— Então esse é o seu grande plano, Dean? Você ficou maluco?! De todas as suas ideias, essa é a pior!

Eu estava a dois passos de bater na porta do quarto dos Winchesters quando ouvi Sam falando. Gritando, para ser mais exata.

— Aí, ó, fica calmo, tá? Não é pra tanto – ouvi Dean rebater.

— Não é pra tanto?! Você quer mesmo que eu acredite que isso é pelo bem da Bella e não porque você se sente culpado por não termos salvado o chefe Swan?! Ela só tem dezoito anos, Dean, ela tem uma oportunidade de viver uma vida longe disso tudo, uma chance que nunca tivemos!

— Acha que eu não sei?! Acha que eu não disse isso pra ela? Ela não quer, Sammy, e ela deixou bem claro que se nós não ensinarmos a caçar, ela vai encontrar alguém que ensine, e você sabe tão bem quanto eu que tá cheio de maluco por aí! Ela não é uma garotinha assustada, tá legal?

— Difícil ser uma depois de você ter entregado o facão na mão dela.

Um momento de silêncio aterrador.

— Era o direito dela matar aquele desgraçado – Dean continuou.

— Direito dela de sujar as mãos de sangue? Aquilo foi praticamente um batismo de sangue, você praticamente deu a sua benção pra ela ser uma caçadora!

— Se você estivesse no lugar dela, se estivesse frente a frente com o demônio do olho amarelo e te dessem a oportunidade de matar o infeliz, você não mataria?

— Não é a mesma coisa.

— É a mesma coisa, sim. Mesma coisa, monstro diferente.

— Trazer ela com a gente na estrada é uma péssima ideia.

— Boa sorte convencendo ela a não vir.

— Dean... Eu sei que você não tá legal depois de tudo que aconteceu com o papai, e ainda mais depois do lance com o Charlie, mas...

— Isso não tem nada a ver com eles – o mais velho se irritou.

— Não? Tem certeza? Porque tudo que eu vejo aqui é a sua culpa falando mais alto e um desespero gigantesco. Eu sei que acha que cuidar da Bella é uma forma de compensar alguma coisa, mas você mesmo disse que não dá pra salvar todo mundo.

— Eu não quero mais falar disso. Você não tem nenhum argumento convincente, então a Bella vem com a gente.

E antes que eu tivesse tempo de reagir, a porta se abriu e eu dei de cara com ele. Dean disfarçou para que Sam não me notasse, fechando a porta atrás de si.

— Desculpa, eu ia bater – apontei para a porta.

— Esquenta não – ele deu um sorriso de canto. – Quer sair e comer alguma coisa?

— Agora? – franzi o cenho.

— Certeza que deve ter um lugar aberto por aí. Você vem ou não?

Eu estava ansiosa demais para voltar para o quarto e tentar dormir de novo, além do fato de que nós precisávamos conversar, então o segui até o Impala como havia feito de manhã.

— Então... – pigarreei enquanto ele dirigia. – Pelo visto eu vou ter que procurar outras pessoas pra me ensinar.

— Não, não – respondeu sem tirar os olhos da rua. – Só dá um tempinho pra ele se acostumar. A ideia de ter mais alguém com a gente é meio... Assustadora.

— Assustadora? – o fitei. – Por que? Pensei que o pai de vocês fosse caçador também.

— Ele era um caçador, mas a única vez em que nós três estivemos juntos caçando foi pra pegar um demônio.

— E...? – arqueei uma sobrancelha.

Dean suspirou, segurando o volante com firmeza.

— Nós três nunca passamos muito tempo juntos e da última vez, ele acabou morrendo. O Sam não gosta da ideia de você virar caçadora porque sabe que é uma péssima ideia.

— Mas você tinha aceitado.

— É, mas na real, eu tô torcendo pra você mudar de ideia assim que se envolver em um caso – me olhou por um momento. – E se isso acontecer, eu vou ficar muito feliz por você, de verdade. Espero que você odeie essa vida com todas as suas forças.

— Bem, eu não acho que é algo pra se gostar – me mantive o observando. – Só acho que é o certo a fazer. Alguém tem que fazer, né? Quero ajudar no que eu puder.

— Tem outras formas de ajudar as pessoas, Bella.

— Poderia parar de tentar me fazer mudar de ideia? – me irritei.

— Tá, a gente pode falar de outra coisa.

— Tipo...?

Dean bufou, parecendo perdido. Qualquer tópico que não envolvesse falar sobre Charlie seria bom, ou eu acabaria me desfazendo em lágrimas de novo e a ideia me deixava angustiada.

— Alice por acaso falou com vocês sobre a visão que ela teve?

— Pensei que ela tivesse dito a você.

Semicerrei os olhos para ele, percebendo que ele estava escondendo alguma coisa. Eu deveria ter pressionado Alice por respostas enquanto estava acordada, mas no fim o cansaço me venceu e talvez ela estivesse contando com isso.

— Ela disse para irmos a Sioux Falls – ele revirou os olhos.

— Sioux Falls? – eu nem sabia onde ficava o lugar.

— Dakota do Sul. Tem um amigo nosso lá, o Bobby. Se tem alguém que pode te ensinar muito sobre criaturas sobrenaturais, esse alguém é o Bobby.

— Pensei que você iria me ensinar.

— É, eu vou – ele riu sem graça. – Mas o Bobby tem um arsenal bibliográfico na casa dele e seria bom se você lesse alguns daqueles. É bom fazer um diário.

— Um diário? – ri descrente.

— Um diário de caçador, com informações sobre as coisas que caçamos e sobre como matá-las, os lugares onde tendem a atacar, tipos de vítimas que escolhem e tudo mais. É muito útil.

— Você tem um?

— Tenho e meu pai tinha um também. Ajuda muito quando a coisa aperta e não sabemos onde olhar. Isso e ligar pro Bobby – ele sorriu de canto. – Vou te contar, o cara é uma enciclopédia ambulante. Difícil existir alguma coisa que ele não sabe matar.

— Hm... E a Alice te falou mais alguma coisa? – insisti.

— Acho que ela quis contar, mas acabou mudando de ideia – ele deu de ombros. – Só disse que se alguma coisa acontecer com você, ela me mata com as próprias mãos e olha, eu acredito nela. A baixinha me dá medo.

— Alice é um amor de pessoa – respondi ao comentário. – Ela, Jasper, Emmett...

— Rosalie não? – ele me provocou com um olhar.

— Ela sempre foi contra eu me envolver com Edward por achar que seria um risco para eles.

— Por que uma humana se envolvendo com um vampiro seria arriscado para os vampiros?

— Vampiros têm leis também, sabe?

Aquilo pareceu pegá-lo de surpresa.

— Há um clã, os Volturi. Edward disse que eles são a coisa mais próxima de realeza que os vampiros têm. Só há uma lei absoluta: manter segredo sobre a existência da raça.

— E quem descumpre a regra morre – ele concluiu.

— É, isso, mas não só isso. Pelo o que entendi, clãs inteiros são destruídos depois que um membro é condenado. Talvez eu realmente tenha colocado os Cullens em perigo.

— Olha, eu acho que eles sabem se defender sozinhos – brincou. – Deveria se preocupar consigo mesma.

— Tá bom, então – cruzei os braços, encarando-o.

Com o meu silêncio, ele dividia sua atenção entre a estrada e me olhar. Acabou rindo um pouco.

— Que foi? – perguntei.

— Nada – ele respondeu, ainda com um sorriso.

Depois de algum tempo, ele finalmente avistou uma lanchonete ainda aberta, onde ficamos um tempo.

— Não pude deixar de notar... – chamei sua atenção enquanto comíamos hambúrgueres e batata frita. – Essa é a segunda vez que me chama pra comer alguma coisa sem o Sam.

— Bem, da primeira vez ele estava dormindo, e dessa vez ele estava puto, então... – ele deu de ombros. – Eu compenso levando comida, sempre resolve.

— É, acho que dá pro gasto – brinquei. – Então, Sioux Falls. Quando iremos?

— Você já quer ir? – ele pestanejou.

— Eu não estou fazendo nada aqui, Dean.

— Você não precisa obrigatoriamente fazer algo. Quero dizer, seus pais morreram há alguns dias...

— Se eu ficar pensando nisso, eu não vou... – engoli a seco. – Eu não vou funcionar, sabe? Eu preciso ocupar a minha cabeça, porque se eu pensar neles...

— É... Eu conheço a sensação – ele me encarou, seu semblante mais sério.

— Faz muito tempo que o seu pai...?

— Alguns meses.

— Sinto muito.

— É, eu também.

— Como você lida com isso?

A pergunta havia escapado mais rápido do que eu gostaria. Minha curiosidade não foi nada sutil.

— Com um porre de uísque – ele sorriu, um sorriso amargo.

Eu poderia jurar que o que ele transparecia era culpa, mas talvez estivesse enganada. Eu não sabia o que havia acontecido, então tentei não tirar conclusões. Queria dizer a ele que se embebedar não era uma forma saudável de lidar com seu luto, mas quem era eu para falar sobre aquilo? Eu sequer sabia como lidar com o meu.

Suspirei, pegando meu copo de refrigerante e o erguendo. Confuso, ele também ergueu o dele.

— Aos nossos pais

Ele assentiu.

— Aos nossos pais – e brindamos.

Notas finais
eu quase, QUASE, fiz alguma coisa rolar entre eles ainda nesse capítulo, mas senti que era cedo demais pra isso nada demais rolou nesse capítulo, mas eu tô tão boiolinha com esses dois, pqp, mano SÃO TÃO FOFOS, DÁ VONTADE DE APERTAR AS BOCHECHAAAAS OVÔ GUARDAR ELES NUM POTINHO E PROTEGER DE TODO O MAL :3