We know the name of the flower
6 O dia da Menma
Notas iniciais
Anaru passou o resto do dia me ligando. Eu ignorei todas as ligações, até o momento que ela finalmente desistiu.
Alguem também bateu a porta da minha casa, entretanto fingi que não estava. Deduzo que era Tsuruko ou até mesmo Poppo. Na verdade, qualquer um deles menos, Yukiatso. Sei que ele estava tão abalado quanto eu, e que não fazia questão de ir me ver.
Depois de muito pensar, acabei dormindo com a roupa do corpo, no sofá da sala. Não foi uma boa ideia, já que no dia seguinte, minhas costas estavam praticamente acabadas.
Mas nada estragaria o dia do almoço na casa da Menma.
Minha Menma.
**
Como eu não conversava com ninguém desde o dia anterior, eu não tinha muita certeza se eles iriam ao almoço. A única coisa que eu sabia, era que eu não perderia isso por nada.
Tomei um banho demorado, lavando os cabelos pretos com tanto shampoo, que acho que gastei mais da metade da embalagem.
Escovei os dentes e passei uma colônia masculina não muito forte. Fiz a barba – ou os fios de barba por assim dizer – que me incomodavam.
Já com a pele lisinha, cabelos arrumados, roupa limpa e um par de meias novas, sai da minha casa, indo até o endereço dado pela senhora Koyama.
E para a minha surpresa, eles estavam lá: Os super protetores da paz.
“Eu quero ser amiga de todos, até o fim”.
Eles pareciam me encarar com indiferença, como se não se importassem se eu estivesse ali ou não. Menos Yukatso e Anaru, já que ele me parecia irritado com a minha presença, e Anaru, como sempre que fica preocupada, veio pulando em minha direção, dando-me um longo e forte abraço.
-Você está bem? –Ela me perguntou, visivelmente abalada – Tentei te ligar, mas você não atendeu. Fui à sua casa junto de Tsuruko e batemos na porta, porém ninguém atendeu... Onde você estava?
-Tirando um tempo para mim – Senti os olhares raivosos de Yukiatso sobre mim. Afinal por que ele estava tão bravo, se quem começou toda essa briga foi o próprio?
-Bom saber que está bem, Jintan – Nós nos beijamos. Um beijo tão frio e sem emoção, que mal poderia ser considerado um beijo.
Caminhei de mãos dadas com Anaru, até a porta da casa onde a suposta nova “Menma” poderia estar. Estava incerto na verdade, se ela já havia recebido alta do hospital. Entretanto, o clima estava tão pesado que nem ousei abrir minha boca.
Todos estavam bem arrumados, como eu. Roupas novas, perfumes caros, meias sem furos no dedão – no caso do Poppo. Tudo isso era muito estranho. Não muito convencional. Digamos que era o suficiente para me deixar com borboletas no estomago, por um longo tempo, como em um encontro as cegas – cujo qual eu nunca tive, porém imagino que deveria ser assim.
A porta de correr branca de madeira se abriu, e a senhora Koyama apareceu, usando um vestido branco com um avental azul de florzinhas por cima.
-Boa tarde! – Nos cumprimentou sorridente – Entrem, entrem.
Ela deu passagem e nós nos adentramos a casa, tirando os nossos sapatos na porta.
-O almoço está quase pronto.
Tsuruko tirou de dentro da bolsa, uma caixa de chocolates caseiro.
-Um presente nosso para a senhora... – Ela entregou a caixa, curvando-se levemente.
-Oh, obrigada. –Ela pegou o chocolate e fez sinal para nós a seguirmos.
A casa era não muito grande, porém extremamente confortável: Paredes de cor pastel, um sofá branco aveludado, um grande armário de madeira com vidros brilhantes, onde se exibia taças de cristal e talheres de prata – provavelmente passado de geração a geração – e mantido com muito carinho pelo casal – especialmente pela senhora Koyama.
Perto do sofá, havia uma mesa de seis lugares, onde copos e pratos nos esperavam.
Com certeza, a mãe de Miya estava realmente agradecida pelo que fizemos a sua filha... Ao contrario da mãe de Menma, que até hoje não nos perdoou completamente.
-Miya está tomando banho – Ela comentou – Eu a deixei dormir até mais tarde...
Ninguém respondeu nada. Estavamos com muita vergonha para abrir a nossa boca.
E ela percebeu isso.
-Ah... O meu marido não poderá almoçar conosco... Ele está trabalhando...- Ela prosseguiu – Bom... vocês se conhecem a muito tempo?
-Sim, somos amigos de infância – Yukiatso respondeu – Praticamente crescemos juntos.
-Hum... Então todos vocês são daqui?
-Sim. Mas, vocês não me parecem ser daqui... – O quase loiro disse. Estava certo afinal, o casal falava um pouco diferente da gente, como as pessoas de grandes cidades.
-Somos de Osaka. A empresa que o meu marido trabalha o transferiu para cá. Confesso que isso veio em uma boa hora...
-Por que? – Anaru perguntou, cada vez mais entretida com a conversa.
-Miya... Ela não estava conseguindo se adaptar com a antiga escola. Era sempre a melhor da turma, porém era sozinha... Não tinha amigos. – Revelou cabisbaixa, passando a mão freneticamente pelos fios loiros.
Loiros. A mãe era loira.
O pai era moreno.
E a Miya tinha cabelos brancos.
Mais uma prova que isso não é apenas uma simples coincidência.
-Ela me parece ser tão legal... – Anaru comentou.
-Sim, mas não era culpa das pessoas de sua escola. Sua professora me contou que as pessoas a chamavam para participar das atividades em grupo, entretanto ela não aceitava. Nunca aceitava.
-Por que? – Eu esperei que alguém fosse mandar Anaru ficar quieta, porém acho que todos estavam envolvidos demais com a historia, para repreende-la de algo.
-Porque ela ficava falando que o seu lugar não era com eles, mas sim com os super protetores da paz...
Estavamos todos boquiabertos. Ninguém de nós poderia acreditar no que tinha ouvido.
Sim, super protetores da paz.
Menma.
Isso era um tapa na cara do Yukiatso.
-Su... Super protetores da paz? – Poppo murmurou. – Esse é o nome do noss...
-Shiuuu – Tsuruko o impediu de continuar. Não seria nada legal se a mãe da garota soubesse da verdade. Ela provavelmente não aceitaria.
-O.... O que mais ela dizia? – Tsuruko perguntou.
-Ela dizia que seus amigos a estavam esperando em um lugar secreto... E que ela precisava vê-los imediatamente... – Yukiatso passou a me encarar – Porém com o passar dos anos, ela foi acabando com essa fantasia... Agora ela esqueceu de vez, mas ainda não conseguiu fazer novos amigos... Nem nessa escola nova. – Ela fez uma pausa, então um pouco chateada, prosseguiu – Um dia eu perguntei por que ela andava sempre tão sozinha, e ela me respondeu “eu sinto como se faltasse um pedaço da minha vida”. Mas... desde o dia que ela caiu no rio... Algo aconteceu.
-O quê? – Nós perguntamos em uníssono.
-Ela parece estar mais... Feliz. Eu a peguei sorrindo para o nada no hospital, além de parecer mais animada, confiante... Por isso, eu não sei o que vocês fizeram com ela naquele dia, mas agradeço – Ela se curvou diante nós – Vocês não somente a trouxeram de volta a vida. Vocês trouxeram a minha velha Miya de volta a vida. Obrigada!!
Não sabíamos como responder a aquela demonstração tão intensa de gratidão.
Mais do que isso: Não sabíamos como reagir a aquilo tudo, despejado sobre nós tão de repente.
E antes que pudéssemos responde-la, uma figura apareceu atrás da senhora.
Miya.
Seus cabelos brancos – quase prateados- estavam soltos e brilhavam. Seus olhos azuis tentavam compreender o que estava acontecendo ali, esperando por alguma resposta nossa. Seus pés estavam descalços e havia alguns curativos em seu rosto.
E seu vestido branco era apertado pelas mãozinhas frágeis, com força.
Menma.
E o tempo que congelou aquele dia, voltou a fluir novamente.
Notas finais
Beijos e até sabado.
Fale com o autor