We must be killers
4 Gasoline
Notas iniciais
Você já teve aquela amiga que tenha dado as costas para você? Totalmente transformada, de alguém que você costumava conhecer... Em outra pessoa? Não estamos falando do seu namoradinho de infância que de um dia para o outro cresceu e se tornou um ótimo jogador de basquete, ou da sua colega de acampamento que um dia te ligou no seu aniversário e vocês não tinham nada para conversar. Estou falando sobre sua alma gêmea. A garota sobre quem você sabe tudo. Um belo dia ela aparece e é uma pessoa completamente diferente.
Bem isso acontece.
Isso aconteceu em Queens.
— Cuidado, Thalia. Seu corpo vai ficar paralisado desse jeito. — Silena Beauregard abriu uma caixinha marrom e tirou de lá um pequeno saquinho transparente.
Thalia Grace revirou os olhos levantando a coluna e encarando Silena com os olhos extremamente azuis.
— Você parece a minha mãe falando! — Alguém deu duas batidinhas na porta entrando logo depois. Era Afrodite, mãe de Silena.
— Meninas — ela cumprimentou, sorrindo. Os cabelos estavam presos em um penteado bonito demais para alguém entender. Ela vestia um vestido de gala longo e Thalia pode jurar ver tudo através dele. — Eu e Jim vamos sair para jantar tudo bem? Fiquem a vontade.
No mesmo instante, um homem, parou no batente da porta. Estava vestido em um terno tão preto e elegante que as garotas encararam consideravelmente. Jim enlaçou os dedos ao redor da cintura de Afrodite, e Thalia pode sentir Silena vacilar por um minuto.
Era uma sexta-feira à noite, perto do final do sétimo ano e um grupo de amigas íntimas — Silena Beauregard, Thalia Grace, Annabeth Chase, Piper Mclean e Reyna Avilla — estavam reunidas no quarto de Silena.
— Bem, não cheguem tarde de todo modo — Silena jogou os ombros para trás e virou a cabeça de lado deixando a mostra seu pescoço.
— Vamos ao Res'ss Ale. — Afrodite disse sorridente.
— Ótimo! — Annabeth Chase largou o telefone celular em cima da poltrona azul do quarto de Silena. — Eu e meus pais fomos lá semana passada! É realmente ótimo!
— Tudo bem — Jim olhou ao redor — Temos que ir.
— Se comportem — Afrodite deu um beijo em cada uma das filhas, antes de sair. Jim deu uma ultima olhadela para as meninas, em especial seus olhos pousaram em Silena.
— O que foi isso? — Thalia provocou- Esta flertando com o namorado da sua mãe?
Ela soltou uma gargalhada, fazendo com que todas ficassem constrangidas.
O telefone de Silena fez um barulhinho. Ela o alcançou, o abriu e se virou de modo que ninguém conseguisse ver.
— Que maravilhoso! — seus dedos voavam no teclado conforme ela digitava o texto.
— Para quem você esta escrevendo? — a voz de Annabeth soou baixa e indiferente.
— Não posso contar. Sinto muito — Silena respondeu.
— Não pode contar? — Piper estava furiosa — O que você quer dizer com não pode contar?
Silena deu uma olhadinha para a irmã.
— Desculpa princesa. Você não tem que ser informada sobre tudo — Silena fechou o telefone e o colocou na mesinha ao lado da cama — Não comecem ainda, preciso comer alguma coisa.
Ela se levantou rapidinho da cama e seguiu para a cozinha.
— Vou ao banheiro.
Thalia deslizou para fora da cama calçando as pantufas cor-de-rosa de Annabeth. Ela desceu as escadas rapidamente e seguiu para a cozinha.
— Eu fui tão convincente hoje não fui? — Silena se escorou no balcão enquanto mordia uma maçã — Elas realmente acreditaram naquilo!
— Tenho certeza que Piper fará tudo sozinha.
— Você viu a cara dela? Ela acha que eu e Jim temos um caso! — Silena sussurrou.
— Amanhã ele vai estar fazendo suas malas.
E ali começou a ter segredos. Mensagens de texto, telefonemas e risadinhas secretos sobre coisas que apenas as duas sabiam. Annabeth não havia feito com que todas prometessem que iriam contar umas as outras tudo, absolutamente tudo, ate o final dos tempos?
Bem, o que elas não imaginavam é que bem ali, encostada na parede oposta ao corredor, uma garota escutava tudo atentamente. E ela não gostava de segredos.
We must be killers
Na manhã de sábado, Annabeth estava na rede de seu quintal virando as páginas do livro Anna Karenina tentando inutilmente desviar a atenção dos sons ao fundo. Acontece que bem ao lado, na casa dos Jackson's o barulho era completamente infernal. Alguém fez questão de ligar alguma musica dos anos 70 e Annabeth tinha quase certeza que aquilo tinha a ver com a breve discursão com Percy Jackson alguns dias atrás.
Os olhos de Annabeth reviraram ao ver o garoto caminhar calmamente ate a cerca que separava as duas casas. Seu sorriso debochado estava ainda pior naquela manhã.
— Como vai loirinha? — ele perguntou tentando chamar a atenção da garota.
Annabeth fechou o livro levantando-se da rede e abrindo a porta dos fundos. Uma rajada de vento bateu contra o seu rosto e ela percebeu um pequeno papel grudado na porta como um envelope. Estava com o nome Annabeth escrito em letra de forma e parecia ter sido deixado ali há dias porque o papel estava completamente enrugado e sujo.
— O que é isso? — ela ouviu Percy perguntar, mas já estava abrindo o envelope.
Suas mãos trabalharam agilmente com o papel, mas assim que ela viu realmente do que se tratava um grito agudo saiu de sua boca e ela deixou as fotos e o envelope caírem no chão como se fossem nada.
— O que tem ai? — perguntou novamente Percy aparecendo por um buraco da cerca. Ele correu ate a garota se agachando para pegar o que ela derrubou. Seus olhos se estreitaram em um horror repentino — Que droga!
Havia quatro fotos dentro do envelope, mas foram suficientes para que os dois adolescentes presentes ali se assustassem como duas crianças de sete anos. A primeira foto mostrava Annabeth na cabana de Luke completamente molhada pelas gotas de chuva que caíam naquele dia. A segunda mostrava a caminhonete de Luke completamente em chamas. Mas as outras duas eram tão horríveis que Annabeth ainda sentia seu estômago revirar mesmo tendo visto de relance. A terceira mostrava exatamente como o carro de Luke havia ficado completamente destruído tanto por fora quanto por dentro, já a segunda mostrava um corpo irreconhecível e carbonizado encima de uma maca azul. Percy engoliu em seco recolocando as fotos dentro do envelope. Mas ainda não havia acabado. Dentro de um envelope ainda menor, tinha vindo uma única foto, tão pequena que Annabeth não reconheceria se Percy não estivesse lá. Era a foto de uma garota ruiva sorrindo como se nada fosse ruim no mundo. Escrito no verso da fotografia uma mensagem, também em letras de forma: Eu quero que faça exatamente o que eu disser, e ninguém se machuca.
We must be killers
— Você acertou? — Reyna Avilla perguntou a irmã mais velha, Hylla, inclinando o pescoço para ver de um ângulo melhor. O céu estava começando a escurecer e as luzes dos postes ainda não estavam acesas.
— É claro que sim! — a garota se gabou olhando para a flecha no alvo.
— Isso foi pura sorte! Não entendo como posso ser tão ruim nesse tipo de coisa.
— Reyna, o que esta acontecendo? — a irmã perguntou mirando mais uma flecha.
— Não quero mais ser indefesa, Hylla. Quero ser forte. — ela rebateu — Não quero ter que olhar para alguém com medo, e não quero ter receio em andar sozinha em algum lugar.
— Sua mira é perfeita.
— Ela era.
Hylla virou-se para irmã retirando o arco de si.
— Quero que tente. — Reyna segurou uma flecha — Mire no alvo e solte. É tudo uma questão de mira, e a sua é perfeita.
— Vamos ver.
Ela endireitou a postura tentando acabar de uma vez com aquilo. Era mais difícil do que se parecia e mais pesado também. Seus olhos focaram no alvo e ela soltou, antes da hora.
— Precisa se concentrar — ouviu a irmã dizer antes de seguir para dentro. Reyna revirou os olhos pegando outra flecha tentando se sair um pouco melhor. A segunda acertou o lado esquerdo do alvo de relance.
— Bela pontaria — ela ouviu e tentou reconhecer a voz — Ou não.
Leo Valdez nunca havia ido a sua casa pessoalmente. Não desde a sexta série. Quando tinha onze anos Leo havia se metido em uma briga e Reyna se intrometeu. Um bebedouro foi quebrado e alguns ossos também.
— O que esta fazendo aqui? — a garota perguntou transparecendo seu constrangimento.
— Sua irmã me deixou entrar.
— Não perguntei como entrou, mas sim o que veio fazer aqui — Reyna não tentou parecer grossa, mas quando se tratava de Leo tudo o que conseguia eram respostas rápidas e grossas. — Não me diga que quer me fazer contar outra mentira.
Ela viu Leo revirar os olhos e se sentar em uma cadeira perto de onde ela estava. Seu coração palpitou ao segurar a flecha mais uma vez. Ela mirou novamente e fechou os olhos soltando a pressão.
— Não feche os olhos — o garoto advertiu — Nunca vai saber o que esta fazendo se não abrir os olhos.
— Eu sei o que estou fazendo não preciso que me ensine — Ele pareceu a ignorar, pois se levantou da cadeira e se posicionou atrás da garota pressionando seu corpo contra o dela e logo em seguida pegando uma de suas mãos.
— Você precisa focar em um ponto só — Ele sussurrou passando sua outra mão ao redor da cintura dela. — Agora é só soltar.
Reyna fechou os olhos e logo em seguida os abriu novamente empurrando Leo para longe.
— Não encosta em mim — ela deixou o arco no chão e seguiu para a cozinha — Hylla!
— Ela não esta — Leo disse indiferente — Saiu assim que entrei.
— Ótimo! — seus olhos rodearam o local e ela finalmente encarou Leo — O que esta fazendo aqui? Digo o que realmente veio fazer aqui?
Ele a encarou por um breve instante antes de responder. Talvez estivesse procurando as palavras certas.
— Queria saber como você estava com tudo isso — Leo vacilou batendo os dedos contra o balcão — Depois daquele dia nós não tivemos notícias suas então...
— Nós? — Reyna perguntou tentando não demonstrar sentimento nenhum.
— O que disse aquele dia sobre Silena Beauregard era verdade?
— Por que eu mentiria?
Leo vacilou novamente virando o rosto em direção à sala de jantar que ficava a poucos metros.
— Eu não sei, é que talvez seja difícil acreditar em coisas como essa.
Ela não concordou e nem ao menos tocou novamente no assunto. Eles apenas ficaram ali, olhando para o nada. Presos em um mundo diferente, mas com os mesmos problemas.
— Então — Leo começou — Por que se mudou no fim do sétimo ano?
— Bem, meu pai conseguiu uma promoção em outro estado. Fomos para lá. Nada demais.
— Eu lembro de como Annabeth sentiu sua falta.
O silêncio novamente se estendeu no ambiente.
— Você vai ao American Girl hoje a noite? Tenho certeza de que estará i-m-p-e-c-á-v-e-l. — ele sorriu ao pronunciar cada letra.
— Não sei. Alguma coisa me diz que eu não deveria.
— Talvez sua consciência esteja te dando um recado obscuro.
We must Be Killers
Annabeth prendeu os cabelos em um coque mal arrumado e logo em seguida colocou sua coroa de flores. Estava tudo tão frio e sem cor que ela tinha certeza estar fantasiada de morte. O vestido longo e rodado era inteiramente preto e as flores em sua coroa estavam cinza e sem vida. Bem, logo após de ler aquele envelope ameaçador, uma caixa marrom escura a esperava em seu quarto.
" Faça exatamente o que eu disser e ninguém vai se machucar".
Quem quer que tenha escrito isso não parecia estar de brincadeira considerando o fato de receber fotos como aquela. Talvez Nico tenha finalmente decidido se vingar de Annabeth. Talvez ele a tenha visto aquele dia com Silena e apenas não quis a envolver naquele momento para que pudesse a pegar depois.
E conseguiu.
Annabeth calçou os tênis desbotados que vieram dentro da caixa. Tudo era tão mórbido. Como se alguém fosse morrer hoje.
— Filha? — Atena Chase deu leves batidinhas na porta antes de entrar. Seus cabelos negros caíam ate os ombros e seus olhos estavam completamente destacados em uma sombra azul — Por que esta vestida assim, Annabeth?
— Gostaria de experimentar algo diferente — mentiu — Achei que hoje seria o dia perfeito.
A mãe concordou visualizando a filha novamente de cima a baixo.
— Tem um garoto lá embaixo. Disse que é seu acompanhante.
— Tudo bem.
Annabeth umedeceu os lábios descendo as escadas. Degrau por degrau. O garoto estava sentado no sofá branco de sua sala, com os pés na mesa de centro e as mãos atrás da cabeça.
— Esta tentando me tirar do serio? Não vai conseguir.
— Não tenho nem paciência de ouvir sua voz.
Percy Jackson revirou os olhos olhando a garota parada a sua frente.
— O que esta olhando?
— Por que esta vestida de morte? Não sabia que era festa a fantasia. Na verdade se soubesse teria me vestido de...
— Cala a boca!
Ela seguiu para a porta de saída com Percy atrás de si. Em seguida entrou em seu carro.
— Por que não vamos na minha moto? — ele perguntou na janela.
— Entra — Ela tirou um papel de dentro do bolso lateral do vestido — Aqui. Isso veio pregado naquela caixa idiota.
Percy pegou o papel em suas próprias mãos. Tratava-se de uma lista de coisas que Annabeth deveria fazer para que ninguém se machucasse.
1 — Deverá usar esse figurino nesta noite para que todos possam ver a morte em pessoa.
— Essa pessoa tem senso de humor.
— Esta brincando com a minha cara? Isso tudo é coisa seria Jackson! Talvez nada disso estaria acontecendo se tivéssemos contado a polícia.
— Vai realmente dizer isso? — Percy estava furioso — Isso tudo é culpa sua! Se não fosse por você nada disso teria acontecido. Você é uma pedra no sapato de todo mundo.
Annabeth continuou dirigindo em silêncio enquanto pensava no que estava acontecendo. Tudo estava tão confuso. Primeiro Silena foi exposta em público, depois ela recebeu um envelope estranho com fotos daquela noite. Alguém estava brincando com eles isso era certeza. Mas quem? Quer dizer, todos desconfiavam de Nico, mas ele realmente seria capaz disso? Quem tiraria fotos da própria irmã carbonizada e mandaria apenas por uma vingancinha barata? E o que ele queria que ela fizesse naquela noite afinal?
Eles chegaram na entrada iluminada de Half Blood. Annabeth desceu primeiro levantando a barra do vestido e tentando não chamar muita atenção, o que era extremamente difícil com Percy ao seu lado.
— Não parece nervosa — ele sussurrou andando ao seu lado.
— Não fala comigo.
— Olha — ele a puxou pelo braço fazendo com que Annabeth bufasse contrariada — Não estou aqui para te ajudar ou algo do tipo. Estou aqui por que você recebeu a foto da minha namorada dizendo que se não fizesse tudo certo alguém se machucaria e tenho a leve sensação de que será ela. Então pode, por favor, tentar se dar bem comigo pelo menos hoje? Annabeth se soltou caminhando novamente ate a entrada. Ela passou pelos seguranças, mas algo a fez parar de repente. Era a voz de Luke. E ele não parecia feliz.
— Annie? — o garoto perguntou andando ate à namorada — Por que não me ligou? E por que diabos esta vestida assim? — depois de algum segundo Luke finalmente pareceu perceber quem estava ao lado de Annabeth — O que ele esta fazendo aqui? Você é a acompanhante de Percy Jackson?
— Não exatamente.
— O que quer dizer com não exatamente?
— Luke – Annabeth abraçou o namorado sussurrando em seu ouvido – Não posso explicar agora, você tem que entender.
Luke se virou jogando o copo que segurava no chão e caminhou para longe.
Annabeth revirou os olhos pela infantilidade do namorado. O vestido estava começando a ficar pesado demais assim como aquela coroa estupida.
— Parece que ele ficou furioso.
Annabeth empurrou Percy para longe entrando em Half Blood.
O salão de entrada estava cheio de flores de todos os tipos. A maioria dos alunos dançavam em volta de uma fonte de água. Percy tentou localizar alguém conhecido, mas inutilmente, visto que havia tantas pessoas aglomeradas que ele teve que grudar em Annabeth para não a perder de vista. Depois de alguns minutos andando os dois puderam ver Leo Valdez segurando um ponche parado em meio a tantas pessoas.
— Viu Rachel E’dare em algum lugar? — Percy perguntou ao amigo.
Leo olhou para a garota loira ao lado de Percy e deu um sorriso de lado.
— O que diabos você esta vestindo? Isso é uma festa não um enterro.
Annabeth fechou os olhos com força contando ate 10. Uma mania comum em passar a raiva.
— Você viu Rachel ou não?
— Cara, eu não presto atenção na ruivinha! — Leo sorriu bebendo a bebida de uma só vez — Mas tenho certeza de que a vi no corredor principal quando cheguei. Ela parecia perdida.
— Tudo bem — Annabeth concordou pegando novamente o excesso do vestido nas mãos.
— A regra numero 2 é: vá com alguém ate o laboratório e pegue o restante das fotos.
— Tudo bem, vamos nos dividir — Percy concordou — Você pega as fotos tudo bem? Eu procuro sua namorada.
— E se alguma coisa acontecer?
Ele perguntou, mas Annabeth já havia partido.
O corredor ficava completamente vazio em festas como aquela. A não ser – é claro — quando alunos pervertidos decidiam se pegar no lugar era escuro e silencioso. Em momentos diferentes, Annabeth nunca se aventuraria em lugares como aquele sozinha, mas considerando a quantidade de adrenalina em seu corpo e o medo ela estava mais corajosa que o normal. Annabeth seguiu para a porta de saídas ainda sem sinal de Rachel, ou qualquer pessoa. Passou pelos corredores vazios e observando os armários cinza claro. Uma luz foi acesa e ela se virou para trás procurando o responsável.
— O que esta acontecendo? — Leo Valdez perguntou. A camisa que ele vestia estava apertada em seus ombros e ao seu lado uma garota, bem menor, se encolhia por conta do frio.
— Reyna? — Annabeth perguntou olhando para a antiga amiga.
Desde que havia chegado de volta a cidade, Reyna e Annabeth não tinham trocado mais que poucas palavras. Elas costumavam precisar uma da outra quando eram menores. Agora isso não era comum.
— Annabeth o que esta acontecendo? — Leo repetiu a pergunta. A luz foi apagada novamente fazendo com que a loira deixasse cair o papel que segurava. — O que diabos foi isso?
— Leo, alguém esta aqui!
O celular de alguém fez pip. Era o de Annabeth. Mas o de Reyna também tocou segundos depois e em seguida o de Leo vibrou no bolso da calça jeans
Você não me obedeceu então eu acho que outra pessoa vai pagar a conta.
O coração de Annabeth palpitou e ela correu para o gramado de Lacross. Leo e Reyna estavam atrás dela, confusos sem entender completamente nada. O gramado se iluminou revelando uma garota ruiva de costas. As luzes estavam diretamente apontadas para o seu rosto o que significava que na claridade era difícil ver alguma coisa. Sem saber por que, Annabeth pressentiu algo estranho e apressou o passo descendo as arquibancadas e seguindo ate a garota. Súbito por detrás de Rachel foi surgindo uma sombra escura, uma coisa... Inconcebível. Rachel soltou um grito alucinante caindo no chão, desacordada.
Annabeth ficou estática por um momento.
— Rachel! — Reyna gritou.
Depois de recuperar as forças, Annabeth correu em direção à garota e sob toda aquela luz viu que ela estava banhada de sangue, com um ferimento no pescoço.
Reyna soltou um grito de horror ao ver a garota encharcada do líquido vermelho. Depois de meio segundo voltou para o grande salão onde o restante dos alunos se divertiam.
— Ela foi atacada! — Reyna gritou correndo para onde as pessoas dançavam — Há sangue por toda parte.
Annabeth sentiu imediatamente a gravidade da situação, abaixou-se e pressionou os dedos no ferimento para ver se tardaria a hemorragia.
— Não saia dai! — Leo gritou seguindo Reyna, desesperado pedindo por ajuda.
We must be killers
— Onde ela esta? — Percy finalmente apareceu. Seus cabelos estavam completamente bagunçados e as roupas amassadas. Ele parecia ter voltado de uma maratona — Não acredito que deixou isso acontecer!
Annabeth mal conseguia levantar o rosto. A situação de Rachel era grave. O exame médico acusou ferimento causado por objeto extremamente pontiagudo na altura do pescoço com lesão não profunda na carótida externa.
— Choque hemorrágico — disse o cirurgião quando a moça chegou desacordada.
Agora sentada ali, com as mãos sujas de sangue Annabeth se perguntava o que havia feito de errado. Talvez fosse a hora de envolver a policia.
— Não foi culpa de Annabeth, Percy — Leo comunicou — Nós tentamos ajudá-la.
— Bem, parece que não foi o bastante.
Leo abaixou a cabeça entendendo a grave situação em que se encontravam. Mas o que diabos estava acontecendo? Ele não entendia mais nada. Quando Percy e Annabeth chegaram, preocupados procurando por Rachel, ele soube que havia algo de errado e desconfiou de alguma coisa relacionada ao incidente com Silena há poucos dias.
— Os pais de Rachel já vão chegar — Reyna suspirou passando por Percy. Ela não parecia nada bem. Havia alguns pingos de sangue em seus braços de quando ajudou Annabeth a se levantar. Os cabelos estavam completamente embaraçados e seu hálito cheirava a cerveja barata. — Acho melhor irmos embora.
Annabeth discordou por um instante. Talvez ela ainda estivesse em estado de choque.
— Tenho certeza de que devem ir embora — Percy completou seco — Eu vou ficar ate que ela esteja bem.
— Percy eu sinto muito...
— Você não sente nada! — O garoto estava furioso — A única coisa que eu te pedi foi para não deixar nada de ruim acontecer a ela e olha só onde nós estamos.
— Isso não foi minha culpa! — Annabeth gritou se levantando de onde estava sentada — Se quer realmente culpar alguém, talvez devesse culpar a si mesmo por não ter chamado a polícia quando isso começou.
— Annabeth, vamos embora — Leo colocou as mãos em seu ombro tentando aliviar a tensão do ambiente – Não há nada que possamos fazer.
We must be killers
Reyna desceu atordoada do carro de Leo tentando segurar o choro enquanto não entrava. O garoto estava ao seu lado e ela tinha certeza de que Annabeth observava tudo de dentro do carro, talvez ainda mais atordoada que ela.
— Você vai ficar bem? — ele perguntou preocupado.
— Espero que sim — Reyna abriu a porta de entrada seguindo para dentro — Vejo você depois.
— Tudo bem — Leo respondeu, mas a garota já havia fechado.
Reyna deslizou pela porta soluçando baixinho. Ela não chorava desde meses atrás quando recebeu a notícia confirmando que Bianca Di Ângelo estava morta. Ela não sabia o que pensar sobre o que havia acontecido na festa. Queria acreditar que Rachel estava bem e que aquilo não tinha nada relacionado a noite em que sua vida mudou completamente. Reyna se levantou passando as mãos pelo rosto molhado e seguiu ate a cozinha. Ela partiu uma fatia de torta dinamarquesa ao meio e enfiou um pedaço dentro da boca. Sua cabeça latejava, Queria que as coisas voltassem a ser como antes, quando usava meias ¾ e voltava da escola com suas amigas. Estar contente consigo mesma e não se sentir culpada pela morte de ninguém.
Ela precisava de um pouco de ar.
O quintal onde havia estado horas atrás estava completamente deserto. O cachorro de alguém estava latindo, mas tudo parecia calmo.
O velho arco de Hylla estava encostado junto às ferramentas. Reyna o ergueu, torcendo para que ainda tivesse coordenação motora para lidar com as flechas. Ela pegou uma flecha, mas havia alguma coisa grudada nela, um pedaço de papel estava preso com fita adesiva. Ela o puxou leu algumas linhas. Espere. Era sua própria letra.
“... e eu acho que algo esta acontecendo entre Thalia e Silena. Sabe a história sobre Jim, e os outros namorados de Afrodite flertar com Silena? Bem é mentira. E pior... Thalia sabe de tudo por que é ela quem ajuda Silena a separar sua mãe dos namorados.”
Os olhos de Reyna percorreram o perímetro. Aquilo era o que ela pensava? Nervosa, ela pulou para o final, sua boca estava seca.
“... e eu pensei muito sobre o que vi no outro dia. Eu entendi: aquilo não era uma brincadeira, Annie. Eu acho que você deve fazer alguma coisa antes que as duas saiam encrencadas dessa história. Fale com Silena, ela sempre escuta você. Mas eu posso entender se não quiser falar com ela sobre isso, mas eu tinha que te dizer isso. – Reyna.”
Tinha alguma coisa mais escrita do outro lado do papel. Ela o virou.
Pensei que você poderia querer isso de volta.
Reyna deixou as flechas despencarem no chão. Aquela era a carta que havia mandado para Annabeth logo após escutar a conversa entre Thalia Grace e Silena Beauregard. Ela ficava se perguntando se Annabeth sequer chegara a recebê-la. Reyna se sentou no chão e olhou para o bilhete e leu “Pensei que você poderia querer isso de volta” outra vez. Se Reyna se lembrava bem, a letra de Annabeth parecia bastante com aquela.
Não havia ocorrido a Reyna que talvez Annabeth tivesse contado para o restante de suas amigas.
Não havia lhe ocorrido que talvez ela tivesse contado a Piper.
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