We must be killers
10 Confiança
Notas iniciais
Pessoas escondem coisas umas das outras. Elas mentem, enganam, contam piadas, dizem aquilo que acham que você quer ouvir. Observem um pouco mais as pessoas ao seu redor. Olhe para elas de maneira diferente.
Você confia nelas?
Confia na garota que induziu você a cometer um crime e esse crime levar a morte de uma pessoa?
Confia na sua ex-melhor amiga a quem acabou de descobrir que transava com seu namorado?
Mas acima de tudo, você confia em si mesmo?
Piper Mclean afundou o rosto na banheira e esperou se afogar na própria desgraça. Ela queria chorar. Na verdade, provavelmente já estava chorando. Era difícil saber com águas entrando pelas narinas, mas ainda assim podia sentir o turbilhão de sentimentos em seu peito. Sua irmã tinha ido embora. A única pessoa por quem se importava a tinha deixado naquela situação completamente sozinha.
...mas viver fugindo é melhor do que morrer e ter seu sangue espalhado em uma pedra...
Ela podia ver o exato momento em que a irmã escreveu aquilo. Sentada em algum lugar da casa, com a caneta entre as mãos. Os cabelos voando em volta de seu rosto e a serenidade em seu olhar.
Piper queria gritar. Estava ficando sem ar. Dane-se, ela pensou. Mas logo levantou a cabeça. Será que era tão difícil assim tentar se matar?
Mais tarde enquanto deitava em posição fetal em seu quarto ela abriu a carta da irmã mais uma vez. Já estava amaçada de tanto que Piper apertou, mas isso não importava. O que diria a Afrodite? Bem, provavelmente Silena já teria resolvido tudo. Talvez tivesse dito a mãe que passaria um tempo na casa dos avós paternos. Ou passaria algumas semanas com os irmãos de seu pai. Isso de fato não importava, pois Silena não estaria em nenhum desses lugares. Os olhos dela encheram de lágrimas. Sentiu uma tremenda raiva. Ódio. E embora isso não fosse bom, a raiva era bem vinda. Por que ela encobria a dor. Piper dobrou o papel e deixou que as lágrimas escorressem.
Uma especialista em ser deixada para trás.
●●
— Quero que observem os lados opostos e consigam entender por que isso acontece.
Na terça-feira de manhã, Reyna tentava a todo custo prestar atenção na aula de trigonometria. Mas aquilo era possível? Além de ter que lidar com um possível maníaco a observando em todo lugar, tinha que se acostumar ao fato de que talvez esse mesmo maníaco soubesse sobre o que aconteceu quando ela estava fora. Quando ela não estava em Nova York.
Quando ela não estava nas ruas de Queens.
Ela estremeceu quando o sinal indicando a troca de aulas tocou. E depois se esgueirou para fora da sala, entrando na multidão de alunos.
— Como você esta? — alguém começou a acompanhar pelo caminho ate o refeitório.
Ela não precisou se virar de lado, para saber que era Luke Castellan. Ele era um pouco mais alto que ela, mas mesmo assim Reyna ainda tinha que inclinar levemente o pescoço para que pudesse olhar para o seu rosto.
— Eu estou bem — Reyna e Luke nunca conversaram mais do que duas palavras por semana. Ela não sabia por que ele estava falando com ela, mas então se lembrou de Percy e Leo no dia anterior. Será que ele também queria a ajuda dela? Poderia tentar o quanto quisesse.
— Eu preciso de um favor — Acertou em cheio! Reyna não precisava de uma bola de cristal para aquilo — Imagino que saiba que Annabeth voltará para a escola hoje.
Reyna estremeceu. Com tudo aquilo acontecendo, ela tinha se esquecido completamente de Annabeth. Ela prometeu a si mesma que visitaria a garota quando pudesse, mas realmente não se lembrou. Isso não acontecia quando costumavam telefonar uma para a outra no final de cada tarde. Mas isso foi a um longo tempo, e Reyna e Annabeth não tinham mais nada em comum.
— É claro — ela concordou.
— Eu bem... — ele coçou a parte de trás da cabeça como se estivesse nervoso — Espero que você fale com ela, como uma amiga sabe? Não posso pedir isso para Piper e muito menos para Silena. Thalia não fala comigo e Leo com certeza tem coisas mais importantes com o que se preocupar. Eu só queria que não a deixasse sozinha. Ela vai precisar mais de uma amiga do que de um namorado.
Não somos amigas. Não mais.
Ela pensou. Reyna nem percebeu quando chegou ao refeitório. O cheiro de ovos fritos enchia o local e ela torceu o nariz. Nesse momento ela enxergou Leo, Thalia e Percy em uma mesa com os braços levantados olhando para ela. Será que a estavam chamando? Que chamem! Ela não ajudaria ninguém. Quando ajudava pessoas, outras pessoas se machucavam. Encaminhou-se ate uma mesa e pegou uma bandeja. Bem nesse momento, ela se virou para a entrada e percebeu que alguns alunos estavam em silêncio. Logo todo o refeitório se calou e ela não sabia ao certo, mas olhou para Thalia, Percy e Leo na mesa e viu que eles olhavam para a mesma coisa que todo mundo.
Não era bem uma coisa.
Era uma garota. Era Annabeth Chase e não se parecia em nada com Annabeth Chase. Ela tinha deixado os longos cabelos encaracolados extremamente lisos e seu rosto estava com alguns hematomas roxos, desde a testa ate as bochechas. Algumas pessoas começaram a cumprimentá-la e logo ela já estava rodeada de pessoas. Reyna voltou com a bandeja vazia se sentando ao lado de Thalia na mesa ignorando por hora a vontade de se afastar.
— O que aconteceu com ela? — Thalia perguntou olhando Luke envolver a namorada em um abraço.
— Ela só precisou de um minuto para se tornar mais popular do que já era — Leo murmurou.
— Ótimo — Percy se levantou pegando sua bandeja — Vamos aplaudir!
O refeitório ainda estava em silêncio nessa hora, então os rostos espantados não foram poucos. Alguém começou a rir lá no fundo, mas todo mundo estava quieto.
— O que você disse? — Luke perguntou soltando Annabeth e ficando entre ela e Percy.
— Você me ouviu gaguejar?
As vaias começaram. A briga estava armada. Em Half-Blood isso nunca acontecia com muita frequência, então um desentendimento era suficiente para que dois alunos que mal se falassem espancassem um ao outro.
— Luke isso não vale a pena.
Annabeth levantou o olhar para Percy e olhou por cima do ombro dele para Thalia, Leo e Reyna.
Eles sabiam que nunca se vira as costas para um Chase.
●●
— Não acredito que você fez toda aquela cena! — Leo sussurrou.
Ele, Reyna, Thalia e Percy estavam sentados na arquibancada da quadra de futebol depois de saírem do refeitório.
— Qual é Leo! Você sabe que Annabeth Chase precisa de um toque de realidade! A garota é uma mentirosa.
Thalia tirou uma casca de esmalte azul da unha.
— Você tem certeza do que leu? — ela perguntou — Não acho que Annabeth esconderia algo assim da gente.
— É claro que eu tenho certeza!
— O que a mensagem dizia mesmo? — Reyna perguntou. Ela estava entre Leo e Thalia, e mesmo que eles tivessem bem próximos há alguns dias, era como se estivesse entre estranhos.
— Eu já disse — Percy apertou os olhos — Algo do tipo: trinta dias, assassinos, e mais mortes.
— Como assim mais mortes? Eu não me lembro de nenhuma morte ser mencionada — Thalia encarou Percy tentando procurar algum resquício de exagero.
— Uma pessoa que enfia uma faca no pescoço de uma garota, bate com uma pedra na cabeça de outra e possui um covil no meio do nada não parece temer cometer algum assassinato.
Reyna estremeceu.
— Eu disse que devíamos contar a alguém.
— Contar a quem? A polícia? Nós iríamos para cadeia na hora. Eu tenho 18, Percy tem quase isso. — Thalia encarou a garota.
— Eu não sei. Se contássemos a Atena ou ao seu pai Percy...
— Você ficou maluca? — ele rosnou — Meu pai vai me matar se souber disso! Além disso, nunca poderíamos contar com Atena.
— Por que não? — Reyna apertou as mãos contra o peito — Ela é a melhor advogada daqui. Se tiver alguém que pode nos ajudar é ela. Além disso, a filha dela esta metida nisso e eu duvido que ela deixe Annabeth se ferrar.
— E é por isso que ela nunca pode saber.
— O que quer dizer?
— Que Atena pouparia um escândalo pra gente — ele olhou para os lados — Mas se formos acusados pela morte de Bianca, ela joga todos nós na cadeia pra salvar a filha. E Annabeth deixa.
●●
Piper se sentou na poltrona vermelha da sala de estar da casa de Jason enquanto bebericava uma Coca-Cola.
— Então...
Jason estava melhor do que o dia em que se conheceram. Ele usava uma blusa verde escura é jeans desbotados, mas mesmo assim continuava impecável.
Piper suspirou.
— Eu cheguei em casa — Ela apertou a lata nas mãos lutando contra a vontade de jogá-la ao longe — e ela não estava mais lá.
— Então ela simplesmente foi embora?
— Quem simplesmente foi embora?
Thalia Grace tirou os fones de ouvido e os jogou na poltrona ao lado de Piper enquanto olhava sugestivamente para a garota e para o irmão sentados lado a lado.
— A irmã dela — Jason se levantou.
— Silena foi embora? — Thalia perguntou perplexa — Quando diabos isso aconteceu? — ela gritou.
Piper se levantou ressentida. Ela também estava com raiva, mas droga! A irmã era dela. Thalia não tinha nada que ficar com raiva.
— Isso não é da sua conta — ela rosnou passando pela garota em direção à porta.
— Não é da minha conta? — Thalia gritou seguindo Piper para fora da casa — Estamos todos nessa Piper. Silena não pode desaparecer quando estamos todos na merda. Eu sabia que não se podia confiar naquela vagabunda!
Thalia gritou. Mas Piper já havia ido embora.
●●
— Thalia acabou de mandar uma mensagem. Ela disse que Silena fugiu.
Leo se sentou ao lado de Reyna. Eles estavam no quintal da casa dela enquanto observavam algumas nuvens diferentes no céu assumir formas estranhas. Era claro que a relação entre eles estava estranha desde a conversa com Percy. Reyna parecia realmente distante.
— Pelo menos ela fez uma coisa de certo na vida — Leo encarou a garota — Só quero dizer que depois do que aconteceu com Rachel e Annabeth, ela podia muito bem ser a próxima. Talvez devêssemos todos nos separar.
— É por isso que você se distanciou?
Reyna cutucou uma farpa do banco de madeira onde estavam sentados. Já estava quase anoitecendo e sua mãe chegaria logo do serviço. Ela nem teria tempo para segurar seu arco.
— Eu não me distanciei — ela disse — Nunca fomos próximos.
Seus ombros se tocaram e ela estremeceu. Estava ficando frio ali.
— Eu sei, mas é que você parece ser a única que realmente se sente mal com tudo isso.
— Você não?
— A única pessoa além de mim.
Ele sorriu. Reyna abraçou os próprios braços enquanto tentava se sentir mais quente.
— Eu tento fazer as coisas certas — ela o encarou — Mas às vezes da tudo errado.
Leo concordou.
— Fazer algo errado pode parecer certo quando se é pra alguém que ama.
— Eu sei — ela concordou — Eu às vezes penso que estou poupando minha família de mais uma decepção comigo.
— Mais uma? — Ele não queria ter dito aquilo, mas as palavras saíram antes que ele percebesse.
— Aconteceu uma coisa quando eu estava fora — ela cutucou um fiapo solto da manga de sua blusa — Eu estava em uma festa com alguns amigos. Tinha bebido e...
— Não precisa contar se não quiser- ele apoiou a mão em suas costas.
— Eu juro que foi um acidente — ela sentiu os olhos lacrimejarem — Eu passei duas noites na delegacia. Meus pais estavam fora quando telefonaram.
— Sinto muito.
— Eu atropelei uma garota e ela ficou tão mal. Eu não conhecia ela, mas ela perdeu muito sangue e eu não quero nem lembrar.
Ela se encolheu enquanto a mão de Leo massageava suas costas.
— Ela morreu?
— Não – Reyna olhou para cima enquanto tentava não chorar – E foi por isso que me deixaram sair.
— Você não precisa se sentir culpada pelo resto da vida.
Ele levantou o rosto dela com os dedos e passou as costas das mãos em suas bochechas.
— O que você...
Ela não conseguiu dizer mais nada, porque ele se aproximou e encostou os lábios nos dela. Reyna não se mexeu no início, mas depois que Leo envolveu a cintura dela com os braços ela conseguiu reagir e o abraçar também.
Quando eles se separaram, não foi ela quem o soltou primeiro.
●●
Á noite, Annabeth estava deitada em sua cama, instalada bem no meio de seu novíssimo quarto fitando o teto iluminado e lindo. O pai havia insistido na reforma de um quarto novo. Ele estava certo de que Annabeth esqueceria todos os problemas com isso. Tudo estava muito bem, exceto é claro pela dor de cabeça. Sua cabeça doía como se tivesse sido pisoteada por alguém. Ela se sentou e esticou os dedos para pegar o celular na mesa de cabeceira. Deslizou pela tela e leu a mensagem de novo. E de novo. E mais uma vez. Em seguida olhou o remetente, mas nada parecia ajudar a resolver quem havia mandado. Seus olhos vagaram pelo quarto em busca de uma resposta então ela se lembrou de alguém.
Alguém que a ajudaria se ela precisasse.
Enquanto atravessa o gramado irregular que separava sua casa da dos Jackson's ela olhou cuidadosamente para todos os lados antes de tocar a campainha. O que estava pensando? Ainda não sabia ao certo, mas quando a porta se abriu soube que não poderia voltar atrás.
— Annie? — Sally Jackson sorriu ao ver a garota parada a sua frente — Entre.
Annabeth agradeceu a gentileza.
— Então — Sally Continuou — Percy não está, mas se quiser esperar...
— Ah, eu não vim pelo Percy — Annabeth disse, mas temendo soar um pouco rude completou — Na verdade eu queria falar com seu outro filho.
Annabeth se virou no corredor estreito onde Sally havia dito que ficava o quarto de Tyson. Havia algumas portas, mas todas elas estavam fechadas. A mãe havia dito que a ultima porta a esquerda era onde Tyson ficava então Annabeth foi ate ela e bateu duas veze. Ela ficou um bom tempo esperando e depois ouviu passos pesados caminharem ate a porta e então um Tyson apareceu completamente surpreso e olhou para Annabeth.
— Annabeth? — ele perguntou e embora seus olhos estivessem arregalados, ela imaginou que ele tivesse acabado de acordar — O que está fazendo aqui? – e depois ele olhou para trás- Quero dizer, entra.
— Obrigada — ela passou sorrindo por ele enquanto observava o quarto de Tyson.
Era grande e possuía o básico que uma pessoa precisava. Uma cama, uma escrivaninha e uma porta que ela deduziu ser o banheiro.
— Então...
Tyson começou. Ele estava uma graça em uma camisa branca e uma calça de moletom preta.
— Eu queria saber se ainda é bom com computadores — ele juntou as sobrancelhas confuso — Eu preciso da sua ajuda.
— Eu posso saber com o quê?
Annabeth se sentou na cama. Ela não esperava contar a Tyson o que estava acontecendo, mas é claro que ele iria querer uma explicação. Qualquer pessoa iria querer.
— Tem esse e-mail- ela começou — Que tem me mandado algumas mensagens.
— Que tipo de mensagens?
— Do tipo que não se manda com o seu próprio nome assinado.
— Então são anônimas?
— Completamente — ela virou todo o cabelo loiro para um lado só — Eu só queria que você descobrisse de onde vem o endereço do celular.
— Você quer que eu o rastreei — ele sorriu.
— Tudo bem se não quiser fazer, ou se achar que vai se meter em confusão.
— Annabeth tudo bem — ele se sentou ao lado dela na cama — Eu consigo fazer isso.
Ela sorriu enquanto seus olhos encaravam Tyson sentado a poucos centímetros. Seus ombros se tocavam. De repente a porta bateu violentamente e ambos se viraram para trás.
Mas não havia ninguém.
●●
Piper abriu a porta de casa e encontrou a mãe desempacotando algumas caixas.
— Oi — ela sorriu — Não sabia que chegaria hoje.
— Houve um imprevisto — Afrodite envolveu a filha em um abraço — Você cortou o cabelo?
— Não mãe — ela sorriu, mas logo seu sorriso se desvaneceu e ela se lembrou de que a mãe provavelmente sabia onde Silena estava — Você sabe onde Silena esta?
Afrodite voltou a tirar algumas peças de roupas de certas caixas.
— Ela me telefonou. Disse que passaria alguns dias com o pai em Los Angeles.
O coração de Piper apitou. Ela estava certa, Silena já tinha arrumado tudo para que ninguém desconfiasse.
— Ela disse quando vai voltar?
— Não — Afrodite tirou do bolso o telefone — Piper eu tenho que fazer uma ligação. Peça uma pizza vou te contar tudo sobre a viagem.
A garota sorriu e se virou para a escada. Alguma coisa fez um barulho no corredor de cima fazendo sua mente ficar em alerta.
— Mãe! — ela chamou, mas podia escutar a voz da mãe na sala ao lado.
Outro barulho. Esse parecia o de algo se quebrando.
Seu coração doeu quando percebeu que poderia ser a irmã. Ela correu escada acima, mas não havia encontrado Silena em lugar algum. Quando ouviu o telefone tocar voltou à realidade. Era uma mensagem.
Não se pode brincar de gato e rato se o ratinho for para Los Angeles. Dez dias para trazer Silena Puta Beauregard de volta, se ela não voltar irei atrás dela com uma faca de açougueiro.
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