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1 Capítulo 1
Ela andava pelas ruas frias de Nova York olhando para as pessoas ao seu redor. Sempre amou observar as pessoas e seus comportamentos. Corar por alguém que a via observando não era raro e só se tornava pior quando era alguém fora do padrão e comumente vitima de preconceito. Ela nunca quis passar a impressão de estar olhando por uma ou outra característica, olhava apenas por serem pessoas. Observava a forma como as crianças brincavam ou faziam birra, como os casais riam e conversavam, como a maioria das pessoas parecia séria demais.
O casaco vermelho vivo pareceu ainda mais fino quando ela olhou uma vitrine, estremecendo. O vermelho e o rosa saltaram em seus olhos com as inúmeras promoções para o “Valentine’s Day”, que seria dali dois dias. O sorriso saiu totalmente falso e sem emoção. Tinha um mês que seu namorado havia terminado com ela. E então ela tinha decidido tirar férias. Amava a maternidade em que trabalhava nos fins de semana e não deixaria o lugar por causa do obstetra com sorriso bonito e papo agradável, mas também não queria vê-lo. Era estupido pensar que ela nem ao menos tinha se envolvido direito e mesmo assim ele que terminara com ela.
De longe viu um dos melhores lugares do mundo. Depois de 12 anos, estar naquela cidade de novo trazia uma sensação engraçada, principalmente considerando todas as mudanças em sua vida. E dessa vez ela estava ali sozinha. Só conhecia o parque no inverno e o achava lindo naquela época do ano. Fevereiro estava sendo um mês bem frio naquele ano e mesmo após os anos vivendo no Canadá o frio não era muito bem vindo. Ela pensava em como Toronto deveria estar 10 vezes mais frio quando finalmente parou de olhar para seus pés e olhou para frente.
E lá estava ele. Fazia tempos que não pensava nele e em como ele poderia estar, mas agora que o via sua mente foi dominada por ele. Lembrou-se do menino sem jeito de 13 anos. Do adolescente que magoou seu coração aos 15. Lembrou-se de como eles ficaram indo e vindo durante os 10 anos que se seguiram depois disso. Lembrou do dia que ele foi morar sozinho e ela foi passar a primeira noite no apartamento minúsculo com ele. E se lembrou de como tudo acabou. Ela se lembrava de ler o email e não acreditar que aquilo estava finalmente acontecendo. E depois disso se lembrava de pensar que ele iria com ela se ela falasse a verdade. E de como não queria aquilo. E de como queria, ao mesmo tempo.
A admissão para finalizar o curso de medicina com bolsa no Canadá estava a sua frente. Ela chorava e sorria ao ler o email, anotando todos os detalhes. Pensou nele e decidiu ali o que iria fazer. Suas famílias não sabiam de nada, poucos amigos sabiam, eles não eram namorados. Ela mandou uma mensagem perguntando se poderia ir em seu apartamento agora. Ele respondeu que estava saindo de casa e só voltaria as 18, mas que deixaria a chave sob o tapete. Olhou as horas rapidamente, vendo que era meio da tarde ainda.
Tentando não pensar demais trocou de roupa e pegou uma mochila vazia, saindo após dizer qualquer coisa para sua mãe. Contaria as novidades depois. O caminho de ônibus foi feito com música alta, com medo de pensar demais e se arrepender. Sabia o que seu melhor amigo diria, que era a chance de eles finalmente ficarem juntos, mas ela sabia também que não estava pronta. Ela o amava demais, mas a confiança nunca tinha sido reestabelecida. Foram milhares de idas e vindas, milhares de brigas, sexo, choro incontrolável e declarações de amor. Tudo tão instável que só de pensar em viver uma vida de casado com ele dava medo. Ele também não estava pronto. Ela sabia que ele não a traíra de novo, mas que assim que se visse sozinho em um novo país, com ela distante graças a faculdade e sufocado por uma vida de casado a história de repetiria. Enquanto ela era uma mulher aos 25 ele era um adolescente aos 24. E não teria problema nisso se fosse tudo continuar como estava, mas casamento não era uma realidade para eles. Não agora. Talvez nunca.
Quando entrou naquele apartamento soube que era pela ultima vez e quase chorou. Se segurou por pouco, era seu sonho que estava em jogo e ele iria entender um dia. Tudo seu naquele apartamento servia para facilitar algumas coisas. Um par de calcinhas, shampoo, escova de dentes, um ou dois livros. Juntou tudo rápido e depois deixou a mochila ao lado da porta, sentando-se no sofá. O tempo até que ele chegasse se arrastou e ela o passou pensando no que diria a ele. Nada parecia correto.
Ele estava lindo aquele dia. Uma camisa social dobrada no cotovelo, calça jeans. Seu cabelo estava curto, assim como a barba. Ela respirou fundo e falou. Saiu soltando mentiras sobre um cara que conheceu na faculdade e sobre como aquele relacionamento escondido nunca daria certo. Disse todos os clichês de “não é você, sou eu” e realmente era, mas ninguém nunca acredita. Nunca disse que não o amava mais, seria mentir demais, e esperou que com isso ele percebesse que ela sempre seria dele. Ele pouco falou, provavelmente não acreditou que dessa vez era pra valer, mas era.
Em um mês ela estava em outra cidade, outro país. Foi obrigada a trocar o número de telefone e aproveitou para criar novas contas nas redes sociais, bloqueando ele nelas logo de cara. Apagou o número dele e passou semanas lendo o número de cada um de seus contatos, tentando esquecer o dele. Funcionou. No início doeu, mas ela já conhecia aquela dor e, daquela vez, a amou. Era uma dor de liberdade. Ela se libertou do passado e foi viver seu sonho no presente. Sempre pensava nele, é claro. Ele sempre seria o amor de suas vidas. De todas elas. Seu par perfeito.
Ela estava parada ali, no meio daquela ponte, apenas o olhando, mas ele vinha em direção a ela, quase correndo. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele quase achou que estava louco, só podia ser uma miragem. Seus amigos o chamaram e ele gritou qualquer coisa dizendo que os encontrava depois. Afinal o amor de sua vida estava ali, a alguns passos dele. Fazia 6 anos que ela tinha partido, seis anos que sua vida se resumiu a trabalho. Não acreditou que aquele término, dentre tantos outros, seria pra valer, mas foi. Tinha rido consigo quando viu que ela nem sequer o bloqueara nas redes sociais. É claro que não demorou a perceber que era sério.
Um mês depois do término ele tentou falar com ela, mas quem atendeu no seu número foi um cara, dizendo que tinha pegado aquele número há 2 dias. Nas redes sociais havia um mês que ela não postava absolutamente nada, um mês que não ficava online. Seu coração falhou quando pensou que nunca mais a veria, mas decidiu viver com aquilo, rezando para que ela estivesse bem e ignorando a dor que parecia piorar a cada dia.
Nunca mais namorou, não passando de uma noite com nenhuma mulher. Trabalhou muito e realizou todos os seus sonhos. Agora passava só metade do ano no Brasil, sua empresa agia muito mais no mercado americano e os negócios requeriam o dono por lá com certa frequência. Nova York era uma cidade bonita, que ele passou a apreciar ainda mais quando percebeu que era uma cidade neutra, sem nenhuma lembrança dela. Comprou um belo apartamento na cidade americana, uma bela Harley e tentou não pensar na única mulher que ele queria naquela casa e na garupa daquela moto. E agora os dois estavam ali.
Quando ele chegou perto ela sorriu. Uma lágrima acabou escapando de seus olhos. Ele limpou delicadamente, o polegar quase não encostando nas bochechas coradas. Os olhos bonitos cor de mel dele estavam presos aos dela, que só conseguia pensar em como eles eram os mesmos de sempre. O aperto da saudade se intensificou, seu coração não se permitia acreditar que ele era real. E então ele a beijou.
Sabia que ela poderia ter um namorado ou qualquer coisa assim, mas simplesmente precisava sentir seus lábios. O nó que ambos sentiam a tanto tempo dentro deles pareceu se soltar como mágica, tão rápido que até doeu. Milhões de sentimentos explodiram em suas mentes, como fogos de artifício coloridos, cada um mais bonito e brilhante que o anterior. Ela não aguentou e gemeu em meio ao beijo quando ele raspou seus lábios com o dente, as mãos dele apertando mais forte em sua cintura sob a blusa. Logo ela sentiu a solidez da cerca da ponte em suas costas, o beijo sendo tão longo e cheio de saudade como poderia. Mas a necessidade de respirar ainda estava ali, fazendo com que ele se afastasse sorrindo, a testa encostando na dele, os olhos fechados, a respiração ofegante. Ela estava com os olhos bem abertos, não queria perder nenhum movimento dele. Quando ele abriu os olhou ela quase desmaiou ali mesmo. A saudade tinha sido grande demais, como ela sobreviveu todos aqueles anos sem ele?
— Oi. – ele disse sorrindo ainda mais, as mãos em sua cintura apertando forte, quase com medo de que ela pudesse fugir.
Ela riu. A partir dali ela sabia que ele a seguiria não importa aonde. Ela sabia que eles estavam prontos pra qualquer coisa, desde que tivessem um ao outro. Não existia mais Ela. Não existia mais Ele. Agora eles eram um Nós.
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