We could be heroes
5 Capítulo 04 - Um lado da moeda
Notas iniciais
Christopher abraçou cada um dos presentes ali e sinceramente, eles pareciam muito felizes em vê-lo. Fizeram um tipo de cumprimento com os olhos quando todos já haviam o abraçado, mostrando seus poderes. Naquele momento eu entendi que mesmo os Ginis sendo maus, eles queriam proteger um ao outro.
Eu não fazia ideia do porquê do Christopher não ser mais um "deles". Sabia que era alguma coisa relacionada à tal briga que houve mortes de sangues puros. Será que ele vivia sozinho agora? Tinha um clã novo? Isso era possível? Quantos clãs existiam pelo mundo?
Então, uma coisa muito estranha veio a minha cabeça. Se ele não era bem-vindo, como mantinha o relacionamento com Georgia?
— Já chega dessa frescura — Klaus interrompeu toda a recepção — você só está aqui para ajudar a Melita, ouviu? Ouse chegar perto de um de nós com suas conversas e as consequências serão gravíssimas.
— Obrigada por ter vindo — falei para quebrar aquele clima pesado.
Ele sorriu e veio até mim.
— O quão longe da transformação você está? — me perguntou naturalmente.
— Muito — gemi de frustração — meus olhos nem mudam de cor.
— E qual o seu maior medo? — pelo visto, ele tinha uma lista enorme de perguntas.
Os presentes somente observavam com atenção.
— Matar todo mundo, eu acho — mordi o lábio e ouvi ele rir.
— Não vou deixar isso acontecer, tudo bem?
— Quanto tempo até eu conseguir?
— Pode demorar minutos, horas, dias. Depende do que te motiva — explicou apontando para um rabisco no chão.
Comecei a perceber que ele desenhava com a força do pensamento e aquilo foi incrível. Sorri ao ler as palavras: "Seja uma heroína." E não deu tempo nem de eu perguntar o que ele queria dizer, pois em questão de segundos tudo desapareceu e pelo rosto dos outros, aquela cena só aconteceu na minha cabeça.
— Mas o que...? — sussurrei e ele fez sinal para que eu não perguntasse nada.
— Vamos começar? — Klaus perguntou com os olhos brilhando.
A verdade era que eles queriam saber sobre o que tenho controle. Baseavam sempre nos poderes dos pais: você seria X, Y, XY ou um Z, que pelo jeito era o mais poderoso de todos e muito raro.
— Você controla o que? — fiquei de frente para o Christopher. Ele parecia tão concentrado — Quero dizer, seus olhos ficaram vermelhos e ninguém fica assim aqui. Só quando todos entram em sincronia.
— Fogo — respondeu meio sem jeito.
Notei que os meus amigos-irmãos deram uma risada baixa de alguma coisa que eu estava por fora. Fingi não perceber e encarei Christopher.
— Quer começar a treinar seus reflexos? — mais uma pergunta, é claro.
— Pode ser — mordi o lábio.
— Nós vamos correr na floresta o mais rápido possível e quando digo correr, falo sério — ele sorriu de lado e eu assenti em silêncio.
Eu nunca fui uma pessoa completamente ativa quando o assunto era atividade física porque minha tia me mantinha longe de tudo, pois segundo o Hugo eu aprendia as coisas só por observação. Então não seria tão difícil acompanhar o Christopher, certo? Certo.
Ele começou a correr normalmente e até ai eu consegui acompanhá-lo. Depois ficamos mais rápidos, e então ele só era um vulto na minha visão. Via as folhas serem levantadas, mas não conseguia saber onde exatamente ele se encontrava. Após alguns segundos, pegou na minha mão e me colocou em suas costas, correndo feito um louco. Desviávamos das árvores de um modo inacreditável. Toda hora eu pensava que íamos colidir, entretanto percebi que isso era normal para ele. Paramos de supetão e tive um efeito chicote no meu pescoço.
— Ai! — exclamei colocando a mão no meu primeiro machucado no campo de treinamento.
— Me desculpe — pediu com os olhos fixados em algo na nossa frente. Acompanhei seu olhar e vi Caio nos encarar sorrindo.
— Uma luta digna, por favor — Caio pediu e vi seus pés saírem do chão.
— Tem certeza? — Christopher franziu o cenho — já faz muito tempo que eu não luto com ninguém.
— Eu confio em você — foi o estopim para a lutar começar.
Christopher também ficou suspenso no ar e seus olhos ficaram da cor dos de Caio. Eu não entendi muito bem, já que tinha visto eles ficarem vermelhos e agora estavam amarelos. Eles davam socos, chutes e então Chris foi atingido por um raio que saiu das palmas de Caio e aquilo foi incrível. Vi Christopher fazer o mesmo, eles atingiam um a outro, até que os dois se atarracaram um no pescoço do outro e colidiram com tudo no chão. Quando comecei a correr para ver onde eles estavam, percebi que a minha velocidade era a mesma que a do Christopher e não pude deixar de dar um gritinho de felicidade.
Eles estavam no meio do círculo onde haviam as lutas e Christopher estava em pé ao lado de Caio, que estava desacordado. Seus olhos eram extremamente atraentes. Tive vontade de chegar perto.
— Conseguiu? — Christopher perguntou sorrindo ainda com os olhos amarelos.
— Sim! — dei um pulo de felicidade e eles riram de mim.
— Reflexo concluído — Klaus anotava em um caderninho enquanto falava.
— Ele está bem? — perguntei chegando perto do Caio.
— Estou — ouvi o mesmo responder — só vou ficar deitado aqui enquanto espero o efeito passar.
— Efeito...? — eu era curiosa demais.
— Tome um raio com mais de quinhentos mil watts e vai entender como me sinto — ele riu sem humor.
— Só de você estar vivo, já é ótimo — comentei sorrindo.
— Não é tão fácil assim matar um de nós — Georgia explicou — é preciso tirar os nossos poderes para isso acontecer.
— Como isso é possível? — eu e a minha boca grande!
— Pergunte ao Christopher, ele sabe te responder essa — Klaus sorriu de lado, satisfeito com a minha pergunta.
Christopher fez seus olhos voltarem ao normal e me olhou com curiosidade. Apesar de eu ter entendido que talvez ele já tenha matado alguém, não senti medo ou repulsa. Fiquei ainda mais encantada por tanto poder que possuía.
— Posso te dar uma demonstração sem cobrar nada em troca — ele disse se aproximando de Klaus, que deu um passo para trás.
— Foco Christopher! — Georgia entrou na frente dos dois — você veio para ajudar a Melita. Mostre a ela como ler os pensamentos, se possível.
— Vamos lá — ficou do meu lado — essa é a parte mais fácil, se quer saber — piscou pra mim — olhe para a pessoa que você quer ler os pensamentos e veja além de seus olhos, enxergue sua alma.
Fiquei de frente para ele e encarei seus olhos castanhos claros. Percebi um sorriso nascer em seus lábios. Então ele me virou para outra pessoa.
— Eu quero ler os seus — falei baixinho. Ouvi sua risada.
— Percebi isso — colocou o braço por cima do meu ombro — mas acho que é impossível. Ninguém conseguiu ler meus pensamentos até hoje.
— Posso ser a primeira — retruquei e ele se rendeu, colocando as mãos para cima.
— Vá em frente — ficou com o nariz a centímetros do meu.
Podia sentir sua respiração pesada e seu hálito com cheiro de morango. Senti uma vontade imensa de beijar seus lábios rosados. Eu podia jurar que ele estava lendo os meus pensamentos naquele momento.
— Não iria achar ruim se o fizesse — sussurrou no meu ouvido, me fazendo ficar corada. É, ele estava lendo meus pensamentos.
"E a Georgia?" — perguntei mentalmente.
"É complicado, Melita. Acho que você não entenderia".
"Por que não tenta?" — vi os olhos dele se arregalarem. Eu tinha conseguido invadir a mente dele!
— Isso foi incrível — me abraçou repentinamente — ela conseguiu ler meus pensamentos! — exclamou.
— Acha que ela é igual a você? — Valerie chegou perto de nós.
— Provavelmente — Christopher respondeu — só tem um jeito de saber — se virou novamente pra mim — vamos tentar a transformação amanhã. Você precisa descansar, tudo o que faz exige muita energia.
— Como se eu já não tivesse tentado — gemi de frustração.
— Não comigo — piscou e depois depositou um beijo na minha testa.
Ele acenou para os outros e começou a andar em direção a floresta, no mesmo lugar onde ele apareceu alguns minutos mais cedo. Claro que eu achei que ele ficou pouco tempo lá, mas eu senti a atmosfera do lugar ficar mais pesada. Logo entendi que a rixa entre eles jamais seria revertida.
Meus amigos-irmãos também foram embora em seguida e eu fiquei sozinha encarando o nada.
Estava com saudades dos meus tios, do Tyler, dos meus amigos, da minha antiga vida onde não envolvia poderes e clãs, muito menos precisava me preocupar em machucar alguém. Então, assim que voltei para a minha casa, meus pais me encaravam com sorrisos nos rostos. Pareciam querer me contar alguma coisa, entretanto eu estava sem saco pra ouvir e subi para o meu quarto ignorando-os.
Tomei um banho rápido e fui fazer as minhas atividades da faculdade. Administração pública. Eu amava esse curso, a grade era incrível e até agora estava gostando muito dos professores. Acho que passou umas 3 horas enquanto estudava. Olhei no relógio que marcava nove horas da noite e resolvi ver o que tinha pra comer.
Chegando na mega cozinha encontrei uma das empregadas terminando de fazer o jantar. Achei estranho ainda não estar pronto pelo horário, mas ignorei essa parte e fui até a geladeira. Peguei uma garrafa que tinha um suco de laranja e coloquei um pouco em um copo. Comecei a tomar o líquido e me engasguei quando alguém apareceu na minha frente.
— Me desculpe — Georgia ficou corada — estava com sede, não sei muito bem onde achar as coisas nessa casa — explicou-se enquanto pegava água na geladeira.
— Não quero ser grossa — mordi os lábios encabulada — mas o que faz aqui? — vi um sorriso nascer em seus lábios.
— Vamos ter uma reunião de última hora — fechou os olhos — sua performance ao ler a mente do Chris foi assustadora.
— Assustadora? — franzi o cenho tentando entender a situação.
— Você sabia que podia ler os meus pensamentos ao invés de ficar me perguntando, não é? — ela riu sem humor.
— Eu não acho certo isso — comentei balançando a cabeça — as pessoas tem o direito de não querer serem lidas, sabia? Senão qual a graça de conhecer alguém sendo que você já sabe tudo antes mesmo de perguntar?
Ela parecia ponderar sobre o que responder e depois deu de ombros.
— Não é justo eu não poder usar, é uma vantagem na maioria das vezes — bebeu tranquilamente a água e piscou pra mim.
— Sempre pensam em vantagem? — questionei curiosa.
— Você não? — retrucou e eu só neguei novamente com a cabeça.
— Isso parece um discurso do Christopher — ela revirou os olhos irritada — não é nada pessoal Melita, é que ele pensa umas coisas. É frustrante pra mim, ás vezes até vergonhoso, nem parece um Gini — suspirou. Ela aparentava estar triste.
Eu que não ia perguntar mais nada e nem me atreveria a ler seus pensamentos, já que tinha formado a minha opinião. Então, acho que foi automático quando as palavras saíram da minha boca:
— Vocês brigaram, não é? — dei um sorriso de lado.
— Achei que não gostava de ler pensamentos — arqueou a sobrancelha.
— Eu não li — me defendi — até uns dias atrás eu era uma pessoa normal e pessoas normais, se você ainda não percebeu, costumam deduzir as coisas. É menos invasor e você consegue ver no olhar se é verdade ou não — toquei no ombro dela — posso te ensinar, se quiser.
— Patético — escondeu um sorriso — estou muito interessada nisso. Quando podemos começar?
— Que tal amanhã na universidade? — sugeri.
— Parece ótimo — então ela desapareceu do meu campo de visão.
Uma reunião? Tudo bem. O que será que eles queriam discutir dessa vez? O Christopher foi tão natural e não pareceu influenciar muito nas minhas ações. Ele sabia exatamente como me fazer ativar o meu lado Gini, algo que Klaus e nenhum outro conseguiu. E parecia tão fácil. Mal sabia eu que ele tinha influenciado e muito, me deixando calma e passando suas experiências sem que eu percebesse ao pedir para que fosse uma heroína. Ele era incrível e silencioso nas suas atitudes. Fiquei imersa em meus pensamentos e só então me lembrei que estava na sala de reunião e pelo visto me interrogaram, pois pareciam furiosos pela minha falta de atenção.
— Sim? — perguntei sem graça e vi os meus amigos-irmãos gargalharem. É claro que havia mais Ginis naquela sala. Todos os pais, tios, primos estavam ali e eu mal lembrava o nome dos que treinavam comigo.
— Viram só? — Klaus bateu sobre a mesa, me fazendo assustar — ele bloqueou os pensamentos dela! Querem um outro motivo para nos afastarmos imediatamente daquele garoto?
— Quem bloqueou os meus pensamentos? — pior que peixe fora d'água.
— O Christopher, querida — minha mãe me respondeu aflita — não sabemos como fez isso, mas deve ter sido quando você entrou na mente dele. Ele é rápido, silencioso. Não deixa pistas e ninguém o encontra quando não quer ser encontrado.
— E por que acham que ele fez isso propositalmente? Ninguém tinha lido a mente dele antes, certo? Nem ele deve saber disso — defendi. Já estava irritada de não saber nada sobre o Christopher ou o porquê dele ser tão perigoso aos olhos do meu clã.
— Ele deixou você ler — Georgia se pronunciou — ninguém nunca tinha lido porque ele escolhe as pessoas que quer por perto e as que ele precisa da confiança. Por que não a garota parecida com ele? É tudo que os Royals querem, assim eles seriam invencíveis.
— Quem é Royals? — eu odiava não saber de nada.
— É o clã do Christopher — Georgia parecia frustrada. Como ela falava daquele jeito do namorado dela? Então me lembrei das palavras do Christopher: "É complicado." De que tipo de complicação ele estava se referindo?
— Podemos usar a Melita como informante, fingir que está caindo no papo dele e aí pegamos o esconderijo deles — aquele eu lembrava o nome, Charles. O braço direito de Klaus.
— Como pode ser tão idiota? — Klaus bufou irritado — acha mesmo que ele a levaria lá e depois não apagaria sua memória?
— Parem de falar como se eu não estivesse aqui, tá legal? — gritei já irritada demais com tudo aquilo — eu não quero saber de merda nenhuma do passado de vocês e muito menos vou enganar alguém que está tentando me ajudar! É ridículo! Se não fosse por ele eu poderia muito bem matar todos vocês, estão me ouvindo? E seja lá o que ele está querendo de mim, me parece muito inofensivo.
— Ela está certa — Hugo me defendeu e eu assenti em agradecimento — o Christopher só está querendo ajudar, ele não é um cara que cobra seus favores, ao contrário de nós, que fazemos tudo em troca de alguma coisa.
— Querem calar a merda da boca?! — Klaus ficou em pé — Hugo, é melhor você colocar rédeas nessa sua garota ou ela vai rodar muito fácil aqui. Acabou de chegar e acha que sabe de tudo? — ele ficou de frente pra mim, me encarando com ódio — espere só até ele tirar tudo de você e fazer seus olhos fecharem para sempre! — sabia que ia me bater, eu consegui sentir seu soco me atingir em cheio, mas ele nunca realmente aconteceu. A mão de Klaus ficou paralisada no ar antes de me acertar.
— Vai a merda Thompson! — Klaus gritou e seu olhar era de pura frustração.
Eu fiquei sem entender a situação, mas logo depois alguém resolveu me explicar, vendo a minha cara de confusa.
— Pelo visto o Christopher colocou algum tipo de proteção em você, impedindo que alguém te machuque — Judith respirou aliviada — acho que ele já previa isso. O que ele não prevê? — pelos seus olhos, eu pude ver que ela estava agradecida. Minha mãe era sempre séria e mal nos falávamos, o que não era tão difícil com Hugo, que parecia entender as minhas necessidades.
— Posso me retirar agora, mestre? — debochei e dessa vez todos riram.
— Não se preocupe Melita, ele acha que tudo se resolve na base da porrada — Valerie sorriu pra mim.
Subi as pressas para o meu quarto e bati a porta ainda inconformada com aquilo tudo. Como os meus pais simplesmente deixariam ele me bater? Quem aquele cara achava que era? Qual o direito que ele possuía? E qual o problema com o Chistopher? Meu Deus! Tudo estava tão confuso, eu só queria fugir.
— Me desculpe te fazer passar por isso — ouvi uma voz bem atrás de mim. Fiquei congelada e com medo de mover um centímetro.
Quando criei coragem e me virei para ver quem era, quase caí no chão. Christopher estava com uma jaqueta de couro preta, uma blusa lisa por baixa, calça jeans e um sapatênis da Adidas no pé. Eu ia gritar quando ele começou a se aproximar porque estava assustada, mas logo uma mão cobriu a minha boca.
— Está tudo bem — Christopher me abraçou — eu posso responder todas as suas perguntas se quiser.
— O que você quer comigo? — fui direta.
— Ajuda — ele suspirou — eu preciso de ajuda.
— Minha? Qual é Christopher, não vê que sou uma inútil? — senti meus olhos arderem, eu não ia chorar na frente dele.
— Sim, sua. E você não é uma inútil. É assim que ele quer você se sinta — ele me encarou com compaixão — não quer perder o posto de mestre — fez aspas quando disse "mestre".
— Eu não sei nada sobre você ou seu clã. Por que eles te odeiam tanto? — me sentei na cama tentando entender como poderia ajudá-lo.
Christopher encarava a porta do meu quarto sem dizer nada.
— Aqui não é seguro pra eu te falar — explicou — que tal uma volta?
— Está maluco não, é? — ri pelo nariz — eu não vou dar uma volta com você. Pelo que sei, Christopher Thompson é um assassino — vi o rosto dele congelar.
— Acha que seus amigos não são? — estava com o cenho franzido — escuta, se quer respostas precisa vir comigo agora. Eles estão subindo, já sabem da minha presença.
— E eu vou assim? — apontei para a minha roupa. Usava um short jeans branco, era comportado. Uma blusinha verde de frio fina e um chinelo nos pés.
— Sim — ele sorriu — não consigo te imaginar com uma roupa melhor — dito isso, a porta se abriu e lá estava Klaus com o seu olhar mortal.
— Vou dar uma volta — disse sorrindo para os meus pais, que retribuíram o meu sorriso e depois fecharam a cara quando o mestre resolveu fitá-los.
— Você disse que não iria corrompê-la — meu mestre avisou.
— Não irei. Sou a favor do livre arbítrio, todos sabem disso. E darei a ela uma escolha que eu não tive — ele respondeu — nós voltamos antes da meia noite, tudo bem? — perguntou para os meus pais e eles assentiram simultaneamente — essa noite ela conhecerá o meu mundo e na próxima o de vocês, o que acham?
— Tudo bem — Klaus assentiu meio contrariado e aquilo era bizarro. Ele não concordava com nada, porém parecia ter muito medo do Christopher.
— Vamos — me pegou pela mão e quando ia perguntar aonde íamos, aparecemos no centro da cidade. Como que? A gente tinha acabado de se teletransportar?
— Teletransporte? — ri com a situação — eu também posso fazer isso?
— Não — mordeu os lábios incomodado com a minha pergunta.
— Você pegou isso de alguém, não foi?
— Sim — soltou o ar que prendia — e não me orgulho disso, se quer saber.
— Eu não quero, acredite — vi a dúvida estampada em seu rosto — é que eu prefiro imaginar que você é um cara legal sem um passado assustador.
— Todos temos nossos fantasmas — piscou e me conduziu até um pub. Só podia estar de brincadeira!
— Ah que bacana você, me traz em um pub e olha só como estou vestida! — resmunguei.
— Só relaxa — colocou o braço na minha cintura.
— Nomes, por favor — um segurança pediu nos barrando na porta.
— Christopher Thompson e Melita Campbell — ele respondeu sério. Vi o segurança recuar e entramos no lugar, que era enorme, devo dizer.
Estava lotado de gente e as pessoas não pareciam estar reparando em mim, então me senti mais a vontade para curtir a música que tocava, enquanto caminhava com a mão quente do Christopher na minha cintura. Reconheci o rosto de alguns, eram da faculdade. E então subimos alguns lances de escadas e fomos parar na área vip.
Tinha mais de 15 pessoas conversando animadamente e percebi eles ficaram estáticos quando olharam pra mim. Aposto que fiquei corada, pois senti o meu rosto arder. E também senti o meu estômago reclamar por estar vazio, já que a minha janta foi interrompida por aquela reunião idiota. Me torturei mentalmente por não ter pego nem a minha carteira para conseguir comprar alguma coisa pra comer. Parabéns pra mim.
— Essa é a Melita — Christopher disse para os seus amigos — e não se preocupem, ela é gente boa.
— Como pode ter tanta certeza? — perguntei com um sorriso maroto.
— Costumo dar um voto de confiança — respondeu dando de ombros.
O pessoal começou a se apresentar pra mim e eles eram bem mais receptivos que o meu clã. Sim, aquele era o clã do Christopher, os Royals e só então descobri que o meu também tinha um nome, Stealth. Que ironia. Eles faziam tudo as escondidas mesmo e nem tinham me contado o nome, provavelmente com medo de eu fazer perguntas.
Christopher me contou porque tinha mudado de clã. Ele não queria fazer maldade com pessoas inocentes e também disse que essa parte eu só entenderia quando fizesse realmente parte daquilo tudo e começasse a ter missões. Explicou que a briga entre os Stealth foi na mesma época quando surgiu os Royals, considerados rebeldes por não aceitarem sua origem e irem contra as vontades de Klaus. Disse que eles ficavam escondidos quando treinavam e que seus métodos eram muito diferentes, mal tinham combates como acontecia no meu campo de treinamento, o que explicava o receio dele ao lutar com o Caio.
Eu me senti bem com eles, era como estar em casa. Eram divertidos, espontâneos e tinham histórias hilárias de acampamentos de Ginis, o que me deixou com muita vontade de poder participar de um. Entretanto, algo dentro de mim não me deixava assumir que eu queria aquele clã e foi aí que descobri que o meu lado mau estava aflorado, e precisava me livrar disso o mais rápido possível.
Levantei sem pedir licença e parei perto da escada, um pouco longe deles. Respirava com dificuldade e senti uma mão nas minhas costas.
— É assim com todo mundo — Christopher disse — melhora com o tempo. Independentemente do lado que escolher, isso passa. Só não deixar te consumir.
— Por que vocês parecem tão errados aos meus olhos? — perguntei.
— É porque nós somos — foi sincero — infligimos todas as regras. Fomos contra tudo porque estávamos cansados daquele mundo.
— Eles são bons comigo — admiti — só o Klaus que é um idiota.
— Eles são incríveis — me corrigiu — vivi muito tempo com todos, acredite. Conheço muito bem cada um e o Klaus não é o monstro que pensa que é.
— Está defendendo aquele babaca? — revirei os olhos.
— Ele tem suas razões — deu de ombros — também não vou muito com a cara dele, mas entendo o lado de vocês e é preciso ser rígido para que não haja mais rebeldes. Só que ele pensa que corrompo as pessoas.
— E não corrompe?
— Dou opções — se defendeu — ou você conseguiria dormir sabendo que uma pessoa nunca mais acordará por sua causa? — estava distante em pensamentos — isso não é vida.
Apesar de ainda ter muitas perguntas, consegui entender que o Christopher não era mesmo uma má pessoa e só tentava ajudar da sua forma os que estavam perdidos em suas escolhas. Me senti tentada a aceitar de uma vez por todas, mas me lembrei que no outro dia entenderia o lado dos Stealth e talvez me arrependesse de dizer um sim sem nem ao menos conhecer os dois lados da moeda.
Um garoto muito simpático chamado William pagou 2 hambúrgueres pra mim, eu estava mesmo faminta e me senti envergonhada depois de ter comido tanto.
— Tudo bem — ele riu — parecia que você ia cair a qualquer momento.
— O que? — fingi incredulidade, ele riu ainda mais.
— Estou brincando, senhorita Campbell — me deixou sozinha na mesa onde estávamos sentados.
— Vamos? — Christopher me chamou e eu assenti.
Foi coisa de segundos até eu estar de novo na minha casa, mas dessa vez eu entraria pela porta da frente, não permiti que Christopher entrasse de novo, vai que o meu clã estava esperando para matá-lo. O que eu não duvidaria muito.
— Obrigada pela noite, me diverti muito — falei meio sem graça. Eu mal conhecia ele!
— Se precisar de mais diversão, pode me chamar — sorriu e depositou um beijo na minha testa.
Entrei ainda sorrindo na minha casa e meus pais já estavam me esperando com seus olhares preocupados.
— Eu estou bem — ouvi eles respirarem aliviados, sério isso? — ele foi muito legal e foi só uma volta para conhecer os Royals, tudo bem? Eles são legais.
— Nós sabemos que são bons garotos — Judith quem respondeu — só ficamos preocupados com o fato do Klaus estar te odiando agora.
— Posso me desculpar amanhã com ele — suspirei — me desculpem por fazerem vocês passarem vergonha assim — fitei o chão.
— Não fez passarmos vergonha — Hugo falou — muito pelo contrário, estamos orgulhosos que você tenha voz, filha. Também não fomos os mais legais com ele quando fomos recrutados, não é querida?
— E como! — Judith riu com seus devaneios — quer saber como foi?
— Claro — respondi animada.
— Antes — Hugo interrompeu — sábado é seu aniversário e queremos sua permissão para fazermos uma festa a fantasia para os seus 18 anos. Você pode fazer uma lista do que quer e de quem quer convidar. Resolveremos tudo. O Tyler gostaria de vir, não? — ele tinha um sorriso no rosto.
— O Tyler? — meus olhos brilharam — estou morrendo de saudades! Posso mesmo chamá-lo? E os meus amigos de Vancouver também?
— Claro querida, nós pagamos todas as passagens e eles podem ficar aqui em casa, já que tem muitos quartos — Judith completou.
— Permissão concedida! — abracei eles ainda animada com a ideia de ver todos que eu sentia falta.
Então meus pais contaram tudo sobre suas iniciações e rebeldias. E eu juro que tentei prestar atenção em tudo, só que estava tão ansiosa para poder rever os meus amigos que as vezes mal ouvia o que falavam. Claro que eles perceberam isso, mas não pararam de falar. Acho que estavam felizes por mim e eu torci mentalmente para que eu aprendesse mesmo a me transformar ou senão mataria até os convidados da minha festa.
Fui me deitar exausta e quando fechei os olhos, me lembrei de Christopher. Ele ainda era um enigma pra mim. Parecia não ter medo de nada e era ousado em suas atitudes. Dormi esperando que um dia eu pudesse ser corajosa igual a ele, mas com um histórico de mortes bem menor ou até inexistente. Eu só queria ser boa. Uma heroína.
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