We Are Young

3 Competição


"Olha, Max. É um orgulho aquele menino. Sozinho, fez mais que o resto."

Revirei os olhos com desprezo antes de olhar para o tal menino. Rindo, se mostrando para os demais. Um adolescente prepotente e nojento como os outros.
O sorriso era bonito, não podia mentir. Mas me enojava.

Já havia chamado treze dos meus alunos para a vistoria prometida no caderno, sendo que doze deles haviam levado um bilhete lindo de matéria incompleta. Agora seria a vez dele, o único da turma que eu sabia o nome, o único da turma que já havia definido a nossa relação; Competição. Nós dois compartilhávamos aquele mesmo olhar desafiador, assim como ele carregava esse sentimento imaturo de não gostar de perder, eu também o carregava dentro de mim. Pigarreei.

– Irian. Irian Martins.
O garoto interrompeu suas palavras, virando-se para trás e pegando o caderno de dentro da mochila. Ele sequer havia pegado o caderno para a aula!
Logo mais, aproximou-se de mim com uma expressão neutra no rosto, quase que culpada. RÁ! Eu havia vencido. Teria o prazer de carimbar aquele caderno. Tentei não sorrir ao abri-lo, mas provavelmente era visível meu contentamento.
Folheei as páginas, constatando com irritação que de fato, sua letra era bastante razoável e a matéria organizada. Demorei um pouco para encontrar as últimas páginas, de forma que ele interferiu-se em meu espaço e tomou a liberdade de afastar minhas mãos, folheando rapidamente as páginas, com até um pouco de grosseria, e enfim, deixando-o aberto em minha frente.
Eu olhei.
A matéria estava impecável. Os títulos em canetas coloridas para diferenciar os escritos. Os exercícios numerados e respondidos de forma completa, um caderno verdadeiramente invejável para o resto da turma.
Eu gostaria de saber que tipo de expressão dominou-me naquele momento, se foi algo do tipo “Poker Face” ou uma decepção devastadora. E o pior de tudo fora quando ergui meus olhos e me deparei com aquele seu sorriso presunçoso de adolescente imaturo. Um tapa na minha cara.
Fiz minha rubrica e fechei o caderno, devolvendo-o em silêncio. Eu havia perdido.

~~~

“[...] Entrei em muitos corpos, já que as garrafas não tinham a resposta. Talvez algum daqueles homens tivesse.

Não tinham.”

É claro que eles não tinham. Como podiam? Eram tão vazios quanto eu.
Cansei de procurar as respostas.
Eu era vazio e não precisava ser cheio. Não precisava de nada e nem de ninguém.
A solidão nada mais é do que a garantia de que você não será machucado.
Era não só benéfica como necessária.
Segurava as garrafas e os cigarros, sem saber que não era aquilo que queria.
Não queria. Não queria ficar só.
Eu sabia, mas não queria saber.

Outro cigarro queimou a ponta de meus dedos, fazendo-me o largar rapidamente na grama verde do pátio. Naquele período eu não tinha turmas para lecionar, e tudo que bolei para o tempo livre fora sentar-me no banco de granito do pátio e fumar. Já havia perdido a conta de quantas tragadas havia dado apenas naqueles minutos.
Em minha cabeça, flutuavam pensamentos aleatórios, porém, todos eles sempre tinham o mesmo final; Irian.
Mas afinal, qual era o problema daquela criança?
Irritante, prepotente, nojento, arrogante. Um típico adolescente mimado.
Mas calma, Max, calma, eu me lembrava.
Eu sou o professor, eu sou a nobreza dentro daquela sala de aula. Ele ainda precisa me respeitar, e eu ainda preciso me dar o devido respeito.
Ele se achava muito esperto, não é? Eu iria prová-lo o contrário.
Nossa prova estava marcada para dali há 23 dias. Uma grande prova. Uma prova em que só os melhores se destacariam.

~~~

Segunda semana de aulas na turma 211. Sempre que checava meu horário e me via prestes a entrar naquele inferno, sentia a vontade súbita de bater meu crânio contra a parede até rachá-lo e meu cérebro cair para fora.
Mas nunca o fiz, claro.
Apenas caminhava em uma linha reta pelo corredor largo, jogando minha cabeça para cima antes de entrar. Como se eu não estivesse escutando os gritos “ELE TÁ VINDO!”, e o som de milhares de pessoas voltando aos seus devidos lugares, mesas sento arrastadas e risadas.
Entrei na sala de aula, e lá estava meu inferno; Não mais uma gritaria, não mais um caos, mas sim aquela tranquilidade pacata forçada e todos os olhos fingindo prestar atenção no que eu dizia. E entre eles, aquele olhar em especial, que conseguia me irritar de tal forma.
Pousei minha pasta sobre a mesa do professor, retirei meu casaco e peguei a caneta azul do quadro branco, abrindo meu caderno e começando a copiar as anotações dele no quadro. Minha letra não era das melhores, porém, dava para se entender.
Eles realmente achavam que me enganavam? Como se eu não estivesse ouvindo o som de papel sendo rasgado e amassado, um burburinho e movimentação suspeita atrás de mim. Mas eu não disse nada, não, iria dar tempo.
– Professoor? – A voz que já me era familiar chamou-me.
Virei-me a tempo de ver Irian com a mão erguida e uma expressão travessa.
– O que está escrito ali no segundo parágrafo, depois de fórmula?
Com um suspiro, virei-me para o quadro, logo mais voltei-me para a classe.
– Importante. É importante. – Falei.
– Obrigado professor. – Ele disse, cínico. Ouvi algumas risadinhas ao redor.
Se acalme, Max. Se acalme.
Continuei escrevendo.
O papel passava de mão em mão atrás de mim. Risadinhas femininas, gesticulações. Precisava dar um basta naquilo. Precisava mostrar quem mandava na situação.
Virei-me, pousando o caderno aberto e a caneta sobre minha classe. Andei até parar em frente à garota na qual eu tinha certeza estar com o bilhete, estendi minha mão, sem dizer uma palavra. O pedaço de papel foi-me entregue com muita teimosia e demora, mas por fim, caminhei entre os alunos até estar em frente ao quadro novamente. Abri o bilhete, e comecei a ler em voz alta.
– Caralho, como ele é gostoso. – Dizia a primeira frase.
Ótimo, falavam de um garoto. Mais humilhação.
– Sim, mas ele é tão idiota e grosso. Se ele fosse legal, todas as vadias da turma cairiam de amores por ele. – Continuei, engolindo em seco, segurando uma risada em minha garganta – Claro, mas por que será que ele precisa ser tão babaca? Até parece que por dar aulas de Física ele precisa ser desse jeito, todo de exatas, frio e inexpressível como uma estátua...

Calei-me, incrédulo.

Era de mim que elas estavam falando?!
Nem me dei ao trabalho de ler o resto. Amassei o papel e joguei-o no lixo, encarando especialmente as duas caras vermelhas no meio da multidão de alunos que seguravam suas risadas.
– V-vamos continuar estudando, por favor. – Prossegui, me virando.
Ouvi algumas risadas escaparem, mas eu não os repreenderia, não poderia pedir para pararem de rir quando eu mesmo me segurava para não o fazer.