We Are Stars
10 ☆ 09. Um domingo de emoções.
Notas iniciais
We Are Stars — Capítulo 09
Lucy Heartfilia.
No início do ano, um parque foi construído na zona central de Los Angeles, e este acabou por se tornar muito famoso. Ao longo dos meses, foram feitos centros comerciais em volta do local, e assim, o parque foi considerado uma atração alvo nos domingos. Várias famílias iam para lá no período da tarde passear ou comer alguma coisa.
Admito que, mesmo no final do ano, nunca tinha ido uma única vez para o parque, por conta da falta de tempo e a falta de interesse. E o que dois adultos faziam caminhando no destino de uma sorveteria que ficava perto do parque? Eu não faço a mínima ideia.
Mesmo tendo conhecido Natsu por apenas uma semana, já tinha aprendido muito sobre ele: possuí uma alma de criança e fala pelos cotovelos. Durante todo o percurso até o parque, comentava um assunto atrás do outro.
Conversávamos sobre diversas coisas. Sua aula de medicina, minha aula de direito. Ele reclamava sobre seu melhor amigo e eu falava sobre o quanto Levy conseguia me irritar de vez em quando. Mas, em nenhum momento, o rosado dizia algo sobre seus pais ou sua irmã. Ficava um pouco enfurecida com isso.
A sorveteria era um lugar bastante familiar. Várias famílias estavam ali desfrutando de um sorvete para aliviar o calor. Natsu e eu nos sentamos em uma mesa próxima à janela. Um atendente veio anotar nossos pedidos, e depois de instantes saiu.
Fitei para minhas próprias mãos sobre a mesa de mármore. Remexia em meus dedos, um tanto nervosa. Não sabia o que dizer e nem por onde começar minhas perguntas. Olhei para o rapaz e ele parecia um pouco distante, encarando a visão externa do estabelecimento.
— Natsu? — Virou sua cabeça para me olhar. — Posso te fazer uma pergunta?
O rosado assentiu com a cabeça, alargando um sorriso em seguida.
— Por que seu cabelo é rosa? — Indaguei, apontando para as madeixas coloridas. Ele pareceu pensar por alguns segundos, e soltou uma gargalhada em seguida.
— Quando eu tinha quinze anos, fiz uma aposta com o Gray — explicou, se encostando na cadeira. — Se eu conseguisse ficar com a garota mais bonita da minha sala, ele pintaria o cabelo de roxo. Mas, se eu perdesse a aposta, ficaria com cabelo rosa.
— Suponho que tenha perdido, então? — Ironizei, suprimindo uma risada.
— Infelizmente — acrescentou.
— Você e Gray se conhecem desde quando? — Natsu colocou a mão no queixo, pensativo.
— Desde sempre, eu acho — respondeu, coçando a nuca. — Ele era meu vizinho quando me mudei para Los Angeles.
Arqueei uma sobrancelha e me inclinei um pouco mais próxima dele.
— Achei que você fosse daqui mesmo — Comentei, curiosa.
— Sou de Nova Iorque, mas tive que me mudar por causa do trabalho do meu pai. — Respondeu, sorrindo. Retribui o sorriso, pensando no quanto eu desconhecia sobre esse garoto. O que mais ele conseguia esconder?
Uma garçonete chegou logo em seguida, segurando duas taças de sorvete. Ficamos em silêncio, mas estar com sua companhia era confortável. Era como se a falta de falas não incomodasse.
Após alguns minutos, pude detectar o som de vidro estilhaçando-se no chão. Automaticamente me virei, a procura do timbre – Natsu fazia o mesmo. Um cara alto chamava a garçonete, desesperado, enquanto a garota que o acompanhava ria, sentada na cadeira. Suas roupas estavam manchadas de sorvete.
Pisquei algumas vezes. Demorei para finalmente perceber de quem se tratava toda aquela confusão: era Levy e Gajeel. Puxei Natsu para debaixo da mesa, escondendo nós dois.
— O que tá fazendo? — Ele perguntou, um pouco assustado.
— Levy está ali. Se ela ver nós dois juntos, vai me incomodar pelo mês inteiro — expliquei, agarrando minha bolsa e tirando dali minha carteira. Peguei uma quantidade de dinheiro e pus sobre a mesa. — Temos que sair daqui, rápido.
Segurei a mão do rosado e, discreta, caminhei até a saída do estabelecimento. Tinha cuidado para não ser percebida por nenhum dos dois, e, no fim, deu certo. Corri, de mão dadas com Natsu, tentando ficar o mais longe possível da sorveteria. O toque da mão dele era quente. Na verdade, mais quente do que eu imaginava.
Paramos perto de uma grande árvore do parque. Ele estava com as mãos nos joelhos, ofegante, enquanto eu me apoiava contra a planta. Tentava controlar minha respiração descompassada.
— Você... é louca — o rosado disse, em meio de uma risada abafada. No início, encarei como uma ofensa, estava pronta para argumentar, mas, ao invés disso, comecei a rir junto com ele.
— Um pouco — respondi, fitando-o.
[...]
Manchas laranjas manchavam o céu azul e borravam as nuvens brancas. Algumas estrelas teimavam em aparecer, e no momento em que as vi, acenei, movendo os lábios como se dissesse “Olá”, sem proferir sons.
— Sente falta dela?
Natsu e eu caminhávamos na praia que ficava perto de meu prédio. Provavelmente já era quase sete da noite, mas não me preocupava muito com o horário.
Quando ele fez a pergunta, uma parte de mim parou de funcionar. Lembrar da minha mãe era como acordar no meio da madrugada e ter medo de dormir novamente, por ter medo do filme de terror que você viu há três anos atrás.
— Muita. — Admiti, encarando o céu estrelado que escurecia aos poucos. — Demorei alguns anos para lidar com a morte, mas me acostumei.
— E como seu pai reagiu? — Indagou, novamente. Suspirei pesadamente, pensando nas drásticas mudanças que haviam ocorrido com Jude e imaginando como ele estava naquele exato momento.
— Pior do que qualquer um, eu acho — murmurei. — Ele ficou um pouco arrogante e viciado no trabalho — expliquei, e acabei lembrando do que Loki tinha me proposto. Aquilo estava me incomodando, era muita pressão para cima de mim. Não conhecia meu pai o suficiente para tomar uma decisão de tamanha importância em sua vida por conta própria.
“Lembre-se, Lucy: Seu pai vai morrer de qualquer maneira.”
Parei de andar e olhei o chão. Por que a verdade doía tanto? Eu sabia que ele iria falecer uma hora ou outra, mas relembrar esse fato me corroía. Jude não se importava comigo, isso era uma realidade que eu havia de enfrentar. No entanto, me acostumar com a ideia de que eu iria ficar sozinha era complicado e complexo demais.
Imaginei a mim mesma no enterro de meu pai. Imaginei-me chorando. As lágrimas se tornaram reais.
— Lucy? — ouvi a voz grossa do rosado se aproximando, parecia que ele não tinha notado que eu havia parado. — Você está chorando?
— Claro que não — ninguém acreditaria numa garota com os olhos encharcados de choro, dizendo que não estava chorando. Era óbvio.
Senti os braços de Natsu me envolverem num abraço quente e apertado. Uma das mãos dele acariciavam minha cabeça, e ele dizia coisas do tipo “Não se preocupe” ou “Vai dar tudo certo”.
O calor de Natsu era completamente indescritível.
Não calculei exatamente quanto tempo ficamos daquela forma, abraçados, mas eu tinha parado de chorar. Após um tempo, se separou de mim, mas ainda continuava próximo demais.
— Quer desabafar? — Perguntou, olhando-me. Ele estava perto, e eu podia notar o brilho de seus olhos negros. Tão ônix quanto um céu escuro, davam a impressão de que havia estrelas em sua íris. No início, pensei em recusar. Natsu era gentil, mas talvez sua gentileza não fosse párea para minhas reclamações.
“[...] — Você não se cansa, Lucy?” A voz de Levy surgiu na minha mente.
Sim, eu estava. Extremamente cansada.
— Hoje, um dos empresários da agência do meu pai foi para meu apartamento — respondi, olhando para o chão. — Está falindo, e a única forma de impedir isso é vendendo a empresa para a família desse empresário.
Natsu me olhava indignado.
— E você já sabe o que fazer?
Suspirei, ainda encarando a areia da praia.
— Não, nem ao menos parei pra pensar. — Murmurei.
Ficou em silêncio. Eu não olhava para seu rosto, então não sabia suas expressões. Supus que estivesse confuso, ou até mesmo pensando em fugir de mim, exclamando coisas do tipo: “Essa menina tem problemas, não quero me intrometer”.
Normalmente era essa visão que eu tinha das pessoas; obviamente, causado por alguns pequenos traumas de infância, mas nada demais. Elas se escondem quando veem um problema. Se há alguém com dificuldades, elas apenas dizem “Eu entendo” e dão um tapinha nas costas. É a triste realidade que eu convivia.
Mas, diferente dessas pessoas, Natsu continuava ali.
— Lucy, já parou pra pensar que você tem que ser mais realista?
O quê?
— Isso pode acontecer tanto amanhã quanto semana que vem. Talvez possa ser no próximo ano, ou no próximo mês. A morte é imprevista, e, quando você se der conta, ele já se foi. — Natsu falou, olhando diretamente para meus olhos. Ele estava sério, possivelmente as palavras poderiam ter sido dirigidas não somente para mim, e sim para ele mesmo.
Me irritei na mesma hora.
— E quem é você pra falar isso? — Exclamei, dando um passo para trás. — Não tem ideia do que eu passo!
Tampei minha própria boca com as duas mãos ao terminar de falar. Tinha dito merda. Natsu provavelmente sabia exatamente como eu me sentia por causa de sua irmã, que estava no hospital. Sua expressão não dizia muito sobre o que pensava. Estava neutro, encarando meus olhos sem pudor.
— Me... Me desculpe, eu... — Tentava pedir perdão, mas seu rosto triste não sumia. — Eu não pensei antes de falar. Sei que você tem problemas com sua irmã...
— Espere — Ele disse, piscando algumas vezes. — Como você sabe?
Merda.
— Levy me contou... — Me encolhi, pensando que ficaria nervoso com isso. Natsu Suspirou, coçando sua nuca.
— Bem, e o que ela disse? — Indagou, sua voz soava um pouco mais calma. Não se importava com isso?
— Que sua irmã tem leucemia — notei que enrijeceu seus ombros. — Apenas isso.
De repente, me lembrei do quanto estava com dúvidas sobre este caso. Curiosa sobre a irmã de Natsu, sobre como ele se sentia e como superava toda aquela responsabilidade de lidar com alguém hospitalizado que precisava de você – se tivesse superado, claramente. Ele estava um pouco tenso sobre o assunto.
— Minha irmã tem quatorze anos, foi diagnosticada com leucemia aos onze. — Explicou, baixo. Senti a famosa facada no peito, e aquela vontade de abraça-lo voltou à tona. — Não encontramos um doador. Eu e meu pai não somos compatíveis, e é possível que ela morra em alguns meses.
Se silenciou. Novamente aquele silêncio, o mesmo que havia ocorrido antes de eu chorar. Sentia pena. Queria chorar por ele, além da vontade de ir até o hospital, conhecer a garota, segurar sua mão e dizer que tudo daria certo.
Era apenas uma criança. Tinha uma vida inteira pela a frente, um destino, uma história para construir. Não iria se apaixonar, não participaria de festas e nem ficaria em exames no final do ano.
Nada disso ia ocorrer. Tudo porque a vida é injusta.
Pensei em Natsu. Ele pensava da mesma forma?
Levei minhas mãos até seu rosto. O rosado assustou-se e me fitou. Novamente, aquelas orbes escuras. Conseguia ver a mim mesma refletida em seu olhar aflito. Acariciava sua pele, mexendo em alguns fios rosados.
Levantei os pés para aproximar meu rosto. Aos poucos, o sangue subiu até minhas bochechas, e senti acanhada pelo o que fazia. Notei que as mãos de Natsu estavam em torno de minha cintura, e ele se curvava para ficar próximo de mim.
Muito próximo.
Nossos lábios estavam prestes à se tocar, no entanto, meu celular anunciou que eu tinha ganho uma nova mensagem.
Nos separamos automaticamente e eu virei para o lado oposto dele. Toquei meu rosto, sentindo o calor escaldante que estava. No que eu estava pensando? Peguei meu celular da bolsa e abri a nova mensagem.
Era Levy. Ela dizia que estava me aguardando em frente à porta do meu apartamento.
— Levy está na minha casa — expliquei, já calma novamente. Natsu estava com as mãos no bolso, mas não parecia envergonhado. — Preciso ir.
— Quer que eu te acompanhe? — Perguntou. Estava normal demais para os acontecimentos que quase tinham acontecido ali.
Neguei com a cabeça automaticamente. Uma parte de mim implorava loucamente para eu aceitar, para ficar mais tempo com ele. Já outra metade mandava eu voltar sozinha.
Acenei para ele e corri para longe da praia, em direção ao meu prédio.
[...]
Duas da manhã. Eu tinha quatro horas e meia de sono, mas, por alguma razão, não me importava. Levy queria dormir no meu apartamento, não tinha explicado, apenas quis. Claro que, como sua melhor amiga, eu deixei.
Movia rapidamente o lápis na folha avulsa, formando palavras que pareciam ter perfeita conexão com as outras. Refletia enquanto escrevia. Pensava sobre mim, sobre Natsu, sobre tudo. Eu estava realmente sendo idiota em tratar a mim mesma daquela forma? Ele e Levy estavam certos sobre o papo de mudar e viver mais?
“Estava na frente do túmulo de sua mãe quando sentiu algo se jogar contra seu peito.
— Sentimos sua falta! — O animal gritou.
— Onde você estava? — Seu companheiro exclamou.
Tudo que ela podia fazer era rir.”
All of your flaws and all of my flaws
When they have been exhumed
We'll see that we need them to be who we are
Without them we'd be doomed
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