We Remain
25 Epílogo
Não era que ele não gostasse dos seus tios ou de suas primas, é que ultimamente ele só preferia ficar no quarto jogando seus jogos, ou no computador, ou nos livros. O que mais o irritava era como os irmãos ficavam agitados quando a casa ficava cheia, Bianca, sua irmã de 12 anos não parava quieta junto com a sua prima, Marcela, e seus irmãos de 5, Daniel e Eduardo, não paravam de chutar a bola que ganharam do seu tio.
Parecia que aquele barulho nunca ia parar, nem os fones de ouvido estavam dando conta. Ele gostava de jogar bola quando pequeno, mas agora preferia ficar na dele. Ele não tirava os olhos da TV, estava quase passando de fase no jogo, quase... só mais um pouquinho, e... O seu santuário do “silêncio” foi interrompido na sua orelha direita.
_ Você já foi mais legal, sabia, Davi?
_ MORRI! – ele gritou no head-set do vídeo game. – MORRI, CARA! – ele ouvia o resto do time dele xingando pelo fone. – Puta que... – ele tirou o outro fone do ouvido. – O que você quer, Megan!? Saco!
_ Sua atenção, seu bocó! – ela disse, entrando na frente da TV enorme do seu quarto.
Megan tinha crescido pelo menos sete centímetros desde da última vez que a tinha visto, assim como seus cabelos castanhos que tomavam suas costas. Ela estava em uma fase mais darker, a maquiagem dos olhos era pesada, a camiseta do Ramones cortada manualmente um pouco acima do umbigo, e a calça preta justa mostrava o quanto ela tinha desenvolvido. Além das dezenas de pulseiras e colares, ela colocou as mãos na cintura. E Davi piscou algumas vezes.
_ Seu pai sabe que você tá usando esse tipo de roupa, Megan? – ele conseguiu dizer por fim.
Ela bufou: — Ué, qual é o problema de andar assim?
_ Você é a princesinha dele. – ele a provocou.
_ Cala a boca, babaca.
Ela tinha aquela mania irritante de sempre dar um apelido para ele, como: mané, boboca, babaca, idiota, imbecil, otário, e assim por diante. E também tinha a mania de bater em seu ombro ou em sua cabeça logo após de pronunciar um desses apelidos.
_ Tenho certeza que o meu pai não vai deixar a Bianca andar assim, nunca, tipo NUNCA.
_ Com certeza, nunca. – Fabinho que passava no corredor, parou na porta e olhou para a sobrinha. – Vai colocar uma roupa, Megan!
_ Tio, não começa...
_ Na minha casa, você não se veste assim.
Davi riu do pai que não tinha mudado quase nada, a não ser alguns fios brancos que já surgiram. Megan revirou os olhos, ela já sabia.
_ Eu trouxe outra roupa, tio.
_ Assim que se fala. E a pizza já tá chegando. – ele olhou para o filho. — E não vou chamar duas vezes pra descer, se demorar, vai ficar sem. – ele saiu, indo atrás dos menores.
Davi se levantou da poltrona e começou a desligar o vídeo game, esperando que Megan saísse de sua frente, mas ela mal se moveu. Ele se levantou, ele ainda era mais alto que ela, ficou encarando seu rosto e arqueou uma sobrancelha.
_ Com licença, sua peste. – ele disse. Ela o encarou por um tempo e sorriu pra ele, saindo da frente da TV e o deixando desligar.
_ E aí, Davi? E as namoradas? Muitas no colégio?
_ Ah, claro... – ele assentiu. – E você?
_ Namoradas?
_ Ué, vai saber? Você é maluquinha. Ai! – ela lhe deu outro tapa no ombro.
_ Se quer saber, eu tenho um namorado sim, o nome dele é Miguel.
_ Nossa, coitado do Miguel... – ele abriu o guarda roupa atrás de uma camiseta limpa. – É sério isso?
_ Claro que é. Você acha que eu sou de ficar?
_ Eu não sei de nada, a gente mal se fala agora. Não sei porque você quer minha atenção. Você me ignora em todas as redes sociais e só fala comigo quando é obrigada a vir aqui, Megan. Acho que você cresceu e não vê mais graça na casa dos seus tios... – ele achou uma camiseta, a cheirou e tirou a suja. Ele não tinha vergonha dela, afinal, eles eram como irmãos, ou assim, ele pensava.
Megan prendeu a respiração por alguns segundos, ela sabia que o primo era bonito, sempre teve uma queda por ele, mas não... Ai Megan, cala a boca. Ele vestiu a camiseta.
_ Que foi? – ele olhou pra ela.
_ Nada... Você tá diferente. – ela disse.
_ Diferen...? – ele riu. – Quer uma camiseta pra colocar por cima dessa? Meu pai não vai gostar se você descer com essa.
_ Aff. – ela revirou os olhos. – Pode ser, mané.
Ele pegou outra e jogou pra ela. Ela a colocou por cima, tinha o cheiro dele, o cheiro de sempre. Ela sempre sentia falta dele quando estava longe, mas nunca ia admitir isso pra ninguém, ainda mais pra ele. Eles são primos, pelo amor de Deus! Mas era como se alguma coisa a atraísse pra ele. Ela se lembrou da última vez que tinha ido até lá, a quase um ano, os amigos dele tinham ido até lá e a brincadeira era Verdade ou Desafio, ela não gostava de amarelar em nada, até que o desafio for dar um selinho em Davi. Ela não amarelou, claro. Mas depois ficou se lembrando daquilo pelo resto dos dias, e era por isso, que o ignorava em todo canto. Tinha sido o primeiro “beijo” dela, e ele nunca ia saber.
O quarto dele não tinha mudado quase nada, a guitarra estava em um canto.
_ E aí, ainda está tocando?
_ Ás vezes. – ele deu de ombros. – Fica difícil com os gêmeos enchendo o saco, mas eu tento quando fico sozinho, ou seja, quase nunca.
_ Ah, sim...
_ Megan, eu posso te perguntar uma coisa? – ele passou a mão no cabelo. – Você não tá estranha comigo por causa daquela brincadeira, não, né? – ela riu, mas logo perdeu o riso. – Eu sabia. Você não foi obrigada a fazer nada, depois eu quase bati no Marcos, ele não devia...
_ Que foi? – ela disse. – Foi tão ruim assim?
_ Ruim? – ele riu. – Por que você tá perguntando isso?
_ Não foi estranho?
_ Foi. Mas, não... foi ruim. Não precisa me ignorar assim, por causa disso, ou precisa?
_ Não.
_ Eu pensei que você era mais confiante que isso, afinal, o Miguel...
_ O que o Miguel tem a ver com isso?
_ Ele não é seu namorado?
_ Por que você tá falando dele? Ele não tem nada a ver, você é mesmo um trouxa, Davi...
Ela se virou pra deixa-lo falando sozinho, mas sentiu a mão de Davi em seu braço, a puxando de volta, ela bateu de encontro seu peito. Ela jurava que o seu coração ia sair do peito se ele fizesse isso de novo, o encarou, e ela poderia ter batido nele, com toda força, mas ela não encontrou um pingo sequer de coragem. Os olhos castanhos dele a hipnotizavam de uma forma que nenhum outro carioca fazia.
_ Quê? – ela perguntou alto. Eles estavam próximos demais.
_ Não foi ruim, tá? – ele falou baixo. Ela também podia jurar que ele encarava a sua boca, ela estava prestes a correr de lá, e continuar mentindo que tinha um namorado chamado Miguel.
_ Tá, agora, você pode me soltar? – ele liberou o braço dela. – Você é um chorão! Não vive sem mim mesmo, fica todo de mimimi só porque eu não fico falando com você. – ela riu, descarada, como sempre fazia.
Ela sabia provoca-lo direitinho, o problema é que agora Davi não era mais um menino, nem um moleque, agora ele estava se tornando um homem, e não era justo ela fazer aquilo com ele. Ele nunca ia admitir que ficou sonhando com ela por várias vezes naqueles meses, nem que ela mexia com cabeça dele. Ela poderia ficar o resto das férias, da vida, sem sequer olhar pra ele, mas ele ia explodir se não calasse a boca dela, pelo menos uma vez, de verdade. Ela ia ser a primeiro beijo dele, ia ser sim.
Ela ouviu o tio chamando para a pizza no andar debaixo, e ainda rindo se virou para sair do quarto, mas sentiu a mão dele em seu pulso, a puxando de volta, e dessa vez, ele não hesitou, prendeu a cintura dela com um braço e a beijou. Um beijo de verdade, de língua, ela pensou em bater nele até deixa-lo desacordado, mas se esqueceu no mesmo segundo. Depois que ele percebeu que ela correspondeu, sentiu as mãos dela em seus cabelos e as mãos dele estavam por suas costas, seus cabelos, sua nuca. Parecia que tinha durado minutos, quando se separaram, ele separou um tapa, talvez dois na cara. Ambos se encaravam ofegantes, os cabelos bagunçados, os lábios marcados, e então, sorriram um pro outro.
_ MÃE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! – Bianca e Marcela gritaram um uníssono.
As duas estavam paradas na porta, provavelmente, tinham subido para chamar os dois para o jantar de novo. Davi podia enxergar a sua morte vindo de perto. Ele ia morrer, o tio ia mata-lo, ia pica-lo em pedacinhos. Megan ajeitou o cabelo e ficou tão paralisada quanto ele depois.
Giane e Cida subiram quase correndo, provavelmente pensando que as filhas tinham se machucado. Essas pirralhas, pestinhas! Davi pensou. Ele queria correr, mas não ia deixar Megan na mão. Mas, então, ele teve uma ideia melhor, ele se jogou próximo a poltrona e começou a gritar, colocando a mão no pé, como se tivesse batido o dedinho.
_ Que foi? – as duas apareceram na porta.
_ MÃE, OS DOIS ESTAVAM... – Bianca começou.
_ AIIIIIIIIIII. – ele gritou e Megan tentou entrar no jogo dele, se abaixou perto dele.
_ Que foi, Davi? – a mãe dele se aproximou dele.
_ Esse babaca bateu o dedo na poltrona, Gi! – ela nunca chamava a tia de “tia”.
_ Mãeeee! Eles estavam...
_ CALA A BOCA, BIANCA! Tá doendo, mãe. – ele gritou e olhou pra mãe.
_ Vem, meninas, vamos pegar um pouco de gelo pro Davi. – Cida puxou as duas meninas.
_ Ai, filho, você não presta atenção, não? – ela o repreendeu. – Já volto, vou pegar um pouco de gelo também.
Ela saiu e quando o fez Davi parou a encenação na mesma hora.
_ Puta que... – ele começou.
_ Pariu! – ela disse e deu um tapa nele de novo.
_ Eu jurava que eu ia morrer. Ainda bem que eu penso rápido. – eles riram.
_ Seu babaca! – ela bateu nele de novo.
_ Acho bom você parar de me bater.
_ Ah é?
_ É.
_ Por que?
_ Eu posso retribuir de outra forma.
_ Nunca...
_ Verdade, você tem o Miguel... – ele assentiu. – E eu tenho a Ana, a Carol, a Gisele, a Débora...
_ Davi! – ele riu.
_ Você sabe que eu to mentindo. Eu não vou te deixar em paz, sua maluca. — ele piscou pra ela, e ela corou.
_ Aqui, filho... – Giane voltou com o gelo.
_ Quebrou o dedo? – Fabinho veio atrás.
_ Não. Só bati. – ele mal conseguia encarar o pai. Parecia que o pai tinha um sexto sentido pra essas coisas.
_ Dá aqui o gelo, Gi. Eu vou fazer você engolir essas pedrinhas, seu besta! – ela pegou o gelo e aplicou certa força ao colocar no pé dele, e ele fingiu que sentia dor.
_ Terminam logo isso e desçam. – Fabinho disse e saiu com Giane.
_ Maloqueira... – ele chamou a mulher no corredor. – A Bianca disse que viu os dois no... – ele fez as aspas no ar. — ... “maior amasso”.
Giane riu. – O quê? Por que tá rindo?
_ Ué, você vivia dizendo que a Megan ia ser do Davi e vice-versa, acho que você é tipo um vidente, fraldinha.
_ Eu tenho medo do que o Elano pode fazer...
_ Por que você não deixa pra pensar nisso mais pra frente, hein?
_ Pelo menos, ele tem bom gosto... como o pai.
_ Ah é?
_ Uhum. – Fabinho roubou um beijo da mulher. – Pelo menos, eu já tive aquela conversa do sexo com ele. – os dois riram.
_ Vai esfriar a pizza.
_ VAI LOGO, DAVI! – ele gritou antes de descer de novo.
Como Fábio um dia previu, a atração de Megan e Davi era extremamente forte, os pais não conseguiam os separar, nem a distância entre suas casas, nem Elano com sua superproteção, nem Giane aconselhando o filho diversas vezes. Cida acreditava no amor verdadeiro, e se o deles era, tudo estava feito. Logo, Megan estava indo para uma faculdade em São Paulo para ficar mais próxima dele. Cida e Elano resolveram seguir os passos da filha e foram morar também na cidade. Agora já mais velhos, os casais se reuniam nos sábados à noite para tomar uma cerveja, comer um churrasco e relembrar daqueles tempos de confusão. O que quer que aconteça de agora em diante, eles sabiam que iriam sobreviver.
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