Notas iniciais
Boa tardee! Muito obrigada NaruShibuya, Carol Marques e Maia Hastings pelos comentários ♥ O capítulo de hoje está mais curto. Espero que gostem. Bjs *.*

Sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo."

— O Caçador de Pipas



Perder alguém que amamos é uma das sensações mais dolorosas que pode existir. Não é uma dor física. Não é um simples machucado, e antes fosse. Tomar um remédio não vai fazer parar de doer. Nada vai fazer isso passar, somente o tempo é capaz de fazer a dor diminuir. E isso pode demorar uma eternidade.

Dizer algo para alguém que acabou de perder a mãe pode não fazer muito efeito também. Normalmente não faz. Mesmo para meu melhor amigo. Porque dizer que eu sinto muito, não vai fazer ele sentir menos. Dizer que a mãe dele está melhor agora não vai diminuir a saudade tampouco. Nessas horas, o melhor a se fazer é dar um abraço apertado. E é isso que eu faço no momento em que o túmulo é fechado. As pessoas jogam flores em homenagem, mas Henry mal se mexe. Ele parece estar com a mente muito distante, preso em seu mundo particular.

Acabamos de sair do enterro da Sra. Brown. Todos os amigos estão presentes, inclusive meu pai e minha mãe. Eles todos se conheceram quando ainda estavam na faculdade e a amizade durou todo esse tempo. Todos estão tristes. A mãe de Brownie, Elle, foi uma mulher adorável e bondosa, e por mais que todos soubessem que ela estava doente, ninguém esperava que ela fosse morrer assim. Sempre houve uma esperança de que ela se recuperasse. Ninguém nunca espera a morte, afinal.

O sr. Brown, pai de Henry, está mais sério do que nunca. Pela primeira vez em minha vida, eu o vi derramar uma lágrima. Uma lágrima apenas. Foi tudo que ele derramou durante toda a cerimônia. Henry também não chorou mais. Seus olhos estão inchados e seu nariz está vermelho. Ele nunca esteve tão calado como está hoje. Está completamente arrasado e parece não ter mais nenhuma lágrima para derramar.

Nós deixamos o cemitério todos juntos. O grupo de pessoas segue para a casa do Sr. Brown, mas Henry decide não ir. Eu e Rosie apenas o seguimos, silenciosamente, até um parquinho próximo. Ainda em silêncio, Henry senta-se em um balanço enferrujado, dobrando as pernas longas demais.

— Eu sinto muito, Henry. — Rosie finalmente diz. Henry apenas assente e esboça um sorriso tão fraco que mal parece um sorriso. Rosie e eu trocamos um olhar penalizado. — Eu vou buscar um chá de camomila pra você. — Anuncia.

—Obrigado. — Responde baixo.

— Você quer alguma coisa, Liv? — Pergunta por fim.

—Não, obrigada.

Ela assente. Rosie solta um suspiro e nos deixa sozinhos. Eu me aproximo um pouco e me sento no outro balanço vazio, balançando um pouco. As correntes que seguram o balanço fazem um barulho irritante, que preenche todo o ambiente. O parquinho está vazio e um vento gelado corta nossos rostos. O céu está cinza e o sol parece ter fugido de nós. Qualquer indício de alegria parece ter fugido de nós. Uma nuvem pesada paira sobre as nossas cabeças. Nós ficamos calados por longos minutos.

—Lembra quando vínhamos aqui quando éramos crianças? — Henry finalmente fala, mas ainda não me encara. Ele força suas pernas para fazer seu balanço se mover um pouco para frente e para trás.

— Sim. — Dou um sorriso fraco, lembrando dos bons tempos em que não tínhamos que nos preocupar com nada além de brincar. Isso durou pouco para meu amigo, entretanto. Sua mãe adoeceu quando ele ainda era muito criança, levando com ela a paz que uma criança de cinco anos deveria ter.

—Na maioria das vezes era a sua mãe que nos trazia. — Diz baixo. Assinto, sem saber o que dizer. Não acho que Henry queira chegar a um assunto específico, mas apenas preencher o silêncio angustiante. — Sabe, eu lembro o quanto eu me esforçava para fazer com que ela ficasse bem. — Desabafa. — Eu aprendi a me vestir bem ainda criança e a me virar sozinho porque eu queria que ela visse que eu estava bem e que não precisava se preocupar comigo. Queria que ela cuidasse dela mesma. — Suspira. — Queria que ela ficasse boa, mas isso nunca aconteceu.

Seguro sua mão, apertando levemente.

—Tenho certeza que ela tentou, Brownie. — Respondo cautelosamente. Ele balança a cabeça positivamente e me encara.

— Eu sei. — Seus olhos marejam. — Mas queria que isso tivesse funcionado. — Ele pisca, evitando que mais lágrimas se formem. Empurro meu balanço para o lado, me aproximando de Henry e dou um abraço apertado em meu amigo, deitando a cabeça em seu ombro. Ele solta um suspiro baixinho e escora sua cabeça na minha. — Não quero mais chorar. — Resmunga.

— Eu sei. Mas não faz mal chorar. — Respondo por fim. — Minha mãe sempre diz que é melhor para fora do que para dentro. — Ele solta uma risada fraca em meio às lágrimas.

Os minutos parecem se arrastar. Tudo parece demorar mais quando estamos sofrendo. Isso me faz pensar que o tempo e a tristeza devem ser amigos, sempre colaborando um com o outro. Parece que se passaram horas até que Rosie volta com o chá de Henry. Ele toma a bebida quente, mesmo relutante. Henry não está com fome. Eu também não estou. Será um dia cinzento demais.

ஐﻬﻬஐ

A tarde finalmente chegou, e nem parece que estamos no mesmo dia. Rosie e Henry estão em minha casa e eu decidi que os dois vão dormir aqui hoje. Meus pais não se incomodaram com a ideia, já que estão ajudando o sr. Brown com todas as pessoas que resolveram ir visitá-lo para prestar condolências. O pai de Henry nunca conseguiria dar conta de receber tantas pessoas sozinho. Ele não é um homem de muitas palavras, muito menos de demonstrar seus sentimentos em público. Henry não fala com o pai desde ontem. Tento não ser pessimista, mas temo que a relação dos dois piore agora que Elle morreu.

Nós jogamos um grande colchonete no chão e o cobrimos com vários cobertores e almofadas. Rosie prepara chocolate quente com marshmallows e nós três nos jogamos no colchonete. Procuro na TV algum filme, tentando encontrar algo para assistir.

—O que querem assistir? — Pergunto por fim.

—Qualquer coisa que me faça rir. — Henry murmura, bebericando seu chocolate quente. Continuo procurando e acabo parando em Os incríveis.

—Que tal esse? — Sugiro.

—Por mim, tudo bem. — Rosie responde. Henry dá de ombros. Aperto o play e o filme começa.

Passamos o resto da tarde assistindo o filme e depois a sequência. Brinco de fazer trancinhas nos cabelos de Henry e ele resmunga, tentando se mover. Rosie entope a boca de salgadinhos, tentando não rir da cara de Brownie.

—Será que você pode parar de se mexer? — Eu quase rio. — Estou tentando fazer um penteado. — Henry cruza os braços, emburrado.

— Mas o cabelo é meu!

—Agora não é mais. — Rosie sibila, com a boca cheia.

— Vou vender na deep web. — Brinco, conseguindo arrancar uma risada fraca de Henry. Ver ele triste é de partir o coração.

—Quero pelo menos algo digno de Daenerys Targaryen. — Diz baixinho.

— Se você continuar com o cabelo na cabeça já vai ser muito. — Rosie responde. Henry arregala os olhos, preocupado com o que eu possa estar fazendo com suas belas madeixas. Eu a encaro com uma carranca falsa e minha amiga ri. — Desculpa, Liv, eu te adoro, mas você é péssima fazendo penteados. — Solto uma risada baixa.

Rosie não está errada. Não é à toa que sempre que eu inventava de pentear os cabelos das minhas bonecas, elas acabavam carecas. Essa histórias de que mulheres já nascem com um instinto maternal é a maior mentira já criada. Eu sou a prova viva disso. Qualquer criança não sobreviveria uma semana na minha mão. Termino de fazer o penteado em Henry (cujo o próprio diz estar parecendo um ninho de passarinho).

As horas passam e eu não tenho certeza de quem apaga primeiro. Rosie acaba dormindo em um sofá e Henry em outro. Rosie está encolhida como uma bola e Brownie está agarrado à uma almofada, com o rosto escondido. A TV continua ligada, passando um filme que não terminamos de assistir. Não é tão tarde assim e não deve ser nem dez da noite. Meus pais ainda não voltaram, mas mandaram uma mensagem de que estão fazendo companhia para o sr. Brown. Eu me levanto, no escuro e caminho até a cozinha para beber água. Encho um copo inteiro de água e bebo. Sinto meu celular vibrando e por um momento penso ser alguma mensagem dos meus pais. Quando leio que é de um número restrito, meu coração se agita.

“Perto. Está muito perto de todos saberem quem você realmente é.”

É o que diz a mensagem. Largo o celular de lado, sentindo meu estômago revirar de ansiedade. De novo. Será que eu não vou ter paz nunca?