We Are Young

1 Recomeço


Eu não poderia parar para pensar. Porque, se eu começasse, não conseguiria parar. Eu iria cair no vácuo escuro dentro do meu peito e afundar, afundar de uma forma que ninguém mais conseguiria me salvar novamente.
Eu sabia o que estava deixando para trás. Bem, e o que estava? Um pai rancoroso, um irmão que me odeia? Será que eu sentiria falta?
Não, não era apenas aquilo que eu estava deixando para trás, odiava me lembrar. Ela, Lara. Será que era certo? Será que ela tinha condições? Não havia sido eu o pedinte do divórcio, mas não conseguia deixar de me preocupar com seu estado emocional. Ela poderia cometer alguma besteira, poderia...
A dor. Droga, eu não havia acabado de lembrar-me que eu não deveria pensar demais?!
Invadindo cada milímetro de meu corpo. Algo alucinante, agoniante, capaz de explodir minha garganta em gritos roucos que ecoaram pelo apartamento vazio. O que mais me doía, eram as lembranças, lembranças tão felizes. Como tudo poderia mudar de um mês para o outro?

Tudo estava pronto para o nascimento de Oliver. Eu adorava entrar no quarto preparado, todo em cores em tons de branco e azul bebê, tão delicado quando as roupas minúsculas guardadas nos armários brancos ou o leve balançar do berço com o sopro do vento. Seria uma nova etapa da minha vida. Seria um recomeço.
Lara sorria de forma radiante, seus cabelos castanhos balançando com a brisa e sua barriga gigante coberta pelo suave tecido do vestido florido. Abraçá-la era difícil, pois sempre havia alguém entre nós, um pedaço de mim dentro de seu ventre. Passávamos horas gastando palavras, deduzindo e sonhando. Ele teria meus cabelos negros? Seus cabelos castanhos? Meus olhos azuis, ou seus olhos verdes? As adivinhações eram hilárias. Suas palavras saíam com facilidade, ah, como ela estava feliz. A ingenuidade da situação que estava por vir havia durado bastante.
Tentei me colocar no lugar do médico, Dr. Hans, que havia ficado encarregado de dar-nos a notícia. Asfixia. Nosso bebê havia morrido enforcado com seu próprio cordão umbilical. Um cadáver era o que minha mulher sustentava. O cadáver do meu filho.
De repente, eu não estava mais ali. Sentia-me flutuar, assistia a situação de cima, o mais puro desespero invadir marido e mulher.
E bem, alguns dias depois veio o divórcio.
Não conseguia parar de pensar que eu havia feito algo de errado. Será que eu era o culpado daquilo estar acontecendo? Será que eu errei? Eu falhei? Era por isso que eu estava sendo expulsado, abandonado, recusado? Ela não precisava mais de mim. Eu já havia feito-a sofrer por uma vida inteira. Precisava aceitar aquilo. A vida que eu havia planejado para mim não passava de mera ilusão; A realidade estava ali, EU estava ali, parado no batente da porta e encarando o apartamento escuro e vazio onde costumava morar na época de solteiro, e onde fora meu lar novamente nos dias das audiências, quando eu finalmente decidi mudar o trajeto da minha vida, simplesmente por reconhecer que não aguentaria. Não aguentaria cruzar as mesmas ruas, encontrar as mesmas pessoas, acessar os mesmo lugares que acessei quando eu era feliz. Eu precisava reservar essas memórias, precisava mantê-las intactas; Se eu tivesse que ser infeliz, seria bem longe dali.
Encostei-me de costas na parede, levantando meu rosto e pensando no que faria a seguir. Eu voltaria para lá, para a cidade medíocre onde havia passado minha infância, morar no apartamento minúsculo que aluguei em um subúrbio não muito longe do centro. Iria enfrentar minhas antigas memórias ruins e dar lugar às atuais, pois eu havia crescido lá, a pior parte da minha vida se escondia entre suas ruelas estreitas. Mas me era a única saída; O único lugar que eu conseguia pensar como refúgio.

Não olhei para trás ao fechar a porta.

~~~

Eram 03:00h da manhã e eu ainda dirigia, afinal, era um sábado, e eu era um homem sem compromissos.
Havia chegado há poucos minutos na cidade, que parecia abandonada pelo silêncio contínuo. Passei na frente dos portões da escola denominada Instituto de Educação General Cunha, ou simplesmente “Instituto”. Era o colégio público onde eu havia conseguido um trabalho ao me transferir, um emprego qual eu não estava nem um pouco animado pelo início. Seis turmas do ensino médio, adolescentes ridículos achando que conseguem passar a perna no professor abobado de Física. Mas eu já estava acostumado com isso, com a gritaria e a confusão de uma sala de aula repleta de jovens cheios de hormônios. Já estava acostumado com o título de “O professor careta, grosso e rude de Física”, e na verdade estava pouco me importando. Já tive colegas de trabalho que se importavam tanto em querer agradar os alunos e fazê-los gostarem de si que prometi a mim mesmo jamais fazer algo do tipo.
Continuei acelerando o carro, inicialmente rumo ao tal apartamento minúsculo que seria meu novo cafofo, porém, fui atraído pelas luzes e pela música alucinante do centro da cidade. Um caos concentrado, enquanto o resto dos prédios ao redor pareciam mortos. Diminuí a velocidade, fitando devagar as diversas casas noturnas que expeliam fumaça, música eletrônica e luzes coloridas em néon, as portas abertas pareciam me convidar para entrar.
Encostei o carro em uma esquina qualquer, as ruas estavam estranhamente cheias, encarei a mim mesmo pelo espelho retrovisor. Meus olhos azuis possuíam olheiras, uma rala barba por fazer em meu rosto. Meus cabelos negros estavam bagunçados, e o traje que eu usava – Calças jeans folgados, camiseta preta, flanela azul e tênis surrados – me deixavam com a típica aparência de um homem perturbado.
Então eu daria honra ao título.
Tranquei o carro temendo se o encontraria ao voltar, mas não insisti muito nessa desconfiança. As pessoas insistiam em dar-me encontrões em meio a calçada, eu mal conseguia enxergar por trás de meus óculos devido à grande quantidade de fumaça sendo expelida das portas abertas alheias.
Não sei bem o que aconteceu, porém, um fluxo estranho de pessoas formou-se ao meu redor, e tudo o que pude fazer foi segui-lo. Fui guiado para dentro de uma casa noturna, aparentemente dentro dos padrões, como todas as outras, quando dei por mim, já estava na pista de dança, as luzes das Lâmpadas Estroboscópicas davam-me a impressão de estar chapado, mesmo sabendo que eu não havia sequer fumado por um dia inteiro. Piscavam, eu sentia a batida dentro do meu peito. A loucura psicológica dominava-me de forma que eu mal percebi o que realmente se passava a minha volta.
Os toques começaram leves, como pequenos comichões que causavam arrepios por minhas costas. Decidi ignorar, afinal, o calor humano do lugar e a multidão excessiva causava o contato físico acidental quase que obrigatório. Porém, senti alguém envolver minha cintura, puxando-me para trás e logo mais uma elevação rígida roçando meu corpo.
As luzes piscavam. A música tornava meus tímpanos cada vez mais sensíveis.
Virei-me para trás lentamente, meu corpo parecia ter vida própria, insistindo em continuar se movendo de acordo com as batidas. Um par de olhos escuros encontrou os meus entre os intervalos de luzes brancas.

E aquela foi a primeira vez que beijei a boca de outro homem.
Então eu entendi. Era isso.
Entrei em muitos corpos, já que as garrafas e cigarros não tinham a resposta. A resposta para aquele vazio que eu sentia, um vácuo obscuro dentro do meu peito.
Talvez algum daqueles homens tivesse.
Não tinham.