We Love You, Olivia!
24 ღ CAPÍTULO 23
Notas iniciais
“Você me derrubou de novo
Me sinto como um nada”
— Taylor Swift
Eu nunca odiei nenhum número. Nunca tive superstições quanto à nenhum deles, tampouco. Meu azar nunca foi por causa de um número ou objeto, mas sim por causa de mim mesma (ou do universo conspirando contra mim, mas disso eu não tenho provas). No entanto, eu posso afirmar com toda a certeza de meu coração que eu odeio o número dois. Com todas as minhas forças. E há uma razão plausível para isso — faltam apenas dois pontos para o ponteiro da roda do amor voltar a sua posição normal. Ou seja, mais dois pontos e Bash não estará mais apaixonado por mim e tudo se tornará uma piada de mal gosto. A paixão dele por mim irá desaparecer e a minha vai ficar. Como sempre, nem um pouco correspondida. Eu já sabia que isso iria acontecer. O problema é que quanto mais esse momento se aproxima, mais partido o meu coração fica. E, se antes o que eu mais queria era que o ponteiro voltasse a sua posição normal, agora, eu só quero que ele pare. Quero que o tempo pare. O que eu sei que nunca vai acontecer.
Eu me arrumo e vou direto para a escola. Henry nos leva de carro, como de costume. Ele resolveu ir à aula hoje, apesar de tudo ser muito recente. Henry finge que está bem, é sempre assim. Meu amigo sempre esconde a tristeza, até mesmo de mim. Apesar de saber o quanto ele está mal, acredito que vir a escola pode ajudá-lo a distrair a cabeça. Pelo menos um pouquinho.
—Bem-vindo de volta à selva! — É o que digo para Henry assim que colocamos os pés na nossa escola.
—Se eu disser que senti falta desse lugar, estarei mentindo. — Suspira. Solto uma risada pelo nariz. O sinal bate, anunciando o início das nossas aulas. — Vejo você no almoço. — Ele se despede, seguindo para a sua aula. Faço o mesmo que ele, e sigo na direção da minha.
A minha primeira aula é de física. Presto a atenção em tudo o que meu professor fala e anoto coisas importantes. Minha próxima aula é de francês e não tenho muita matéria hoje. A hora não demora a passar e quando a hora do almoço chega, sigo direto para o refeitório. Enquanto caminho, tenho a sensação de que alguns alunos estão olhando para mim. Alguns soltam risadinhas quando passam por mim. Tento ignorar essa sensação de que estão rindo de mim, mas é impossível. Deve ser coisa da minha cabeça. É o que tento pensar. Mas, quanto mais eu me aproximo do refeitório, mais as risadas aumentam. Está acontecendo alguma coisa, eu posso sentir. Sabe aquela sensação de que alguém fez ou vai fazer algo para você? É exatamente o que eu estou sentindo agora. Só consigo pensar em uma coisa, ou melhor, pessoa — Jaden.
Meu estômago começa a se revirar de ansiedade e meus músculos ficam tensos. Eu mal vejo Noah correr na minha direção. Ele tem a respiração ofegante. Está nervoso.
—Liv! Eu juro que eu não tenho nada a ver com isso. — Diz apressado.
— Do que você está falando? — Franzo o cenho. Noah hesita, com uma expressão de pavor.
—Olha o seu celular.
Tiro meu celular da bolsa imediatamente. Quando abro o aplicativo de mensagens, eu quase deixo o aparelho cair no chão. Há um vídeo, enviado por um número desconhecido. Sinto meu coração bater mais forte contra o meu peito e um pavor invade o meu ser. Eu abro o vídeo e entro em choque. As primeiras imagens são do meu primeiro encontro com Noah. De quando estávamos na fonte, mais precisamente. O vídeo não está em um ângulo muito bom, mas da forma em que a câmera foi posicionada e o vídeo editado, parece que o Noah me beijou naquela noite. A próxima imagem também é da mesma noite. Nela, é possível ver claramente que estou dançando com o Bash. E, de novo, por causa do ângulo, parece que eu o beijei. As imagens seguintes passam. São todas dos meus encontros com o Noah. Outras, de alguns momentos com Bash. Por último, um vídeo de ontem. Do beijo que Noah me deu. É bem nítida. Ao final, palavras surgem no vídeo: "Essa é a traidora que todos pensam ser boa."
Eu sinto vontade de sair correndo. Tudo ao meu redor parece virar apenas borrões. Eu mal ouço Noah dizer "eu sinto muito". Minhas mãos tremem e eu saio pelos corredores da escola, sem rumo. Está acontecendo. Um dos meus maiores pesadelos está acontecendo. De novo. Todos pensam que eu estava saindo com o Noah e o Bash ao mesmo tempo. Todos pensam que eu estava os enganando. Todos acham que eu "roubei" o namorado da minha amiga. Tudo que eu mais temia.
Continuo andando, desordenada, até que dou de cara com alguém. Quando levanto os olhos eu o vejo. Ele está sério e me encara com uma expressão indecifrável.
—Bash? — Minha voz sai como um sussurro. Bash respira fundo. Parece perdido.
—Você está saindo com o Noah? — Pergunta baixo, em um tom quase acusatório. Meu coração se agita ainda mais.
—Bash, eu posso explicar. — Respondo nervosa. Ele levanta uma mão, em sinal para que eu pare.
—Você não me deve explicações. — Ele é frio. Posso ver a decepção estampada em seu rosto. — Nós não temos nada, não é? — Sinto um bolo fechando a minha garganta. — Quero dizer, eu pensava que sim. Mas, eu confundi as coisas.
—Bash, eu…
— Está tudo bem. — Ele sorri, amargo. — Eu já devia imaginar que você gosta do Noah. — Seus olhos estão vazios, o que me quebra por dentro ainda mais. Não está nada bem, eu posso ver em seu rosto. — Eu sempre me precipito. Você nunca nem mesmo disse que gosta de mim. — Ele ri, sem vontade. — Talvez eu tenha forçado a barra, me desculpe. Sinceramente, não queria causar problemas. — Suas palavras me acertam como tijolos na cabeça. — Eu não vou ser uma pedra no seu sapato, Liv. — Ele desvia o olhar. — Você tem um problema para resolver que é descobrir quem fez isso. Esse vídeo terrível.
—Bash…
—Eu falo com você depois. — Diz, se afastando um pouco. Tenho a impressão de ver seus olhos marejando.
Então, Bash vai embora. E, eu não faço nada para impedir. Nem mesmo consegui dizer que eu gosto dele. Não consegui me explicar e nem tenho forças para isso. É como se o teto da escola estivesse despencando na minha cabeça. Tudo está acontecendo de uma vez só e eu não sei o que fazer. Respiro fundo algumas vezes, tentando manter a calma. Preciso dos meus amigos. Preciso falar com Rosie ou Henry.
Volto na direção contrária, na direção do refeitório novamente. Sei que estar num lugar cheio de gente agora não é a melhor ideia, mas eu preciso falar com Brownie ou Rosie. Quando chego à porta do refeitório, eu hesito antes de abrí-la. Conto mentalmente até três e entro no lugar. O falatório de alunos conversando em suas mesas me deixa ainda mais nervosa. Eu passo por eles sem olhar para trás. Sei que alguns estão olhando na minha direção. Alguns cochicham, soltando risadas. Outros jogam piadas nem um pouco engraçadas. Sinto meu rosto queimar de tanta vergonha e constrangimento.
Eu sigo para a fila, encolhendo meus ombros como se isso fosse me deixar invisível. Pego a bandeja com o almoço e o suco sem encarar muito as pessoas. Olho para os lados, na procura de meus amigos, e avisto Rosie, na mesa de sempre. Ela acena para mim, afoita, e eu aperto meus passos na sua direção. Alguém, entretanto, bloqueia o meu caminho e bate na minha bandeja, fazendo tudo o que está nela voar na minha roupa e em cima de mim. Eu cambaleio para trás por causa do impacto e fico coberta de salada e suco de laranja. Jaden tem um sorriso debochado nos lábios, mas não pede desculpas pelo que fez. Nesse momento, todos estão olhando para mim e rindo sem parar.
—Agora está onde deveria estar. — Sussurra para mim, vitorioso. Eu não consigo responder. Rosie corre até a mim e empurra Jaden para o lado. Seu corpo mal se move e ele ri.
—Liv, você está bem? — Ela segura meus braços, cheia de preocupação. Apenas balanço a cabeça.
Rosie suspira e, de repente, ela está em pé, em cima da mesa dos jogadores de hóquei. Ela ignora as reclamações dos jogadores, no entanto.
— Prestem bastante atenção! — Rosie se dirige a todos presentes no refeitório. — Deixem a Liv em paz, está bem? — Exige. — Se ela estava saindo com o Noah ou com o Bash não é da conta de vocês! — Acrescenta. — Ela é livre e desimpedida e pode sair com quem ela quiser! Até porque, eu não vi ninguém aqui julgando o Noah por ter ficado comigo na festa da Jess e no dia seguinte ter se declarado para minha amiga. Por que ele pode e ela não, hein? — Ninguém responde. Ela respira fundo. — E tem mais, se ela saiu com o Noah foi porque eu pedi! Agora, vão cuidar da vida de vocês, seus fofoqueiros! — Completa.
Rosie desce da mesa em apenas um pulo. Ela me encara, penalizada. Apesar do que ela disse, tudo que eu quero agora é sair correndo daqui para bem longe dos olhares acusatórios de todos. Longe das risadas e das piadas de mal gosto. E é isso que eu faço. Sigo para a saída sem nem olhar para trás. Antes de deixar o lugar, eu ouço a voz de Karlie:
—Fuja, vadia traidora! — Um coral de risos a acompanha.
ஐﻬﻬஐ
Era um dia quase normal na escola. Tirando o fato de que eu tinha recebido um bilhete de Logan — uma paixonite secreta — me convidando para almoçar com ele no intervalo. Eu estava animada e nervosa. E também surpresa. Logan nunca nem mesmo havia falado comigo. Mesmo achando o convite suspeito, eu resolvi aceitar. Era meu último ano antes do ensino médio e mesmo sendo insegura, eu realmente acreditei no convite de Logan.
Quando o sinal bateu, anunciando a hora do intervalo, deixei a sala de aula e segui direto para o meu armário. Lá, encontrei um novo bilhete de Logan, me pedindo para encontrá-lo na sala de artes. Eu desconfiei no mesmo instante, mas novamente ignorei meus instintos. Eu era ingênua demais. Ao chegar na sala, abri a porta vagarosamente. Estava tudo escuro.
—Tem alguém aí? — Perguntei. — Logan? — Tateei a parede no escuro, procurando um interruptor. Ao acender a luz e dar um passo para frente, tropecei em algo. Um balde, que estava preso no teto, virou em minha cabeça. Uma grande quantidade de farinha e ovo podre me cobriu por inteira. Risadas escandalosas eclodiram. Um grupo inteiro de líderes de torcida apareceu, com celulares apontados para mim.
—Veja só! — A líder delas gargalhou, me olhando com desdém. — A esquisita realmente acreditou que tinha recebido um convite do Logan. — Debochou.
—Achou mesmo que alguém como ele se interessaria por você? — Outra desdenhou, fazendo todas rirem. — O que foi? Vai chorar, esquisita? — Debochou.
Dei as costas para elas e saí da sala, apressada. Do lado de fora, um grupo de alunos me esperava. Estavam rindo. Eu os deixei para trás. No dia seguinte, todos já sabiam e uma lista dos mais esquisitos da escola circulava. Havia um nome no topo — Olivia Marie Carter.
Fecho meus olhos, abraçando minhas pernas. Meu coração parece estar prestes a saltar pela minha boca e eu não consigo respirar como eu deveria. Me recosto na parede. Parece que estou vivendo tudo o que aconteceu comigo quando era mais nova de novo. Estou sentada no chão do banheiro da escola. Coberta de suco de laranja. Trancada. Não quero que ninguém me encontre. O pesadelo está acontecendo novamente e tudo que eu faço é chorar. Não consigo parar de chorar, como um bebê assustado. Não quero sair daqui. Não que me vejam e riam de mim novamente. Sinto um misto de medo e vergonha que só fazem o meu desespero aumentar. Eles me odeiam e sempre irão me odiar. Eu não consigo entender o porquê. Minha garganta aperta, em uma angústia sem fim.
Quando ouço vozes do lado de fora do banheiro, meu coração dispara ainda mais. Minhas mãos tremem e eu enterro a cabeça entre os meus joelhos. Ainda consigo ouvi-los lá fora. Reconheço a voz de Henry. Rosie. Uma terceira pessoa fala baixo demais e não consigo identificar quem é.
— Eu vou entrar nesse banheiro. — Ouço Henry dizer, alterado.
— Está trancado. — É Rosie que diz. — Não pode entrar no banheiro feminino, Henry!
— Eu quero ver quem é que vai me impedir! — Duas batidas soam na porta devagar. — Liv? — Chama baixinho.
Eu hesito, mas me arrasto no chão e destranco a porta para que meu amigo entre. Henry abre a porta, mas não permite que ninguém mais entre e a fecha novamente.
—Liv? — Ele se senta ao meu lado. Minhas lágrimas só aumentam e Brownie me envolve num abraço apertado, acariciando meu ombro e ignorando o suco de laranja.
— Está acontecendo de novo. — Soluço, caindo no choro de novo. — Por que eles me odeiam tanto?
—Hey! — Responde baixo. — Não vai acontecer nada daquilo de novo. — Tenta me acalmar. — Vai ficar tudo bem. — Respiro fundo, tentando controlar as lágrimas que caem sem permissão.
— Por que eu não posso ser como todo mundo? Por que tenho que ser assim? Um alvo fácil!
—Isso não é culpa sua! — Diz sério. — Você é apenas vítima. O que eles fizeram é errado demais, Liv. Nunca se culpe pela crueldade dos outros.
Fico em silêncio, apenas inspirando e expirando por longos minutos. Henry também não diz nada, apenas me faz companhia. Não sei quanto tempo passa, mas aos poucos, minhas lágrimas cessam. O meu medo não passa, no entanto. Meu corpo está pesado e minha mente esgotada.
—Brownie?
—Sim?
— Por que eles fazem isso? — Meu amigo suspira.
— Eu não sei. — Falou por fim.
— Eu nunca fiz nada contra ele.
Henry me solta do abraço, franzindo o cenho.
— Você disse ele? — Questiona. Fico em silêncio, hesitante. — Você sabe quem fez o vídeo? — Não respondo. — Olivia, quem fez isso com você? — Pergunta sério.
— Eu não tenho provas, mas tenho certeza que foi o Jaden. — Confesso sem encará-lo.
— Jaden? O babaca do time de hóquei?
Balanço a cabeça positivamente. Henry fecha a cara e num segundo já está de pé, saindo do banheiro.
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