Notas iniciais
Ooi! Muito obrigada NaruShibuya, Carol Marques e Shalashaska por comentarem ❤❤ Espero que gostem. Bjs *•*

"Os sentimentos não podem ser ligados e desligados como interruptores de tomada."

—Nicholas Sparks

Meu pai sempre me diz para ter cuidado com o que desejamos. Ele não é supersticioso, longe disso. Mas, ele tem razão em certos pontos. Segundo ele, se mentalizamos demais as coisas, é provável que elas aconteçam (principalmente as ruins). Isso não é nada demais, para uma pessoa comum. No entanto, para mim, uma pessoa comprovadamente azarada, pode ser o caminho do desastre, com encerramento em um belo hospital.

Eu nunca havia desejado tanto que o meu encontro com o Noah acabasse. Mas, eu nunca desejei que o pobre coitado fosse picado por uma abelha. Eu também nunca imaginei que ele fosse alérgico. O problema é que meu azar é tão grande que afeta até aqueles que estão ao meu redor. Dou um suspiro fraco. Estou no hospital da cidade agora. Ou melhor, estamos. Noah foi atendido imediatamente, assim que chegamos, e agora está deitado numa cama de hospital, em observação. Por sorte, (exclusivamente dele), não houve nenhuma complicação. Noah está bem, apesar do susto. Susto que parece ter afetado mais a mim do que a ele. Estou a ponto de entrar em colapso, enquanto ele parece bem tranquilo.

— Você está bem? — Pergunto pela milésima vez. Não consigo evitar a preocupação. Ver uma pessoa tendo um ataque de alergia, com risco de morte, na sua frente é algo um tanto estressante. Ele solta uma risada.

—Já disse que sim, Liv. — Responde com a voz rouca. — Não se preocupe. — Dá de ombros. — O hospital já avisou aos meus pais e… — Ele passa uma mão nos bolso na calça, procurando por alguma coisa. — Droga! Acho que eu perdi meu celular no parque.

—Tem certeza que foi lá? Pode ter sido em outro lugar.

Ele balança a cabeça em negação.

— Não. — Ele entorta a boca, se forçando a pensar. — Eu estava com o meu celular lá, eu me lembro. — Ele suspira, desanimado.

—Se você quiser eu posso voltar lá. — Ofereço. — Pode estar lá ainda. — Ele faz um som com a boca, considerando a ideia.

— Você faria isso? Quero dizer, não precisa se não quiser. Mas, aquele celular tem toda a minha vida. — Ele faz uma careta.

Dou um sorriso contido.

—Não tem problema. — Dou de ombros. — Eu posso ir. Você está aqui, no hospital. Talvez eu encontre o seu celular. — Ele sorri.

—Ah, obrigado, Liv. Não sei como agradecer.

— Está tudo bem. — Respondo por fim. — Você pode ficar sozinho, não é?

—Sim. Eu estou bem. — Ele esboça um sorriso fraco.

—Vejo você depois, Noah. — Me despeço. Um momento quase constrangedor surge. Não sei o que fazer para me despedir de Noah. Um aperto de mão seria formal demais depois de dois encontros. Já um beijo na bochecha não me parece muito confortável para mim. Por fim, decido dar apenas um aceno antes de deixar o quarto do hospital.

Deixo o hospital em direção ao parque. Se Noah for tão sortudo quanto eu acho que ele é, talvez eu encontre seu celular por lá ainda. Enquanto caminho pelas ruas, não deixo de pensar em como meus encontros sempre dão errado. Este foi apenas o segundo (terceiro, se contar o desastre do boliche), e o Noah já caiu dentro de um chafariz e já foi picado por uma abelha. Não consigo imaginar o que pode acontecer se tivermos um próximo encontro. Talvez, fiquemos presos em um apocalipse zumbi, ou capturados por alienígenas. Afasto os pensamentos sem noção da cabeça e continuo o meu caminho.

Quando chego no parque, sigo direto para a árvore onde estávamos. Começo a procurar pelo lugar fizemos o picnic e, incrivelmente, não demoro a encontrar um celular preto que, sem dúvidas, é do Noah. Guardo o celular na bolsa e no mesmo instante sinto algo gelado tocando a minha perna. Me viro no mesmo instante e vejo que é um nariz. Ou melhor, um cachorro. Grande, peludo e caramelo, com o focinho mais escuro e as orelhas caídas, o bichinho mais fofo que eu já vi nada vida parece agoniado tentanto pegar a bolinha vermelha que está entre os meus pés. Eu me agacho, pegando o brinquedo e ele o captura da minha mão com a boca. Não deixo de reparar sua coleira, com um pingente dourado com o nome “Mozart” gravado.

— Mozart? — Repito. Ele abana o rabo, parecendo reconhecer o nome e larga a bolinha. — Você tem um nome muito chique. — Não consigo conter um “ownt” e faço carinho em sua cabeça. Mozart fecha os olhos e pula para lamber meu rosto. Solto uma risada, enquanto ele tenta lamber a minha bochecha. Em toda a minha vida, eu sempre amei cachorros. Mas, nunca pude ter um um. Minha mãe é totalmente alérgica à animais.

— MOZART! — Escuto uma voz fina e infantil e avisto um menino, que não deve passar dos cinco anos, correndo na minha direção. Pelo modo que está, ele deve ser o dono do cachorro. O garotinho para, esbaforido, e pega a bolinha vermelha do chão. — Até que enfim te achei. — Ele fala para o cachorro que o olha com com a cabeça de lado. — Ele tá sempre fugindo. — Ele diz para mim desta vez, tirando os cabelos castanho claro do rosto.

— Ah! — Olho para os lados na tentativa de achar alguém responsável pelo menino. — Você está sozinho aqui? — Pergunto.

— Não. Meu irmão está…

— Charlie! — Uma voz familiar praticamente grita. O dono da voz se aproxima do garoto, parecendo um pouco impaciente. Meu queixo quase cai quando vejo quem é e meu coração dispara tanto que sou capaz de dizer que ele já deve ter pulado da minha boca e saído como uma gazela saltitante pelo parque, enquanto meu estômago pula de paraquedas dentro do meu corpo. Bash ainda não percebeu a minha presença no local, pois está concentrado demais olhando para o garotinho. — O que eu lhe disse sobre sair correndo na frente? — Repreende. O menino faz uma careta. — Eu não… — Ele para de falar quando repara em mim. Bash arregala os olhos no mesmo instante, surpreso. — Liv?

A famosa lei de Murphy. Aquilo que você menos deseja é o que mais acontece. Totalmente oposta à filosofia do meu pai. O curioso é que as duas aconteceram comigo. No mesmo dia. Isso só pode ser uma piada de muito mau gosto que o universo está jogando contra mim. A pessoa que eu menos gostaria de encontrar é Bash. E, no entanto, ele está bem na minha frente agora, com a sobrancelha arqueada, me encarando com um olhar de curiosidade. Porque eu tinha que encontrá-lo logo agora que descobri que estou apaixonada por ele? Essa é a primeira vez que o vejo desde o nosso quase beijo. Respiro fundo e só então percebo que eu ainda estou agachada. Me levanto rapidamente no mesmo instante.

— Bash! — Consigo dizer sem gaguejar. — É seu cachorro? — Pergunto sem encará-lo muito. Sinto minhas bochechas ficando quentes. Droga de paixão!

— Sim. — Ele responde com cautela. — E esse é meu irmãozinho, Charlie. — Ele aponta para o garoto que dá um sorrisinho. — Não esperava encontrar você aqui. — Franze o cenho. Seu rosto está bem na direção do sol e seus olhos castanhos ganham uma tonalidade mel por causa da claridade. Uma tonalidade perfeita. Me concentro para não encará-lo demais.

— Ah! Eu…Eu…- Me perco nas palavras. O que eu vim fazer aqui mesmo?

— Você? — Ele esboça um sorriso quase maldoso.

— Eu… Eu… Ah! — Lembro-me do que vim fazer no parque. — Vim buscar algo que eu tinha perdido. — Dou de ombros. Ele franze a testa. O pequeno Charlie nos observa com curiosidade.

— E você encontrou?

— O que?

— O que você perdeu, Liv! — Ele ri.

— Ah, sim! Encontrei. — Respondo rápido, torcendo para que ele não tenha percebido o meu nervosismo. Haja naturalmente, Liv. Bash estreita os olhos.

— Você está bem?

— Estou ótima. — Minha última palavra sai num tom acima, quase desafinada. Bash arqueia uma sobrancelha, parecendo estar se divertindo com a minha situação.

— Parece um pouco nervosa.

— Porque… Porque… Você me assustou com o seu grito!

Ele faz uma expressão de puro deboche.

— Então, já começamos com “a culpa é toda do Bash!”? O episódio de hoje, assustando Olivia no parque.

— Eu não quis dizer isso. — Respondo baixo. — Só não esperava ver você aqui também. — Confesso. Charlie cutuca a perna do irmão, chamando a atenção de Bash.

— Quem é ela? — Pergunta curioso. Bash dá um sorriso.

—Essa é a Liv. É da minha escola.

—Ah! — Ele parece desapontado. — Acho a Rosie mais bonita! — Dá de ombros. Solto uma risada quase de nervoso. A sinceridade infantil é incomparável.

—Charlie! — Bash ralha quase entre dentes. — Não pode sair falando esse tipo de coisa para as pessoas! — O garotinho abre a boca, perdido.

— Está tudo bem. — Dou de ombros.

—Ah! Desculpa moça que estuda com o meu irmão. — Pede envergonhado. — Bash, Bash, Bash! Eu posso voltar a brincar? — Pergunta eufórico. Bash hesita.

—Tudo bem. Mas não se afaste muito. Quero você na minha vista.

Charlie assente rápido sai correndo, levando Mozart consigo. Bash solta uma risada fraca, observando seu irmão se afastar com o cachorro que é maior que ele.

— Não sabia que tinha um irmão. — Comento. Ele me encara.

— Você nunca perguntou. — Dá de ombros. — Minha mãe está no trabalho e ele saiu mais cedo da escola, o que significa que eu tenho que tomar conta dele. — Franzo a testa. Bash continua fitando o horizonte, observando o irmão jogando uma bolinha vermelha para o cachorro. — Quando bagunça, dá um trabalho para escovar o pelo. — Suspira.

—O seu irmão? — Franzo o cenho. Bash me encara.

— Do cachorro!

—Ah!

—É bem esperto!

—O cachorro?

—Meu irmão!

—Ah!

— Dá um trabalhão pra prender na coleira!

—O seu irmão? — Arregalo os olhos.

—O cachorro, Liv! — Ele ri. — Embora, prender o meu irmãozinho numa coleira seja tentador às vezes! — Completa perdido em pensamentos. Bash me encara de novo. — Você definitivamente não parece nada bem! Por que não nos sentamos ali? — Ele aponta para um banco vazio um pouco à frente.

Eu hesito um pouco. Há um minuto atrás eu não queria vê-lo, mas agora, de um jeito esquisito, estou feliz por Bash estar aqui. Uma coisa boa. Como quando você dorme bem à noite e tem sonhos bons. Por um longo momento eu até esqueci que o pobre do Noah está no hospital. Por outro lado, ele está bem. Eu não estaria sendo muito ruim se conversasse um pouco com o Bash, não é? Até porque, eu não tenho nada com o Noah e também não vou ter nada com o Bash. Porque, apesar de ter admitido que gosto dele, Bash ainda é irritante.

— Tudo bem.

Ele sorri. Nós dois seguimos para o banco e, antes de nos sentarmos, compramos sorvete. Ambos de flocos.

—Você é filha única, não é? — Pergunta curioso.

—Ah, sim. Como é ter um irmão?

Bash dá um longo suspiro.

—Meu irmão é meio chato de vez em quando. — Admite. — Mas, não consigo mais imaginar minha vida sem ele. — Sorrio. Um minuto de silêncio se faz. Bash fica um pouco mais sério, como se estivesse preocupado com o que vai dizer. — Liv, naquele dia na escola…

— Bash! — Charlie interrompe no mesmo instante. Ele vem correndo com o cachorro bem atrás. Não deixo de reparar como ele é parecido com o irmão. Apesar do cabelo mais claro, Charlie tem os mesmos olhos de Bash. Suas bochechas estão levemente rosadas e ele para bem de frente para ele. — Também quero sorvete! — Anuncia.

— Não pode tomar sorvete antes do jantar, sãos as ordens de nossa mãe.

—Por favor. — Implora. Bash nega com a cabeça. Charlie me encara e depois sorri. — Ela é sua namorada? — Me engasgo com o sorvete em minha boca.

—Não, Charlie. — Bash parece tão constrangido quanto eu.

—Mas você gosta dela? — Insiste. Charlie não espera a resposta e me encara. — Você gosta do meu irmão? Vocês vão se casar? E depois vão ter filhos? E depois vão se divorciar? E vão morar em duas casas?

— Charlie, vai tomar sorvete! — Bash interrompe rápido, entregando algumas moedinhas ao irmão.

Charlie sai de nossas vistas saltitantes. Ficamos em silêncio. Sinto minhas bochechas ruborizarem e Bash, pela primeira vez, parece ter perdido as palavras. Tomo um pouco mais do sorvete.

—É… Não liga para o meu irmão…

—Certo! — Ele me encara.

—Ótimo! — Força um sorriso.

—Uhum!

Mais silêncio.

— Acho melhor eu ir embora. — Me levanto. Bash se levanta rapidamente e para na minha frente.

—Por favor, fique. — Pede. — Por favor, Liv. — Ele sorri. Suspiro. O que eu estou fazendo? Por algum motivo, eu quero ficar. Então, decido de uma vez.

— Está bem! — Sorrio.