We Are Young

11 A Chegada da Tempestade


Havia se passado dois dias.
Dois dias os quais eu não havia conseguido dormir.
Aquela era uma segunda-feira, e eu estava tão animado que cada passo que eu dava me era uma vitória interna.
Andando por aquele corredor aparentemente eterno, me perguntava o que seria de mim sem meu bom e companheiro café, enquanto a alça da minha pasta estava atravessada em meu peito e papeladas escolares presas abaixo de meu braço.
Meu cérebro nublado devido ao sono ignorou os trincados iniciais notavelmente vindos do contato bruto de tênis contra o piso liso, o que foi um grande erro, essencial para o que viria logo após. Um raio de cabelos loiros zuniu pelo corredor, e provavelmente eu não teria tempo de vê-lo nitidamente caso o mesmo não tivesse sofrido um impacto contra o meu corpo, de força o suficiente para me jogar para trás e assim fazer com que eu perdesse todo do pouco equilibrio que me restava.
Minhas folhas se espalharam pelo chão, havia batido minha nuca contra a parede, mas até ai, tudo bem. O problema fora quando o copo de café, até então seguro em minhas mãos, obedeceu a lei da gravidade e cobriu todo o meu peito, com sua temperatura escaldante, molhando completamente minhas vestimentas.
Segui meu instinto humano desesperado e inclinei-me para o lado, mordendo com força meu lábio inferior para evitar urrar com a sensação de estar sendo queimado vivo. Maldito, maldito seja!
Após alguns minutos, quando a queimação tornou-se apenas um calor suportável, levantei meu rosto e finalmente observei ao redor. Não sei bem qual expressão eu carregava, porém, fora o suficiente para fazer muitos dos estudantes curiosos a minha volta se dispersarem como formigas ao terem o formigueiro esmagado por um pé tamanho 40.
E por fim eu encarei o suposto motivo daquilo ter acontecido. Um par de olhos azuis-esverdeados grandes e assustados me encaravam, um par de mãos estava estendido sobre o corpo do garoto, como se ele encarasse um leão prestes a dar o bote e estivesse tentando acalmá-lo. Seus cabelos loiros lhe cobriam parcialmente o rosto, que estava levemente molhado de suor, sua respiração, de tão acelerada, era audível.
Jamais havia visto o garoto pelos corredores, e se já tivesse, jamais conseguiria me esquecer daqueles olhos coloridos. Bem, naquele momento, aqueles, talvez um dia, doces olhos claros, só conseguiam me causar ódio.
E o pior de tudo. Era sério que ele estava segurando uma risada? Era sério?!
O mesmo possuia os lábios apertados um contra o outro, eram notáveis os cantos que se erguiam para cima.
Logo mais o mesmo inclinou-se na minha direção, sem sequer buscar o meu concentimento, e puxou-me pelo braço, surpreendendo-me com sua força. Pus-me de pé.
– Desculpe! — Exclamou, porém, o que NÃO HAVIA em seu tom de voz era arrependimento — Eu estava...
– Correndo no meio do corredor?! É, eu percebi isso. — Bufei, irritado, me abaixando para juntar os papéis. O garoto me imitou.
– É que eu sou novo aqui, então não estou muito acostumado com essas regras de não correr e coisa parecida, mas depois desse acidente infeliz prometo me esforçar para que não aconteça novamente!
Me levantei e tive estendidos na minha direção os papéis que ele havia juntado. Seu sorriso era estranhamente carismático e um pouco sem graça, o mesmo possuia a mão livre atrás da nuca.
Recolhi os papéis e continuei a seguir pelo corredor, ignorando a poça de café atrás de mim e o fato de que eu estava traçando uma trilha de cafeína líquida pelo corredor devido às minhas roupas molhadas.
O garoto continuou a me seguir, mesmo entre as pessoas que cochichavam e riam paradas no corredor.
– Hey! Eu ainda não me desculpei direito, e o senhor está molhado, você quer que eu lhe traga um pano? E suas roupas! Estão encharc-cadas. — O mesmo não conseguiu segurar e soltou uma pequena risada com a última palavra.
Sentia meu rosto quente de raiva. Parei-me e observei-o, o garoto era pouco menor que eu, por mais que tivesse um rosto bastante jovial.
– Qual seu nome? — Perguntei, grosso.
– É ícaro. — Ele respondeu com uma tranquilidade digna de um tabefe no rosto.
– Ícaro, você violou uma das regras da escola ao correr pelo corredor e derrubou um professor. Acho melhor você ir andando antes que as coisas fiquem piores para o seu lado. — Fui sincero.
– Tudo bem... Só queria me desculpar direito! — Ele sorriu, com um muchocho — Perdão, senhor...
– Max. E não me chame de senhor, por favor. Agora, vá, antes que a diretora resolva vir afim de saber que confusão é essa no corredor. — Grunhi, esfregando meu rosto com as mãos.
– Já que insiste. — Ele riu, dando de ombros.
Entre uma de minhas piscadelas, ele havia desaparecido.
Tudo o que pude fazer fora balançar a cabeça em desaprovação e entrar no banheiro, onde retirei meu suéter encharcado e praguejei por estar apenas com uma camiseta laranja por baixo. Cobri-me com meu sobretudo e deixei o lugar, minha aura tão negra quanto meus cabelos.

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Quase pude esquecer do incidente da manhã ao receber o aviso de que o horário escolar iria ser mudado. Ninguém merece.
Minha vida girava em torno daqueles períodos, minha rotina inteira seria afetada por aquele simples pedaço de papel em minha mão, que me parecia dizer "Eu mando, você faz. Cale a boca e trate de se encaixar aqui".
Sala 211.
Ela aparecia três vezes no horário.
Perguntei-me por quê, ó destino, eu teria três períodos naquela sala à partir daquele dia, um na segunda, um na quarta e um na sexta feira.
Não era como se eu fosse me queixar daquilo, óbvio.
E Irian... Como será que ele estava?
Talvez na quarta-feira eu o visse novamente.
O que era aquilo que eu sentia, saudades? Preocupação?
Talvez... Claro.

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