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7 Capítulo 7 – Completamente inútil.
Notas iniciais
Uma coisa era certa: Emily não se arrependia em nada do que havia feito. Apenas por um pequeno momento chegou a duvidar ter feito a coisa certa, mas sempre que a imagem de Rebecca invadia sua memória ela tinha mais certeza de que não tinha nada para se arrepender. A morena tinha correspondido em tudo, tinha correspondido ainda melhor do que o que ela imaginou ser possível e só esse conhecimento já deixava a menor com um sorriso nada discreto nos lábios.
Porém, definitivamente, era desagradável para a ruiva não ter notícias da outra durante uma semana quase inteira. Sim, Rebecca tinha sumido e nenhuma das duas havia tentado entrar em contato com a outra. Não por falta de vontade, mas ainda assim nenhuma teve coragem suficiente para mandar ao menos um sms.
Emily pensava em procurar a mais velha e pedir desculpas por ter agido daquela forma, mesmo que no fundo não sentisse real necessidade para tal. Depois de todos aqueles dias longe da morena ela sabia que preferia ter a amizade dela a não ter nada, mesmo que isso significasse deixar seus sentimentos apenas para ela mesma.
–-x--
– Ok, Rebecca. Já chega disso...
Melissa invadiu o quarto da amiga e abriu as cortinas para que o sol iluminasse o ambiente. Ignorou os protestos e os xingamentos irritados que eram direcionados a ela e puxou o cobertor de Rebecca.
– Levante, vá tomar um banho, tirar essa cara de ressaca e depois eu vou esperar a senhorita lá na sala para uma conversa bastante séria. – Rebecca revirou os olhos e pegou o cobertor novamente para se cobrir. – E você tem quinze minutos. É sério... Ou eu vou voltar aqui e não vai ser legal. – Melissa tinha o tom de voz elevado. Realmente estava irritada com a situação da amiga.
Rebecca conhecia aquele tom de voz da loira e os anos de experiência diziam que era melhor fazer o que ela mandava. Por mais que estivesse enjoada e sem a menor vontade de ter qualquer tipo de conversa, em especial a que sabia que a amiga queria ter com ela, levantou e rumou para o banheiro.
Deixou a água quente escorrer em seu corpo e fazer o trabalho de melhorar a sua aparência. Tomou um banho relativamente rápido e que não foi o suficiente para apagar sua fisionomia de ressaca. Vestiu uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta e foi se arrastando até a sala.
– E ai... – Rebecca murmurou quando Melissa entrou em seu campo de visão. Levantou dois dedos da mão direita fazendo um “v” esquisito e deixou o corpo cair no sofá.
Melissa sentou ao seu lado e entregou uma xícara de café para ela. O que involuntariamente fez com que Rebecca se lembrasse da única pessoa que ela havia passado a semana tentando esquecer. E óbvio: estava sendo inútil. A morena esboçou uma careta ao constatar, mais uma vez, que qualquer coisa por mais simples que fosse acabava fazendo com que ela pensasse na ruiva.
– Por favor, o que está acontecendo com você, Rebecca? Estava tudo bem até que de repente... PUFF – Melissa joga os braços pra cima ilustrando uma explosão – Você volta à merda do “Top Cinco”. Sai sem ter hora pra voltar, quando volta é com essa cara de quem bebeu todas. Não se importa com nada... E a Emi-
– A Emily não tem idade pra frequentar esses lugares... – Rebecca cortou seca.
Melissa ficou em silêncio esperando que a amiga falasse mais alguma coisa. A maneira como Rebecca falou de Emily apenas confirmou suas suspeitas de que a ruiva realmente estava envolvida com o motivo para o novo humor da morena.
– Quer me dizer o que aconteceu? – Emily sorriu tentando passar confiança para a amiga quando percebeu que ela não iria falar mais nada.
Rebecca respirou fundo e tentou pensar em alguma coisa para dizer que justificasse sua repentina mudança de atitude. Não tinha explicação plausível, na verdade, nada justificava o que ela estava fazendo embora para si mesma ela contasse que era a única maneira de tentar proteger a mais nova. E, na falta do que dizer, optou por falar tudo o que estava em seu coração.
– Bom... Eu beijei a Emily. Quer dizer... Ela me beijou. E eu beijei de volta. Depois eu beijei mesmo e ela... E eu... Gostei. – Rebecca corou e Melissa arregalou os olhos em surpresa.
– Oh meu... Ai meu Deus. Você... Vocês... – Melissa abriu e fechou a boca sem saber o que dizer. Juntou as pontas dos dedos das duas mãos imitando um beijo e fazendo os sons com os lábios.
– Meu Deus, não me faz me arrepender de ter contado... – Rebecca acertou uma almofada na amiga que levantou os braços em rendição.
– Ok... Ok. Agora vocês se beijaram e você gostou, ela deve ter gostado também. Por que então você tá enfiada nessa fossa toda? Por que eu não estou vendo vocês cavalgando em um cavalo branco rumo ao por do sol?
– Porque eu não sirvo pra me apaixonar. Você sabe. Então eu estou exercitando ao máximo meu lado altruísta na tentativa de proteger a Emily de mim mesma.
– Oh! Estou comovida... – Melissa revirou os olhos.
–É sério, Mel. Eu ainda não tenho tudo muito bem resolvido dentro de mim. Eu sei que é ridículo, faz muito tempo, mas o trauma com o Jeremy ainda não foi muito bem cicatrizado. – Melissa pensou em interromper e dizer que a verdade é que ela mesma não se deixava cicatrizar. Porém o olhar de Rebecca a fez desistir de falar. – E eu sei que a vida da Emily também não foi fácil, ela nunca me contou exatamente, mas eu sei que ela já perdeu tanta coisa, já sofreu tanta coisa, que não merece alguém tão mal resolvido com a vida como eu.
– O fato de ela também ser uma mulher atrapalha?
– Claro que atrapalha... Quer dizer, você sabe que eu não tenho preconceito, a questão não é essa, Mel. Mas eu sempre gostei de homens, o fantasma que atormenta os meus pensamentos é um homem. Como eu posso estar aqui apaixonada por uma mulher? Que ainda por cima é oito anos mais nova do que eu. E se nada disso for pra valer? E se eu só estiver confusa? Eu sei que amei aquele beijo, mas o que acontece se eu não for capaz de dar pra ela tudo o que ela merece? Se lá na frente eu descobrir que sinto falta dos homens, do corpo masculino, se é que você me entende...
– Bom, mais ou menos. Na verdade, eu não sinto falta de nada. – Melissa riu por um instante, mas logo voltou a ficar séria.
– Eu não posso arriscar machucar ela, Mel. Eu, mais do que ninguém, tenho dimensão do quanto uma ferida no coração demora a cicatrizar... Se é que cicatriza algum dia.
Aquilo era ridículo, Rebecca tinha plena consciência disso. Virou de uma vez só a quinta dose de Daniels que o barman tinha acabado de colocar em cima do balcão. Ainda era quinta-feira a noite, apenas algumas poucas horas depois que ela teve a conversa com Melissa, e lá estava ela bebendo em uma boate qualquer de Londres tentando fugir do inevitável. Aquela sensação de negação que já era tão comum pra ela, como se o fato de ela não aceitar mudasse alguma coisa ou pelo menos adiasse a realidade.
A morena sabia que em pouco tempo estaria trocando as pernas e provavelmente não lembraria nem mesmo o próprio nome. O que parecia ser uma ótima ideia. Já que não podia esquecer de verdade do gelo que estava dando na sua ruivinha, poderia pelo menos esquecer por mais algumas horas de qualquer coisa que não fosse à sensação de dormência e posteriormente a dor latente em seu cérebro.
Pediu mais uma dose de uísque puro e sem gelo, pegou o copo e foi cambaleando até a pista de dança, tentando se concentrar em seu próximo passo das maiores burradas que ela poderia cometer na vida. Sem ao menos ter consciência das merdas que estava prestes a fazer.
Esbarrou em um rapaz alto, de cabelos loiros, e físico atlético. Deu o seu melhor sorriso safado e foi rebolando em sua direção com o máximo de sensualidade que o seu estado embriagado lhe permitia.
–-x--
A cabeça de Rebecca parecia que ia explodir. Todas as veias pareciam que iam se romper de tanto latejar e a morena sentia dores espalhadas pelo corpo onde ela nem mesmo se lembrava de ter batido. Tentou inutilmente abrir os olhos, mas eles pareciam pesados demais para a sua força de vontade.
Foi só quando ouviu o barulho irritante do toque do seu celular que ela conseguiu acordar de verdade. Com certeza a irritação e a dor que aquele som causava em seu cérebro era bem maior do que qualquer outro impedimento. Reuniu toda a sua concentração e o resto de dignidade que ainda julgava ter e tentou se levantar.
Só então percebeu o braço pesado sobre sua cintura que a prendia na cama. Levantou a cabeça procurando reconhecer o lugar onde estava, mas não se lembrava de ter estado ali antes. Caralho. O que diabos ela estava fazendo ali e que merda era aquele corpo agarrado ao dela?
Retirou o braço devagar de cima do seu corpo e tentou levantar-se em um impulso muito mal calculado, seus pés ficaram presos ao cobertor e ela só conseguiu observar o chão ficando cada vez mais próximo de seu rosto a tempo de colocar as mãos a frente na tentativa de diminuir o impacto.
– Hey gata... O que você tá fazendo? – Um par de olhos escuros encontrou os seus e ela quase pode ouvir o “click” que fez em sua cabeça. Lembrava vagamente daquele homem. – Volta pra cá vai. – Pediu o estranho não tão estranho com a voz rouca de sono.
– O que diabos eu to fazendo aqui? Quem é você? E onde estão as minhas roupas? – perguntou Rebecca nervosa. Seu tom um pouco acima do necessário.
– Wow, parece que alguma pandinha acordou mal humorada... – brincou o loiro e seu sorriso fez com que os olhos ficassem espremidos e covinhas surgissem em suas bochechas.
Em outra ocasião Rebecca teria achado aquele homem uma espécie de deus grego fofo e teria pulado de volta na cama dele, mas não naquela. Quem ele pensava que era pra chamá-la daquele jeito? Aquele era um apelido que só Emily tinha o direito de usar. Era uma coisa só delas e soava tão ridículo e errado na voz daquele cara que nem o nome ela se lembrava.
Um nó estranho cresceu na garganta de Rebecca ao se dar conta do que ela havia feito. Não era nada diferente do que ela costumava fazer para esquecer Jeremy. Nada diferente do que ela havia passado os últimos sete anos fazendo. Sexo sem compromisso, sem envolvimento emocional, só prazer. Mas por alguma razão pareceu ser bastante errado agora.
– Eu preciso ir embora... Agora. – A voz de Rebecca falhou um pouco. Sua língua ainda estava um pouco enrolada por causa da bebida e suas pernas não estavam totalmente firmes.
Andou o mais rápido que conseguiu pelo quarto procurando suas roupas, juntou peça por peça e tentou vestir desajeitadamente enquanto caminhava até a porta do apartamento.
– Ei, onde você pensa que vai nesse estado? – O loiro já estava vestido e tinha surgido de só deus sabe onde na frente de Rebecca bloqueando sua passagem. – Deixa que eu leve você.
A morena ainda tentou protestar, mas foi inútil. E realmente não tinha condições de voltar dirigindo pra casa. Alias, não fazia nem ideia de onde tinha deixado seu carro.
–-x--
– Melissa, tem certeza que você não sabe onde a Rebecca está? – Emily perguntou pela quinta vez enquanto andava de um lado pelo outro do apartamento que a morena dividia com a amiga. – Ela não dormiu em casa? – tentou esconder o incomodo e concentrar-se apenas na preocupação que sentia.
Emily já tinha ligado para Rebecca inúmeras vezes e não tinha recebido nenhum retorno. De início imaginou que a mais velha não queria falar com ela e por isso não atendia, mas depois da décima tentativa frustrada começou a realmente se preocupar. E por isso lá estava ela, no apartamento de Rebecca, perturbando Melissa por informações.
Tinha decidido que iria se desculpar por tê-la beijado de surpresa e pediria para que as duas voltassem a ser amigas como eram antes. Iria conseguir transformar seus sentimentos em pura amizade se aquilo significasse que poderia ter a mais velha sempre ao seu lado. Pelo menos era isso o que ela pensava até o momento em que Rebecca entrou pela porta.
A visão que invadiu Emily foi a pior possível. Rebecca acompanhada por um loiro alto que tinha um braço ao redor de sua cintura e tinha seu pescoço rodeado pelo braço da morena. Ele sustentava o corpo dela, que estava com o cabelo assanhado e as roupas amassadas. O cheiro de álcool era sentido pela ruiva de longe. Porém Rebecca ainda não tinha percebido Emily que estava escondida pelo corpo de Melissa.
– Que porra é essa, Rebecca? Você não atende mais o celular não? – Melissa brigou com a amiga e virou o rosto rapidamente para verificar a expressão de Emily.
Foi nesse momento que Rebecca encontrou o olhar de Emily e pareceu que alguém havia soltado uma bigorna de dez quilos em cima do seu dedo mindinho ao ver que os olhos azuis de Emily estavam marejados e encaravam fixamente o braço do homem ao redor da sua cintura. A morena se desvencilhou rapidamente do loiro, procurou o celular no bolso do jeans e quando percebeu as chamadas perdidas da menor seu coração falhou uma batida.
– Emily... Perdoa-me. – Rebecca ignorou tudo ao seu redor e se aproximou da mais nova com certo desespero na voz.
– Por que você tá me pedindo perdão? Você não me deve absolutamente nada, Rebecca. – a ruiva falou enquanto secava a lágrima que queria cair e assumia uma máscara de indiferença que nunca havia usado na frente da mais velha.
– Emily... Não, volta aqui. – Rebecca tentou acompanhar, mas suas pernas não a obedeciam na velocidade necessária. – Emily!
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