We Love You, Olivia!
32 ღ EPÍLOGO
Notas iniciais
Todos temos medos. Faz parte do ser humano. Eu mesma sempre tive vários. Medos esses, que me impediam de viver plenamente. Mas, com o tempo, aprendi que não é vergonha nenhuma ter medo. O problema mesmo é deixá-lo nos dominar por completo. Não tenho mais medo de dizer e aceitar, por exemplo, que estou apaixonada. E, mesmo sabendo que, admitindo isso, posso estar no risco de me machucar ou me decepcionar, eu sei que não me arriscar a viver seria muito mais prejudicial. Acho que de tudo o que vivi nos últimos meses, aprendi algumas lições. E, uma delas é que eu posso superar os meus medos. Por mais que, ironicamente, eu morra de medo disso. Eu preciso tentar. É algo que somente eu posso fazer por mim mesma.
Decido, então, começar com o mais complicado. É como lutar contra um exército de monstros. Faz meu coração pular da boca e minhas mãos ficarem trêmulas. No início, quero sair correndo. Depois de alguns minutos, começo a me habituar com a situação. Mesmo não estando completamente confortável, me sinto melhor. E feliz por estar superando as minhas próprias dificuldades. Mesmo que só um pouquinho.
—E então, eles viveram felizes para sempre. — Termino, fechando o livro de histórias infantis.
As crianças, sentadas no chão coberto de tapete colorido parecem satisfeitas com a história. Sorriem para mim, animadas. Eu respiro fundo. Quem diria que contar histórias para crianças num clube do livro de um hospital seria algo tão difícil?
— Por hoje é só. — Anuncio, sorrindo. Alguns se levantam e saem correndo, outros se despedem com acenos. Eu me levanto do puff onde estou sentada, apenas os observando se afastarem.
—Uma bela história. — A voz de Bash em minhas costas me faz sorrir. Eu me viro para encará-lo. Ele tem um sorriso nos lábios e tira uma mecha de cabelo do rosto que insiste em ficar desalinhada.
— Você está aí há muito tempo? — Minhas bochechas esquentam. Bash arqueia uma sobrancelha.
—Peguei a parte que o dragão invade o castelo. — Conta, bem-humorado. — Como conseguiu prender a atenção de tantas crianças e ainda sozinha? — Pergunta impressionado. Dou de ombros.
—Acha que foi muito ruim? — Faço uma careta.
— Foi maravilhoso. — Responde por fim. — Estou muito orgulhoso de você. — Sorri. Mordo o lábio inferior, contendo um sorriso. — Vamos? — Ele oferece uma mão para mim. Eu aceito, entrelaçando nossos dedos e balançando um pouco nossos braços.
Deixamos o hospital infantil em passos calmos. Sem nenhuma pressa. O sol ilumina nossos rostos conforme caminhamos de volta para casa. Bash balança nossos braços de vez em quando, apenas para implicar. Quando viramos no final da minha rua, não muito longe da casa de Bash, lembranças imediatas vêm à minha mente. A rua da casa da Lucinda.
— Vem comigo!
Puxo Bash pela mão e saio praticamente correndo pela rua tranquila e silenciosa. Ele resmunga, sem entender nada, mas me segue. Continuo andando rápido, procurando entre as diversas casas uma pequena casa azul claro, cheia de penduricalhos de plástico. Ao chegar onde deveria estar a casa de Lucinda, no entanto, não há nada. Há um espaço vazio, entre duas casas. Impossível. A casa de Lucinda sumiu.
— O que foi? — Bash franze o cenho, confuso. No jardim de uma das casas, uma senhora rega as flores cuidadosamente. Eu me aproximo imediatamente da mulher e Bash me segue.
— Com licença? — Chamo sua atenção. A senhora assente e sorri como resposta, parando o seu trabalho de jardinagem. — A senhora sabe o que aconteceu com uma casa azul que tinha aqui? — Aponto para o espaço vazio. A mulher me encara, franzindo o cenho.
— Eu moro aqui há muito tempo, mas nunca houve nenhuma casa ali. — Responde cautelosa. Arregalo os olhos.
— Tem certeza? — Insisto.
—Absoluta.
Ainda em choque, agradeço à senhora pela informação. Como é possível que nunca tenha havido uma casa ali? Eu estive no lugar. Diversas vezes. Eu não posso ter imaginado tudo. É impossível. O mistério faz minha mente girar, buscando explicações. Pelos céus. Quem era Lucinda e para onde ela foi? Há tantas perguntas em minha mente que nem mesmo percebi que caminhei um bom pedaço pela rua. Bash me alcança, me tirando do transe.
— Hey, Liv, você está bem? — Ele para na minha frente, esbaforido. — Você parece que viu um fantasma. — No momento, me sinto como se realmente tivesse visto um. Meu silêncio o faz franzir a testa. — É casa da tal mulher misteriosa do colar mágico, não é?- Conclui. Assinto.
— A casa dela desapareceu. — Digo baixinho. Bash dá um longo suspiro. — Como isso é possível? — Pergunto mais para mim mesma do que para ele. Bash segura os meus ombros.
— Existem coisas que nunca poderemos explicar. — Suspira. — Só não se preocupe com isso. — Me tranquiliza. Respiro fundo. Bash tem razão. A Lucinda e sua roda do amor são coisas que nunca entenderei. Decido, então, não me preocupar com isso. Pelo menos, não agora.
— Sabe, vou tentar não pensar nisso.
Bash sorri.
— Gostaria de ter conhecido essa senhora para agradecer por ter me ajudado a ver quem eu amo de verdade. — Diz olhando para mim. Sorrio para ele.
Bash toca meu rosto com as pontas dos dedos, acariciando-o, e sela nossos lábios num beijo terno. Envolvo seu pescoço com meus braços e suas mãos param em minha cintura. Então, o resto de minhas preocupações se evaporam no ar. Não há mais nada em que consigo pensar senão neste momento. Ele interrompe o beijo, sorrindo.
— Eu te amo, Liv. — Sussurra, antes de me envolver num abraço. Meu coração bate mais forte contra o peito e eu hesito antes de responder. Mas, não por dúvidas. Porque agora, eu tenho certeza. Deito minha cabeça em seu ombro, ainda presa em seu abraço.
— Eu também te amo. — Sussurro de volta.
Quando Bash me solta, tem um sorriso largo no rosto. Aquele sorriso que me faz derreter ainda mais. Ele oferece sua mão novamente para mim e eu aceito, entrelaçando nossos dedos como sempre. E então, voltamos a caminhar livremente. Perto da casa de Bash, Mozart e Charlie nos alcançam. O cachorro pula em cima de mim e lambe o meu rosto. Charlie se joga no colo do irmão, rindo.
— Liv, Liv! — Charlie diz animado demais, tentando se desvencilhar dos braços do irmão mais velho. — Pode me ajudar com a lição? — Pede. Bash franze o cenho, fingindo estar sério.
— E eu? Achei que eu te ajudasse. — Ele finge estar enciumado. Charlie faz uma careta extremamente infantil.
— Mas eu gosto mais quando a Liv explica. Ela é inteligente. — Responde sincero, me fazendo soltar uma risada. Charlie finalmente se solta do abraço de Bash.
— Ah, é? — Bash dá um sorrisinho vingativo. Charlie balança a cabeça.
Bash o prende novamente, enchendo-o de cócegas. O pequeno Charlie tenta se soltar mas seu irmão é mais forte. Eu apenas sorrio, observando os dois. Me sento na grama verdinha, acariciando o pelo de Mozart, enquanto respiro o ar puro. Se a roda do amor funcionou ou não. Se Lucinda foi real ou não. Se eu sou o pessoa mais azarada do mundo ou a mais sortuda. Nada mais importa. Porque isso não vai mudar o que sinto, nem o que Bash sente. Agora, posso ter certeza que, finalmente, tenho o meu “e viveram felizes”. E, por mais que não seja para sempre, algo me diz que será por um bom tempo.
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