We Love You, Olivia!
30 ღ CAPÍTULO 29
Notas iniciais
“Quando fala o amor, a voz de todos os deus deixa o céu embriagado de harmonia.”
— William Shakespeare
Sabe aquela sensação, quando você acorda pela manhã, de que você teve um sonho maravilhoso durante à noite? Aquela sensação que traz paz e vontade de saltitar e cantar sem motivo algum. Tudo por causa de um único sonho.
Sonhos são combinações de fantasias, todas unidas, quase como alucinações. Eu poderia dizer que estou sonhando. Ou fantasiando. Ou até mesmo tendo alucinações. Mas, nada disso explicaria o que eu estou sentindo. É melhor que andar nas nuvens, mesmo eu nunca tendo andado em uma (o que fisicamente impossível). Tudo isso que estou sentindo agora é melhor do que qualquer sonho que já tive ou fantasia que imaginei. Saber que isso é real me deixa sem ar, ao ponto de me fazer querer pular de felicidade.
Quando eu abro meus olhos, um raio de sol ilumina o meu rosto. A brisa fresca da manhã entra pela janela entreaberta da sala. Uma sala não tão familiar assim. Não demoro a lembrar que estou na casa de Bash e não deve passar das oito da manhã. Não está chovendo mais e o sol está iluminando mais do que nunca. Depois de tudo ontem à noite, acabamos pegando no sono. Eu não sabia antes, mas correr na chuva é algo muito exaustivo.
Eu tento me mover alguns centímetros, mas os braços de Bash estão firmes ao meu redor, me abraçando como um travesseiro enquanto minha cabeça está apoiada em seu peito. Ele tem a expressão serena enquanto dorme, seu peito sobe e desce regularmente por causa da respiração. Mozart está deitado no chão, praticamente grudado nos pés do sofá, impossibilitando que qualquer um de nós pise ali quando sairmos do sofá.
Me desprendo dos braços de Bash cuidadosamente para não acordá-lo. Eu me sento e, automaticamente, ele se ajeita no sofá, puxando a coberta para si. Bash está completamente apagado. Contenho um sorriso, observando-o. Ele parece muito mais jovem assim, sem qualquer vinco de preocupação no rosto. Tão… Perfeito! Como um anjo. É tão esquisito pensar que estamos namorando. Sim. Namorando. Me inclino um pouco e deposito um beijo em sua bochecha. Bash dá um sorrisinho, parecendo estar sonhando. Dou um longo suspiro, fazendo Mozart levantar a cabeça. O cachorro parece me entender e abana o rabo, deitando a cabeça entre as minhas pernas para receber algum carinho. Acaricio seu pêlo macio e ele praticamente pula em cima de mim. Abafo um gritinho enquanto Mozart lambe o meu rosto, animado demais. Depois de se cansar de mim, a criatura fofa vai na direção de seu dono. Mozart capricha quando lambe todo o rosto de Bash que apenas balbucia palavras sem sentido, ainda dormindo. Levo a mão na boca, tentando não soltar uma risada alta por causa disso. Bash se mexe, mas Mozart não para o seu trabalho.
—Ah, Liv. — Balbucia. Franzo o cenho.
—Por que você acha que eu lamberia você?
Bash parece acordar ao ouvir minha voz, mas não abre os olhos.
— Não é você, né? — Pergunta rouco.
—Definitivamente não. — Solto uma risada. — Por que eu lamberia você? — Ele faz uma careta, enquanto Mozart funga seu cabelo.
—Seria esquisito…
—Sim!
—Ah, Mozart… — Choraminga, finalmente se levantando. Mozart se joga em cima do dono, fazendo Bash soltar uma risada. — Eu sei, amigão. — Ele faz um carinho no cachorro. — Já vou colocar comida pra você! — Mozart sai do sofá e corre para fora de nossas vistas.
—Bom dia, Bela Adormecida. — Digo por fim. Bash esboça um sorriso, esfregando os olhos.
—Bom dia, Liv. — Suspira. — Já amanheceu? — Ele olha ao redor, ainda perdido. Apenas assinto. Ele sorri, parecendo estar pensando em algo. — Vou preparar o café-da-manhã! — Bash se levanta, decidido.
Depois de alguns segundos, eu o sigo. Bash coloca um pouco de ração para Mozart em seu pote e segue para a cozinha. Eu me sento à bancada da cozinha, assistindo-o preparar waffles. O cheiro invade todo o ambiente fazendo o meu estômago roncar. Com chá quentinho, nós comemos os waffles enquanto Mozart nos assiste, na esperança de ganhar algo. Após terminarmos, ajudo Bash com a louça. Ele lava os pratos enquanto eu seco tudo. Estou distraída quando algo gelado me atinge. Bash acaba de jogar água em mim. Eu o encaro, pasma, enquanto ele ri. Tento revidar, mas ele é mais rápido e desvia. Antes que eu tenha tempo de pensar, sou atingida mais uma vez com um bocado de água no rosto.
— Seu idiota. — Xingo, mas acabo rindo. Seco meu rosto com o dorso da mão. Bash arqueia uma sobrancelha, sorrindo cinicamente.
— Eu sou idiota? — Repete com um sorriso malicioso. Ele dá um passo na minha direção e eu recuo automaticamente.
— O que vai fazer? — Pergunto quando vejo que ele está segurando a borracha da torneira da pia em uma das mãos. — Não se atreva, Bash! — Advirto. Ele sorri ainda mais e liga a borracha, apontando-a na minha direção. Eu mal tenho tempo de colocar uma mão no rosto e um jato de água morna me atinge em cheio. Bash solta uma gargalhada com vontade.
— Vai ter volta. — Ameaço, dando um passo na sua direção. Ele larga a borracha, dando um passo para trás.
— Não faça nada que possa se arrepender depois. — Responde bem-humorado. — Eu sou seu namorado agora, lembra? Você me ama. Você escreveu a carta, lembra? — Me aproximo ainda mais, sorrindo. — Liv. — Ele solta uma risada e corre para o outro lado da cozinha. Corro na sua direção, mas ele foge de mim, dando uma volta pela bancada. Eu o sigo, mas as meias escorregam no chão liso e eu caio com tudo no chão. Tenho a sensação de que eu deslizo pelo chão como uma bola de boliche na pista, mas não tenho certeza. — Ah, meu Deus! Liv! — Eu me sento imediatamente. Solto uma risada, colocando uma mão no joelho dolorido. É óbvio que isso aconteceria. Bash corre até a mim. Sua expressão é um misto de pura preocupação e vontade de rir. — Você está bem? — Ele se abaixa, segurando os meus ombros.
— Sim. — Solto uma risada. Bash me ajuda a levantar, mas ri com vontade.
— Você tem certeza? — Ele respira fundo, tentando controlar as risadas.
— Estou bem. — Respondo por fim. — Estou acostumada a cair. — Admito casualmente.
— É! Eu percebi. — Sorri, segurando minha cintura. Reviro os olhos. — Você está sempre caindo de alguma forma. — Franze o cenho, perdido em pensamentos. Ele fica calado por alguns segundos.
— O que houve?
— Estou tentando contar todas as vezes que você caiu só nesses últimos meses.
— Bash!
Ele sorri.
— Teve aquele dia na arquibancada… — Acrescenta.
— Eu fui atingida por uma luminária. — Me defendo. — Não conta! — Ele faz uma careta.
— Teve aquele dia no parque, o dia no baile, que por sinal você me derrubou também, na sala de artes, outro dia no parque… Eu esqueci algum? — Sorri.
— Teve um dia na biblioteca também. — Conto. — E, se serve de consolo, derrubei o Noah dentro de um chafariz.
— Você o que? — Ele ri. Dou de ombros. — Como eu queria ter visto isso. — Suspira. — Mas, por que fez isso? Ele é meio tonto, mas daí jogar o coitado no chafariz por causa da lerdeza já é maldade, Liv. — Ri.
— Hmmm… — Hesito, mordendo o lábio inferior. Bash arqueia uma sobrancelha.
— Espera! É melhor eu não saber. — Decide, bem-humorado.
— Não mesmo. — Balanço a cabeça. Ele sorri, abraçando a minha cintura.
— Até porque, tem coisas mais interessantes… — Sussurra.
Bash cola nossos lábios num beijo. Suas mãos deslizam pelas minhas costas enquanto as minhas estão apoiadas em sua nuca. Passo os dedos entre seus cabelos macios, completamente entregue. O beijo rapidamente se torna em algo mais intenso e urgente. Como se fosse impossível de nos separarmos. Meu coração se agita e eu quase perco o fôlego, sentindo arrepios. Nossos corpos estão grudados e Bash segura meus quadris firmemente, me erguendo no colo, sem parar o beijo. Enlaço minhas pernas ao redor de sua cintura e ele me leva até a bancada, onde me apoia, sentada. Seguro seu rosto e ele interrompe o beijo apenas um segundo, sorrindo em meio a respiração ofegante. Selamos nossos lábios novamente, sem pressa. Este momento é perfeito. Simplesmente inexplicável. Em meio à uma mistura de sentimentos, de repente, sinto-me como se estivesse faltando algo. Ou melhor, como se eu tivesse esquecido algo. Em um instante, eu sei o que é.
—Merda! — Eu o empurro, interrompendo o beijo. Bash arregala os olhos, surpreso. Eu mesma me surpreendo pela palavra que pulou da minha boca.
— Você xingou. — Ele diz, impressionado. Eu desço da bancada num pulo, passando uma mão pelo rosto. Eu estou ferrada. — O que aconteceu? Eu fiz algo de errado? Eu fui rápido demais? — Pergunta preocupado. Balanço a cabeça, andando de um lado para o outro.
— Eu dormi aqui! — Respondo nervosa. Bash franze o cenho, tentando entender a situação.
—Sim.
—Ah! Meu. Deus. — Não paro de andar de um lado para o outro, freneticamente.
—Liv?
—Meus pais! — Eu quase grito. — Eu esqueci dos meus pais. Quero dizer, eu não esqueci que tenho pais, mas eu esqueci de avisar a eles. Eu estou muito ferrada, Bash. — Acrescento rápido. Ele franze a testa.
—Certo. — Suspira. — Isso é preocupante.
— Eu sei!
—Mas tenha calma. — Diz tranquilo. — Não fizemos nada de errado. Quero dizer, eu não fiz nada de errado… — Sorri. — Você invadiu um aeroporto, mas podemos omitir essa parte. — Eu paro de andar.
—O que eu faço?
—Calma. — Ele respira fundo e segura meus ombros carinhosamente. — Eu vou levar você em casa. Só preciso trocar de roupa primeiro. — Mordo o lábio inferior. — Relaxa, está bem? — Assinto, mesmo sendo impossível. Já consigo imaginar a cara dos meus pais ao me ver chegando com o Bash. Meu estômago revira só de pensar na vergonha que vou sentir.
Bash troca de roupa e me empresta algumas roupas de sua mãe. Tudo que eu menos preciso agora é sair de pijamas na rua. Visto a calça jeans e uma camisa preta dos Beatles. Nós pés, coloco minhas pantufas mesmo.
Bash pega o carro e dirige direto para a minha casa. Quando ele para em frente à fachada do meu lar meu medo aumenta ainda mais. Eu respiro fundo e saio do carro, sendo seguida por Bash. Não há sinal de confusão em minha casa. Parece tudo em ordem. Uma onda de esperança me atinge, junto com uma ideia infalível.
—Não vai entrar? — Bash me encara. Balanço a cabeça negativamente.
—Tive uma ideia. Preciso da sua ajuda.
Bash me segue até o lugar embaixo da janela do meu quarto. Um vinco de preocupação se forma em sua testa.
—O que vai fazer? — Pergunta receoso. Sorrio.
—Vou entrar pela janela do meu quarto. — Respondo por fim. — Talvez eles tenham chegado tarde e não tenham reparado que eu não estava em casa. — Nem eu mesma acredito nisso. Bash faz uma careta.
— Não acho que isso é uma boa ideia.
Eu ignoro seu comentário.
—Me ajuda a subir. — Peço.
Me aproximo da árvore que há embaixo da minha janela, pensando numa forma de escalá-la. Bash dá um longo suspiro, mas oferece as mãos para que eu tome impulso. Tento subir, usando a ajuda de Bash, mas me desequilibro. Tento mais uma vez e finalmente me agarro na árvore. Bash me empurra para cima, até que eu consigo me segurar na mureta da sacada, fazendo uma força tremenda. Tomo impulso e caio dentro do quarto, por cima da minha escrivaninha. Tudo cai, inclusive eu. Faço uma careta por causa da barulhada e me levanto. Droga! Prendo a respiração quando escuto vozes lá embaixo. Uma é a do meu pai. A outra é de Bash. Me aproximo cautelosamente da janela, espiando.
—Café? — Meu pai oferece uma caneca para Bash.
—Ah, obrigado. — Responde segurando a caneca, perdido. — Podemos entrar? — Convida. Engulo seco. Bash segue meu pai até a porta, mas antes de entrar em casa, meu progenitor para.
—Ah, Liv, querida! — Ele diz alto e tranquilo, olhando na direção da janela. Eu me escondo atrás da cortina. — Quando parar de fingir que passou a noite em casa, pode descer, por favor? — Meu rosto esquenta mesmo sabendo que meu pai não pode me ver daqui. — Precisamos conversar. — Completa e entra em casa. Faço uma careta.
Mais uma situação constrangedora está prestes a acontecer. Eu me olho no espelho, contando até dez e respirando fundo. Por fim, desço diretamente para a cozinha, onde encontro meus pais e Bash sentados à mesa. Eles estão em lados opostos, como se meu novo namorado estivesse prestes a ser interrogado. Bash tem as mãos juntas em cima da mesa. Se está nervoso, está disfarçando bem. Engulo seco, me aproximando.
—Ah, Liv! — Meu pai sorri, cínico. — Resolveu se juntar à nós! Sente-se! — Pede, apontando para o lugar vazio ao lado de Bash. Minha mãe apenas me encara, em silêncio. Eu hesito, mas me sento. Bash endireita a postura, um pouco mais tenso. — Estava com o Batt aqui…
—É Bash, senhor. — Corrige sem jeito. Meu pai sorri.
—Claro, claro! Pode me chamar de Paul. — Diz com a sua tranquilidade de psicanalista de sempre. No entanto, minha mãe parece mais desconfiada e insatisfeita. — Vocês se conhecem há muito tempo? — Questiona.
—Nós conhecendo na escola. — Bash responde baixo. Meu pai assente.
—Me conte, Bash, você gosta de coisas novas? — Semicerra os olhos. Bash franze o cenho, perdido.
—Er… Sim. — Bash está hesitante. Seus olhos passam de mim para meu pai rapidamente. — Gosto bastante de arte também.
—Imagino que seja criativo! — Conclui. Bash dá de ombros. — Personalidade Aventureiro, tenho certeza. — Sussurra para minha mãe.
—Pai! — Ralho entre dentes. — Poderia parar de fazer a análise psicológica dele?! — Bash me encara.
—Desculpa. É a força do hábito. — Meu pai dá de ombros. Me encolho na cadeira, morrendo de vergonha.
—Bash, e a sua família? — Minha mãe fala pela primeira vez. — Sua mãe e seu pai? Tem irmão? Seus pais são casados? Onde trabalham? — Pergunta impaciente. Sua expressão é de pura desconfiança. Meu pai toca seu ombro para que ela se acalme. Bash pisca rápido diante de tantas perguntas.
—Tenho um irmãozinho, Charlie. — Sorri. — E… — Ele fica um pouco mais sério. — Meus pais se divorciaram há pouco tempo. — Conta. Minha mãe franze a testa, deixando a máscara séria de lado.
—Sinto muito. — Diz penalizada.
—Tudo bem.
—E como se sente sobre isso? — Meu pai arqueia uma sobrancelha.
—Pai! — Ralho.
—Está bem. Desculpa. — Pede, levantando os braços como forma de rendição.
—Olha, eu juro que foi culpa minha pelo que aconteceu. — Bash diz rápido. — Estava chovendo muito e eu a convenci a dormir lá em casa. A culpa é minha. — Acrescenta. Eu o encaro, quase desmentindo-o. Meus pais se entreolham.
—O Henry nos contou. — Explica meu pai. Abro a boca. — Tudo. — Pigarreia. Me encolho ainda mais na cadeira, como se fosse capaz de sumir. Meu rosto esquenta e minhas mãos suam. Eu vou matar o Henry! Bash suspira fraquinho. Um silêncio constrangedor se faz por um longo segundo.
—Eu só queria que soubessem que eu amo a Liv. — Bash diz, sincero e tenso. Contenho um sorriso, num misto de emoção e nervosismo. — E que eu jamais faria nada que a magoasse. Eu juro. — Meus pais se entreolham mais uma vez. Os lábios de minha mãe se estreitam, numa linha séria. Meu pai também permanece quieto, o que só piora a minha ansiedade.
—Se a minha Liv está feliz, fico feliz também. — Meu pai diz por fim. Bash sorri e eu respiro aliviada. Minha mãe solta uma risada, mais leve. — Mas, da próxima vez que sair de casa, avise antes. — Me encara.
— Eu sei. Desculpa. — Respondo baixinho. Ele sorri, balançando a cabeça.
—Mas, eu quero ouvir essa história direitinho. — Diz minha mãe, interessada. Então, Bash começa a contar, animado. E eu apenas sorrio, observando-o. E, pela primeira vez, agradeço pela roda do amor.
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