We Remain

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Esse capítulo tem a participação especial da Wal Pompeo, sim, ela escreveu uma parte dele. Então, aproveitem.

Elano mal dormiu, só tirou um cochilo. Passou a maior parte do tempo deitado com a cabeça de Cida sobre seu peito, alternando entre mexer em seus cabelos e desenhar em suas costas. Até que ela se moveu e tirou o peso de cima dele.

Ele sabia que não era um recomeço e sim uma despedida então, se levantou, colocou a roupa, terminou de esvaziar a sua parte do closet, que era bem menor que a dela, jogou as coisas na mala e, antes de finalmente ir, voltou para o quarto.

Cida dormia levemente, um sono tranquilo. Ele tinha vontade de tocá-la de novo, mas iria acordá-la e seria pior. Ele não soube quanto tempo ficou ali a admirando, mas tomou coragem e resolveu ir. Trancou a porta e jogou a chave por baixo dela.

Tinha chamado um táxi e logo estava no caminho do aeroporto de novo, com o cheiro dela impregnado no corpo.

Ao chegar no check-in, buscou o celular. Uma chamada perdida da casa de Giane. Retornou e ela atendeu.

_ Giane? Oi, é o Elano. Você me ligou, você tá bem?

_ Eu to, to bem, eu só tava preocupada com você… Você tá bem? – ele parou para pensar por alguns segundos.

_ Sim, eu estou. To voltando pra SP já, tá? Não se preocupa, e fica bem, viu? Não quero chegar aí e ver a casa cheia de vômito. – ela riu do outro lado, e ele se sentiu bem por ter a feito rir.

_ Seu palhaço! Claro que não, cara! Eu to melhor, juro.

_ A gente se vê daqui a pouco.

_ Até daqui a pouco, então. Fica bem também. – Elano desligou o telefone e logo estaria de volta para a sua nova vida.

Algumas semanas depois…

_ Elano! Elano, não joga tanta água assim!

Giane tinha voltado a trabalhar com as flores da cooperativa e Elano a ajudava na hora do almoço. A barriga dela já aparecia e ele se deliciava com aquilo.

_ Meu Deus, como sua mãe vai ser chata… – ele dizia para a barriga e levou um tapa dela – Isso dói, sabia?

_ Você é um palhaço mesmo! Só toma cuidado que esse tipo de flor não pode se encharcar de água.

_ Ok, florista. – ela suspirou, pegando um monte de rosas para cortar os espinhos.

_ Eu queria estar jogando bola ou fotografando.

_O médico não te proibiu de fotografar nada.

_ Mas o meu pai, sim. – Elano assentiu, rindo.

_ É verdade. — ele disse – A sua consulta é quinta às 8h?

_ Isso. Você vai comigo né?

_ Eu deixei de ir a alguma? E justo nessa, que vamos tentar descobrir se é menino ou menina? Claro que eu vou! – ele deixou o borrifador sobre a bancada e deu um beijo no rosto dela – Eu vou voltar para o escritório. Qualquer coisa, me liga.

Ela assentiu e continuou com as rosas, mas seu pensamento estava em outra pessoa que ela mal viu nos últimos tempos. Eles se evitavam e aquilo a magoava, e quase atrapalhava o namoro de seus pais.

Fabinho estava mais compenetrado na agência do que nunca. Trabalhava muito, fazia horas extras, levava trabalho pra casa, pra não ter que pensar em mais nada. Os amigos se preocupavam com ele, mas ele não era de ficar dando explicações, nem satisfações.

Estava tudo bem assim.

Ele estava voltando do almoço quando Érico lhe avisou que alguém o aguardava em sua sala. Sem perguntar quem era ele foi até lá, queria muito que fosse certo moleque de rua, mas se surpreendeu mais do que imaginava.

_ Cida? – ele disse ao abrir a porta.

Ela o olhava com um sorriso torto, sem graça. Eles mal se falaram depois daquela vez e agora ela estava ali e ele podia perceber que era uma coisa séria.

_ Você tá bem? – ele fechou a porta e se aproximou dela, sem saber se lhe cumprimentava com um beijo ou com um aperto de mão.

_ Bem. – ela disse ao levantar da cadeira e dar um beijo no rosto dele – E você?

_ Ah, você sabe, empreguete. – ele deu de ombros – Levando como dá. Mas estou curioso pra saber por que está aqui.

_ Estava com saudades. – Fabinho riu sem graça.

_ Saudades de mim? – ela assentiu, mas logo ficou séria – Mas não é só isso…

_ Fabinho, é… Eu nem sei como te dizer isso… – ela gesticulou com as mãos.

_ Quem morreu?

_ Credo, Fabinho! – ela riu de nervoso – Ninguém morreu. Ao contrário, eu… Eu to grávida.

_ É o quê? – Fabinho procurou imediatamente uma cadeira pra se sentar – Calma aí, grávida? Como assim cara?

_ Eu… – ela continuou gesticulando, mas estava envergonhada.

_ Não precisa explicar não. Não precisa… – ele colocou as mãos no cabelo – É meu? – como se ele já não tivesse problemas o suficiente – É meu? Mas… Eu usei camisinha. Ela estourou? Quantas semanas você tá?

_ Calma… – ela disse, se sentando em uma cadeira próxima a ele – Não é seu, Fabinho. – ela sorriu quando ele soltou um suspiro de alívio e se se encostou à cadeira.

_ Cida, não é que eu não queira ser pai de um filho seu, é só que… – ele pegou na mão dela – É estranho, né? Eu… Eu vejo que você está feliz. – ela assentiu e sorriu – Que bom que está feliz. E desculpa perguntar, mas quem é o pai?

Ela sorriu e Fabinho via algumas lágrimas nos olhos dela.

_ O Elano.

_ O almofa…? Quer dizer, o Elano!? Puta merda! – ele exclamou – Quando aconteceu isso? Nossa!

_ Foi uma recaída nossa, sabe? Eu pensei que a gente ia… Se resolver. Mas não deu. Ele voltou pra cá, né.

_ Acho que tem uma coisa que você não sabe…

_ O quê? – ela olhou assustada pra ele. Ele apertou um pouco mais sua mão.

_ Aquele dia que eu voltei meio louco pra casa, e… Cê sabe, né… Eu tinha descoberto que a Giane tá grávida, ela cuspiu as palavras na minha cara. – Cida arfou – Ai meu Deus, não… Não passa mal. Pelo amor de Deus. Eu vou pegar uma água pra você. Respira fundo.

_ Você tá falando sério? – Fabinho assentiu, sério – E o pai é o Elano?

_ Bom, pelo o que ela disse… É, sim. – ela ficou alguns segundos encarando Fabinho e logo começou a chorar – Ai meu Deus, empreguete. – ele a abraçou – Calma, por favor, se acalma… Eu… Sinto muito. Não queria te dar uma notícia dessas, cara.

_ Tá, eu… Eu não sabia. Eu não sabia. Eu não devia ter vindo aqui de novo. – ela disse, soluçando.

_ Como assim? Você não vai falar pra ele?

_ Claro que não, Fabinho. Não, depois de saber disso.

_ Essa criança vai ficar sem pai?

_ Eu não devia ter vindo, eu me arrisquei muito com essa viagem, era pra eu estar em repouso. As primeiras semanas são as mais críticas e da última vez, você sabe o que aconteceu. Eu não quero que aconteça de novo.

_ Não vai acontecer de novo, Cida. – ele a abraçou mais forte e depois pegou o seu rosto nas mãos – Eu vou cuidar de você, tá? Você não precisa ir, eu cuido de você e dessa criança. Não vou deixar você sozinha.

_ Você não tem essa obrigação, Fabinho. Não tem.

_ Eu sinto que tenho. Dessa vez eu não vou deixar nada te acontecer. Nada.

No dia seguinte

_ Muito bem Maria Aparecida, eu estou com os resultados dos seus exames. – o médico indicou os papéis em suas mãos – Primeiramente: esqueça viagens de avião até o final da gravidez. Esqueça festas, eventos, shows… Até seu filho nascer, é só repouso.

_ Algo errado? – perguntou um Fabinho apreensivo, segurando a mão de Cida.

_ A Maria tem insuficiência no colo do útero, ou colo do útero curto. Como não foi examinado na gravidez anterior, não podemos determinar se ela já possuía isso ou se foi algo decorrente da perda do bebê. – explicou o médico, analisando os papéis – O ultrassom de agora a pouco mostrou isso.

_ Mas o que isso quer dizer? – assustou-se a empreguete.

_ O colo do útero deve ficar fechado até meados da 37ª semana, quando ele começa a amolecer e dilatar para o parto. Nesse caso, ele é mais fino, e só o peso do bebê já pode fazer isso. – o homem de branco explicou – Nesse caso, nós recomendamos repouso absoluto e muito cuidado.

_ Mas não tem nada que possamos fazer? – questionou Fabinho.

_ Existe um procedimento, onde nós costuramos o colo do útero. – os dois arregalaram os olhos – É seguro, mas só poderemos fazer em algumas semanas, entre a 13ª e 16ª, se vocês forem querer. Mas até lá, você terá que ficar de repouso.

_ E se eu não quiser o procedimento?

_ Nesse caso, será repouso absoluto até o final da gestação, mas já com a certeza que o bebê nascerá em meados do 7º mês. – Cida tremeu, enquanto Fabinho a abraçava – Mas vocês não devem ficar se preocupando ou sofrendo, é pior para você Maria. Calma e tranquilidade também são imprescindíveis para a gravidez ser bem sucedida.

_ No nosso caso, isso é bem difícil. – suspirou Fabinho, e o médico riu.

_ Eu sei que vocês vão conseguir. – o homem apanhou algo nos exames – Querem ver a primeira imagem do filho de vocês?

Ele estendeu uma foto, que Cida apanhou sorrindo. Ela trouxe a imagem para perto de si e Fabinho, os dois sorrindo bobamente.

O médico receitou alguns remédios, vitaminar e recomendações do que Cida deveria fazer e precauções que Fabinho deveria tomar. O doutor avisou que sexo não era recomendado, mas isso seria tranquilo para os dois tirarem de letra (pelo menos eles preferiam pensar assim).

_ Muito bem, nós vamos mudar seu quarto para o andar debaixo, porque não te quero subindo escadas e fazendo esforços. Eu vou contratar uma diarista para cuidar da casa e ficar contigo durante o dia. E você pode ligar para o teu assessor, mandando ele desmarcar qualquer show, sessão e o diabo a quatro. Pelos próximos meses, seu único trabalho é cuidar do arrozinho. – avisou o publicitário, enquanto eles saiam do consultório. Cida gargalhou.

_ Vai dar uma de super protetor?

_ Sem a menor vergonha. – confessou Fabinho, parando ao lado dela e descendo a mão para sua barriga – Se depender de mim, esse bebê vai ficar aí dentro até os nove meses, firme e forte. Dessa vez, eu não vou deixar nada acontecer com vocês dois.

Cida sorriu enternecida, abraçando Fabinho e deixando que ele beijasse sua testa. O momento ternura tinha tudo para durar, mas foi interrompido bruscamente.

_ Sua vagabunda sem-vergonha.

Fabinho só teve alguns segundos para segurar os punhos de Giane, antes que ela quebrasse a cara de Cida. A empreguete se afastou, enquanto o publicitário segurava a ex-noiva, que se debatia.

_ Eu vou te matar, sua infeliz. – gritava a corintiana – Fura olho, sem vergonha, desgraçada.

_ Giane, para, para. – gritou Fabinho, agarrando ela pelos braços – Dobra a sua língua antes de falar da Cida.

_ Vai defender ela, vai Fabinho? – gritou Giane – Seu maldito, filho da puta…

_ Eu sou maldito? Eu, Giane? – ele rosnou – Até onde eu saiba, quem dormiu com outro quando a gente tava junto, foi você.

_ Fabinho, se acalma. – pediu Cida, se aproximando do rapaz.

_ Me acalmar? – ele perdia cada vez mais o controle – Ela vem te acusar, sendo que a sem vergonha aqui é ela.

_ O que tá acontecendo aqui? – Elano apareceu, guardando a chave do carro no bolso – Cida, Fabinho?

_ Adivinha Elano? – Giane se aproximou do advogado – A empreguete vadia e o fraldinho imbecil vão ter um filho, olha que lindo.

_ Vocês vão o que? – o rapaz arregalou os olhos.

_ É isso mesmo que você ouviu, ô almofadinha babaca. – Fabinho abraçou Cida – Cê engravidou a minha ex, eu engravidei a tua. Justo, né?

_ Seu filho da… – Giane tentou avançar, mas Elano a segurou.

_ Pensa no nosso filho. – ele sussurrou – Mas eu não tenho o que perder.

Elano foi partir para cima do irmão, mas Fabinho lhe virou um soco antes que ele conseguisse se aproximar. O advogado caiu no chão, e o publicitário teria prosseguido com a agressão, se Cida não tivesse segurado seu braço.

_ Eu não to bem. – ele a segurou apertado, se aproximando da cadeira. Gritou o nome do médico, que logo corria para fora da sala. Giane permanecia estática, enquanto Elano levantava do chão preocupada.

_ O que foi que eu disse sobre calma e tranquilidade? – repreendeu o médico, medindo a pressão de Cida – Não precisamos que a pressão dela suba também, por favor.

_ Tem algo errado? – perguntou Elano, com a voz meio mole.

_ Cuida da sua mulher, que da minha cuido eu. – Fabinho rosnou, enquanto ajudava Cida a levantar.

_ Repouso, está bem? – o médico pediu, enquanto o publicitário guiava Cida para fora do consultório. O homem suspirou, encarando Giane e Elano – Mas que…

_ Ele é meu irmão gêmeo, e a mulher dele parece muito com a minha. – explicou Elano, abraçando Giane – Acho que somos os próximos.

_ Entrem, e eu já aproveito e dou uma olhada no seu rosto. – pediu o médico, abrindo a porta do consultório.

No estacionamento, Fabinho maiou a porta do carro, furioso. Ele deitou a cabeça no volante, começando a chorar de raiva. Cida acariciou seu cabelo, enquanto o ouvia xingar contra Giane.

_ Eu não acredito que ela teve coragem de dizer essas coisas. – rosnou ele, secando os olhos.

_ Fabinho, alguma vez você se permitiu chorar? – perguntou Cida, atraindo a atenção dele – Chorar mesmo, deixar seu sofrimento vir à tona, depois que vocês romperam e você descobriu que ela… Bom, que ela tava grávida do Elano?

_ Chorar é para almofadinhas. – resmungou Fabinho.

_ Chorar é pra quem ama, e você ama a Giane e tá sofrendo. – ela segurou o rosto dele – Pode chorar Fabinho, você já tá chorando. – Cida riu – Não precisa se segurar, eu não vou te julgar.

Foi como se ele ouvisse o que precisasse. Ele deitou a cabeça no colo dela, dentro do carro mesmo, e se deixou chorar tudo que não havia chorado nos últimos meses. Cida também chorou em silêncio, os dois dividindo sua dor.

Dentro do consultório, o médico limpou o canto da boca de Elano, que havia se cortado pela unha de Fabinho. O homem também lhe entregou uma bolsa de gelo para colocar no olho, que com certeza ficaria roxo.

Giane estava em silêncio, emburrada. Estava tão ansiosa por descobrir o que seria seu filho, e Fabinho e Cida tinham que estragar tudo. Ele tinha que estragar tudo.

A ideia de que ele estava com outra pessoa, que ele esperava um filho com outra, enquanto ela esperava o filho dele… Esse pensamento trouxe um aperto ao seu peito, uma vontade incontrolável de chorar. Como se pressentisse isso, Elano sentou ao seu lado e a abraçou, sorrindo por baixo do gelo.

_ Pronta para ver o nosso filho? – ela sorriu ao ouvi-lo falar, assentindo em silêncio – Então vem.

Ela deitou na maca, expondo a barriga redonda e fazendo o advogado sorrir largamente. O médico despejou o gel, começando a passar o bastão, enquanto Giane e Elano observavam o monitor com ansiedade.

_ Muito bem, muito bem… – o médico mexia o bastão, sorrindo largamente – Alguma preferência, hein papais?

_ Que venha com saúde. – garantiu Elano, e a corintiana concordou.

_ Saúde ele tem, e para dar e vender. – o médico apontou o monitor – Estão vendo isso? É o pênis do filho de vocês.

_ É menino? – Giane sorriu, enquanto o médico assentia – Elano, é menino.

O rapaz sorriu, beijando a testa de Giane. Ela o abraçou apertado, escondendo a cabeça no ombro dele e começando a chorar. Ele apenas acariciou as costas dela, enquanto o médico se afastava para dar-lhes privacidade no momento.

Mas só Elano sabia que o choro era mais de sofrimento do que alegria.