We Are Stars
3 ★ 02. O tempo passa e eu nem noto.
Notas iniciais
We Are Stars – Capítulo 02
Lucy Heartfilia.
São em momentos desconfortáveis como estes que te fazem parar e raciocinar, momentos tanto engraçados quando desagradáveis. Levy debatia-se enquanto dormia, murmurando palavras sem sentido em meu ouvido. Eu tentava andar o mais rápido possível para meu apartamento, com medo de que a azulada começasse a gritar no meio do corredor e acordasse os vizinhos.
Enterrei a chave dentro da fechadura e abri a porta com rapidez, jogando-a adentro do cômodo. Ela caiu no chão, mas não lhe dei tanta importância, apenas a deixei ali – não iria me incomodar, de qualquer forma. Antes de pôr minha bolsa sobre a mesa de centro da sala eu chequei as horas no meu celular. Exatamente meia noite, ou seja, eu tinha apenas oito horas de sono. Antes de pensar em fazer qualquer outra coisa caminhei cansada até meu quarto e caí em minha cama, esquecendo-me completamente de Levy.
Na manhã seguinte eu me sentia um lixo. Novamente o meu despertador havia interrompido o sono que eu tanto desejava. Repeti o processo que ocorria todas as manhãs depois que eu levantava, mesmo que me sentisse com ressaca – o que era irônico, já que não havia bebido nada na noite anterior, ao contrário de Levy.
Inesperadamente encontrei a mesma na cozinha, bebendo café e assistindo televisão. Seu rosto dizia em letras maiúsculas e cursivas que não estava bem: olheiras profundas acompanhadas com o olhar cansado, dando para notar as veias saltando de sua testa. Era perceptível sua força para manter-se acordada.
— Bom dia, flor do dia — falei em tom alto, causando-lhe um susto rápido. Ela me olhou e acenou.
— O que aconteceu ontem?
Eu suspirei, preparando-me para contar-lhe a história.
— Você estava bêbada, de novo. Tive que ir te buscar numa festa.
Levy sorriu, agarrando o celular que estava jogado em cima da mesa.
— E conheceu alguém nesse meio tempo?
— Eu vi um cara de cabelo rosa. — Lembrei-me do garoto e do jeito que ele sorria. A risada dele parecia ter sido memorável, já que não saía de minha cabeça. Levy deu uma gargalhada baixa dando a tonalidade meio maléfica. Pensei na possibilidade de que ela tivesse armado tudo aquilo, mas descartei novamente pela a segunda vez.
— Eu soube — mostrou-me a tela do celular. Estava aberto em uma conversa, e a última mensagem era: “Conheci a sua amiga loirinha ontem. Lucy, certo? Sinceramente, é mais bonita do que eu imaginava” Ela sorria. Senti meu rosto esquentar ao terminar de ler e agarrei o celular de sua mão, jogando-o na mesa novamente.
Eu tinha completa noção do que ela estava tentando fazer, e obviamente nunca iria concordar com isso. Levy provavelmente falava de mim para todos os seus colegas ou amigos, porquê, segundo ela, Lucy Heartfilia é a garota mais ante social e idiota que ela conhecia – o que eu realmente não discordava totalmente, mas falar sobre mim para qualquer um por aí não era uma ideia muito agradável de se absorver. Eu entendia que era para o meu bem, no entanto, Levy se preocupava de mais, o que me irritava um pouco.
Os minutos livres que tinha antes de ir para o trabalho se esgotaram tão rápido que eu nem havia notado. As minhas conversas com Levy eram tão agradáveis que me fazia perder a noção do tempo, não era uma coisa consideravelmente ruim, mas ao mesmo tempo não se tornava algo bom. Minha vida girava em torno do relógio, e eu deveria obedecer os horários e cumpri-los responsavelmente.
Me despedi da baixinha, deixando-a no meu apartamento. Nunca me importei com o fato de deixa-la lá, afinal, ela era praticamente uma irmã para mim, além de ser uma mulher responsável – isso é claro, se tirarmos as ocasiões que ocorriam nas festas que ela frequentava.
Meu trabalho era bem comum, e não exigia tanto esforço. O hospital que meu pai estava internado possuía um custo extremamente alto, e minha faculdade também não tinha um preço tão baixo, no entanto, ele mesmo financiava. O que me restava a pagar eram contas e estadia básica. Escolhi um emprego simples que não exigisse tantos esforços, já que eu vivia cansada com toda a história da doença de meu pai e a grande pressão da faculdade. No final de tudo, Levy me recomendou a biblioteca principal, onde uma colega dela trabalhava. Admito que não foi a melhor escolha do mundo, mas meu salário era o suficiente para pagar o necessário.
— Bom dia, Mirajane. — Cumprimentei a albina ao entrar no local.
Mirajane era alguns anos mais velha que eu, e ainda assim, mais bonita. Na minha idade ela trabalhava como modelo, era bastante conhecida, mas abandonou essa carreira e decidiu seguir com uma vida mais pacífica. Com certeza uma das pessoas mais gentis que eu tinha conhecido na minha vida, e mesmo sendo seis anos mais velha, eu poderia considerá-la uma amiga.
— Está atrasada, sabe disso né? — Ela falou, atrás de um balcão que não tinha fila alguma. Falávamos baixo para não incomodar os leitores que já estavam ali.
— Eu sei, eu sei. Perdi a noção do tempo, perdão. — Desculpei-me, sentando ao seu lado. Ficamos alguns minutos em silêncio, mas logo a grande pergunta que eu tanto temia veio à tona.
— O que fez no seu feriado?
O que eu deveria dizer? Que acordei tarde e passei o dia inteiro com meu pai no hospital, e nesse mesmo hospital esbarrei em um rapaz muito lindo, que coincidentemente reencontrei em uma festa que fui obrigada à ir por causa de uma amiga bêbada que tinha passado de seu limite com álcool e precisava de carona para voltar para casa? Provavelmente pessoas com problemas emocionais contariam toda essa história com os pequenos detalhes, e mesmo que Levy insista nisso, não me considero emocionalmente descontrolada.
— Nada de especial.
Mirajane me fitou com curiosidade.
— 90% das pessoas que me dizem isso estão mentindo.
— E o que, exatamente, te levou à este resultado?
Ela continuou me encarando, quase implorando com seus olhos por uma resposta mais adequada. Inspirei o ar para pensar em algo que não pudesse ser mentira, mas que não lhe cause tantas perguntas sobre.
— Eu... Eu conheci um garoto — Ok, essa realmente tinha quebrado minhas pernas. Claro, não era mentira, mas eram tão poucas palavras que iriam gerar trilhões de perguntas vindas pela a albina. No final das contas, acabei não mentindo.
— Um garoto? Sério? E como ele era? Me diga tudo!
Eu não tinha ideia de como descrevê-lo. Dizer sobre suas madeixas rosadas já era um erro, descartei logo de início. O fato de encontra-lo duas vezes no mesmo dia em situações nada convenientes também não seria um caso bom. Não havia tantas coisas para contar, afinal, eu mal tinha dito algumas frases para ele, e nem tínhamos mantido uma conversa decente.
— Ele tinha um sorriso bonito. — Conclui. Mirajane fez várias perguntas seguidas destas, mas acabei por ignorá-las e deitei minha cabeça no balcão, encarando a parede.
Por alguma razão, aquele cara não saía da minha cabeça. Seu sorriso se tornou algo memorável e difícil de esquecer. Eu estava curiosa sobre seu cabelo, sobre o fato de estar no mesmo hospital que eu, e também o caso de ele conhecer Levy, ou seja: provavelmente me conhecia mais do que eu sabia a respeito dele – afinal, eu nem ao menos sabia seu nome.
A manhã se passou mais monótona do que eu esperava, e mais rápida também. Por alguma razão, eu não queria sair do meu trabalho. Não estava com a mínima vontade de voltar para o hospital e ser rejeitada pelo meu pai novamente, mas eu teria que aguentar isso.
Já era meio dia, normalmente eu almoço com Mirajane, no entanto, hoje ela havia marcado com seu namorado de ficarem juntos no intervalo de seus empregos. Pensei em chamar Levy, mas provavelmente ela estaria dormindo. Liguei para Erza, uma colega da faculdade, mas também tinha planos com seu namorado.
Admito que me senti solitária após essas notícias, o que fazia-me repensar o fato de eu não ter arranjado ninguém para mim. Um relacionamento provavelmente seria uma forma confortável de amenizar a saudades de amor paternal que eu tinha, mas eu com certeza não tinha nascido para viver em tamanha intimidade com alguém.
No final das contas, decidi almoçar sozinha.
[...]
Mais uma vez, meu pai não deu a mínima para mim. Sempre imaginei que algum dia ele iria acordar de bom humor, desejando-me felicidades e amor, conversando comigo sobre meu dia e como foi o trabalho, mas não – ele nunca se importou com o que eu estava sentindo, principalmente depois da morte de minha mãe.
Me despedi dele, no entanto, não fui respondida. Talvez ele estivesse dormindo, ou desejado internamente que eu fosse embora o mais rápido possível dali. Fechei a porta e soltei o ar preso em meus pulmões. A mesma impressão que pessoas normais têm ao conversar com seu chefe, era a que eu tinha com ficar no mesmo quarto que meu pai.
Por alguma razão, a imagem daquele garoto retornou à minha mente. Tinha que admitir, estava muito curiosa sobre o rapaz. Ele havia mexido comigo como nenhuma pessoa conseguira, tal fato que não conseguia distinguir em bom ou ruim. Talvez, se eu o encontrasse novamente, pensaria na possibilidade em dialogar com ele. Mas obviamente, isso nunca iria ocorrer.
Caminhei até a área de alimentação do hospital, a fome de repente tomava conta do meu estômago, que quase chegava à roncar – até uma barra de cereais light poderia me satisfazer, o que no final das contas foi a opção escolhida. Eu nunca fui uma pessoa que se importava com o peso, mas barras de cerais, por alguma razão, sempre chamaram minha atenção. Sempre considerei-as parte da minha refeição diária.
— Isso está muito estranho. — Escutei uma voz grossa, mas conhecida. Virei-me e o vi. Ele estava ali, novamente, em um momento mais inoportuno impossível. Por um momento imaginei que isso era uma pegadinha, mas também cogitei a possibilidade de ele ser algum tipo de stalker. No final de tudo, o único nome que me veio à cabeça foi o de Levy – por que eu tinha a impressão de que ela estava tramando algo contra mim? — Lucy, eu juro que não sou um stalker.
Ficamos nos encarando por alguns segundos. Eu não conseguia acreditar no fato de que ele estava ali, novamente. Ele parecia tão surpreso quanto eu, afinal, momentos tão inesperados de reencontros com pessoas que você nunca viu na vida são situações constrangedoras e estranhas. As dúvidas que eu tinha sobre ele vieram à tona em meus devaneios: “Por que o cabelo rosa?” “Como você conhece a Levy?” “Por que raios você não sai da minha cabeça?”. No final, optei por apenas uma.
— Por que você sabe meu nome e eu não sei o seu?
Tinha sido extremamente ridículo da minha parte perguntar aquilo, e eu fazia conta disso, mas não saber o nome do homem que me distraía em todos os momentos inesperados deixava-me completamente intrigada. Ele estava com o rosto sério, que logo foi transformado em um sorriso contagiante.
— Natsu Dragneel. — Respondeu, estendendo-me a mão, afim que eu retribuísse o cumprimento, mas não o fiz. — Olhe, eu sei que isso é um pedido estranho, mas, gostaria de conversar? Digo... Levy já me falou muito sobre você.
Pensei em negar, afinal, nunca aceitei convites tão inesperados de pessoas inesperadas facilmente. Mas algo nele havia despertado minha curiosidade, e sinceramente não era seu cabelo rosa.
— Claro! — Concordei com seriedade, sorrindo.
[...]
Natsu, no final das contas, definitivamente, não era como muitas pessoas. Ele tinha muitas histórias para contar, muitas as quais envolviam momentos da infância ou até atuais. Eu contava alguns fatos que já haviam ocorrido comigo, mas não eram tão interessantes – não tive uma vida emocionante, talvez dramática, mas não algo que tivesse orgulho de contar.
Pela a primeira vez em muito tempo, eu estava rindo sinceramente.
— Mas por que você subiu no telhado do seu avô? — Perguntei, segurando algumas risadas.
— Não faço a mínima ideia, eu era um moleque meio estranho! — Nós dois tentávamos suprimir as gargalhadas, o que irritava as pessoas em volta. Não que eu me importasse, já que sentia falta de uma companhia tão animada assim.
Conclui, depois de muita conversa, que Natsu era o completo oposto de mim: ele amava festas. Animado e hiperativo desde pequeno. Não parecia ter tantas preocupações e seu sorriso encantava qualquer um.
— Você trabalha em uma biblioteca, certo? — Ele perguntou e eu assenti com a cabeça. — Então, conhece esse livro?
Retirou um livro de sua mochila e o botou em cima da mesa. Parecia ter duzentas páginas ou mais. Sim, eu reconhecia aquela obra, mas nunca li, era apenas mais um que estava jogado de qualquer jeito na minha estante, já que nunca atiçou a minha curiosidade para lê-lo.
— Sinceramente, sim. Eu tenho um exemplar dele no meu apartamento, mas jamais pensei em ler.
— Vou lhe propor algo, então. — Natsu empurrou o livro na mesa para mais perto de mim. — Te emprestarei esse livro e você me dá o seu número de celular.
— E onde eu saio ganhando nessa proposta?
— É uma ótima leitura.
Soltei uma risada baixa.
— Certo, faremos assim então: Eu te passo meu número, e você me manda o seu. Assim ficaremos quites.
Encarei o silêncio e seu sorriso como um sim. E então, nós trocamos os números.
Eu estava em dúvida entre o que fazer: continuar ali, conversando com o provável cara mais divertido e engraçado que eu já tinha encontrado na vida, ou voltar para casa, faltar na faculdade e contar sobre tudo para Levy, que eu tinha certeza que ainda estava no meu apartamento. Olhei para o relógio e conferi o horário, que se passou mais rápido que eu esperava. O tempo é assim comigo: bons momentos se passam em um piscar de olhos.
— De qualquer forma, tenho que ir. Desculpe por tomar seu tempo. — Eu falei.
— Se esse for o caso, foi o melhor tempo perdido que eu já tive. Espero que possamos repetir isso. —Natsu estendeu-me a mão, novamente afim de receber o cumprimento de volta, o que foi retribuído.
Nos despedimos e eu saí do hospital. Quem diria que aquele lugar, que na noite anterior eu chamava de inferno, se tornaria um ponto de encontro tão bom? Peguei meu celular e mandei uma mensagem para minha amiga.
“Você não vai acreditar no que aconteceu.”
"Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se.
Independentemente do tempo, lugar ou circunstância,
O fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir." – Akai Ito
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