We Remain
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Fabinho empurrava a cadeira de rodas, deslizando pelos corredores e quase trombando com as paredes. Cida ficava em dúvida se agarrava os braços da cadeira para não cair dela, ou apertava a barriga e gritava. Tentava fazer um pouco dos dois.
_ Que droga Fabinho, quero chegar na sala de parto inteira. – rosnou a jovem, mas o rapaz estava alucinado.
_ Ela não devia estar nascendo ainda. – ele disse o óbvio, e Cida teve que revirar os olhos.
_ Então segura as pontas aí para ela nascer pelo menos inteira.
Ele deslizou até o balcão de informações, assustando as enfermeiras.
_ A minha filha tá nascendo, e ela não devia estar nascendo. Ela só tá de sete meses. – Fabinho arfava, enquanto Cida se ocupava em gritar – Faz alguma coisa.
_ Senhor, por favor, se acalme. – a enfermeira pediu, dando a volta no balcão – Vamos para a sala de exames, está bem? Mas se acalme.
_ Fabinho, não me deixa sozinha, por favor. – implorou Cida, agarrando a mão dela.
_ Calma empreguete, eu to aqui. Não vou sair daqui, tá bom? – Fabinho foi apertando a mão da moça, enquanto a enfermeira os levava pelo corredor.
Logo depois, outro casal chegou ao balcão de informações, ambos parecendo tão ansiosos quanto o primeiro. Porém, as enfermeiras ficaram confusas.
_ Vocês não acabaram de ir para a sala de exames? – perguntou uma delas, e Giane e Elano se olharam confusos.
_ Hã, acho que não. – o rapaz respondeu, enquanto Giane bufava.
_ Eu juro que eram vocês dois.
_ Cê tá me zoando que a empreguete tá parindo hoje né? – reclamou a corintiana, mas Elano parecia nervoso.
_ Giane, ela não devia ter o bebê hoje... Ela só tá de sete meses.
_ Ai que droOOOOGA. – a moça apertou a barriga – Merda Elano, tá doendo.
_ Levem ela para a sala de exame 2, por favor. – pediu a enfermeira chefe, enquanto traziam uma cadeira de rodas para Giane – Que noite animada.
_ Fale pela senhora. – murmurou Elano, seguindo Giane pelo corredor.
Chegando em frente a sala de exame, encontraram Fabinho, que andava de um lado para o outro, parecendo desesperado. O publicitário travou ao ver o irmão e a ex chegando.
_ Como é que tá a Cida? – Elano perguntou aflito, vendo a cara de desespero do irmão.
_ Não me deixaram entrar. – respondeu o gêmeo de mal grado – E você, Giane?
_ Sentindo a dor mais filha da puta da minha vida. – rosnou a corintiana, enquanto entrava na sala de exame.
_ O senhor vai ter que esperar aqui. – avisou o médico que entrou na sala, fazendo Elano e Fabinho suspirarem. A porta se fechou, e a única coisa que restou aos dois foram os gritos de dor das futuras mamães.
_ Não tá na hora da Megan nascer. – comentou Elano, fazendo Fabinho bufar.
_ Eu sei que não tá na hora da Megan nascer.
_ E porque ela tá nascendo?
_ Porque a Cida ficou com um problema no colo do útero depois do aborto?
_ Ela o que? – Elano arregalou os olhos, enquanto o irmão bufava.
_ Porque você quer tanto saber? Não devia estar preocupado com a Giane e o seu filho? – Fabinho não conseguiu disfarçar o ressentimento na voz, encerrando assim o assunto entre eles dois.
As duas portas se abriram ao mesmo tempo, trazendo o barulho dos gritos e dois médicos. O primeiro parecia preocupado, o segundo em pânico.
_ A sua mulher me ameaçou de morte e castração, caso eu não faça ela parar de sentir dor e tire seu filho de lá de dentro agora. – o homem guinchou para Elano, que arregalou os olhos – Devo cogitar encaminhá-la para a ala psiquiátrica?
_ Liga não doutor, a maloqueira é assim mesmo. – suspirou Fabinho, virando para o outro médico – E a Cida e a Megan?
_ É como a médica dela já esperava... O problema no colo do útero provocou o parto prematuro, mas a injeção de corticóide já amadureceu o pulmão do bebê, diminuindo os riscos.
_ Mas não os anulando. – o rapaz suspirou.
_ É um parto prematuro, sr. Campana. 34 semanas é bem menos que o esperado, mas não é tão arriscado. Faremos o possível, está bem?
_ E nós vamos poder ficar com elas? – perguntou Elano, encarando os médicos.
_ Bom, a Maria Aparecida já está com a dilatação para ir para a sala de parto, então o sr. Campana pode nos encontrar lá.
_ O mesmo para a sua namorada, sr. Fragoso. – avisou o médico de Giane – Vou pedir para a enfermeira leva-los colocar a roupa hospitalar, e depois vocês podem seguir direto para as salas de parto. Está bem?
_ Certo. – os dois concordaram, sendo logo guiados por uma enfermeira.
Colocaram o avental azulado e ridículo, de acordo com Fabinho. Amarraram as toucas na cabeça e seguraram a máscara cirúrgica, que não era obrigatória. Por fim, sentaram lado a lado, esperando que viessem indicar para onde deveriam ir.
_ Se a Cida estiver com muito medo... – Elano começou em voz baixa, atraindo a atenção do irmão – Segura a mão dela e afaga com o polegar. Faz ela se sentir melhor.
_ Com a Giane é o pescoço, na nuca. – Fabinho avisou – Ela fica arrepiada, mas isso quer dizer que ela tá mais tranquila. Faz isso se ela estiver muito pilhada.
_ E você duvida disso? – os dois riram em voz baixa – Boa sorte com a Megan.
_ Valeu... Boa sorte com o Davi.
_ Sr. Campana e Sr. Fragoso? – os dois levantaram depressa, assustando a enfermeira. Ela derrubou os prontuários do chão, logo se apressando em apanhá-los – Perdão... Hã, suas namoradas já estão nas salas de parto.
_ E quais são? – a mulher conferiu os prontuários.
_ A Maria Aparecida é na sala 8, corredor da esquerda. A Giane é na sala 4, corredor da direita. – ela nem bem terminou de falar e os dois rapazes já corriam para fora da sala, deixando a enfermeira confusa – Mas eu jurava que era o contrário.
Elano escancarou a porta de número 4, entrando arfante. Mas qual foi sua surpresa ao topar com Cida ali dentro.
_ Cida?
_ Elano? – talvez ninguém soubesse diferenciar os dois irmãos melhor do que ela e Giane, que conseguiam fazê-lo pelo simples tom da voz – O que você... Aaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh.
_ Calma, calma... Respira. – o rapaz se aproximou depressa, segurando a mão dela e começando a afagar com o polegar – Respira, isso. Vai dar tudo certo, tá bom? Eu vou encontrar o Fabinho e...
_ Não. – ela choramingou – Fica comigo, por favor.
_ Mas o Fabinho...
_ Eu quero você aqui Elano. Por favor. – ela implorou com os olhos rasos d’água, e o ex-marido concordou – Eu to com medo.
_ Vai dar tudo certo. – prometeu o advogado – A Megan vai ficar bem, tá me ouvindo? Sua garotinha vai ficar bem.
Cida apenas assentiu, enquanto via o médico se aproximar. A sala estava repleta de pessoas de jaleco e aparelhos que a assustavam, especialmente a incubadora no canto.
_ Vai dar tudo certo. – repetiu Elano – Agora você precisa empurrar. Está pronta? – ela assentiu – Então empurra.
_ Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh. – Fabinho gelou ao ouvir aquele grito, tão logo girou a maçaneta do número 8. Arregalou os olhos ao ver Giane ali, e ela se virou para fuzilá-lo, mas logo pareceu desarmada – Fabinho?
_ A enfermeira confundiu as salas. – ele disse, com os olhos ainda arregalados para a cena que via.
_ Tá com essa cara porquê? Nunca me viu? – rosnou a corintiana.
_ Olha, ver eu até vi. Mas ver sua coisa desse jeito... – ele apontou o meio das pernas dela – Porque eles deixam isso virado para a porta? Não é exatamente uma placa de boas-vindas.
_ Vai se feeeeaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhh. – ela gritou, agarrando as laterais da maca e começando a chorar – Droga, dói muito.
_ Calma pivete, já vai passar. – ele se aproximou sem pensar, colocando a mão na nuca dela e apertando com carinho. Logo sentiu o corpo dela arrepiar e sorriu.
_ Você não devia estar com a empreguete? – ela resmungou.
_ Acho que ela está em melhores mãos. – ele riu – Mas se você quiser, eu vou lá chamar o almofadinha.
_ Não. – Giane agarrou o braço do ex-namorado – Fica aqui comigo, por favor.
_ Enquanto você quiser.
_ Muito bem Cida, você vai precisar empurrar mais forte, tudo bem? – avisou o médico – Nós precisamos tirar a Megan logo, mas para isso ela precisa coroar. Então faça bastante força.
_ Eu não vou conseguir. – a cantora choramingou, encarando Elano – Eu não vou conseguir Elano.
_ Vai sim Cida, você só precisa se acalmar.
_ Eu não vou conseguir. – ela negou – Eu vou acabar perdendo ela, que nem eu perdi o nosso filho.
_ Cida, você precisa se acalmar. – ele segurou o rosto dela – Vai ficar tudo bem, você vai conseguir. A Megan vai ficar bem, eu te prometo. Você confia em mim?
_ Você sabe que sim.
_ Então acredita no que eu to te dizendo. Vai ficar tudo bem. – ela concordou, segurando a mão dele – Agora, empurra bem forte, tá bom?
_ Vai, vai, vai... 1, 2, 3, 4, 5... Pronto, descansa. – Fabinho mantinha uma mão na nuca de Giane, enquanto deixava ele segurar a outra – Isso tranqueira, tá indo bem. Tá indo muito bem.
_ Ele tá saindo? – a corintiana perguntou, arfando cansada.
_ A cabeça já coroou. – avisou o médico, fazendo os dois sorrirem – Mas alguns empurrões e ele sai.
_ Você aguenta? – perguntou Fabinho, arrancando um riso de deboche.
_ Manda.
_ Empurra Cida, empurra. – pediu Elano, ouvindo o grito da ex-mulher preencher o quarto.
_ A cabeça saiu. – comemorou o médico, fazendo Cida suspirar aliviada – Um último empurrão Maria Aparecida, bem forte.
_ Você consegue. – Elano afagou a mão dela, fazendo-a sorrir – Pronta? Empurra.
_ Vai pivete, vai. Empurra. – Fabinho gritava animado, enquanto observava o médico puxando algo – Vai Giane.
_ Aaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhh. – o grito dela morreu na garganta, enquanto ela caia deitada de volta na maca. No lugar, outro som foi ouvido.
_ Parabéns mamãe, é um menino lindo. – felicitou o médico, erguendo a criança cheia de sangue. Giane ergueu a cabeça, observando a criança chorar, e abriu o maior sorriso que Fabinho já havia visto na vida. O médico deitou a criança sobre o peito da mãe, que logo a abraçou – O pai não está aqui para cortar o cordão?
_ Fabinho... – ela virou para o publicitário, que parecia perdido.
_ Mas eu não sou o...
_ Corta, por favor. – ela pediu sorrindo, e o rapaz assentiu. Fabinho se aproximou, pegando a tesoura com a enfermeira e cortando no local indicado por ela. Devolveu a tesoura, virando-se para Giane e sorrindo da imagem dela com o filho.
Tão logo Megan nasceu, ela foi cercada pelos médicos. Não perguntaram se o pai gostaria de cortar o cordão. Não mostraram a criança para mãe. Não ouviram a pequena chorar. Ela simplesmente foi cercada por médicos que não paravam quietos, deixando o coração de Cida aos pulos de pânico.
Elano quase abria um buraco na mão dela, tamanho era o ritmo do movimento de seu polegar. Nenhum dos dois tiravam os olhos do amontoado de médico, esperando por um som que não havia vindo, o único que poderia acalmá-los.
E quando ele veio, foi como uma sinfonia de anjos.
_ Pronto, pronto. – a enfermeira veio ninando a criança, já envolta em um cobertor rosa – Está tudo bem com a mocinha aqui.
_ Ela tá bem? – Elano perguntou, enquanto Cida pegava a filha no colo.
_ Está. – garantiu o médico – A filha de vocês está perfeitamente bem.
_ Ela não é min... – começou o advogado, mas Cida o cortou.
_ Ela é sua, Elano. – ele a encarou – A Megan é sua filha.
_ Ele é a sua cara. – sussurrou Giane, enquanto acariciava o rosto de Davi. Fabinho sorriu sem graça.
_ É porque eu sou gêmeo do Elano.
_ Não Fabinho. O Davi é a sua cara porque você é o pai dele. – o publicitário arregalou os olhos, quase caindo para trás – Pelo amor de Deus, não me vai desmaiar.
_ Mas você disse que era do Elano.
_ Eu também disse que não te amava mais. As pessoas mentem, sabia disso?
_ Porque você mentiu? – perguntou Elano, encarando Cida – Porque você não me contou?
_ Você e a Giane estavam tão bem, tão felizes com o bebê de vocês, que eu simplesmente não consegui. – a moça baixou os olhos – Eu também não ia suportar você duvidando de novo que o bebê fosse seu.
_ E eu tenho motivos para duvidar?
_ Você acha que tem?
_ Então... Ele é meu? – Fabinho abriu um sorriso vacilante, enquanto via Giane assentir – E-eu posso?
Ela confirmou com a cabeça, passando o bebê para os braços do pai. Fabinho sorriu, fungando alto e fazendo Giane rir.
_ Bezerrão.
_ Cala a boca que eu to conhecendo meu filho. Tenho o direito de me emocionar. – o publicitário encarava o rostinho do bebê – Eu não acredito que ele é meu.
_ Pode acreditar, ele é totalmente seu. – Giane garantiu, secando os olhos discretamente – Totalmente nosso.
_ Ela é nossa. – sorriu Elano, sentando na beira da maca e acariciando o bebê – Nossa filha.
_ Nossa. – Cida concordou, vendo o sorriso do ex-marido aumentar. Mas logo, ela tinha um ar sério – Acho que o filho da Giane já deve ter nascido.
_ E acho que o pai dele já deve estar lá com ele. – ele ergueu os olhos, sorrindo para ela. O sorriso da empreguete voltou, enquanto ela assentia e voltava os olhos para a filha, vendo Elano acariciar a bochecha da pequena com o dedo.
_ Fabinho, eu não quero que você deixe a Megan sem pai. – garantiu Giane, e o rapaz riu.
_ O destino e uma enfermeira desastrada já se encarregaram de mandar o pai da Megan para ela, pode ficar sossegada – o sorriso da corintiana se alargou – Eu lá tenho cara de homem que sai engravidando a mulher errada?
_ Achei que eu que fosse toda errada.
_ É errada em quase tudo. – garantiu Fabinho, sentando na beira da maca e deixando que ela acariciasse o rosto do filho – Mas é a única perfeitamente certa para mim.
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