patética, na verdade e parecia que nada mais terrível poderia acontecer.
Até que aconteceu.
As familiares mãos firmes e geladas a seguraram: uma prendeu seus cabelos para que não sujassem e a outra se deslocou até sua cintura, a mantendo de pé diante da lata de lixo. Ela não precisava ter o olfato aguçado para reconhecer seu cheiro; ele estava por toda parte e era marcante, assim como ele próprio.
— Parece que alguém exagerou nos shots de vodca — O ouviu dizer, e sabia que havia um sorriso nos lábios do vampiro.
Renesmee terminou de vomitar e tomou fôlego, sentindo o rosto quente e as pernas fracas. Ainda assim, reuniu forças para se virar e encarar os olhos cobertos de lentes de Benjamim, o cara que sempre estava ao seu lado e se considerava seu melhor amigo. Ela o afastou, de cara feia, e encostou o dedo indicador no peitoral dele, sentindo-se muito tonta para ter certeza que era o peitoral de fato.
— E daí? Isso não é da sua conta, Benjamin! Aliás... Você não deveria estar lá dentro se agarrando com alguma loira siliconada? — retorquiu a híbrida, balançando em cima dos saltos.
O vampiro gargalhou e a ruiva ficou na dúvida se o suor em sua nuca se devia a isso ou a bebida.
— É, deveria. Mas sabemos que você é mais importante do que uma transa de uma noite, Carlie.
Carlie.
Apenas Benjamin a chamava pelo segundo nome e aquilo era especial. Nunca Renesmee ou Nessie, como todos usavam. Como Jacob fazia. Não. Ele não suportava o esperado, gostava de exclusividade. E a híbrida gostava daquilo sobre ele.
Ela fechou os olhos, subitamente exausta e sem resposta. Geralmente era assim que acabava entre eles: ela sempre se rendia, sem mais. E esse era o problema.
O problema de Renesmee Cullen era apenas um: ela era fraca. Seu corpo e coração enfraqueciam quando ele estava por perto ou a tocava. E de alguma forma, ela se acostumou com isso. Se acostumou em ter Benjamin por perto e ser protegida por ele.
Foi isso que aconteceu em seguida. A ruiva tombou para frente e Benjamin a segurou, a pegando no colo como se fosse uma boneca de pano. Ela resmungou algo incoerente e se aconchegou no peito dele, descansando a cabeça pesada pela ressaca futura. O vampiro suspirou e caminhou em direção aonde havia estacionado o carro, ignorando os olhares curiosos das pessoas ao redor enquanto o vento gelado da madrugada os tocava.
Assim que a acomodou no banco do carona, deu a volta e ligou o carro, dando partida instantes depois. O apartamento da híbrida não ficava muito longe do centro de Port Angeles e depois de alguns meses, ele já havia decorado o caminho sem precisar de suas habilidades sobrenaturais.
Não demorou muito e Benjamin já estava atravessando a pequena sala do apartamento, carregando a dona do imóvel cochilando em seus braços. Ele se dirigiu até o único quarto ali e abriu a porta, adentrando o lugar preferido da ruiva: seu aconchegante quarto cor de rosa. Tudo ali era muito ela — delicado e autêntico. Desde da decoração artesanal das flores de papel penduradas pelo espelho e teto até a bagunça de roupas que despontavam debaixo da cama.
Aquela era Renesmee Carlie Cullen afinal: uma jovem tentando se ajeitar dentro da confusão caótica que era sua vida. E era disso que gostava nela.
No fim, Benjamin também estava tentando se ajeitar dentro do caos. Mesmo depois de tantos séculos, ainda se perguntava qual de fato era seu lugar. Não era com Amuh e seu clã egípcio e muito menos com Tia. E foi por isso que o vampiro que controlava os elementos havia feito as malas e ido embora. De alguma forma, depois de vagar por muitos países, havia parado nos limites de Forks e reencontrado uma figura de seu passado não tão distante.
E assim começou sua amizade com a mais nova da família Cullen.
A história de Renesmee se resumia basicamente a um coração partido pela traição. A partir daí, a garota resolveu tomar as rédeas da própria vida e abrir mão do berço de ouro ao lado da família para viver sozinha e trilhar o próprio caminho. Benjamin achava que ela estava indo muito bem, exceto por noites como aquela que estavam tendo.
A bebida sempre seria o ponto fraco da ruiva.
O vampiro suspirou e a depositou cuidadosamente na cama, a livrando dos saltos e a despindo do vestido justo de lantejoulas, a deixando apenas com as peças íntimas. Procurou não olhar muito, embora soubesse que a híbrida não se importava. Já haviam compartilhado o banheiro em situações mais comprometedoras, de qualquer forma.
Indo até o guarda-roupas, ele encontrou um dos pijamas de flanela que ela gostava e a vestiu, ouvindo os roncos leves dela. Quando teve certeza que a amiga estava confortável, Benjamin puxou as cobertas e beijou a testa dela, desejando um boa noite que foi respondido com mais roncos.
O vampiro rolou os olhos e se dirigiu até a saída, preparando todas as coisas que ela precisaria ao acordar. Só então ele saiu, fechando a porta atrás de si, pronto para voltar até a boate e terminar a noite como pretendia.
...
Renesmee sempre esquecia o quão ruim poderia ser a ressaca no dia seguinte. Se lembrasse, não ficaria bêbada tão facilmente como era de costume. Ela acordou com a luz do sol lhe golpeando os olhos, o que a fez praguejar. Mesmo assim, levantou e se arrastou pelo cômodo, jurando que alguém havia lhe acertado a cabeça com um taco de basebol.
De olhos estreitos, ela foi até a cozinha beber água e antes que abrisse a geladeira, um bilhete grudado na porta a chamou atenção.
Tome a aspirina e beba bastante café. Nos vemos mais tarde.
— B.
Os olhos claros da híbrida vagaram pela cozinha, se detendo na bancada americana e no que estava sobre ela. Uma garrafa de café, uma cartela de comprimidos e uma sacola do seu fast food favorito. Benjamin realmente sabia como tratar uma garota de ressaca, o que significava que ela deveria ter passado dos limites na noite passada e vomitado muito.
— Merda!
Renesmee esfregou as mãos no rosto, sentindo-se envergonhada e burra ao mesmo tempo, sentimentos já familiares para a ruiva.
Desanimada, ela apenas puxou um banquinho e sentou-se em frente a bancada, encostando a testa contra o mármore frio. Eram em dias como aquele que queria voltar correndo para a antiga vida ao lado de sua família e de Jacob Black.
Black. Aquele canalha dos infernos. Tudo aquilo era culpa dele, desde a sua independência forçada até a ressaca indesejada. Se o quileute não a tivesse posto um par de chifres com Leah Cleawater, a história seria diferente.
Porém, não teria vivenciado todas as coisas que vivenciou depois de sua mudança para Port Angeles. E, acima de tudo, não teria reencontrado Benjamin. Ele. Seu melhor amigo e companheiro de festas. Enquanto Renesmee tinha o coração partido, Benjamin tinha a alma danificada. Talvez fosse por isso que se davam tão bem: ambos eram danificados.
E pensar nisso fazia as borboletas em seu estômago despertarem e alcançarem vôo, embora ela repetisse para si mesma que era apenas a ressaca embrulhando seu estômago, nada mais e nada menos.
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